Let´s Go!

Let´s Go!
Let´s Go!

5.4.13

Bill Murray e a arte de não saber o que está acontecendo

Antes que alguém pergunte "O Bill Murray morreu?", é bom avisar que tenho minha própria linha do tempo, independente do Timeline do Facebook, quase todo orientado para o passado e uma digestão recente de acontecimentos. Não, o Bill Murray não morreu, pelo menos até o momento em que escrevo estas linhas.

Existem inúmeros estilos de cômicos, e Bill Murray faz parte de um estilo que têm poucos representantes, é uma coisa meio rara de aparecer. Ele faz de um estado de semi-dormência uma arte.

O que é este estado de semi-dormência?

Você já viu algum dos filmes "Se Beber não Case"? Os personagens tentam resolver situações que aconteceram no dia anterior depois de terem tomado um porre tão grande que não se lembram de nada. E daí vão procurar pistas do que pode ter acontecido na noite em que estavam totalmente bêbados.

Você já acordou numa situação estranha e ficou olhando e pensando "Onde eu estou? O que está acontecendo? Como vim parar aqui?"

Quando não distinguimos claramente o que está acontecendo é o que chamei de semi-dormência. E a consequência disto é um estranhamento da realidade que nos cerca.

Numa boa parte dos filmes que o Bill Murray atuou ele está nesta situação. O mundo está desabando e ele lá no meio.

Mas a genialidade e a graça estão justamente na maneira como ele se comporta nestas situações.
Se na série "Se Beber não Case" os personagens aparentam evidente constrangimento com o comportamento do dia anterior e estão preocupados em como reorganizar as suas vidas, seja encontrando algo ou alguém que desapareceu ou mesmo eliminando vestígios do que fizeram, os personagens (ou "o" personagem) de Bill Murray simplesmente continua a sua vida no meio do caos que está no seu entorno.
E você pensa: "Será que em algum momento ele vai acordar para a situação e perceber o que está acontecendo?" E ele curiosamente continua em seu sonambulismo existencial, seguindo um script mas não entendendo nada do que acontece.

É uma questão muito especifica, uma falta de noção do entorno que nos faz rir, e que Bill Murray transformou numa espécie de arte. Há algo de Buster Keaton nisto, e são poucos que sabem mostrar isto na tela. Talvez quem tenha melhor percebido issto foi Sophia Coppola (minha prima distante, acredite se quiser) com o filme Encontros e Desencontros (Lost in Translation).
Você imagina outro ator fazendo este filme?


3.4.13

Dívida Interna Pessoal - Sabe o que é?

 Quando convivemos com os outros, ou seja, o tempo todo (a não ser que você seja um eremita numa caverna isolada com conexão 3G ) convivemos com a Dívida Interna Pessoal delas e a nossa.

Ninguém é maduro o suficiente para resolver todos os problemas do passado. Muitas vezes temos de conviver com eles, e em muitas situações eles nos assombram.

Do ponto de vista que enxergo as coisas hoje chamo isto de Narrativas Ficcionais, um pouco influenciado por alguns Heideggerianos e o papo da Dasein Análise. O que são as Narrativas Ficcionais? Histórias que criamos gradativamente e se consolidam na nossa imaginação ou memória.

Somos felizes ou tristes, amargurados ou bem-resolvidos pela maneira com que observamos nossas Narrativas Ficcionais. Nos apegamos a determinados elementos do passado e construímos histórias, valores e referências para o mundo que vivemos hoje. Até aí normal, mas como o próprio nome diz, elas são ficções, não foram reais no momento em que vivemos e não são reais agora, mas são nossos parâmetros.

Tenho uma amiga muito querida que me disse uma vez sobre perdão: "Não procurei o perdão dos outros, procurei me perdoar". De certa maneira "se perdoar" é fazer as pazes com histórias que muitas vezes não digerimos no passado e que estão assombrando o nosso momento presente.

Quando não digerimos ou "reconstruímos" nossas histórias, elas se tornam nossa Dívida Pessoal Interna. Ficamos em débito conosco, devemos algo por termos evitado olhar para questões pessoais que deveriam em algum momento serem encaradas.

Infelizmente obrigamos as pessoas ao nosso redor a conviverem com estas questões, faz parte. Mas como elas são nossas histórias, e não necessariamente os outros vão entender. E daí podem surgir conflitos e mal entendidos.

Vale a pena reinventar nossas histórias do passado, sempre. Ela não são fixas, ela são dinâmicas, e nossas narrativas também podem ser. Se não fizermos isto, nossa dívida só aumenta.

2.4.13

Qual versão você prefere? Dave Brubeck, Trio Los Panchos ou Ray Conniff? Besame Mucho...

Uma das belezas da música é esta: Sempre dá para fazer uma nova versão, e outra, e outra.

Besame Mucho tem milhares de versões. Selecionei três para ouvir, gosto de todas. Ou, pensando melhor, três caras diferentes dentro de mim gostam de cada uma delas. Ouça! Música pode ser um sentido para a vida, na ausência das verdades.




Por que você deveria ler Religião para Ateus, do Alain de Botton

Caso você seja ateu, agnóstico, tenha fé mas não religião ou seja de uma corrente religiosa moderada ou que aceita a diversidade de credo, seria muito bom que você lesse o livro Religião para Ateus, do Alain de Botton.
Diferentemente do Richard Dawkins, que está numa cruzada contra a religião, Botton se propõe a analisar o que a Religião tem de bom. Não do ponto de vista de seus dogmas e crenças, mas sim nos milhares de anos de desenvolvimento de técnicas de propagação de ideias, organização e tudo o mais. Nisto os religiosos são imbatíveis.
Botton acredita que existem valores sociais que ateus e não-religiosos poderiam disseminar usando as mesmas técnicas que as religiões usam, e que não necessariamente entram em conflito com os princípios religiosos, mas organizam a maneira de disseminarmos questões que são relevantes para um grupo de pessoas sem a organização dos religiosos.
Um belo exemplo que ele deu na palestra na Sala São Paulo é um Templo do Amor. Por que não criar um templo dedicado ao amor, onde as pessoas pudessem frequentar e fosse um espaço para a reflexão e a vivência deste sentimento tão caro a todos?
Há outros inúmeros valores que os grupos nas Redes Sociais clamam, mas de maneira desorganizada. E as Redes Sociais não são Redes Sociais, a experiência de "rede" do Facebook é solitária, as estruturas coletivas ainda são embrionárias e orientadas para negócios.
A leitura de um livro como este ajudaria na reflexão sobre como pessoas não-religiosas podem se organizar em torno de questões que vivenciam e acreditam. Fica a dica.

27.3.13

Caro Coelho da Páscoa: Diga para seu chefe que não vou dar dinheiro para ele este ano

Querido Coelho da Páscoa da Indústria Brasileira que gosta de ganhar muito, muito dinheiro nas datas comemorativas,

Não vou comprar ovos este ano, e ponto. A partir de agora as pessoas ao meu redor vão ter de se acostumar que o mercado não define o que eu vou comprar, mas sim eu defino. Não quero mais entrar neste tipo de arapuca em nome de uma data religiosa.

Na época de Cristo coelho botava ovo? Cristo falou "Abençoado seja o ovo marrom que sai de dentro do coelho"?

O sentido simbólico da Páscoa é a Renovação, muito mais antigo que o cristianismo ou o judaísmo, herança pagã que celebra o final do Inverno e a entrada da Primavera. É o Florescer que se celebra, as plantas desabrocharem, a beleza cíclica da vida.

Apesar de ser a entrada do Outono no Brasil (diferente do hemisfério norte), a celebração da Renovação é um rito lindo, e vou comemorar com os queridos. Mas não vou pagar centenas de reais para isto. Mesmo sendo chocólatra. Cansei do abuso deste modelo do mercado brasileiro que mais parece um cartel do que livre concorrência. Os preços só sobem, e sabe por que? Porque todo mundo compra.

Pois eu não vou comprar. Simples assim. Vou é celebrar a renovação da vida, vou agradecer as coisas misteriosas que não compreendemos e a dádiva de estar vivo e compartilhar as coisas boas da vida. E isto dá para fazer sem entrar no jogo do mercado.

26.3.13

O Pastor Marcos Feliciano representa (sim) muita gente!

Esqueçamos a troca de cargos e a permissividade dos partidos. Esqueçamos também as questões de corrupção e abusos.
Todas as questões acima podem ser usadas para criticar qualquer político e partido do Brasil, portanto são genéricas e endêmicas.
Não é isto que está em questão.
O Pastor Marcos Feliciano está sendo julgado por assumir um cargo tradicionalmente oferecido para minorias e perseguidos políticos. Foi a fatia que o PSC obteve nas trocas de cargos dos jogos de poder.
(Também vejo como muitos uma contradição existencial do Pastor, ao depilar as sobrancelhas e alisar o cabelo pixaim, numa vaidade complexa e negação de sua identidade, seja lá qual for. Mas acho que esta contradição não se restringe a ele, mas sim a todas as mulheres que fazem chapinha, todos os caras que tomam anabolizantes, clareamento de dentes, Camaro amarelo, e por aí vai)

O que questiono é que a perseguição do Pastor tenha embutida uma postura preconceituosa em relação àquilo que ele representa: Sua classe e seu papel social.

Ele é definitivamente uma liderança emergente, no papel de Pastor, é uma celebridade em seu meio. Faz o que outras lideranças como Edir Macedo e muitos já fizeram. O púlpito é um canal de comunicação para disseminar sua mensagem, obter seguidores e consolidar seu grupo. Mas este grupo, quem é?

Óbvio que este grupo é uma elite que gerencia um grupo maior e obtém privilégios de seus seguidores. José Dirceu incitou a juventude socialista a sair nas ruas em defesa de sua honradez e inocência alegadas. A Marcha da Família por Deus foi uma resposta à Parada Gay, ambas gigantes e poderosas.

Aparentemente O Pastor Marcos Feliciano é um tradicionalista, quando defende valores como Tradição, Família e Propriedade, como Plínio Correia de Oliveira da TFP.

Se ele foi escolhido para o cargo pelo seu partido (Social e Cristão), imagino que o partido pretenda uma projeção potencial desta liderança para que consiga mais espaço no governo ou se candidatando a novos cargos públicos.

O atual Presidente da Comissão de Direitos Humanos representa sim muita gente: A grande massa de evangélicos saídos da periferia, de baixa escolaridade, que busca na comunidade religiosa um espaço social que perdeu ou que nunca teve. E que tem sim valores tradicionais e ambíguos, como a própria imagem do pastor.

O que as pessoas querem? Que eles voltem para o seu devido lugar? Qual é o lugar "destas pessoas"?
Não está na hora de aceitar que grupos democraticamente representados tenham espaço, algum espaço na gestão? Ou eles só podem participar em alguns lugares, e em outros não? Tem certeza que você pensa assim? A imagem da faxineira proibida de subir pelo elevador social vêm imediatamente na minha cabeça...

"Mas ele é retrógrado, preconceituoso, racista", alguns dizem. Eu não tenho nenhuma simpatia por ele, não conheço seu trabalho e não sou religioso, mas fica a pergunta:

Você ainda não tinha percebido que nosso mundo está deste jeito faz tempo? Foi só agora? Jura?

25.3.13

Você tem medo de andar a pé? Bem-vindo à Classe Média!

Tenho reparado como a Classe Média se desacostumou a andar por São Paulo. Acho que ela anda de carro faz tanto tempo que já não sabe o que é encontrar outras pessoas sem buzinar ou querer passar por cima.
Se dentro do carro a Classe Média parece poderosa, nas calçadas fica visível a sua fragilidade. Não olha poderosa, arrogante, mas com medo. Na verdade aparenta verdadeiro pânico de ter de encontrar com estranhos...

Curiosamente a Classe Média não aparenta este medo quando passeia no Shopping, parece estar bem à vontade, mesmo com a presença da nova classe, a emergente que é chamada de Nova Classe Média, mas que em nada se parece com a Velha Classe Média, apenas no desejo de consumo.
Ha um certo incômodo da Classe Média com o "Pessoal da Comunidade" frequentando aeroportos, Shoppings e destinos turísticos, mas como ela ainda se considera superior, enxerga esta presença mais como parasitária do que como ameaçadora. Nenhum pobre com dinheiro é ameaça, ele pode ser rotulado como "emergente"  e tornado digno de ironia, é um "povinho desqualificável" sob os olhos da Classe Média. A Marilena Chauí definiu bem o cenário neste vídeo, um pouco longo (23 minutos), mas que vale a pena.


Mas na rua a coisa muda. Como a Classe Média perdeu o convívio democrático com pessoas "diferentes", tudo se torna ameaça.

Quer fazer um teste? Vá na direção de um casal que anda pela rua que verá o pânico brilhar nos olhinhos deles. Basta isto.
Para mim é o reflexo da auto-exclusão consolidado em muitos anos de condomínios privados, escolas segmentadas por renda, clubes e tudo o mais que tem a palavra Exclusivo. Num primeiro momento o Exclusivo pareceu ser atraente e VIP. O resultado? a Classe Média tentou tanto ser Exclusiva que acabou se excluíndo do mundo ao seu redor.
Alienação é pouco.

18.3.13

Quer uma cidade melhor? Seja Corrupto!

Vi uma discussão muito interessante sobre os novos pontos de ônibus de SP num artigo de um urbanista. O uso de vidros seria inadequado, não precisaria ter trocado os antigos, mas sim melhorado, etc, etc. Aí tive uma ideia: Será que não seria melhor termos mais opções para resolver os problemas da cidade?
Não entro no mérito dos pontos de ônibus, pois não tenho conhecimento suficiente da situação, mas tá cheio de coisa sendo mal feita por aqui, faz tempo... Será que não é falta de opção de contratação?
Explico:
Hoje a cidade (e o país) chegou num grau de corrupção impressionante. Virou um problema endêmico. Pode entrar a pessoa mais honesta do planeta na prefeitura que a engrenagem vai rodar sozinha. Não vejo perspectiva de mudança para as próximas décadas a não ser na base da AK 47 (alô afegãos? alguém disponível?).
Empresários que prestam serviços para a cidade inevitavelmente vão trombar com uma situação de negociar uma caixinha, que de "caixinha" não tem nada, está mais para maleta. É coisa que vemos todo o dia, bem ao estilo do Mensalão Federal, tirando dinheiro público com objetivos privados.

Mas... se existissem mais empresas corruptas, mais profissionais qualificados que aceitem oferecer suborno para ganhar concorrências, que não se sentissem ofendidos com a corrupção, a quantidade de bons profissionais disponíveis neste grupo aumentaria, e teríamos mais chance de obtermos melhores serviços para a cidade. Fazendo com que os corruptos continuem ganhando a sua parte, por que eles não contratariam um profissional melhor? Ia pegar bem para eles, e na hora do leilão da caixinha os corruptos precisariam levar em conta também alguns aspectos, analisando projetos semelhantes que oferecessem o mesmo valor dentro da mala...

Se você é um bom profissional e quer ver sua cidade se tornar melhor, será que não está na hora de aceitar a corrupção e deixar de pudores éticos? Enquanto você continuar a não dar dinheiro para a máquina os serviços vão ser feitos pelos mesmos caras de sempre. O que a engrenagem pede não é novas ideias, ela só precisa da graxa para rodar, ou melhor, da grana. No fundo, são seus pudores que fazem com que SP não continue a crescer. Pense nisto!


11.3.13

Sobre os Monstros e o Julgamento de Cima do Banquinho

Domingo foi um dia em que a Monstruosidade reapareceu. Nem sempre ela aparece, não são todos os dias que convivemos com ela, mas de vez em quando ela ressurge.
Desta vez foi na forma de um atropelamento na Avenida Paulista. São Paulo vive um pseudo-encanto com o ciclismo, todos querem andar de bibicleta, as longas ciclovias levam alegremente a classe média até a cracolândia, onde famílias felizes se "apropriam" do centro velho passeando de bike rodeadas de nóias e moradores de rua.

No domingo de madrugada um jovem de classe média (provavelmente voltando da balada e alcoolizado) atropelou um jovem de classe baixa que ia pela ciclovia trabalhar. Não vou entrar em detalhes, mas se quiser saber tudo clique aqui.

Esta colisão de mundos gerou uma situação chocante: Um jovem de classe média se torna um monstro, capaz de fazer coisas inimagináveis, deixa de ser humano, (alguém que era como "nós") e numa sequência de ações surpreendentes passa a ser uma aberração.

Para mim é um caso de descontrole, total falta de condição de saber o que seria o certo e o errado. Foi isto que levou o motorista a fazer o que fez. Ninguém está preparado para uma situação destas, e ele entrou numa espiral que o levou a agir assim.

Mas isto não é o que a maioria das pessoas pensa. Quando elas vão julgar os atos dos outros sobem num pequeno banquinho, e de lá fazem seus discursos do que é certo e errado, sempre do ponto de vista "ideal". E hoje as redes sociais são recheadas de pequenas pessoas em cima de pequenos banquinhos, olhando de um ponto de vista perfeito e julgando os outros. O universo opinativo parece adquirir força com o distanciamento que o virtual têm na sua essência.

Vá falar nas redes sociais alguma coisa em defesa deste motorista e perceberá a fúria das pessoas em seus banquinhos. Apesar de nenhuma delas ter conhecido ninguém que passou por algo semelhante, e nem elas terem passado por algo parecido, todas têm certeza que agiriam perfeitamente naquela situação: Parariam para socorrer uma pessoa destroçada (por elas), pegaria os pedaços desta pessoa no meio de uma poça de sangue escuro e espesso, colocariam dentro do carro, esperariam a polícia chegar no hospital, estenderiam as mãos e diriam: "Seu guarda, eu pequei! Fiz o mal para este desconhecido, estava alcoolizado. Me leve para uma cela junto do pessoal do PCC, junto de matadores e estupradores por alguns anos pois mereço a punição. Estou em pleno juízo, apesar de bêbado e de ter destruído a vida de uma pessoa meia hora atrás..."

Parece que quando a gente sobe no banquinho, ao invés de ficarmos maiores, ficamos menores, perdemos nossa humanidade e esquecemos que Monstruosidades podem acontecer também com a gente, e não acontecem só com os outros...


6.3.13

Em busca de uma compreensão do pensamento feminino

Uma pequena história de como pode ser complexo para um homem entender o pensamento de uma mulher. Uma vez fui levar minha filha ao cabeleireiro, e um dos caras que cortava o cabelo tinha os braços bem musculosos. Minha filha olhou e me perguntou: "Pai, se você faz tanta ginástica por que seu braço não tem as veias saltadas que nem a deste cara?"
Olhei para o meu braço e me senti meio murcho, nada Rambo... Tudo bem, faz parte da vida.
Aí resolvi pegar mais pesado nos treinos, aumentei os pesos, fiz mais academia, e um dia as veias do meu braço começaram a saltar.
Quando encontrei com minha filha a primeira coisa que fiz foi comentar: "Olha, as veias do meu braço estão saltando".
Na mesma hora minha filha disse: "Ai pai, acho horrível braço com veia saltada..."

Vai entender, né?

4.3.13

O Taxista Motivacional

Já tinha visto muito Consultor Motivacional, mas Taxista foi a primeira vez.
Entrei no Táxi e comecei a bater papo, como faço sempre. Fui puxando assunto e o taxista começou a falar que a empresa dele tinha falido, que a mulher tinha ido embora, só história ruim. E ele comparava a mulher a um personagem de novela, a Carminha. "Sabe a Carminha? (eu não sabia, mas tudo bem) Minha ex-mulher é igual a Carminha. Minha vida está um inferno". E só reclamava.
Tentei amenizar a situação, fazer com que o figura não ficasse tão triste com suas histórias. Aí ele me contou que dava para cada passageiro um papel. Ele tinha três, um para cada tipo de passageiro.

Meu dia tinha sido bom, depois de uma série de problemas no começo do ano, eu estava um pouco mais "de bem" comigo mesmo. As coisas estavam começando a entrar no eixo, e estava bastante motivado. Tanto que tentava motivar o pobre Taxista, que só contabilizava negativamente os últimos acontecimentos de sua vida.

Aí ele me perguntou sobre a minha vida. Contei que tinha passado por umas situações difíceis nos últimos tempos, mas que estava numa fase ascendente. E ele olhou para mim e disse: "Nossa, você está numa situação complicada, hein?" E eu disse que não, que as nuvens já estavam saindo do céu, e o sol estava voltando a iluminar. E ele insistiu: "Sua vida é difícil".

Quando chegamos, fui descer do táxi mas ele não deixou. Me lembrou do papel que iria me dar. E disse que tinha três papéis diferentes. Um para as pessoas que conversavam com ele, batiam papo e eram receptivas. O segundo era para pessoas meio desanimadas, mas com um fundo de esperança no tom da voz. E o terceiro era para pessoas quietas, pouco receptivas, mal-humoradas e baixo astral.
"Qual papel você acha que vai receber?", ele disse.

Como me parece que estou bem, e estava particularmente bem-humorado, disse que achava que ia receber o primeiro.

"Errou! Você vai receber o terceiro. Está muito desanimado e precisa sair desta sua situação. Precisa ser mais bem-humorado e levar a vida de uma maneira mais leve".

Tirou um folheto do bolso e me entregou. Eu recebi a mensagem e saí do táxi.

E fiquei pensando: Como as pessoas projetam na gente seu estado de humor... Minha lição naquele dia foi que tem muita gente que parece querer nos ajudar, mas a maioria está tentando ajudar a si mesmo, mas não sabe disto.


28.2.13

Desencanto não é Autopiedade. Ou é?

Não há uma definição clara para o que chamamos de Depressão. O debate clínico sobre o assunto é extenso, e é comum usarmos o termo como sinônimo de "tristeza", o que não é adequado.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.

E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.

Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?

A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.



21.2.13

Ai Weiwei no Brasil

Até abril poderemos ver um pouco da obra do artista chinês Ai Weiwei no MIS, em SP.
Para quem nunca ouviu falar, Weiwei é um dos artistas críticos ao regime da China. Mas seu trabalho não se restringe ao (duríssimo) papel de criticar o governo chinês vivendo na China. 
Se você não vai a um certo tempo ver exposições, é um bom momento para tirar a poeira da mente e aproveitar esta oportunidade rara de ver as fotos que retratam um pouco o cotidiano do artista que ainda está impedido de sair do país e que de vez em quando dá uma sumida ou dão uma sumida com ele...



20.2.13

O fantasma do aeroporto

Quando ele estendeu a mão minha reação foi automática: nos cumprimentamos e fiquei com aquele olhar de "de onde nos conhecemos mesmo"?
Era um senhor de meia idade, poderia entrar numa fila de terceira idade pelas rugas e olhar cansado. Não estava mal vestido, mas sua roupa tinha traços de também estar próxima da aposentadoria.
Eu estava jogando o tempo fora, coisa que não sei fazer direito, mas o aeroporto nos obriga a isto. De certa maneira estou precisando treinar ficar sem fazer nada. O excesso de preocupação faz com que a gente deixe de se colocar num estado de ócio, parece que poderíamos estar fazendo algo de produtivo ao invés de estarmos inertes, improdutivos. A conclusão é que quando não fazemos algo acabamos nos sentindo culpados. E ninguém relaxa com a culpa corroendo o coração.

Sou um bom decifrador de expressões, a vida me fez assim, ou assim fiz a vida. O olhar dele me passava uma impressão ambígua, de um lado um certo orgulho e certeza. Seus gestos eram claros e precisos, não havia suplica, parecia um discurso seguro, de homem experiente.
Mas por outro lado algo não ornava.
Ele me dizia que tinha de viajar para ver o filho, que era antigo funcionário do setor de aviação e que tinha sido demitido com a reestruturação do setor. Agora, precisava visitar o filho, mas precisava inteirar a viagem com uma ou duas centenas de reais, e por isto pedia minha ajuda.
Curiosamente, a última coisa que ele aparentava era estar pedindo alguma coisa. Nem parecia pedir atenção, estava num percurso, numa performance para si mesmo.
A história toda era furada, mas não seria isto que não me faria ajudar. O que gerava o estranhamento era uma sensação de que ele realmente não queria o dinheiro, ou melhor, ele não queria gerar empatia.

Talvez ele tivesse sido um gerente de baixo escalão, mais para "chefe" que para líder. Talvez fosse daqueles pais que chegam em casa em silêncio, depois do longo dia de trabalho e ficam numa poltrona ruminando ou lendo o jornal.
Quem sabe ele fosse uma daquelas pessoas que explodem, emocionalmente instáveis, que acham que os outros são obrigados a aguentar tudo, por ela ser importante demais ou por eles serem importantes de menos.

Olhei firmemente nos seus olhos e sem a mínima emoção disse que não poderia ajudar. Que desejava boa sorte, e esperava que ele tivesse sucesso no que procurava.

Ele continuou a olhar para mim, sem se mexer, olhos parados.

 Típicamente judeu, ele disse. Agem como se fossem ajudar, mas no final não ajudam. Postura de judeus.

Se eu não saísse andando depois de um tempo ficaríamos ali por toda a eternidade.

Voltei para a livraria alguns minutos depois, e ele tinha ido embora. Voltei porque achei que realmente poderia ajudar. Pensei em conversar com ele sobre alguns furos na sua abordagem. Podia oferecer uma visão amoral de fora que o ajudaria a conseguir abordar pessoas e gerar mais empatia. Mas ele não estava lá.
Ao andar pelos corredores ouvi sua voz, e ele estava se aproximando de um grupo de pessoas ao lado do banheiro. Parei do lado de uma coluna para analisar sua estratégia. Foi quando percebi que não havia uma estratégia, muito menos um objetivo.
Ele não queria obter dinheiro contando uma triste história, ou se queria no meio do caminho desqueria. Em poucos segundos estava gritando com todos ao seu redor. O Brasil era assim, cheio de gente que não prestava, gritava.
Foi aí que percebi que estava diante de um fantasma, que perdera toda a complexidade humana, mas adquirira todas as matizes da amargura e do rancor, típicas da tristeza que sentimos nos tropeços da vida.

Como no conto de Natal americano, eu me senti diante do meu próprio futuro, talvez cheio de mágoa e rancor. Meu perigoso futuro estava querendo pegar o avião comigo. E ele estranhamente havia se encontrado com o meu presente desprovido de emoção, que acha que cada um carrega seus fardos, e que os fardos dos outros não tem nada a ver comigo.
Se meu fantasma do futuro tivesse se encontrado com o meu eu do presente, aquele que saiu correndo em direção dele querendo ajudar, o que teria acontecido? As duas energias, do presente e do futuro, se anulariam ou se alimentariam?
Devemos aceitar que todos os sentimentos viajem com a gente no mesmo avião ou simplesmente devemos deixar alguns deles para fora de nossa viagem?

Naquele dia resolvi não deixar que a mágoa e o ressentimento viajassem comigo. Espero tomar esta decisão sempre.

17.1.13

Misterioso Símbolo no Centro de SP

Não sou grande conhecedor de símbolos de seitas e coisas do gênero, mas sei reconhecer uma coisa estranha quando vejo.

Estava indo fazer ginástica quando reparei num tijolo totalmente diferente numa mureta da árvore, cimentado no chão, com uma imagem de um tipo de corvo. Quando vi melhor parecia feito de madeira, mas foi cimentado embaixo dos tijolos, não faz sentido nenhum estar lá.

Alguém sabe dizer o que significa esta imagem? Quem poderia ter colocado isto?
Abaixo um vídeo que fiz para mostrar onde está, em detalhes.


15.1.13

Por que gente velha gosta de lembrar do passado?

Não há tempo que não seja dinâmico. Passado, Presente e Futuro não são estáticos, eles dependem de como percebemos estes momentos. Cada vez que revemos algum evento vivido fazemos leves alterações na percepção dele. O que parecia um fato triste é interpretado como algo bom hoje, e talvez no futuro seja considerado um evento ruim novamente, mas por outras razões.
A mesma coisa pode acontecer em tempo real: Uma situação que está sendo vivida pode ser percebida de várias maneiras, e esta percepção pode mudar em fração de segundos, dependendo de como você se sente em relação a ela. Mudou a emoção e/ou o contexto a percepção muda.
Nossos projetos e expectativas em relação ao futuro? A mesma coisa. Só que estamos mais acostumados a enxergar o futuro de uma maneira incerta e cheia de possibilidades.

Menos as pessoas velhas. Estas sabem que há poucas incertezas no futuro delas, ele passa a ser cada vez mais concreto com a proximidade da morte. Talvez por isto o mistério do "pós-morte" vendido pelas religiões seja tão sedutor quando envelhecemos. Parece nos dar uma sobrevida na dúvida perante o futuro. Certezas absolutas, em especial a da morte, não são muito bem-vindas para ninguém.

Podemos transformar nosso passado numa especie de playground existencial. Como tudo de certa maneira pode ser transformado, podemos definir  que nossas experiências do Passado foram todas positivas de alguma maneira, para construir aquilo que somos hoje, e o poder de sedução desta miragem transforma nossa maneira de enxergar o Presente e mesmo o Futuro.

Se para os jovens a miragem do Futuro (infinito, poderoso e cheio de surpresas, mas só as boas) leva a uma percepção de que tudo será bom e que o fim está longe, não precisamos nos preocupar com isto, para os velhos a miragem está justamente no Passado, ou em alguma religião que permita que o Futuro seja infinito, como quando somos jovens.

8.1.13

Patrulha Ideológica até no caso Zeca Pagodinho

Cansei do mau humor generalizado, das patrulhas do Politicamente Correto em tudo. E em tudo mesmo, até no caso do Zeca Pagodinho.
Foi muito bonito de ver o pagodeiro ajudando as pessoas do seu bairro, bonito mesmo. Mostra um outro lado do cantor, conhecido pelas suas atitudes boêmias (ou brahmas, sei lá) e seu incrível senso de humor. Qualquer entrevista com ele faz o mais azedo dos mortais se matar de rir. 
Ver ele no meio da enchente ajudando as pessoas engrandece a imagem do cantor.
Mas brasileiro adora humor e a imagem do Zeca "do boteco" salvando pessoas não combina. Se por um lado o torna uma figura mais interessante, por outro lado gera um baita estranhamento. É o arquétipo do Palhaço subitamente se transformando em Herói. E daí o surgimento dos vários memes divertidos sobre o assunto.

A parte ruim é que os mau humorados de plantão já ficaram ofendidos com o fato. Acham um desrespeito, que estão desqualificando o heroismo dele. Estão nada, as pessoas só estão se divertindo, humor não é necessariamente ofensivo e agressivo. 

Mas o mau humor sempre é ofensivo e agressivo.

Por um mundo com mais humor e menos gente azeda! E viva o Zeca! Boêmio, Palhaço e Herói.

21.12.12

Você sabe o que quer de quem você gosta?


Esta semana cheguei a uma conclusão simples, mas que acho importante para refletir sobre o que esperamos dos outros.

Existem inúmeras variáveis relacionadas ao nosso afeto, mas algumas fazem parte do Universo Adulto com mais frequência. Entenda Universo Adulto como aquele em que temos consciência de que não podemos ter tudo aquilo que desejamos, aquele onde temos de negociar com o outro, pois reconhecemos que o outro não é uma projeção de nossos desejos, mas sim outra entidade, que também busca suas coisas nesta vida. Se não há reconhecimento do outro enquanto outro, mas sim enquanto projeção de nossos desejos, não estamos nos relacionando com ele, mas sim com nossas expectativas em relação a ele, ou seja, não há o outro.

Numa relação podemos listar três variáveis fundamentais: O Sujeito (Quem), a Ação (O Que) e o Tempo (Quando). Para exemplificar: Desejo que Maria (O Sujeito) Faça Massagem em Mim (Ação) Todos os Dias (Tempo).

Qual dos três elementos é mais relevante para você? Maria, Massagem ou Todos os Dias? É importante definir para poder entender o que realmente deseja. A relevância vai determinar o que você procura.
Se para você a relevância é Maria, tem de entender que as outras duas variáveis podem ser negociadas. Pode ser que Maria não saiba fazer Massagem, ou que não queira fazer Todos os Dias. Talvez o resultado seja aproximado do que queria, mas nem sempre absolutamente igual ao esperado. Talvez Maria possa fazer Carinho Todos os Dias, ou Maria Faça Massagem De vez em Quando.
Se a relevância é Todos os Dias, talvez não seja necessária Maria, qualquer pessoa sirva, contanto que seja Todos os Dias. Se a relevância é Massagem, talvez nem seja Maria nem Todos os Dias.

Se você quer massagem, talvez seja necessário desvincular seu desejo de que Maria a faça. Esperar que Maria faça a Massagem pode gerar um transtorno na relação com Maria. Procure alguém que faça Massagem e aceite que Maria não pode te oferecer isto. Se sua relação com Maria depende disto, talvez seja melhor repensar sua relação. Mas se não depende disto e há outras coisas importantes associadas a Maria, não espere que ela satisfaça seu desejo. Vai surgir uma tensão entre vocês, pois você espera algo dela que na verdade não é dela, mas sim algo que está dentro de você.

Você realmente gosta de Massagem? Talvez Maria não. Então por que ficar frustrado com Maria? Por que culpa-la por isto? Por que entrar em conflito por isto?

Não dá para negar que existem questões morais que impedem algumas Ações (Quero que Maria Mate seu Pai Hoje), mas a equação funciona em muitas situações do cotidiano das relações interpessoais, e vale a pena pensar nela antes de jogar toda a responsabilidade na Maria pelo fato de ela não querer fazer massagem em você. Isto é um problema mais seu do que dela...

14.12.12

Cultura, Futebol e O Público e O Privado


Durante a apresentação de Ballet Clássico de minha filha Isabel uma mulher começou a gritar:
 "Vai Cíntia!!!"

A voz grossa e alta ecoou pelo teatro algumas vezes, e as quinhentas pessoas que assistiam foram brindadas com a efusiva mensagem.


Num primeiro momento achei (de verdade) que a infeliz tinha gritado "Vai Corinthians!!!", mas depois percebi que ela gritava o nome da amiga, com o mesmo tom que o grito da torcida corintiana. Mas dentro de um teatro, durante o Ballet Clássico...

Duas constatações:


Primeira
Da mesma maneira que a cultura elitizada (livros, dança clássica, teatro, museus, etc.) absorveu a cultura da periferia (grafiti, rap, street, etc.), seria interessante que o processo também acontecesse no sentido contrário. Nada contra expressar a emoção ao ver a amiga dançando, mas gritar no meio da apresentação é totalmente inconveniente e inadequado.
Este fenômeno também está associado à questão do espaço Público e do Privado. Como podemos ver também nos cinemas, as pessoas não diferenciam mais estas duas esferas. O ambiente público é tratado como a sala de casa, e as pessoas conversam nos cinemas como se estivessem assistindo DVD no sofá.
É bom lembrar que cada espaço têm seu jeito de ser, seus protocolos, e eles devem ser respeitados para uma melhor fruição daquilo que estamos assistindo. 


Segunda
Fico extasiado com o amor que as pessoas têm pelos times de futebol, e como transformam um esporte em algo verdadeiramente significativo nas suas vidas.
No caso da amiga gritando no meio do espetáculo, a cultura popular entranhou até na maneira dela se manifestar, semelhante aos gritos de torcida de futebol.

Esta semana vimos três grandes manifestações disto. Os corintianos, que no Brasil soltaram rojões a noite inteira antes de um jogo no Japão (além do monte de gente que vendeu tudo para acompanhar o jogo do outro lado do mundo), os palmeirenses que louvaram num jogo simbólico o seu goleiro amado, e os são-paulinos indo ao delírio por ganhar um jogo onde o time adversário simplesmente abandonou o jogo antes de terminar.
E eu fico pensando: Que inveja desta gente! Eu olho para o futebol e não tenho nenhum apego, para mim não faz nenhum sentido. Como seria bom que minha alegria fosse ditada por um fenômeno esportivo, e que minha personalidade fosse moldada como nos horóscopos, e se eu fosse corintiano seria de um jeito, se fosse palmeirense seria de outro jeito...

Mas não consigo ser assim. Tem um lado Woody Allen dentro de mim que pensa na infinitude do universo e dos bilhões de galáxias explodindo em direção ao nada enquanto os torcedores debatem se foi escanteio ou não. Deve ser muito bom ter uma vida definida por padrões assim, e estou falando sério. É chato demais pensar nas agruras da vida, no que podemos mudar em nosso comportamento, na existência como um todo...
Acho que bateu em mim um momento Cypher, aquele personagem que quer voltar para a Matrix, esquecer o horror que é a realidade, e simplesmente comer um bife suculento sem precisar pensar em nada...

10.12.12

Considerações sobre um ensaio de Ballet

Assistindo o ensaio de Ballet Clássico de minha filha fiquei pensando: Como é intrigante esta coisa da dança, das pessoas tentarem o impossível.
Uma das regras básicas da vida é aceitar a força da gravidade. Quando jogamos coisas para o alto, elas caem. E quando pulamos, voltamos depois de um certo tempo para o chão.

Curiosamente o Ballet Clássico tenta contrariar esta regra básica. Os bailarinos ficam na ponta dos pés, tentam alçar vôo. Aí me perguntei: Será que eles não sabem que por mais que tentem a lei da gravidade ainda vai puxa-los para baixo? Por que esta insistência em tentar algo que não vai conseguir? Algo impossível?

E aí me dei conta que fazemos este tipo de coisa o tempo todo. Que não nos contentamos com o que temos, com a vida que vivemos, e por mais que saibamos que existem coisas impossíveis, vamos lá, tentamos o impossível. Só que no Ballet há uma luta contra algo visivelmente inatingível.

Não sei se algum filósofo já refletiu sobre o patético, mas acredito que é algo a ser investigado filosoficamente... Mas sei que a Arte trata do assunto, e para mim a primeira pessoa que vem na cabeça é o Kazuo Ohno, e seu Butoh. Há algo de patético e frágil na existência. É diferente da Tragédia Grega, que é bela quando trata da impossibilidade de fugir de seu próprio destino. Se na Tragédia a orientação da vida, para onde nos destinamos, é o grande tema, nossa trajetória, independentemente para onde vamos, têm algo de patético.

Platão conta em algum de seus livros a história de um belo e forte guerreiro de Atenas que vai para a guerra no anseio de morrer belo e jovem, em combate. E quando chega lá, é acometido de uma diarréia que impede que ele lute, e ele é obrigado a voltar, todo borrado, para casa. E esta seria uma grande humilhação, ele fora traído pela sua condição humana.

Este tipo de coisa acontece o tempo todo no nosso dia-a-dia. Somos confrontados com nossas limitações, com nossas fragilidades, enquanto tentamos parecer grandiosos, inatingíveis ou superiores.

Assumir a impossibilidade de nossos objetivos, ou assumir o quanto agimos de forma débil e errática nos faz lembrar que somos humanos, que não nos foi dada a possibilidade de sermos como os deuses.

 É na tentativa de voarmos mesmo sabendo que não temos asas que nossa complexidade existencial se revela, de forma sublime e ridícula ao mesmo tempo.