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28.2.13

Desencanto não é Autopiedade. Ou é?

Não há uma definição clara para o que chamamos de Depressão. O debate clínico sobre o assunto é extenso, e é comum usarmos o termo como sinônimo de "tristeza", o que não é adequado.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.

E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.

Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?

A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.



12.3.12

Facebook é o delírio coletivo

Carros lindos e potentes, vídeos de festas maravilhosas, sentimentos profundos e nobres.
O Facebook é hoje a representação do delírio das pessoas. Neste sentido ele é muito mais do que o Second Life, que ainda têm desafios gráficos a serem transpostos para poder representar o mundo ideal. Hoje o mundo ideal é o Facebook.
Há muito de sórdido e banal também eu sei, mas é como se fosse um dos círculos internos desta grande fantasia. Mas existe, sem sombra de dúvida uma projeção das pessoas querendo simular o que queriam ser, ter, como queriam estar conectadas umas às outras e com as divindades contemporâneas, em especial Gaia, nosso grande arquétipo místico do século XXI.
Até o Muro das Lamentações (Afetivas, Profissionais e Políticas) que aparece vez em quando em nossa timeline é um grande delírio: Como se o resmungo pudesse melhorar relações amorosas, consertar as relações de trabalho ou derrubar modelos centenários de poder no país e no mundo.
Durante uma de minhas corridas no centro de SP comentei com o Ricardo, brother de coração e atual colega de correria, que o fato de estarmos correndo e as pessoas ao redor olharem (somos as únicas pessoas correndo nesta região, acreditem) geraria mais reflexão do que se fizéssemos milhares de pessoas participarem de um grupo no Facebook estimulando a ginástica.
Esta hipertrofia do desejo que o mundo virtual traz gera riscos, em especial a possibilidade de insatisfação absoluta com o Real. Nenhum carro será tão potente, nenhum amor tão maravilhoso, nenhuma causa tão nobre.
Esta virtualização dos sentimentos e expectativas é para o mundo das relações a mesma coisa que a Pornografia é para o Sexo: Altamente estimulante, absolutamente dirigida (segmentada pelo indivíduo, visando uma prática solitária, mesmo quando acompanhada), orientadora do desejo e frustrante, pois nunca a sexualidade se manifestará como ela acontece nos filmes.
As redes sociais hoje criam uma expectativa que nunca se cumprirá na vida real. Você está preparado para esta grande frustração?


Lembrando obviamente do Baudrillard e sua teoria pós-orgia em A Transparência do Mal, que por sinal recomendo.