Quando ia para a academia vi o carrinho do milho ser colocado na caçamba da Guarda Civil Metropolitana. Sem licença, o dono nem reclamou.
Ao lado do carro da polícia uma fila enorme de pessoas uniformizadas, todas com malas grandes. Esperando um ônibus de turismo fretado. O motorista do ônibus estava pedindo informações para um dos guardas por sinal.
Fui conversar com os guardas: Por que o carrinho do milho foi apreendido?
Não tinha licença, disseram eles.
E o ônibus? Que está usando o espaço público de maneira irregular, como se fosse ponto? Os ônibus, gigantes, atrapalham muito mais a vida dos moradores aqui do centro do que o cara do milho.
Não é nossa responsabilidade, disse o guarda. É com a CET.
E vocês não podem fazer nada?
Não, mas se procurar a Polícia Militar ela pode acionar o CET e fazer sua queixa.
Fui até o trailer da PM, no meio da praça, 100 metros do local.
Perguntei para os policiais com quem devia falar. Eles disseram que o problema é com a Guarda Municipal que devia agir nestas situações.
Nas duas situações a sensação que passa é que você é um chato de galocha que está atrapalhando a vida deles. Um olhar de "lá vem mais um chato". Dureza.
No final do dia fui buscar minha filha no Ballet. Quando estava perto de deixa-la em casa um carro na minha frente atropela um ciclista. O ciclista levanta e reclama. Ao tirar a bicicleta da frente do carro o motorista acelera e vai embora. Vou atrás do cara e junto de outro carro fechamos o infrator e fazemos o cara voltar para socorrer o ciclista. Quando abre a janela era um senhor de mais de 75 anos de idade, com cara de "lá vem mais um chato". As netas, dentro do carro, entediadas com a situação. Conseguimos fazer o cara voltar e socorrer o ciclista.
Entro no carro. Minha filha me olha, fixamente.
"A gente é assim, filha. A gente é gente assim".
Let´s Go!
Let´s Go!
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8.4.13
11.3.13
Sobre os Monstros e o Julgamento de Cima do Banquinho
Domingo foi um dia em que a Monstruosidade reapareceu. Nem sempre ela aparece, não são todos os dias que convivemos com ela, mas de vez em quando ela ressurge.
Desta vez foi na forma de um atropelamento na Avenida Paulista. São Paulo vive um pseudo-encanto com o ciclismo, todos querem andar de bibicleta, as longas ciclovias levam alegremente a classe média até a cracolândia, onde famílias felizes se "apropriam" do centro velho passeando de bike rodeadas de nóias e moradores de rua.
No domingo de madrugada um jovem de classe média (provavelmente voltando da balada e alcoolizado) atropelou um jovem de classe baixa que ia pela ciclovia trabalhar. Não vou entrar em detalhes, mas se quiser saber tudo clique aqui.
Esta colisão de mundos gerou uma situação chocante: Um jovem de classe média se torna um monstro, capaz de fazer coisas inimagináveis, deixa de ser humano, (alguém que era como "nós") e numa sequência de ações surpreendentes passa a ser uma aberração.
Para mim é um caso de descontrole, total falta de condição de saber o que seria o certo e o errado. Foi isto que levou o motorista a fazer o que fez. Ninguém está preparado para uma situação destas, e ele entrou numa espiral que o levou a agir assim.
Mas isto não é o que a maioria das pessoas pensa. Quando elas vão julgar os atos dos outros sobem num pequeno banquinho, e de lá fazem seus discursos do que é certo e errado, sempre do ponto de vista "ideal". E hoje as redes sociais são recheadas de pequenas pessoas em cima de pequenos banquinhos, olhando de um ponto de vista perfeito e julgando os outros. O universo opinativo parece adquirir força com o distanciamento que o virtual têm na sua essência.
Vá falar nas redes sociais alguma coisa em defesa deste motorista e perceberá a fúria das pessoas em seus banquinhos. Apesar de nenhuma delas ter conhecido ninguém que passou por algo semelhante, e nem elas terem passado por algo parecido, todas têm certeza que agiriam perfeitamente naquela situação: Parariam para socorrer uma pessoa destroçada (por elas), pegaria os pedaços desta pessoa no meio de uma poça de sangue escuro e espesso, colocariam dentro do carro, esperariam a polícia chegar no hospital, estenderiam as mãos e diriam: "Seu guarda, eu pequei! Fiz o mal para este desconhecido, estava alcoolizado. Me leve para uma cela junto do pessoal do PCC, junto de matadores e estupradores por alguns anos pois mereço a punição. Estou em pleno juízo, apesar de bêbado e de ter destruído a vida de uma pessoa meia hora atrás..."
Parece que quando a gente sobe no banquinho, ao invés de ficarmos maiores, ficamos menores, perdemos nossa humanidade e esquecemos que Monstruosidades podem acontecer também com a gente, e não acontecem só com os outros...
Desta vez foi na forma de um atropelamento na Avenida Paulista. São Paulo vive um pseudo-encanto com o ciclismo, todos querem andar de bibicleta, as longas ciclovias levam alegremente a classe média até a cracolândia, onde famílias felizes se "apropriam" do centro velho passeando de bike rodeadas de nóias e moradores de rua.
No domingo de madrugada um jovem de classe média (provavelmente voltando da balada e alcoolizado) atropelou um jovem de classe baixa que ia pela ciclovia trabalhar. Não vou entrar em detalhes, mas se quiser saber tudo clique aqui.
Esta colisão de mundos gerou uma situação chocante: Um jovem de classe média se torna um monstro, capaz de fazer coisas inimagináveis, deixa de ser humano, (alguém que era como "nós") e numa sequência de ações surpreendentes passa a ser uma aberração.
Para mim é um caso de descontrole, total falta de condição de saber o que seria o certo e o errado. Foi isto que levou o motorista a fazer o que fez. Ninguém está preparado para uma situação destas, e ele entrou numa espiral que o levou a agir assim.
Mas isto não é o que a maioria das pessoas pensa. Quando elas vão julgar os atos dos outros sobem num pequeno banquinho, e de lá fazem seus discursos do que é certo e errado, sempre do ponto de vista "ideal". E hoje as redes sociais são recheadas de pequenas pessoas em cima de pequenos banquinhos, olhando de um ponto de vista perfeito e julgando os outros. O universo opinativo parece adquirir força com o distanciamento que o virtual têm na sua essência.
Vá falar nas redes sociais alguma coisa em defesa deste motorista e perceberá a fúria das pessoas em seus banquinhos. Apesar de nenhuma delas ter conhecido ninguém que passou por algo semelhante, e nem elas terem passado por algo parecido, todas têm certeza que agiriam perfeitamente naquela situação: Parariam para socorrer uma pessoa destroçada (por elas), pegaria os pedaços desta pessoa no meio de uma poça de sangue escuro e espesso, colocariam dentro do carro, esperariam a polícia chegar no hospital, estenderiam as mãos e diriam: "Seu guarda, eu pequei! Fiz o mal para este desconhecido, estava alcoolizado. Me leve para uma cela junto do pessoal do PCC, junto de matadores e estupradores por alguns anos pois mereço a punição. Estou em pleno juízo, apesar de bêbado e de ter destruído a vida de uma pessoa meia hora atrás..."
Parece que quando a gente sobe no banquinho, ao invés de ficarmos maiores, ficamos menores, perdemos nossa humanidade e esquecemos que Monstruosidades podem acontecer também com a gente, e não acontecem só com os outros...
17.4.12
Pequenas Tragédias do Cotidiano
Apesar de estarmos atentos aos grandes problemas da humanidade, eles parecem estar longe, muito longe de nós. Minha mãe comentava que quando estava no hospital sentindo as dores do parto de minha irmã meu avô, para consolá-la dizia: "Pense no sofrimento das pessoas na Guerra da Coréia"...
Nenhuma Guerra, nem a da Coréia (a do Norte está assanhadíssima lançando foguetes) é mais importante ou dolorosa que a nossa virose, ou a ressonância magnética de nosso pai. Nossos dilemas cotidianos sempre são mais banais, e ao mesmo tempo mais impactantes.
Fui fazer uma rápida compra antes de voltar para casa, quando vi um casal na frente do supermercado. Como o cachorro não podia entrar, um deles ficou na porta e o outro entrou para fazer as compras. Dois minutos depois, se muito, o que estava fora começa a gritar, chamando o outro. No seu colo o cachorro, se esvaindo em sangue. A camisa do dono cheia de sangue, o chão todo pintado. Em segundos o basset tinha se soltado da coleira e tinha sido atropelado. Morria nas mãos do dono.
Quando o outro chega e vê o cachorro, sente-se mal, têm tontura, é acudido pelos passantes, que falam para levar o cachorro num veterinário próximo. Mas o dono sabe o que aconteceu, é evidente, na sua calma, que percebe que seu cachorro está agonizando.
Saio do supermercado e vejo os dois sentados do outro lado da calçada, em silêncio, acarinhando o mascote.
São as tragédias do cotidiano que nos tocam.
Nenhuma Guerra, nem a da Coréia (a do Norte está assanhadíssima lançando foguetes) é mais importante ou dolorosa que a nossa virose, ou a ressonância magnética de nosso pai. Nossos dilemas cotidianos sempre são mais banais, e ao mesmo tempo mais impactantes.
Fui fazer uma rápida compra antes de voltar para casa, quando vi um casal na frente do supermercado. Como o cachorro não podia entrar, um deles ficou na porta e o outro entrou para fazer as compras. Dois minutos depois, se muito, o que estava fora começa a gritar, chamando o outro. No seu colo o cachorro, se esvaindo em sangue. A camisa do dono cheia de sangue, o chão todo pintado. Em segundos o basset tinha se soltado da coleira e tinha sido atropelado. Morria nas mãos do dono.
Quando o outro chega e vê o cachorro, sente-se mal, têm tontura, é acudido pelos passantes, que falam para levar o cachorro num veterinário próximo. Mas o dono sabe o que aconteceu, é evidente, na sua calma, que percebe que seu cachorro está agonizando.
Saio do supermercado e vejo os dois sentados do outro lado da calçada, em silêncio, acarinhando o mascote.
São as tragédias do cotidiano que nos tocam.
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