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8.4.13

"A Gente é Gente Assim"

Quando ia para a academia vi o carrinho do milho ser colocado na caçamba da Guarda Civil Metropolitana. Sem licença, o dono nem reclamou.
Ao lado do carro da polícia uma fila enorme de pessoas uniformizadas, todas com malas grandes. Esperando um ônibus de turismo fretado. O motorista do ônibus estava pedindo informações para um dos guardas por sinal.
Fui conversar com os guardas: Por que o carrinho do milho foi apreendido?
Não tinha licença, disseram eles.

E o ônibus? Que está usando o espaço público de maneira irregular, como se fosse ponto? Os ônibus, gigantes, atrapalham muito mais a vida dos moradores aqui do centro do que o cara do milho.

Não é nossa responsabilidade, disse o guarda. É com a CET.

E vocês não podem fazer nada?

Não, mas se procurar a Polícia Militar ela pode acionar o CET e fazer sua queixa.

Fui até o trailer da PM, no meio da praça, 100 metros do local.

Perguntei para os policiais com quem devia falar. Eles disseram que o problema é com a Guarda Municipal que devia agir nestas situações.

Nas duas situações a sensação que passa é que você é um chato de galocha que está atrapalhando a vida deles. Um olhar de "lá vem mais um chato". Dureza.

No final do dia fui buscar minha filha no Ballet. Quando estava perto de deixa-la em casa um carro na minha frente atropela um ciclista. O ciclista levanta e reclama. Ao tirar a bicicleta da frente do carro o motorista acelera e vai embora. Vou atrás do cara e junto de outro carro fechamos o infrator e fazemos o cara voltar para socorrer o ciclista. Quando abre a janela era um senhor de mais de 75 anos de idade, com cara de "lá vem mais um chato". As netas, dentro do carro, entediadas com a situação. Conseguimos fazer o cara voltar e socorrer o ciclista.

Entro no carro. Minha filha me olha, fixamente.

"A gente é assim, filha. A gente é gente assim".

28.2.13

Desencanto não é Autopiedade. Ou é?

Não há uma definição clara para o que chamamos de Depressão. O debate clínico sobre o assunto é extenso, e é comum usarmos o termo como sinônimo de "tristeza", o que não é adequado.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.

E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.

Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?

A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.