Let´s Go!

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10.5.12

Picasso, Moletom e Jim Carrey

O processo de perda de sensibilidade é normal em cidades grandes. Há tanta informação ao nosso redor que é impossível enxergar tudo, ou dar relevância a tudo. O mesmo vale para os meios digitais, e as pessoas olham para suas timelines no Facebook oferecendo segundos (ou menos) de atenção para as pessoas. Por isto que coisas que fogem do óbvio chamam a nossa atenção, e está cheio de criativo de agência tentando desesperadamente inventar algo que faça com que as pessoas prestem atenção na publicidade.


Tive uma conversa interessante com uma amiga sobre a dificuldade dela de fotografar coisas diferentes no cotidiano. Ela me dizia que consegue estruturar tecnicamente uma foto muito bem, mas não consegue ser "criativa". E a criatividade está associada à observação aliada à imaginação, já que a imaginação só funciona a partir de referências. Ninguém consegue imaginar algo totalmente diferente. Juntamos ideias e assim inventamos outras coisas.


A falta de observação e de imaginação afeta também o nosso universo mágico: Deixamos de ver poesia e mistério no que nos cerca (e dentro de nós consequentemente). Assim, não é de estranhar que estejamos cada vez mais criando relacionamentos a partir de trocas palpáveis, quer seja com outras pessoas, quer seja com deuses, religiões e também com os nossos desejos. A troca pragmática é palpável, está associada ao universo simbólico, mas é tangível. Dá para ver e tocar aquilo que foi trocado, quer seja beijo ou carro. Todos estamos submetidos às trocas palpáveis no cotidiano, mas elas não são as únicas que existem. As trocas simbólicas, impalpáveis, subjetivas, são fundamentais para a ordem mental e para a saúde do indivíduo como um todo. São aquelas que acabam compondo nosso arcabouço imagético, que permitem definir e redefinir o nosso "enxergar" no mundo, e que estimulam nossa criatividade.


Nesta mesma conversa estávamos falando do Jim Carrey, ator que gera amores e ódios, e me lembrei da imagem que ele postou no Facebook há pouco tempo atrás. A imagem, de uma calça de moletom numa loja qualquer, tinha o seguinte título: " Será que o Picasso passou por aqui?". Ela demonstra um "enxergar" na realidade diferenciado, embasado na experiência subjetiva simbólica e com base em referências visuais anteriores. Se ele não tivesse observado com atenção (Picasso e o Moletom), aquela associação nunca aconteceria. E a vivência mágica do mundo não ocorreria.


Saia para dar uma volta de vez em quando, vá olhar o mundo. Ele não é apenas uma paisagem disposta no seu trajeto, ele é parte de você.

9.5.12

Só se aprende fazendo (no caso, jogando)

Tá cheio de gente falando de Storytelling em comunicação e publicidade, e a maioria fala merda. Desconhecem os princípios arquetípicos, as estruturas narrativas, as bases neurais de construção de empatia, a semântica e a retórica. Acabam apelando inconscientemente para a contação de histórias da infância, e infantilizam a experiência que o Storytelling poderia gerar...
Existe um ditado em Holywood que diz que um bom roteiro pode gerar um filme ruim, mas nunca um roteiro ruim vai gerar um bom filme.


O que é curioso é que existem inúmeras boas histórias sendo contadas atualmente, mas parece que os desenvolvedores não conseguem sair do papel de "audiência" e analisar como desenvolvedores. Deve ser por isto que tem tanto publicitário que fica comprando revista para publicitário com campanhas já prontas para copiar. É só trocar o produto, "tropicalizar" a linguagem e mandar bala. Os caras querem tudo pronto, ô gente preguiçosa. Mas é preguiça mental, de pensar, de analisar o que os rodeia, ficcional ou real.


 A verdade é que esta crise é geral. Jornalistas estão falando a mesma coisa, comunicadores reclamam. Todo mundo quer o nenê, mas ninguém quer ficar grávido.


Um dos melhores exemplos que tenho visto é o do Call of Duty, hoje estou jogando o Black Ops. 
Ah, é um joguinho de guerra, a ideia é dar tiro, matar todo mundo, sangue para todo o lado.


Mas há jeitos e jeitos que criar uma história, né? A do Black Ops é genial: O personagem principal acorda amarrado num local cheio de televisores, e num vidro ao fundo estão as silhuetas dos inquisidores. Enquanto o personagem é torturado ele começa a se lembrar das situações que os torturadores querem informações. E cada lembrança é uma fase do jogo. 


Paralelamente a isto as informações vão sendo obtidas nas fases, e você começa a entender o que os torturadores querem saber de você, que não se lembrava de nada no começo.


O Estado da Arte para mim aconteceu numa fase em que um dos personagens da história (seu amigo e que te salva de várias roubadas) senta na sua frente, olho no olho, e começa a contar a vida do pai dele. O jogo pára por vários minutos, close no rosto do personagem, e ele fala sobre a história do pai e da relação deles. E aí o personagem ganha uma nova dimensão, se torna mais complexo, e sua afinidade por ele evolui para algo completamente novo. Espetacular.


Mas acho que os comunicadores e publicitários provavelmente pulam estas fases, né? Uma pena para eles...

8.5.12

A emoção no meio do caminho

As emoções estarem no meio do caminho de nossas decisões têm seu lado bom e seu lado ruim. António Damasio já analisou em "O Erro de Descartes" o papel delas e é bem claro que se elas não estivessem atuantes nas decisões ficaríamos avaliando prós e contras infinitamente até na hora de comprar pasta de dente.
Mas percebo que existem algumas questões curiosas sobre o tema. Quando digo "percebo" é que vejo algumas dilatações e desvios que a emoção gera nas pessoas em praticamente todas as pessoas.


Um exemplo?
Uma pessoa que tem de tomar uma decisão e mudar comportamentos e hábitos para atingir algum objetivo. Pode ser desde um adolescente que precisa estudar para a prova até um sedentário que precisa fazer ginástica.
Há evidentemente uma complexa mudança de ritmo e orientação para novos hábitos, não se pode esperar que você troque de mão a escova de dente e saia escovando como se fosse a coisa mais simples do mundo, que não é.


Mas há outra questão, que é o que me interessa nesta reflexão: É muito comum que mudanças comportamentais não sejam tomadas pelo simples fato de estarmos ocupados pensando nelas, como se pensar (pensar neste contexto significa sentir de maneira introspectiva, vivenciando emoções de maneira intensa)  gerasse os resultados e mudasse algo. Paramos no meio do caminho (no caso, nas emoções que a mudança poderia gerar ou na gestação da mudança) e não mudamos. E nesse intervalo que surge a culpa cristã, a autopiedade, a excessiva autocrítica. É no não mudar, na imobilização emocional gerada pelo excesso de sentimentos.


Assim, o adolescente se perde nos devaneios emocionais de ter de mudar e acaba dedicando mais tempo a isto do que resolver sacar o livro da mochila e estudar. O sedentário acorda com sentimento de culpa de não fazer exercício e se dedica mais a se sentir culpado do que amarrar um tênis e sair caminhando pelo bairro.
Este lapso, este intervalo emocional superdimensionado acaba imobilizando a situação de tomada de decisão. O que aumenta a vivência do sentimento gerando angústia e sem gerar a mudança necessária.
Se o excesso de razão gera a imobilidade, o excesso de emoção também.

4.5.12

Minhas dicas para a Virada Cultural

Melhores horários - De dia a Virada é ótima. À noite, recomendo eventos até meia noite, no máximo uma da manhã. Depois o pessoal fica bêbado e vi alguns casos de furto de celular nas aglomerações. Raras situações de violência, pode vir com a criançada neste horário sem erro.


Onde comer - Difícil de responder, pois os lugares ficam lotados, do boteco ao restaurante fino. Melhor se garantir e trazer lanche e água. Vai ter barracas no Minhocão com comidas de cozinheiros famosos, mas imagino que vai ficar coalhado de gente, não vai sobrar pedra sobre pedra.


Atrações -Um monte, veja todas no site oficial. Abaixo alguns dos shows que me chamaram a atenção:


Hermeto Pachoal no Centro Cultural Caixa, na Sé - Sábado 18h
Guizado - Coreto da Praça da República, Sábado 18h
Ray Lema e Orquestra Jazz Sinfônica - Praça Júlio Prestes Sábado 18h
Man or Astro-Man? - Barão de Limeira - Sábado 22h30
Suicidal Tendencies - São João, Domingo 9h30
Gilberto Gil - Praça Júlio Prestes Domingo 18h
SKW Trio (Skowa) - Coreto República Domingo 14h
Dexter - República Domingo 10h
Mutation (Psy Israel) Princesa Isabel, Sábado 21h
Mute (Psy Israel) Princesa Isabel Sábado 22h
Orquestras - Todas no Anhangabaú, Domingo durante o dia


São centenas de shows, exposições, performances, filmes, tem toda a galera Nerd fazendo batalha viking e cosplay, vai ser bem legal.
Um pedido! Sejam bem vindos ao centro, ele é de todos nós, mas evitem jogar coisas na rua e os excessos de bebida. A ocupação cultural é uma das melhores  coisas que nós temos, mas a sujeira e os excessos não.

3.5.12

Você é "verdadeiro"?

Quando vi publicada a imagem ao lado no Facebook não pude me conter. Afinal de contas, o que é ser "verdadeiro" ?


Alguém é "verdadeiro" aí? Ninguém mente, não se faz passar por alguém que não é, nem omite características pessoais visando um objetivo?


De acordo com alguns especialistas em comportamento, mentimos inúmeras vezes ao dia. O número de mentiras varia de acordo com o gênero e a situação (homens mentem menos que mulheres, se não me engano). Ou não é mentira quando uma mulher diz para a outra que ela está linda, mesmo que a outra esteja horrorosa? Ou quando um homem conta um causo sobre uma pescaria e o peixe a cada vez que conta aumenta de tamanho e de peso?
A mentira é considerada uma "cola" social, sem ela nossos relacionamentos se tornariam impossíveis. Um jornalista alemão lançou um livro sobre a experiência social que ele se impôs de não mentir em situação nenhuma. Me parece que a namorada foi embora, ele está com um dente a menos, estas coisas. Mentir faz parte da condição social humana.


É muito conveniente falarmos que nós somos "verdadeiros" enquanto os outros não são. Da mesma maneira que quando dizemos que falta aos outros Bom Senso (termo que me dá arrepio), estamos querendo dizer que falta ao outro o Nosso Senso. Nega-se o outro, assumindo que o Único Senso na verdade é o Nosso. 


Todos somos "verdadeiros", dentro de nossas complexidades e multiplicidades, mesmo quando mentimos. 


E se "verdadeiro" significa falar as "verdades" para os outros, cuidado! Isto tem outro nome. Chama-se Grosseria.

2.5.12

Tem gente ainda usando a pulseirinha mágica! Uia!

Sei que pode parecer polêmico, mas quando vi a foto do Marcelo Serpa dando palestra na Wave (encontro publicitário e tentativa de Cannes latina) reparei imediatamente na pulseirinha do equilíbrio no braço dele.
Lembra da pulseirinha? Prometia dar equilíbrio ao corpo, energizar sei lá o quê, vendia até na padaria e por um preço bem salgado.
Existem algumas possibilidades para ele usar esta coisa:


1 - Ele está desinformado e não viu todas as matérias que saíram nas mídias e que foram retransmitidas nas redes sociais dizendo que o troço simplesmente não funciona. Mais do que isto, que eu me lembre o dono da empresa está sendo processado por vender algo que não funciona (tecnicamente - propaganda enganosa)


2 - É um amuleto, e ele tem fé no objeto. Carrega por acreditar, não por ter funcionalidade prática nem base científica.


3 - Ele usa por moda, já que milhões de pessoas usaram por estilo, por quererem associar sua vida às vidas de esportistas do mundo inteiro que entraram na onda da pulseira. Mas... saiu da moda há alguns anos, e que eu saiba poucas pessoas usam esta coisa. Qualquer um que leia Caras (não precisa ser a The Economist) sabe que a galera moderna deixou de usar esta coisa. Não vende mais nem no camelô da 25 de Março.


4 - Ele é responsável pela conta da empresa que importa a pulseirinha, e usa no pulso para divulgar o produto e estimular a credibilidade no treco, mesmo tendo informações de que é propaganda enganosa.


De todas as opções, a única razoável e não-questionável é a 2, ele ter fé no negócio. O resto mostra desinformação, cafonice ou má-fé.


Cá entre nós, se você tem fé no seu ursinho de pelúcia, ou em algum objeto mágico, não precisa mostrar para todo mundo. Principalmente se está cheio de matérias e cientistas falando contra isto. Não agrega nada você ir dar uma palestra com seu ursinho de pelúcia místico debaixo do braço... Que tal botar a pulseirinha mágica no bolso, só para não pagar mico?

27.4.12

Símbolos de Status e Acasalamento Humano

Já escrevi há algum tempo atrás sobre a importância de demonstrações masculinas de poder e status social. Da mesma maneira que a mulher precisa ser atraente fisicamente, o homem necessita ser atraente no quesito status. Raras são as mulheres que querem deliberadamente se envolver com homens situados numa baixa escala de influência social (pensando na estratificação dos mamíferos sociais, onde existem os machos e fêmeas alfa, beta, e assim por diante). Quanto maior o status do macho mais chaces da fêmea se sentir protegida. Raciocínio neo-darwinista básico.


Dentre os símbolos de status mundiais, vemos o dinheiro, o sucesso/fama e poder político como padrões recorrentes. Pessoas ricas, famosas e politicamente influentes são "bons partidos", da mesma maneira que pobretões desconhecidos e isolados tendem a ser escolhas não interessantes na hora de acasalar e procriar.


Mas há um elemento curioso que tem forte apelo na hora do acasalamento: O carro.


Claro, o carro é uma das manifestações de sucesso, e de dinheiro. Uma pessoa que anda com um carro caro e vistoso está simultaneamente mostrando sua plumagem artificial e provando que é capaz financeiramente de ter um objeto de alto custo. Há também a teoria da compensação, carrões enormes para egos diminutos, baixinhos em jipes grandes, como se fosse uma perna de pau social.


Mas há a questão da mobilidade. E a mobilidade traz outros elementos para nossa reflexão. O primeiro é que hoje o carro é fundamental para geração de resultados num encontro, quer seja na cidade ou no campo. Se sair com uma pessoa que não tem carro, como a noite poderá se desenvolver? De ônibus? O cavalheirismo se esvairá (e as chances de acasalamento também) na hora em que for se despedir da moça e leva-la até o ponto de ônibus, ao até o carro de outra pessoa.


O carro também se manifesta como um potencial local de intimidade. Repare que as pessoas se comportam dentro dos carros como se estivessem longe de todos. No trânsito todo mundo tira meleca do nariz, corta os pelos do ouvido, come, como se ninguém estivesse ao seu redor.
Da mesma maneira, levar a fêmea para um ambiente teoricamente íntimo já é um passo na aproximação do proto-casal.


Há um outro elemento que ajuda bastante na melhoria da raça, pois há estudos que comprovam que cada vez temos maior variedade genética nos humanos decorrente da capacidade de mobilidade gerado pela capacidade de se mover usando cavalos, bicicletas, trens, aviões e, obviamente, carros!

24.4.12

Os adolescentes são egoístas?

Muita gente que convive com adolescentes acha que esta fase da vida é extremamente egoica, voltada para si mesmo, os adolescentes não estariam nem aí para o resto do mundo. Em especial em relação aos pais.
Aparentemente o comportamento é mesmo autocentrado. O que fica para os pais e adultos ao redor é a sensação de que eles só têm tempo para os amigos, que não querem fazer nada além de conversar com a turma, sair, estas coisas. Estudar, muito raramente. Atividades em casa, participação na rotina, nem pensar.


Já ouvi gente falando que isto está associado ao desenvolvimento neuronal e mental, que é uma fase em que a responsabilidade ainda está amadurecendo, por assim dizer. Mas tenho minhas dúvidas que seja só imaturidade. Inclusive pelo fato da adolescência ser um fenômeno social recente. Existem várias sociedades em que ela não existe nem existiu, o cara passa por um ritual de passagem e ploft! É adulto e não se fala mais nisto.
Vamos pensar na seguinte hipótese: O ser humano é um bicho social, vive no coletivo e depende dele para viver, quase como uma colônia. Tem gente que não gosta de pensar assim e quer valorizar apenas o indivíduo, mas somos muito dependentes uns dos outros.


A sociedade atual ampliou a interdependência através dos meios virtuais. Não só precisamos nos relacionar com as pessoas ao nosso redor como também nas redes sociais e nos meios de comunicação. Nunca fomos tão interdependentes. Tem de fazer bonito com os amigos, com a turma do Facebook, com o pessoal do Twitter e mais um monte de outras conexões variadas. 


O aprendizado do convívio social passa pela construção de nossa própria rede de relacionamentos, uma das coisas que os pais e adultos sempre esquecem. Os jovens vivem boa parte de sua infância na rede de relacionamentos de suas famílias, e tem um momento em que começam a construir suas próprias redes. Este momento geralmente acontece na adolescência, e gerenciar amizades, colegas, desafetos, amores, paixões e interesses é algo que demanda investimento. E é o que eles fazem: Estão construindo sua network, ao mesmo tempo que aprendem a construir networks. A habilidade de construir e gerenciar networks vai ser crucial na sobrevivência deste jovem no futuro. 


Existem pais que chegam em casa chateados por causa de problemas com o chefe no escritório e ficam irritados pois os filhos estão totalmente dedicados a gerenciar a crise no grupo de amigos que foi gerada por uma briga entre eles. Os pais acham que é exagerado o grau de importância que é dada ao assunto, que o filho não deveria estar tão preocupado com assuntos bobos, mas acha extremamente sério o fato do chefe dele ter dado uma bronca nele sem razão.
Cá entre nós, não é a mesma coisa? O grau de importância quando se está fora do contexto sempre parece menor, afinal de contas aquilo não implica em problema nenhum para a gente. Mas para quem está dentro do contexto, as coisas parecem muito maiores, até além do que deveriam ser.


É hora de valorizar a importância da construção de redes de relacionamentos na adolescência. As escolas (por exemplo) ensinam até astrofísica, mas tratam de maneira secundária a capacidade de interação e construção de grupos de afinidades. Sem desqualificar a astrofísica, acho que alguém pode sobreviver muito bem sem conhecer os anéis de Saturno, mas se não souber conviver e gerenciar diferentes relacionamentos, esta pessoa vai ter muitas dificuldades pela frente...

23.4.12

Cem paulistas valem um amapaense, sabia?

Desde que sou pequeno ouço falar no Voto Distrital, uma maneira diferente de contabilizar votos e representantes políticos. A quantidade de representantes estaria associada com a densidade demográfica, ou seja, pela quantidade de habitantes e não por divisões de estados.
Hoje cheguei a conclusão que vou morrer e não ver isto ser implantado no Brasil. Aí resolvi fazer uns cálculos.
O Amapá tem uma população de 450.000 pessoas, menor que São José do Rio Preto. O Sarney foi eleito Senador por Amapá com 140 mil votos. Nem vou entrar em detalhes sobre o que ele foi fazer no Amapá, é assunto para outro post. 
São Paulo tem uma população de 41.250.000 pessoas. Aloysio Nunes foi eleito com 11.200.000 votos.
Na hora de votar no Senado, o voto do Aloysio Nunes representa 41 milhões de pessoas, e o do Sarney representa 450 mil pessoas, mas os votos deles têm o mesmo peso na hora da votação. A constatação óbvia: Meu voto vale 1/100 de um voto de um amapaense.
Quer fazer seus direitos serem defendidos no Senado? Mude-se para o Amapá, você vai imediatamente valer por cem vezes mais! 
Estas excrescências políticas estruturais ajudam ainda mais a piorar a qualidade do jogo político no Brasil.
Sabe quando isto vai mudar? Nunca! Você acha que os senadores dos estados menos populosos votariam a favor de uma emenda assim? 
Outra questão é: Para que ter duas câmaras? O sistema bicameral serve para quê? Até hoje não sei para que ter Deputados e Senadores. Uma câmara só não basta?
Acho que vou me mudar para o Amapá e tentar carreira política. Com uns quinhentos votos já consigo ser deputado estadual. Se eu falar bonito, fizer uma campanha básica e prometer algumas bobagens eu tô eleito. E sou mais bonito que o Sarney! Se bem que o meu bigode é mais ralo, talvez seja melhor deixar para lá...

17.4.12

Pequenas Tragédias do Cotidiano

Apesar de estarmos atentos aos grandes problemas da humanidade, eles parecem estar longe, muito longe de nós. Minha mãe comentava que quando estava no hospital sentindo as dores do parto de minha irmã meu avô, para consolá-la dizia: "Pense no sofrimento das pessoas na Guerra da Coréia"...
Nenhuma Guerra, nem a da Coréia (a do Norte está assanhadíssima lançando foguetes) é mais importante ou dolorosa que a nossa virose, ou a ressonância magnética de nosso pai. Nossos dilemas cotidianos sempre são mais banais, e ao mesmo tempo mais impactantes.
Fui fazer uma rápida compra antes de voltar para casa, quando vi um casal na frente do supermercado. Como o cachorro não podia entrar, um deles ficou na porta e o outro entrou para fazer as compras. Dois minutos depois, se muito, o que estava fora começa a gritar, chamando o outro. No seu colo o cachorro, se esvaindo em sangue. A camisa do dono cheia de sangue, o chão todo pintado. Em segundos o basset tinha se soltado da coleira e tinha sido atropelado. Morria nas mãos do dono.
Quando o outro chega e vê o cachorro, sente-se mal, têm tontura, é acudido pelos passantes, que falam para levar o cachorro num veterinário próximo. Mas o dono sabe o que aconteceu, é evidente, na sua calma, que percebe que seu cachorro está agonizando.
Saio do supermercado e vejo os dois sentados do outro lado da calçada, em silêncio, acarinhando o mascote.
São as tragédias do cotidiano que nos tocam.

14.4.12

Pelo Direito à TPM Masculina!


Como precisamos equilibrar os direitos entre homens e mulheres, reivindico oficialmente o direito dos homens de terem TPM!
Nos últimos tempos todas as equiparações são para oferecer igualdade para as mulheres dos direitos que os homens têm. Mas está na hora dos homens também reivindicarem direitos hoje exclusivos das mulheres.
Por que elas podem pelo menos uma vez por mês ter alterações de humor sem precisar se justificar e todo mundo tem de aguentar sem reclamar?
Os homens não tem o direito de oscilações de humor, são consideradas inconstâncias de personalidade, mau humor ou rabugice.
Por que as mulheres podem jogar na cara dos homens "verdades" sobre tudo e todos e depois justificar que é uma questão hormonal, e os homens não podem?
Ah, dirão as mulheres, as mulheres podem pois elas tem esta questão inata, portanto é natural a mulher ter oscilações de humor, faz parte da natureza dela.
Bom...é da natureza do homem tentar acasalar e fecundar o maximo de fêmeas, certo? Faz parte da evolução humana, portanto deve ser aceito pela sociedade? Ah, não, os homens precisam controlar os seus instintos para poderem viver em sociedade. Mas as mulheres não? Se for assim, até topo, contanto que os homens tenham direito às oscilações de humor sem precisar se explicar e sem precisar se preocupar com o impacto que isto traz para as relações sociais e vínculos afetivos.
Este é uma primeira centelha,  uma faísca,  na busca pelos direitos iguais, quer seja no controle ou no descontrole das emoções.
Homarada, hora de ir à luta pelo direito de se estressar sem precisar ser cobrado!


Porque hoje eu não estou legaussss!

12.4.12

Seu novo trabalho parece um filme de terror?

Já repararam que quando começamos a trabalhar num novo emprego rola um clima de filme de terror? Não por causa da pressão por resultados, estas coisas, mas sim pelo fato de existirem inúmeras regras implícitas desconhecidas na cultura local.


Parece aqueles filmes que o personagem está andando no casarão mal assombrado e pergunta alguma coisa para o anfitrião e ele responde com uma frase enigmática e dá um sorriso.


Você chega no novo ambiente de trabalho e passa o chefe, cumprimenta rapidamente e vai embora. Você olha para o seu colega de lado e pergunta:


- Não consegui decorar ainda o nome do chefe, o sobrenome é complicado, como é mesmo que ele chama?
O seu colega dá um meio sorriso e diz:
- Ele chama Jurgonder Chmryhjkytin, mas prefere ser chamado de Thunder.
- Thunder? Por que o apelido?
Aí seu colega olha estranho para você, e se afasta, sem dizer nada.
O que será que você falou de errado? Pois é, vai ter de descobrir sozinho...


No meio de uma reunião, aquele calorão, todo mundo suando. Aí você pergunta:
- Posso ligar o Ar Condicionado?
Todos olham para você, alguma palavra mágica misteriosa foi acionada, e você virou um pária, um anti-social.
Para quebrar o gelo e se safar da situação, você manda:
- Nem precisa ligar, eu abro a janela, só para ventilar o ar.
Todos ficam duros, uma pessoa começa a tremer. Seu chefe olha para todos e fala num tom estranho:
- Alguém tem alguma coisa a falar sobre isto?
Seus colegas começam a mexer nos papéis nervosamente, focando suas atenções em outra coisa. Aí o seu chefe fala:
- Eu mesmo vou abrir a janela.
E segura a maçaneta como se fosse abrir um portal para o além. Olha para todos antes de abrir, e diz:
- Doze Vinte e Três.


E a reunião continua como se nada tivesse acontecido.
Anos depois será você que fará este papel, e repetirá Doze e Vinte e Três antes de abrir a janela, com o mesmo olhar, sem nunca saber o que aquilo poderia significar...

11.4.12

Anencefalia ou O Que é Vida?

Complexíssima a discussão que está acontecendo sobre o direito ou não de interromper a gravidez (ou seja Aborto) de mães que gestam fetos (embriões humanos) sem cérebro.
A gestação é delicada nestes casos, e a grande maioria das crianças morre assim que é desconectada da mãe, grande geradora do embrião até o final. Valeria a pena passar nove meses com uma criança que irá morrer logo depois de nascer? E os traumas que a mãe carregará durante a gravidez, ao saber que a criança não sobreviverá?


A primeira questão é: O Estado deve definir uma política para isto? Ou deve oferecer as possibilidades para o cidadão decidir? Se o Estado proibir, a prática abortiva será ilegal, passível de penalidades. Se oferecer a possibilidade de escolha, deixará que o(s) indivíduo(s) envolvidos decidam.


A segunda questão, talvez mais importante, é: Como definimos vida? A Anencefalia é interessante pois definiria "Vida" como algo que resida no cérebro, na atividade cerebral. Se não tem cérebro, não tem vida. É  a mesma coisa quando constatam morte cerebral num paciente em coma irreversível. 


Aconteceu um caso há alguns anos de uma mulher italiana, que depois de brigas na justiça, a família obteve o direito de desligar os aparelhos que a nutriam até que ela morresse de inanição. Na época fiquei muito incomodado com o caso, pois pensei com a mesma lógica que penso em relação às plantas (sei que muita gente vai discordar, mas foi assim que pensei): Será que eu tenho o direito de deixar de regar uma planta, até que ela morra? Será que o estado consciente ou as ondas alfa definem a vida? Apesar de entender o sofrimento da família ao conviver com aquela pessoa (que não reconhecem mais como a pessoa de antes), fico na dúvida se temos o direito de tirar a vida dela. Mas isto não significa que o debate não tenha de ser aprofundado, muito pelo contrário, pois sacrificamos animais quando estão irreversivelmente doentes mas não sacrificamos humanos na mesma condição, não há respaldo legal para o aborto no Brasil mas há inúmeros países que legalizaram o aborto, e por aí vai.


A comunidade deveria se mobilizar para debater o assunto, e especialistas são bem-vindos, desde os leigos, passando pelos religiosos, até os maiores conhecedores do assunto.


O que não se pode fazer é evitar o debate, pois o tema do Direito à Vida é essencial para todos.

9.4.12

Serbian Film - Até Onde Vai a Sexualidade?

Serbian Film (Um Filme Sérvio) é um filme grotesco, e mal acabado. Não é para todas as pessoas, pois trata de um dos mitos da pornografia hardcore, os Snuff Movie. Seriam filmes de sexo com morte e violência reais, e, da mesma maneira que existe muita gente que acredita que sejam lendas urbanas, num mundo complexo em que vivemos hoje não seria de todo absurdo que existissem coisas assim sendo comercializadas de maneira clandestina.
Do ponto de vista cinematográfico o filme é mediano, trata da história de um ator pornô recém-aposentado (com mulher e filho pequeno) que é convidado a estrelar um último filme, com a condição de não saber o roteiro, ganhando uma fortuna. Sem perspectivas e atiçado pela vida pregressa de astro do pornô, o cara topa e cai numa armadilha onde perversidade, violência e sexo se misturam.
Não é o primeiro filme a atiçar a curiosidade com a possibilidade de realmente existir este submundo. O mais antigo que me lembro chama Canibal Holocausto, um suposto documentário sobre uma filme que teria saído do controle. Sangue, tripas, tribos estranhas e mulher pelada.

No caso de Um Filme Sérvio há a questão nacional da Sérvia, um país fruto da fragmentação sangrenta da Iugoslávia, onde genocídios horrorosos aconteceram, e vizinhos mataram vizinhos a machadadas, no estilo Jason do Sexta-Feira 13, o que poderia sugerir uma metáfora da tensão naquela terra, mas isto transparece de maneira pouco sutil e meio abobada num discurso do diretor do filme que está sendo rodado. O que interessa mesmo é o Gore, a sanguinolência, e a mulherada pelada sendo despedaçada. Não há crítica no filme, só reafirmação do gênero, um Subtrash confirmando o interesse em Corpos Mutilados e... Mulher Pelada. 

Ah, você acha que estou exagerando? Há revistas especializadas no assunto, como a Girls & Corpses, com simulações de violência e mulherada rebolante.

O bom e velho Freud estava com a razão total sobre nossa pulsão primordial (Id), que é essencialmente Sexo e Violência. Podemos sublimar, transformar em arte ou simular nas parafilias por aí. Mas a coisa mexe com as pessoas. 

Logicamente não somos movidos sempre em busca de Sexo ou de Violência: De acordo com Frans de Waal somos parte Chimpanzé, parte Bonobos: O ser humano seria uma versão bipolar dos dois. Chipanzés usam da violência para obter sexo, e Bonobos usam o sexo para evitar a violência. Oscilamos entre estes dois primos próximos, e vamos seguindo com nossas ambiguidades em relação ao tema. Pena que o filme não traga esta questão, e no final, aja com punição moralista em relação aos protagonistas...

7.4.12

Páscoa - A Verdade sobre as Teorias de Conspiração!

Sem receio de ser perseguido pelos terríveis ocultadores da Verdade, pelo Governo Americano, NASA, FBI e Cacau Show, falo em primeira mão sobre as verdades ocultas sobre a Páscoa. Se eu não voltar a postar em dois dias, aviso que posso ter sido exterminado pelos Iluminatti, ou pelo Ronaldo Nazário.


A conspiração contra o Tatu Bola - Antes da Ditadura Militar Brasileira o animal símbolo da Páscoa era  o Tatu Bola. A CNBB, junto do Papa Pio XII festejavam alegremente o renascimento de Jesus realizando o ritual de Tirar o Tatu da Toca. Pequenas bolotas de mandioca eram distribuídas para a população,que as enterrava nos jardins e esperava três dias para comer.  
Com a Ditadura, o Governo Americano resolveu fortalecer a presença cultural no Brasil e impôs que o símbolo da Páscoa deveria ser o Coelho, que refletia mais as expectativas que os americanos tinham de nosso país: Levado ao forno marinado no vinho, cebola e alho, ficaria uma delícia. De lá para cá, assumimos o Coelho como símbolo da Páscoa, e o Tatu foi totalmente esquecido.


Os conglomerados de refrigerante subsidiam a importação do Bacalhau - Para muitas pessoas comer Bacalhau na Sexta-feira Santa é uma tradição, um respeito a morte de Jesus. O que estes ingênuos não sabem é que a Coca Cola e o Grupo Alaor Trindade (donos das marcas Xamego, Arco Íris e Convenção) investem pesado na importação do Bacalhau Português (que na verdade é Norueguês). Por que? Ninguém sabe dessalgar o bacalhau, e todo prato com o peixe fica salgado, o que aumenta a sede de praticamente todos os brasileiros na Sexta-feira Santa. O consumo de tubaína e cola aumenta 343,5% nesta época. Garanto que você não sabia...


Patinhas de Coelho? Pegadas de OVNI, isto sim - A proliferação de contatos com ETs e os sinais deles espalhados pelas casas acionou a NASA, que teve a brihante  ideia de inventar a brincadeira de deixar pegadinhas de coelho na época da Páscoa (parece que é uma época onde vários contatos são feitos, há um grupo que jura que Cristo não ressuscitou, quem teria saído da tumba era ET, e que nossa Bíblia estaria cheia de passagens alienígenas.


Sobre o Ronaldo Nazário, prefiro não comentar. Acabei de receber uma mensagem SMS de um alto escalão do governo alegando que tem um dossiê sobre minha suposta participação no Village People. Apesar de garantir que é tudo mentira, a melhor estratégia agora é me silenciar sobre o assunto...




6.4.12

Projetos Inovadores para o Centro de SP!

Candidatos a prefeito, hora de se atualizar! Segue uma lista de projetos que cairão no gosto do povão que mora aqui no Centro de São Paulo. Garanto que farão o maior sucesso no horário eleitoral. Podem usar minhas ideias, nem precisa dar crédito.


Vale-Zumbi - Como toda hora temos de dar dinheiro para os Nóias que surgem do nada pedindo dinheiro no estilo Flanelinha do Apocalipse, por que não criar o Vale-Zumbi, um cartão que damos ao Nóia e ele pode levar imediatamente para o traficante? A distribuição, a preços populares, de máquinas de cartão de crédito aos traficantes vai digitalizar o comércio de drogas, que anda informal e caboclo, o pessoal troca até pacote de bolacha por pedra. Não está na hora do Brasil entrar no Primeiro Mundo? É nossa oportunidade!


Proibição do "Sãssa" - Uma das maiores chateações da população é entrar no Metrô lotado e todo mundo tentando sair na estação falando "Sãssa", "Sãssa", "Sãssa".O Aldo Rebelo podia encampar esta ideia, já que é profundo defensor do linguajar formal brazuca. Criaríamos a obrigação de falar "Com Licença", ou a pessoa simplesmente empurra as pessoas e sai, evitando aquela sensação de que estamos numa convenção de fanhos.


O Pula-Bosta - Um mix genial de estratégias, que resolve problemas de transporte criando mini-viadutos nas calçadas para que as pessoas evitem pisar em excremento humano. Como a quantidade é enorme, vai facilitar a vida dos vereadores, que adoram dar nome pras coisas. "Projeto Sola Limpa - Chegou o Pula-Bosta" pode ser o slogan. E a câmara dos vereadores teria o que fazer, dando o nome para todos estes viadutos. Assim pelo menos eles fazem alguma coisa.


Muita Multa - Para que investir em tanto guarda para ficar multando os carros se podemos fazer com que o próprio condutor faça isto? Definimos um kit básico de multas para cada cidadão, por exemplo, num mês o condutor precisa se multar por excesso de velocidade, no outro mês ele se multa por estacionar em local proibido, e por aí vai. Assim ele pode oficialmente fazer uma contravenção mensal, ele mesmo se multa e podemos economizar o dinheiro com o CET e com os Marronzinhos, já que a única coisa que eles fazem é multar os motoristas.


Churrato - Por que deixar livres estes vendedores de churrasco de gato, se cada vez vemos menos gatos pela cidade? Os churrasqueiros já cumpriram seu papel de retirar os gatos da rua. Agora é hora de investir no Churrato, que resolve o problema da fome e o da infestação de ratazanas pelas ruas numa tacada só (mas a tacada tem de ser bem na cachola do bicho, pois ele é resistente). É possível pensar num projeto casado com o Vale-Nóia, cada dois cartões ele troca por meio rato na brasa. Tiramos o dinheiro do traficante e alimentamos os pobres!

5.4.12

Muita Fé e Pouca Luta

No dia 03/04 tive a oportunidade de assistir ao magnífico show do Roger Waters, The Wall.
Foi, talvez, o show mais incrível que assisti, seja do ponto de vista da amarração do tema, da tecnologia utilizada, da Direção de Arte e da qualidade do som gerado pelo artista (em todos os sentidos).
Mas ficou a velha pulga atrás da orelha.


Vi no show uma multidão de classe média, todos de camiseta preta, calça jeans e botas, parecendo uniforme. Mas era roupa nova, arrumada, dava a sensação que aquilo era a versão roqueira de um terno, ou uma túnica a ser utilizada num ritual.
Quando as luzes se apagaram era possível ver milhares (não é exagero) de celulares filmando o show.
A platéia cantou todas as músicas do álbum, estava sintonizada com o espetáculo.


Paralelamente o show obteve bom resultado ao atualizar a metáfora do Muro. Trinta anos atrás (o filme é de 1982) o Muro era a parede política, o conflito armado que pairava nos resquícios da Guerra Fria, hoje ele é a exclusão gerada pelo capitalismo global e pelo terrorismo dos Estados. Um discurso abrangente e funcional, de fácil adesão. O mito do Estado que promove o terrorismo e a exclusão financiado pelas corporações é o complementar na área social do mito de Proteção à Gaia, promovido pelos Greenpeaces da vida, que agressivamente se posicionam contra os ataques à entidade abstrata chamada Natureza. É a figura do Satã Bipartido, ora desajustando o Equilíbrio Social, ora desequilibrando o Meio Ambiente ao violentar a Mãe Terra...


Imediatamente me lembrei da Carta a d´Alembert, de Rousseau, e no papel que todo aquele circo teria. Do ponto de vista político, o show é perverso, pois usa a alienação para criticar a alienação. Todos saíram satisfeitos de lá, ao deixarem extravasar seus sentimentos genéricos de revolta, ao usarem seus uniformes de rebeldia e gravarem seus filminhos particulares que nunca irão assistir, que servirão mais como amuleto mágico, resíduo da experiência mística.


Do ponto de vista metafórico, a figura do Professor, que no filme massifica os alunos (Hey, teacher, leave us kids alone!), que andam em fila, sem rosto, com uniformes, enquanto são levados para uma grande máquina de moer carne, agora se corporifica na figura do próprio Roger Waters cantando no estádio. E, pelo que vi, não havia ironia nisto, os papéis se misturaram e não há mais como separar um do outro.


Flutuando sobre a platéia havia um porco todo grafitado. No Brasil foi feito pela dupla Osgêmeos (atualmente muito criticada pela comunidade do grafiti e do pixo por terem "se vendido ao sistema", coisa que 90% deles pretende fazer, mas não conseguiu ainda). Nele estava escrito: Muita Fé e Pouca Luta.


Evidentemente, o show de Roger Waters é um local de Culto, de Fé, e não de mobilização para Lutar contra aquilo que estava sendo criticado... Tempos bicudos...


4.4.12

O Sucesso de "Para Nossa Alegria"

Para as pessoas que moram em outro planeta e as pessoas do futuro que lerem este texto (talvez ele seja o único texto que sobre no mundo digital e seja tratado como uma bíblia, a referência do passado e da civilização humana, quem sabe?), "Para Nossa Alegria" é um vídeo curto que fez grande sucesso durante pouco tempo no Brasil. Família humilde em cenário humilde, sorridente, cantando desafinado música religiosa.  Se quiser, veja o vídeo aqui.


Quais as razões para o sucesso? Elenco algumas:

  1. Sorriso Social exagerado - Alguns estudiosos, como o Paul Ekman, analisam as expressões faciais humanas, e uma delas é o Sorriso Social. Sabemos distinguir do Sorriso Espontâneo, pois o Social parece meio "forçado". É algo que você espera do atendente do McDonalds, mas não gostaria de ver no rosto de sua namorada quando a pede em casamento.
    Os dois garotos forçam tanto o Sorriso Social que ele parece plastificado, e no exagero, rimos.
  2. A Mãe Séria - Enquanto o vídeo se desenvolve, podemos passear nossos olhos pela imagem, e aí prestamos atenção na figura da Mãe, sentada no meio dos garotos. O contraste da seriedade dela com o Sorriso Social dos garotos gera o estranhamento, que prepara para o que vem a seguir.
  3. A Garota Desafinada - Quando a abertura acústica do violão termina, a família começa a cantar, mas aí o inesperado acontece: A Garota desafina que dói. É impossível de entender o que ela fala. O garoto e a Mãe cantam normalmente, como se aquela desafinação fosse normal. Mais estranhamento.
  4. O Garoto Solta a Voz! - O Garoto, no momento do refrão, solta a voz. E canta bem, com um belo sorriso no rosto. E, para brindar o estranhamento absoluto, a Garota tem um ataque histérico de riso. A Mãe, incomodada, se levanta e vai embora, como se o Garoto tivesse feito algo errado. O único cara que está fazendo direito é, na situação, aquele que está desagradando, motivo de chacota e de rejeição. É possível entrever a barriga mole da Mãe enquanto ela sai do foco, indignada. Para terminar, a Mãe passa com a vassoura na frente da câmera, resmungando alguma coisa.
É assim que surge o riso! E as pessoas se matam de ver pois o vídeo vai acumulando estranhamentos e situações inesperadas, até que a risada da Garota, a Mãe indo embora e o Garoto cantando geram o riso.

Por outro lado, eles se tornam heróis, e depois do vídeo, são convidados a participarem de programas de televisão e entrevistas.

Se tornam heróis por terem conseguido, mesmo que involuntariamente, romper a difícil camada que separa os anônimos dos populares na nossa sociedade de hoje. De uma maneira tão singela e despretensiosa,  conseguem deixar de ser massa e se tornar alguém.

1.4.12

Jogos Vorazes e a Difícil Arte de Crescer

Adultos certamente não entenderão a razão pela qual os adolescentes estão correndo desesperadamente para ver Jogos Vorazes nos cinemas. Quem assistir vai achar médio, com ritmo lento e uma mistura de George Orwell com Lady Gaga, anabolizado com um jeitão de BBB. 
Quem quiser ler a sinopse do filme, basta clicar aqui.
O filme trata de um ritual de passagem da juventude para a vida adulta, e o retrato mostra uma passagem sangrenta, difícil, onde poucos sobreviverão. Há enormes desigualdades sociais, romance e luta, mas a questão de encontrar um papel na sociedade e saber se posicionar se destaca.
Os adolescentes mergulharam no livro, e agora saúdam o filme como um fenômeno pós Harry Potter, uma trilogia a ser seguida.
O que eu pediria aos adultos em geral é que assistam o filme para ver como a garotada está encarando o ritual de passagem para o mundo adulto. O negócio é nervoso, tenso, agressivo. A sociedade com que se identificam e onde estão suas raízes está em colapso, e a que seria a sociedade almejada é de uma afetação kitsch, de sentimentos voláteis e emoções baratas, totalmente midiatizada.
O que vale a pena não é o filme ou o livro em si, mas parar para pensar na identificação que os adolescentes do mundo inteiro tiveram com ele. Assista e veja como hoje é difícil para os garotos enfrentarem o duro desafio de crescer.

30.3.12

Profissões não recomendadas

Depois de ter virado um fotógrafo maratonista, descobri que existem atividades que não são muito compatíveis. Toda hora eu tenho de parar de correr pois o olhar de fotógrafo chama a atenção para as coisas que a gente vê no trajeto. Enquanto der para conciliar, vou correndo, parando, fotografando e voltando para a correria...


Isto me lembra de um ótimo filme do Woody Allen, Um Assaltante Bem Trapalhão, que mostrava uma cena inesquecível, que (de acordo com o personagem) teria sido uma das razões de ele ter se transformado num marginal. Na juventude o personagem tinha tentado tocar numa fanfarra, e se desiludido, pois ele tocava violoncelo e tinha de ficar correndo com a cadeira para poder sentar e tocar, enquanto a fanfarra andava pelas ruas. 
Daí pensei que existem alguns mix de profissões que realmente não valem a pena. Eis alguns exemplos:


Cheirador de Suvaco e Gastrônomo
Fica difícil depois de uma sessão de verificar o odor do suvaco de um monte de gente entrar na cozinha e preparar um prato gostoso. Tudo vai ficar com um cheiro estranho, meio azedo, e para compensar o futum você vai encher a comida com temperos e aromas, o que vai deixar seus convidados praticamente drogados com o excesso de tempero...


Modelo e Apicultor
Além de não ficar necessariamente bonito com uma barba cheia de abelhas (só vai poder posar de cover do Marcelo Camelo), o risco de distribuir ferroadas (e angariar processos) num estúdio fotográfico é enorme!


Granjeiro e Dono de Pet Shop
Conflito básico, o que fazer? Cuidar do bichinho ou matar, depenar e temperar para comer? Fuja deste mix de profissões, altamente não recomendável


Dançarino e Carregador de Ovo da Lady Gaga
A grande questão neste mix de profissões é como sambar enquanto leva o ovo gigante, mas acho que é possível, se você estiver em boa forma física e a Lady Gaga não estiver com o vestido de Bacon, pois o cheiro pode ser intoxicante.

29.3.12

Distúrbios Mentais não justificam a maldade humana

Conheço muitas pessoas que convivem com distúrbios mentais, mas isto não significa que conheça profundamente o assunto, assim, me perdoem os super especialistas na área. No fundo a reflexão deste artigo é sobre a negação do Mal que vemos nas pessoas em geral. O Mal que habita o seu próprio coração.
Excluindo os borderlines, conheço dois comportamentos distintos: Gente que surta "do bem" e gente que surta "do mal". Sim, estou assumindo a questão binária Bem e Mal, falando sobre a questão subjetiva chamada Moral.
Tanto faz o transtorno, bipolaridade, esquizofrenia, depressão. Reparem: Há pessoas que sofrem quando estão fora de si e há pessoas que fazem os outros sofrerem quando não estão bem.
Da mesma maneira que as drogas, parece que a pessoa deixa cair algumas barreiras morais ao surtar e assim conseguimos enxergar melhor seu caráter (que obviamente não está relacionado ao seu distúrbio, são coisas totalmente distintas).
A mãe de um amigo meu é um bom exemplo. Ela tem surtos relativamente constantes mesmo clinicada. Não sei qual a razão ou qual o "rótulo" clínico, e nem interessam. Pois bem, quando ela surta geralmente sai pela rua, vagando pelo bairro, colhendo flores e brincando com os cachorros da vizinhança. Nunca vi nenhum comportamento agressivo ou prejudicial aos outros. Conheço muitas pessoas assim. E isto não significa que não sofram, ou que não estejam precisando de ajuda, mas de dentro delas não sai nada perverso, não há ataque aos outros.


Por outro lado vi muitas pessoas que quando surtam atacam as pessoas, parece que alguma maldade habita a pessoa, e ela se torna agressiva ou ardilosa. Um bom exemplo é um professor que conheci, que tinha comportamentos dignos de vilão de desenho animado quando surtava. O fato dele usar drogas constantemente também não ajudava, pois são um gatilho para surtos, e assim a maldade dele se tornava cada vez mais constante. Em surto, dedicava boa parte de seu tempo criando planos contra outras pessoas.


Todos temos maldades dentro de nossos corações, alguns não as expressam por controle. Controlam até... surtar, e quando surtam vêm uma avalanche de maldade em direção ao mundo.


Não acho que o surto seja o problema, mas sim a negação do Mal. Toda vez que negamos o Mal talvez acabemos encapsulando este sentimento. Se não aceitarmos nossas maldades, nossas imperfeições, o risco é de algum gatilho emocional ou físico disparar e despejamos aquele número enorme de sentimentos nos outros.


PS - Por favor, quem tiver mais informações sobre as razões pela qual numa situação de descontrole as pessoas tendem a expressar manifestações de maldade, agradeço comentários. Quero entender mais sobre o assunto e dialogar.