Pelo que eu pude ler nas redes sociais não perdi nada ao não assistir a "homenagem" ao Legião Urbana. Alguém teve a ideia incrível de chamar o Wagner Moura para cantar no lugar do Renato Russo, e parece que não deu nada certo, pela simples razão dele ser um bom ator, e não bom cantor.
Por que estas coisas acontecem, quando aparentemente tem tudo para dar certo? Armadilhas mentais é a resposta. Pegamos duas unanimidades, cada uma na sua área (uma banda popular com cantor tragicamente morto no auge do sucesso e um ator/personalidade admirado por todos e todas), misturamos, e obviamente vai dar certo. Ficamos tão cegos com todas as qualidades de nosso pensamento que simplesmente esquecemos o óbvio: O ator precisa ser mais que um cantor de karaokê, ele precisa ser no mínimo mediano, cantar sem envergonhar. Pois é... não deu certo.
Mas o que impressiona é o Wagner Moura ter caído na armadilha, ele parece (ou parecia) mais sensato do ponto de vista profissional, a carreira está bem alinhada, sucesso atrás de sucesso, fiquei imaginando qual a razão de entrar numa roubada destas, e pelo que percebi ele sucumbiu a um problema que lidamos todos os dias, que é a auto-percepção, como nós enxergamos, mecanismo regulado parcialmente pela nossa auto-estima.
Nunca temos uma real percepção de nós mesmos, ou nos sentimos menores do que somos ou maiores. Esta oscilação acontece a todo momento, basta tentarmos abrir um pote de azeitona que passamos a nos achar mais fracos do que deveríamos ser, ou darmos uma moeda de cinquenta centavos para um mendigo e já achamos que somos ótimas pessoas.
Entre o momento Shrek e o momento Zé Bonitinho, parece que o Zé Bonitinho dominou a mente do Wagner Moura. E toca o cara a pagar mico gigante na frente de todo mundo.
Em maior ou menor grau, já fizemos isto e vamos continuar a fazer. Oscilar é a única maneira de continuarmos andando, e precisamos aceitar isto. Vamos passar a borracha na história, lembrar do Renato Russo cantando, lembrar do Tropa de Elite e vida pra frente. E por favor, marqueteiros de plantão, não lancem um DVD desta experiência fracassada, já basta o YouTube para nos lembrar que um dia o Wagner Moura achou que era o Zé Bonitinho mas cantava como o Shrek...
Let´s Go!
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30.5.12
5.4.12
Muita Fé e Pouca Luta
No dia 03/04 tive a oportunidade de assistir ao magnífico show do Roger Waters, The Wall.
Foi, talvez, o show mais incrível que assisti, seja do ponto de vista da amarração do tema, da tecnologia utilizada, da Direção de Arte e da qualidade do som gerado pelo artista (em todos os sentidos).
Mas ficou a velha pulga atrás da orelha.
Vi no show uma multidão de classe média, todos de camiseta preta, calça jeans e botas, parecendo uniforme. Mas era roupa nova, arrumada, dava a sensação que aquilo era a versão roqueira de um terno, ou uma túnica a ser utilizada num ritual.
Quando as luzes se apagaram era possível ver milhares (não é exagero) de celulares filmando o show.
A platéia cantou todas as músicas do álbum, estava sintonizada com o espetáculo.
Paralelamente o show obteve bom resultado ao atualizar a metáfora do Muro. Trinta anos atrás (o filme é de 1982) o Muro era a parede política, o conflito armado que pairava nos resquícios da Guerra Fria, hoje ele é a exclusão gerada pelo capitalismo global e pelo terrorismo dos Estados. Um discurso abrangente e funcional, de fácil adesão. O mito do Estado que promove o terrorismo e a exclusão financiado pelas corporações é o complementar na área social do mito de Proteção à Gaia, promovido pelos Greenpeaces da vida, que agressivamente se posicionam contra os ataques à entidade abstrata chamada Natureza. É a figura do Satã Bipartido, ora desajustando o Equilíbrio Social, ora desequilibrando o Meio Ambiente ao violentar a Mãe Terra...
Imediatamente me lembrei da Carta a d´Alembert, de Rousseau, e no papel que todo aquele circo teria. Do ponto de vista político, o show é perverso, pois usa a alienação para criticar a alienação. Todos saíram satisfeitos de lá, ao deixarem extravasar seus sentimentos genéricos de revolta, ao usarem seus uniformes de rebeldia e gravarem seus filminhos particulares que nunca irão assistir, que servirão mais como amuleto mágico, resíduo da experiência mística.
Do ponto de vista metafórico, a figura do Professor, que no filme massifica os alunos (Hey, teacher, leave us kids alone!), que andam em fila, sem rosto, com uniformes, enquanto são levados para uma grande máquina de moer carne, agora se corporifica na figura do próprio Roger Waters cantando no estádio. E, pelo que vi, não havia ironia nisto, os papéis se misturaram e não há mais como separar um do outro.
Flutuando sobre a platéia havia um porco todo grafitado. No Brasil foi feito pela dupla Osgêmeos (atualmente muito criticada pela comunidade do grafiti e do pixo por terem "se vendido ao sistema", coisa que 90% deles pretende fazer, mas não conseguiu ainda). Nele estava escrito: Muita Fé e Pouca Luta.
Evidentemente, o show de Roger Waters é um local de Culto, de Fé, e não de mobilização para Lutar contra aquilo que estava sendo criticado... Tempos bicudos...
Foi, talvez, o show mais incrível que assisti, seja do ponto de vista da amarração do tema, da tecnologia utilizada, da Direção de Arte e da qualidade do som gerado pelo artista (em todos os sentidos).
Mas ficou a velha pulga atrás da orelha.
Vi no show uma multidão de classe média, todos de camiseta preta, calça jeans e botas, parecendo uniforme. Mas era roupa nova, arrumada, dava a sensação que aquilo era a versão roqueira de um terno, ou uma túnica a ser utilizada num ritual.
Quando as luzes se apagaram era possível ver milhares (não é exagero) de celulares filmando o show.
A platéia cantou todas as músicas do álbum, estava sintonizada com o espetáculo.
Paralelamente o show obteve bom resultado ao atualizar a metáfora do Muro. Trinta anos atrás (o filme é de 1982) o Muro era a parede política, o conflito armado que pairava nos resquícios da Guerra Fria, hoje ele é a exclusão gerada pelo capitalismo global e pelo terrorismo dos Estados. Um discurso abrangente e funcional, de fácil adesão. O mito do Estado que promove o terrorismo e a exclusão financiado pelas corporações é o complementar na área social do mito de Proteção à Gaia, promovido pelos Greenpeaces da vida, que agressivamente se posicionam contra os ataques à entidade abstrata chamada Natureza. É a figura do Satã Bipartido, ora desajustando o Equilíbrio Social, ora desequilibrando o Meio Ambiente ao violentar a Mãe Terra...
Imediatamente me lembrei da Carta a d´Alembert, de Rousseau, e no papel que todo aquele circo teria. Do ponto de vista político, o show é perverso, pois usa a alienação para criticar a alienação. Todos saíram satisfeitos de lá, ao deixarem extravasar seus sentimentos genéricos de revolta, ao usarem seus uniformes de rebeldia e gravarem seus filminhos particulares que nunca irão assistir, que servirão mais como amuleto mágico, resíduo da experiência mística.
Do ponto de vista metafórico, a figura do Professor, que no filme massifica os alunos (Hey, teacher, leave us kids alone!), que andam em fila, sem rosto, com uniformes, enquanto são levados para uma grande máquina de moer carne, agora se corporifica na figura do próprio Roger Waters cantando no estádio. E, pelo que vi, não havia ironia nisto, os papéis se misturaram e não há mais como separar um do outro.
Flutuando sobre a platéia havia um porco todo grafitado. No Brasil foi feito pela dupla Osgêmeos (atualmente muito criticada pela comunidade do grafiti e do pixo por terem "se vendido ao sistema", coisa que 90% deles pretende fazer, mas não conseguiu ainda). Nele estava escrito: Muita Fé e Pouca Luta.
Evidentemente, o show de Roger Waters é um local de Culto, de Fé, e não de mobilização para Lutar contra aquilo que estava sendo criticado... Tempos bicudos...
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