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12.1.14

Pequena tragédia do cotidiano adolescente

Como já aconteceu faz um bom tempo acho que podemos contar uma triste história que aconteceu com um de meus alunos.
O garoto estava um pouco defasado em sua escola anterior, pois tinha Síndrome de Tourette e tentava agora na nova escola se adaptar melhor ao ritmo do ensino médio.
Como aquela escola era um espaço com grande diversidade de alunos, apesar dos tiques e comportamentos diferenciados, o aluno conseguiu um espaço, alguns amigos, e dava andamento ao curso, apesar das dificuldades.

Algumas pessoas não estão acostumadas a esta síndrome: O comportamento é bem diferenciado, e muitas vezes quem a têm sofre espasmos, faz gestos involuntários, se move de uma maneira diferente, e em algumas situações fala palavrão. Fala muito palavrão. Recentemente um goleiro com Tourette foi expulso do jogo pois o árbitro ficou incomodado com o palavreado do jogador.

Os colegas gostavam dele, que era um garoto muito divertido, sabia das suas características e muitas vezes brincava com elas. Tanto que era presença constante nas festas dos colegas.

Uma destas festas foi no condomínio fechado onde morava uma aluna, e como os pais estavam viajando, a molecada aproveitou para levar todo o tipo de bebida possível para fazer um churrasco.
Na festa estava o pessoal da escola e o pessoal do condomínio. Lá pelas tantas, todo mundo bêbado, acontece uma intriga entre o pessoal da escola e os moradores. Obviamente era por causa de mulher, alguém mexeu com alguém, e o namorado de alguém foi tirar satisfação e o amigo de alguém ficou macho, em suma, aquela história clássica.

No meio daquela bagunça de empurra-empurra, o rapaz com Tourette ficou tenso, e começou com os tiques e a soltar palavrões para todos os lados, o que deixou o pessoal do condomínio enfurecido, e o grupo cercou o rapaz. Os colegas, quando viram a situação, ficaram desesperados, e começaram a gritar: "Cara, deixa ele, ele têm problema, não faz de propósito", e alguns tentaram defender o rapaz, mas era tarde. Começou um espancamento sem dó do rapaz, que não tinha a mínima condição de se defender. A violência só parou quando o rapaz estava insconsciente, de tantos socos e chutes.

A agressão foi tamanha que o rapaz teve afundamento craniano e passou duas semanas em coma, entre a vida e a morte. Um de seus amigos me trouxe uma foto dele no hospital, e se tivessem me dito que ele tinha sido atropelado por um ônibus eu acreditaria. Destruído.

Não tive mais notícias dele depois disto, mas sei que se recuperou dos ferimentos do corpo, mas tenho certeza de que a vida dele seria melhor se isto não tivesse acontecido com ele...

28.4.13

Sobre o Vídeo da Mulher sendo Decapitada no Facebook e os julgamentos

Uma das notícias mais comentadas nos grande portais nesta semana foi a divulgação no Facebook da decapitação de uma mulher no México. Parece que o vídeo continuou por um certo tempo no ar mesmo depois de muitos usuários terem denunciado como impróprio.

Para mim este vídeo suscita duas grande questões:

O Fascínio que temos pelo escabroso

Que a violência nos excita, em especial aos homens, todo mundo sabe. Mas há um apelo que o Nojo, o Desagradável, o Mórbido e o Repugnante nos traz. Existe inclusive um culto a isto, com nos filmes e games Gore americanos e japoneses. Quanto mais tripas, sangue e cabeças voando melhor. Tem a ver com o que chamamos de "curiosidade mórbida". O que gera repulsa curiosamente atrai. Se você digitar a palavra Gore no Google vai entender o que estou falando (e acho que existe uma grande chance de você querer fazer isto, é este o instinto a que me refiro).
Podemos criar uma série de justificativas para assistir ao filme, mas todas elas escondem uma curiosidade mórbida que movimenta os programas de noticiário e faz com que tentemos dar uma espiada no acidente que aconteceu no trânsito, gerando congestionamentos e ibope.

Só para lembrar, esta cultura vêm de longe, muito longe. No México podemos ver sobrepostas duas culturas que elevaram ao status de Culto a adoração mórbida: Os Maias e o Catolicismo. Sacrifícios Humanos são comuns por lá faz tempo, e quando os europeus trouxeram sua cultura apresentaram mais uma situação do gênero a ser cultuada.






A Violência no México gerou um Estado Paralelo Marcial

Para quem não sabe, a violência no México tem nome e sobrenome: Drogas para os Americanos. Milícias controlam com rigor e violência a região da fronteira e o domínio do tráfico. Há mais de uma década decatitações e outras formas violentas (e espetaculares, visando alertar e intimidar grupos rivais) acontecem, e nenhum governo consegue controlar.
Conversei com algumas pessoas que assistiram o vídeo no Facebook. Para quem assistiu o vídeo, chama a atenção o fato da mulher que está sendo morta não esboçar reação enquanto é brutalmente assassinada. Parece que ela aceita o fato. E este aceitar mostra claramente que a regra, por lá, é clara. Ela sabe o que fez e sabe por que está sendo submetida a isto. E isto, para mim, choca mais do que a parte sanguinolenta da história. Lembra um pouco outros casos no Oriente Médio, quando pessoas são apedrejadas em silêncio. Não apenas por constrangimento ou culpa, mas sim por saberem exatamente a regra, e quais as consequências de seu ato, por mais abominável que isto pareça para nós.
Questionarmos o Oriente Médio pelas suas atrocidades sem questionarmos as violências que acontecem na América decorrentes de uma demanda de droga para os americanos (e toda a complexidade do debate da discriminalização das drogas, etc) é no mínimo hipócrita de nossa parte.


23.11.12

Estamos realmente vivendo uma época mais violenta?

Uma notícia triste: Jovem religiosa e de um grupo contra a violência é morta em chacina.
Odeio ver este tipo de coisa na mídia, pois dá um certo desânimo, parece que a luta por uma cidade mais civilizada está fadada ao fracasso. Parece que a banda podre da polícia e a bandidagem estão ganhando esta guerra que para o cidadão comum não faz sentido, ele só quer viver sua vida em paz, enquanto outros grupos estariam tomando o controle da situação.

Mas há uma outra possibilidade de interpretação do que está acontecendo, e é sobre isto que gostaria de refletir.
Já faz algum tempo que alguns observadores estão alertando: A violência que estamos vendo na TV não é necessariamente associada às facções criminosas, ou o crime organizado. Estão colocando todos os fatos dentro de uma só gaveta, como se a violência em SP fosse toda associada a um só fator ou fato.

Esta maneira de pensar têm suas origens. Pensamos de maneira linear, necessitamos criar um sentido, criar histórias. Não aceitamos o acaso, o aleatório. Precisamos fazer com que todas as coisas se conectem, façam um sentido juntas. E nem sempre este raciocínio é correto, ele muitas vezes pode ser ilusório.

A reação natural ao lermos a infeliz notícia desta jovem é acharmos que ela foi assassinada por ser uma defensora da paz, mas existem tantos outros fatores que podem ter gerado esta tragédia. Ela poderia estar no lugar errado, na hora errada, acompanhada de gente que era visada, ou nenhuma destas possibilidades.

Outro fator é o interesse que a própria mídia têm de alimentar estas histórias, eles querem vender notícias. Se querem chamar a atenção e as pessoas estão atentas à determinados fatores, a notícia vai acabar sendo tendenciosa para ser mais bem recebida.

Estas complexidades acabam sendo deixadas de lado, e acabamos simplesmente tirando conclusões errôneas. E acreditamos nelas.

9.4.12

Serbian Film - Até Onde Vai a Sexualidade?

Serbian Film (Um Filme Sérvio) é um filme grotesco, e mal acabado. Não é para todas as pessoas, pois trata de um dos mitos da pornografia hardcore, os Snuff Movie. Seriam filmes de sexo com morte e violência reais, e, da mesma maneira que existe muita gente que acredita que sejam lendas urbanas, num mundo complexo em que vivemos hoje não seria de todo absurdo que existissem coisas assim sendo comercializadas de maneira clandestina.
Do ponto de vista cinematográfico o filme é mediano, trata da história de um ator pornô recém-aposentado (com mulher e filho pequeno) que é convidado a estrelar um último filme, com a condição de não saber o roteiro, ganhando uma fortuna. Sem perspectivas e atiçado pela vida pregressa de astro do pornô, o cara topa e cai numa armadilha onde perversidade, violência e sexo se misturam.
Não é o primeiro filme a atiçar a curiosidade com a possibilidade de realmente existir este submundo. O mais antigo que me lembro chama Canibal Holocausto, um suposto documentário sobre uma filme que teria saído do controle. Sangue, tripas, tribos estranhas e mulher pelada.

No caso de Um Filme Sérvio há a questão nacional da Sérvia, um país fruto da fragmentação sangrenta da Iugoslávia, onde genocídios horrorosos aconteceram, e vizinhos mataram vizinhos a machadadas, no estilo Jason do Sexta-Feira 13, o que poderia sugerir uma metáfora da tensão naquela terra, mas isto transparece de maneira pouco sutil e meio abobada num discurso do diretor do filme que está sendo rodado. O que interessa mesmo é o Gore, a sanguinolência, e a mulherada pelada sendo despedaçada. Não há crítica no filme, só reafirmação do gênero, um Subtrash confirmando o interesse em Corpos Mutilados e... Mulher Pelada. 

Ah, você acha que estou exagerando? Há revistas especializadas no assunto, como a Girls & Corpses, com simulações de violência e mulherada rebolante.

O bom e velho Freud estava com a razão total sobre nossa pulsão primordial (Id), que é essencialmente Sexo e Violência. Podemos sublimar, transformar em arte ou simular nas parafilias por aí. Mas a coisa mexe com as pessoas. 

Logicamente não somos movidos sempre em busca de Sexo ou de Violência: De acordo com Frans de Waal somos parte Chimpanzé, parte Bonobos: O ser humano seria uma versão bipolar dos dois. Chipanzés usam da violência para obter sexo, e Bonobos usam o sexo para evitar a violência. Oscilamos entre estes dois primos próximos, e vamos seguindo com nossas ambiguidades em relação ao tema. Pena que o filme não traga esta questão, e no final, aja com punição moralista em relação aos protagonistas...

20.2.12

O Lado B de São Paulo

Lado B, para quem não é da época do vinil, significa o lado menos interessante das coisas. Muita banda tinha de inventar música para poder "rechear" uma bolacha inteira, e nem sempre as melhores músicas ficavam no fim do disco. Daí o termo "Lado B".


Hoje fui correr, como sempre, e aproveitei para passear por caminhos ainda não conhecidos pros lados da Cracolândia. Pode parecer maluquice correr no centro de SP, mas é uma experiência única.
Salvo o cheiro, nem sempre agradável, há praças e prédios lindos. A praça em frente à Igreja Sagrado Coração de Jesus é linda, e a igreja é incrivelmente bonita. É uma região que está isolada, no meio do caos em que se tornou o baixo centro.


Nem tudo está perdido, e nem todos os lugares do centro são horríveis ou destruídos, mas parece que morar no centro é coisa exótica. Um amigo me disse: Você deveria escrever mais sobre esta sua experiência de morar no centro...


Aí fiquei pensando: Por que? O que faz esta experiência tão diferente nos dias de hoje?


E a resposta é simples: Conviver com o diferente e com as diferenças é cada vez menos valorizado na prática, apesar de toda lenga-lenga teórica que ouvimos por aí. Falta prática para a classe média conviver com o diferente. Só quando faz redação na escola e propõe projeto social.


Isto não significa que assistir uma blitz policial seja "normal". Na minha corrida de hoje vi meia dúzia de policiais suando para controlar vinte nóias perto da Santa Ifigênia. Mas sei que a classe média está mais preocupada em que os nóias não cheguem perto dos condomínios fechados onde habitam do que tentar resolver o problema. Parece que os "outros" são o problema, por isto que ainda hoje quem é o grande cronista do pensamento (e da sordidez) da classe média seja o Nélson Rodrigues.
Como disse um sábio taxista, "Meu filho é Viciado, o filho dos outros é Dependente Químico".


Que tal o movimento "Ocupa São Paulo" se transformar em "Viver São Paulo"? A cidade é linda, mas enquanto as pessoas não reocuparem os espaços públicos, não adianta reclamar, eles vão continuar abandonados. Parece óbvio, mas não é.