Let´s Go!

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13.8.12

Para que serve uma Loja Conceito?

Uma pequena aula de Marketing, para quem se interessa pelo assunto.

Nos últimos vinte anos surgiu uma estratégia interessante relacionada a Pontos De Venda (ou PDV, como são chamados): Lojas podem ir além do papel de venderem produtos, elas podem refletir as características que a marca quer deixar na mente das pessoas. 
Entrar numa loja é ter uma experiência sensorial poderosa que muitas vezes uma marca necessita. Cheiros, iluminação, atendimento ambientação, comunicação visual, tudo colabora para o fortalecimentos de percepções que uma empresa deseja imprimir quando usa outros meios, como a publicidade. A publicidade tenta simular glamour? A loja pode oferecer uma experiência de glamour. A marca quer que o cliente associe tecnologia aos produtos desenvolvidos? O PDV pode ser ambientado de uma maneira que crie o "Uau" necessário e fortaleça os ideais que são divulgados na publicidade.

Várias marcas têm apelado para a criação das Lojas Conceito. Algumas pioneiras, como a Apple e a Prada de Nova Iorque, deslumbram seus clientes, que saem embasbacados com a experiência vivida na loja.

No Brasil, e em especial em São Paulo, há um ícone de glamour que é a Rua Oscar Freire. Ela simboliza um ambiente refinado, onde pessoas refinadas e com dinheiro passeiam e consomem. Nada mais natural que muitas marcas percebessem que colocar uma Loja Conceito neste ponto agregaria muito valor às marcas.
Existem várias lojas por lá, a da Nespresso, da Natura, das Havaianas, e a da Haagen Dazs.

Para quem não sabe, o nome Haagen Dazs não significa absolutamente nada. Era uma empresa que fazia excelentes sorvetes nos Estados Unidos e não conseguia se posicionar no mercado de maneira diferenciada. Quem mandava no mercado dos sorvetes de luxo eram as empresas europeias, mais chiques. O dono da sorveteria resolveu criar um nome pomposo e nórdico e a marca deslanchou.

No Brasil há relativamente pouco tempo, a Haagen Dazs se deu bem, e a marca conseguiu se posicionar no segmento Premium com eficácia. E a Loja Conceito foi uma consequência das estratégias deste posicionamento.

Mas.... (sempre tem um Mas)


... A loja desandou. Apesar de receber inúmeros clientes por dia, o atendimento ficou precário. Na minha última visita (ontem), tinha mais supervisores que funcionários. E os funcionários suando para poder atender.
No modelo de gestão aplicado, todos funcionários devem saber fazer tudo. O cara que faz o seu milkshake é o mesmo que vai limpar o banheiro (espero que lave a mão). O resultado? Quanto mais milkshake pedido, menos o banheiro é limpo.

Resumindo, a Loja Conceito exalava confusão, atendimento precário, bagunça, insatisfação, filas enormes e o banheiro similar ao de rodoviárias de antigamente, pois hoje os banheiros das rodoviárias são mais limpos que o da Loja Conceito da Haagen Dazs.

Demorei 45 minutos para ser atendido, mesmo estando com meu filho pequeno e tendo prioridade no atendimento, ninguém teve coragem de usar o banheiro e saí com a sensação de que o tiro (de fortalecer a marca) saiu pela culatra...

Do ponto de vista do Marketing, é melhor não ter nenhuma Loja Conceito assim do que ter a loja e fazer o cliente associar estas características com a marca.

PS -  A foto do banheiro é meramente ilustrativa, não tive coragem de fotografar o estado do local.

9.8.12

Shut Up - O Caso do Bolo Maldito

Já com idade avançada, extremamente devota e solidária, a Tia Lú andava muito preocupada com a saúde do padre de Ariranha, cidade de menos de dez mil habitantes do interior de São Paulo. A doença o impedia de realizar as missas, e o pobre sacerdote estava na cama há tempos.

"Vou levar um bolo para o padre", decidiu a Tia Lú. E fez um bolo, com todo o carinho do mundo.

Alguns dias depois de ter levado o bolo, o padre morreu. E a Tia Lú não se conformava...

Pouco tempo depois, um primo da Tia Lú adoeceu. E ela não perdeu a oportunidade:

"Vou levar um bolo para o meu primo". Levou, o primo comeu, e tempos depois o coitado foi dado como desenganado e morreu.

Numa outra vez foi o dono da padaria. Não deu outra. Foi só receber o bolo que a saúde piorou e acabou morrendo.

Durante um bom tempo todos os cidadãos de Ariranha tremiam ao ouvir a campainha. Vai que a Tia Lú estava lá, sorridente, com um bolo na mão...

1.8.12

A falácia das campanhas de publicidade inovadoras

Sei que há um lado positivo e interessante ao se inovar em comunicação. Sou inclusive um disseminador de novas maneiras de comunicar, e minha agência, a UmaCentral, realiza projetos bastante instigantes e eficazes.


Mas... quando vemos nas redes sociais inovações na publicidade precisamos colocar um pé atrás, não por que divulgar produtos e gerar resultados seja ruim, no estilo "o capitalismo é malvado", conversa que tem enchido um pouco a minha paciência nos últimos tempos, pelo excesso de hipocrisia. A grande questão é que ainda não conheço um projeto de comunicação que se sustente apenas na inovação. As grandes agências usam a inovação como chamariz, o formato da campanha sempre é tradicional: Mídias e abordagem adaptadas ao público-alvo, e muito, muito dinheiro envolvido.


Acompanho alguns colegas e ex-alunos postando soluções inovadoras e vejo que há uma falsa sensação de que a inovação na comunicação é a alma do negócio. Não é. Felizmente ou infelizmente, o que consolida a comunicação voltada para gerar negócios é a utilização de canais com frequência necessária para que a mensagem resista perante o universo de outras mensagens pulando na direção do público.


Mas não daria para fazer isto de maneira inovadora, sempre? Não sei se é possível. Primeiro porque o público enjoa, quer outra coisa, rejeita a inovação intensa e frequente. Ele quer um pouco de inovação, mas nada que o tire de sua zona de conforto. E do ponto de vista conceitual, inovar sistematicamente é sistematizar a inovação, o que acabaria definindo como um modelo tradicional de comunicação. Como diz o vilão de "Os Incríveis", se todos formos especiais, ninguém mais será especial....


Sejam bem-vindas as comunicações nas novas mídias e nos novos formatos, e seja bem vinda a inovação. Mas que ela não sustenta uma comunicação consistente, não sustenta.

31.7.12

Shut Up! Palavras com duplo sentido

Esta aconteceu com minha mãe, durante uma longa viagem de carro que fizemos pelo sul do Brasil.
Nossa primeira parada foi Curitiba, e como minha mãe tinha um compadre que morava lá, fomos visitar a família.
No meio da conversa com o compadre, apareceu uma bonita moça de uns 14 anos. Era a filha mais nova dele, que só conhecíamos de ouvir falar. E o compadre apresenta a filha:

- Esta é a minha filha mais nova, a Jéssica.

No mesmo momento minha mãe olha espantada para o amigo e pergunta:

- Jéssica? Sério? Você deu este nome para sua filha?

O compadre, meio sem graça, concorda, e fica olhando intrigado para minha mãe, que continua a falar (ô hora boa para ficar quieta...)

- O sobrenome de vocês é Basso. Você deu o nome da sua filha de Jéssica? Assim o pessoal vai chamar a moça de Jessi Cabaço!

Pela cara do compadre da minha mãe, em 14 anos de vida ela era a primeira pessoa que tinha percebido esta possibilidade.

Nem preciso dizer que ficamos mais uns quinze minutos por lá, e nos últimos vinte anos nunca mais mantivemos contato com o compadre da minha mãe...

30.7.12

Shut Up! - Coisas que você não deve falar para sua namorada

Esta não é minha, mas vale a pena ser citada.
Sabe quando sua namorada fala que gosta que você seja sincero com ela? Que fale o que pensa? Que se abra, sem medos? Então, não é para acreditar, OK? Este é o erro mais comum dos homens. E de vez em quando a coisa pode ficar praticamente impossível de ser consertada.


Tenho um primo que passou por isto. A namorada dele sempre esteve meio fora do peso, brigando contra a balança. E ele nunca pareceu se importar com isto, mas para ela emagrecer era muito importante.


Um dia ela perguntou para ele se ela tinha emagrecido, se a dieta estava funcionando. Ele não teve dúvidas e respondeu:


- A dieta não está funcionando, mas eu acho bom, sabe por que? Porque eu adoro pelanca! Adoro uma pele flácida, uma estria, as dobras nas suas costas...


E o pior de tudo é que ele gosta mesmo, e acha a namorada bonita e sexy. Mas depois desta ele passou uns bons meses tentando se acertar com ela, que achou inaceitável o que ele disse...

25.7.12

Folha - Vale a pena cobrar pelo conteúdo online?



A Folha de São Paulo online mudou sua postura comercial, e de uns tempos para cá passou a cobrar pelo conteúdo de seu portal. Descobri isto através de um sistema criado por eles que reduz em 20 páginas gratuitas de acesso por internauta. A partir daí, bloqueia o acesso ao conteúdo.
Como não entrei mais no portal da Folha, não sei se eles desistiram de sua estratégia ou mantém a restrição.




Considero equivocada esta estratégia de rentabilizar conteúdo do Grupo Folha. Primeiro por uma razão muito simples: O usuário acostumado a um produto totalmente gratuito tem resistência a entrar em um modelo pago (mais que resistência, beira a rejeição, se sente enganado). Por que a pessoa pagaria a partir de hoje por algo exatamente igual ao que acessava ontem gratuitamente? Fica difícil de entender e impacta na percepção da marca (branding) justamente no seu público fidelizado.

Outra questão importante é o fato da diminuição da relevância enquanto fonte nas redes sociais. Menos pessoas irão compartilhar as notícias deste portal em Facebooks e Twitters, o que diminui a presença da marca na mente das pessoas e a quantidade de visitação. E as redes sociais não podem ser ignoradas, basta lembrar que no último censo o Facebook já tinha mais de 900 milhões de usuários, aproximadamente uma pessoa em cada 13 no mundo têm conta nesta rede.


A estratégia pode ser parecida com a que a Igreja Católica têm feito, a partir do Papa Bento XVI (e já sendo engendrada por ele na gestão anterior) que é a redução de fiéis visando fortalecer a fé naqueles que realmente vivem a experiência religiosa católica. Em suma, deixar de lado os "meio-fiéis", que chamamos aqui no Brasil de católicos não-praticantes, aceitar a perda deste grupo e focar nos que interessam. Talvez o Grupo Folha tenha seguido este exemplo. Mas acredito que existissem outros recursos de fortalecimento de resultados sem usar este caminho. Nem sei se fidelizar neste caso não seja uma tentativa de impor um modelo offline dentro de um cenário online que já estabeleceu parâmetros próprios e dinâmicos, diferentemente do modelo de venda de jornal que já existe há mais de cem anos.


É inegável que as pessoas estão deixando de ler, em especial jornais diários pagos. Os assinantes diminuem a cada dia, mas os concorrentes com conteúdos simples e gratuitos ocupam espaço no mercado e ganham dinheiro com ... publicidade! Pode parece incrível, mas aquele velho modelo de divulgação em mídia impressa está vivo e gerando faturamento para jornais regionais e segmentado, há vários estudos sobre eles disponíveis na Internet.


O Grupo Folha diversificou seus produtos, como venda de livros, aplicativos pagos, mas imagino que seja muito dolorido para a gestão tradicional do jornal aceitar que ele tenha virado parte de um todo (do ponto de vista de faturamento), e que a fonte de onde os produtos derivam (o portal e as notícias) seja apenas uma parcela de onde vem o dinheiro.


Também imagino a dificuldade de gerenciar duas plataformas tão distintas (do ponto de vista de modelo comercial e de relacionamento com o usuário), sem que uma não "canibalize" a outra. É possível manter o jornal pago e o portal gratuito? É uma hipótese, mas pela reação do Grupo Folha provavelmente os resultados forçam a empresa a se movimentar em alguma direção.


Não sei quanto custa manter uma equipe de jornalistas de qualidade que investiguem notícias ao invés de repassar press releases. Sei que folha de pagamento não é barato, mas sei também que reestruturações, investimentos em mídia, etc etc também não são baratos, muitas vezes é mais caro que gente.



Uma das coisas que vejo com clareza é que não está se discutindo uma reformulação de produto e de politica comercial simultânea. O que se quer é impor um novo modelo comercial sem reformular o produto, e isto não dá certo.


Um caso interessante que vale como comparação é o de uma banda chamada Propellerhead. Há alguns anos atrás eles foram responsáveis por vários sucessos, muitos vindos da trilha sonora que fizeram para o filme Matrix.


Para poderem desenvolver uma trilha interessante eles tiveram de criar seu próprio software de música, o Reason. Apesar do sucesso como banda, eles perceberam que havia pessoas interessadas em usar o software que desenvolveram para criar suas próprias músicas. Assim, entraram no mercado de programação e começaram a vender o Reason.


O Reason foi um sucesso, mas ele é um produto de nicho, extremamente segmentado, de alto custo e de alta complexidade. Não é todo mundo que consegue usar o software. Assim, eles resolveram desenvolver um novo produto, o Figure, voltado para Smartphones, usando uma série de timbres do Reason mas com interface simples e voltado para um público que quer se divertir fazendo pequenas trilhas sentado no aeroporto enquanto o embarque não começa. Coisa rápida e divertida.


A mesma equipe que começou como banda eletrônica vira desenvolvedora de software para segmento musical e depois amplia sua participação no mercado oferecendo um software divertido e poderoso a U$ 0,99 na Applestore.


Há inúmeros casos parecidos com este, como o da Amazon, cuja receita multiplicou a partir do momento em que passaram a oferecer hospedagem de conteúdo, aproveitando uma capacidade de armazenamento ociosa que dispunham.


Obviamente, é mais fácil para quem já nasceu neste novo mundo se mover por ele. O Grupo Folha está tendo a mesma dificuldade que várias empresas que se viram diante de cenários inóspitos e tentaram impor seu modelo ultrapassado para um mundo que mudou. E corre sérios riscos de ser abocanhada por um conglomerado maior, mais ágil e menos indeciso que ele.

22.7.12

Medalha de Honra. Que honra?

Acabo de chegar de uma corrida pelo centro de SP, destas patrocinadas por grandes empresas com um monte de gente vestida igual, procurando brindes e sorteios e tirando foto com celebridade.
Fiquei muito feliz com o convite, e espero poder correr mais vezes este tipo de prova, apesar do meu desempenho sofrível. 7,5 Km em 35 minutos não é lá grande coisa (por sinal, meu GPS, de uma marca concorrente do patrocinador, marcou 7,5 Km mas o patrocinador falava que a corrida era de 5 Km, em quem devo confiar?), mas para quem não corria nada até o ano passado, acho que está bom.


A grande questão me me fez pensar hoje foi ter ganhado uma medalha, grande, bonita, daquelas de "Honra ao Mérito", pela participação, sabe? E na hora que me entregaram imediatamente me lembrei que ganhei outra medalha destas há uns dois anos atrás.


Eu estava voltando para casa à noite quando fui abordado por uma criança moradora de rua. Com a cara de dependente químico em abstinência, ele me pedia qualquer trocado. Fiquei morrendo de pena e resolvi sacar a carteira e dar um trocado. Quando abri a carteira, minha menor nota era de R$ 5,00. Como já tinha parado e feito todo o ritual de "eu vou te dar dinheiro", não tive coragem de recuar, e entreguei a nota para o garoto.


Acho que fazia muito tempo que ele não via uma nota de R$ 5,00, pois arregalou os olhos, se inclinou solenemente em minha direção e agradeceu. Mas, no meio do agradecimento, seu rosto se iluminou, como se tivesse tido uma ideia. Abriu uma lata velha que carregava, tirou uma medalha envelhecida de um maço de medalhas e pendurou no meu pescoço, e foi embora.


Não sei direito se tenho alguma Honra ao Mérito para ter ganhado uma medalha hoje, junto de outras milhares de pessoas que essencialmente sobreviveram ao trajeto proposto. Da mesma maneira não acho que ter dado dinheiro para um jovem nóia poder comprar mais uma pedra de crack seja honroso. Só sei que agora as duas estão penduradas numa escultura de gato que tenho na minha sala, juntas, enquanto o gato olha de uma maneira intrigada pela janela...

20.7.12

Não está na hora de ficar pelado e ver quem você é?

Quando você olha no espelho o que vê?
A maioria das pessoas vê uma entre duas pessoas: Ou alguém melhor que você ou alguém pior que você.
É muito difícil conseguir enxergar aquele alguém que somos. Ou nos vemos cheios de cicatrizes ou enxergamos uma versão melhorada do Brad Pitt.


Com o hiper narcisismo do consumo e das redes sociais, acabamos vivendo coletivamente um transtorno bipolar. Dificilmente nos desnudamos e enxergamos a nossa essência frágil humana. Somos grandes consumidores, poderosos, ou somos simplesmente aqueles que não conseguimos ser aquele quem queríamos ser. E deixamos de enxergar aquilo que somos, só estamos interessados nas projeções que criamos de nós mesmos. Por isto meu interesse em analisar a percepção de realidade das pessoas.


Lucien Freud, neto do Sigmund, foi um artista da pesada. Seu grande tema foi retratar pessoas nuas.  Ele dizia a nudez não seria mais nossa natureza. Somos aquilo que criamos, que montamos. Por isto fica evidente nas telas de Lucien Freud o constrangimento de seus modelos. Há um profundo constrangimento em apenas ser. Não há espaço para sermos menos do que projetamos, ou o que os outros projetam em nós.


Quando foi a última vez que você se olhou nu (e a olho nu) no espelho? Imagino que a vez que isto aconteceu você ficou procurando defeitos, algo perdido, que deveria estar num lugar esperado e não está. Algo que precisa ser melhorado, para que possamos oferecer ao mundo aquilo que tentamos vender, mas não conseguimos entregar.


Acho que deve ser tão difícil conseguir olhar para o espelho e simplesmente se enxergar tal como você é quanto conseguir fazer uma aula de Yoga e passar uma hora sem pensar em nada. 


Olhar, e simplesmente olhar, já não é natural para nós.

3.7.12

Shut Up! Ajudando os Pobres

Seguindo a minha saga de ser uma pessoa incapaz de fechar a boca, mais uma pequena história das bobagens que falo por aí.


Uma vez, quando trabalhava num colégio bastante elitizado, tive a oportunidade de conhecer a ONG responsável pelos projetos sociais de lá. Era semana de planejamento, todos os professores reunidos num salão, e uma senhora começou a falar:


- Antigamente, aqui na frente do colégio, era uma grande favela, com esgoto a céu aberto e muita miséria. Nossos alunos chegavam e tinha toda aquela pobreza, e resolvemos intervir. Começamos uma série de melhorias no local, blábláblá... (e foi listando uma série de atividades desenvolvidas ao longo do tempo).


Quando ela terminou, eu pedi a palavra...


- Gostaria de parabenizar o trabalho da ONG e o esforço, pois o resultado é espantoso! Posso ver que este tipo de intervenção funciona: Hoje o local mudou muito, pois os conjuntos residenciais são lindos, com excelentes apartamentos e áreas gramadas!


Os pobres tinham sido obviamente transferidos para outro local, com a expansão imobiliária na região, e, onde era uma favela, agora tinha prédio com apartamento de dez milhões de dólares e milhares de metros quadrados por unidade.
Nem preciso dizer que depois desta nunca me chamaram para fazer projeto social por lá...

2.7.12

Shut Up! A boa oportunidade de ficar quieto

Inaugurando a coluna Shut Up no meu blog! Sabe aquela belíssima oportunidade de calar a boca que você perdeu? Então, eu sou igual, várias vezes perdi o momento certo e resolvi falar alguma bobagem.


Quando eu morava com minha mãe, final da adolescência, tive uma conversa com ela. Na verdade foi um DR básico. Eu trabalhava, estudava e estava envolvido até a medula com Arte. Minha mãe, preocupada com este papo de Arte, me chamou um dia na cozinha:


- Filho, estou preocupada com seu futuro! Você fica fazendo teatro, tocando teclado, estudando artes plásticas, só vai ao cinema e exposições. Me diga: O que você faz de concreto?


Eu, infelizmente, não resisti...


- De concreto, mãe? Hummm, acho que de concreto mesmo eu só faço cocô...


Como era uma resposta inesperada, minha mãe sequer compreendeu o que eu tinha acabado de falar. Deu três segundos de cara de cachorro (com a cabeça virada para o lado, sabe?), levantou e nunca mais falamos sobre o assunto. Acho que foi a melhor resposta, acho...

21.6.12

Receitas Malditas - O Limão Mumificado

Ninguém aprende a cozinhar de uma hora para outra, portanto, todo mundo em algum momento já sofreu um vexame culinário. Ou vários.

Um dos maiores problemas que tive (do ponto de vista gastronômico) foi quando resolvi fazer "limão mumificado". É uma receita marroquina onde você enterra alguns limões sicilianos no sal grosso e deixa desidratando dentro de um pote por meses. A casca fica muito aromática e é utilizada para vários pratos daquela região.

Pelo que percebi, o ambiente familiar não é local para experiências como esta. Todo o dia algum componente da família irá passar pela cozinha, olhar aquele pote e fazer algum comentário sobre se aquilo não está apodrecendo, ou coisa do gênero.
Meses depois, e agora com uma coloração estranha, você resolve usar o tal do limão. É uma sensação! Crianças correrão ao redor da mesa, vão cheirar e fazer cara de nojo, vão querer segurar um pedaço com a ponta dos dedos enquanto fazem barulhos estranhos e andam na ponta dos pés. 

Quando temperar o frango com aquilo, todos olharão surpresos para você, pois ninguém botou fé que aquilo era real. Achavam que era mais uma esquisitice sua, tipo um hobby, como botar uma cobra no álcool e ficar olhando.

O sabor é uma delícia, aroma intenso de limão, mas gosto suave, muito interessante. E é bom que esteja gostoso, pois você vai comer sozinho aquele negócio, ninguém vai se animar a comer algo daquele pote saído do Mundo de Beakman. Quer fazer limão mumificado? Prepare-se para comer sozinho e ser ridicularizado por alguns meses.
Ah, não se espante se um dia entrar na cozinha e o pote ter desparecido. Sua empregada irá decidir pelo extermínio de seu tempero, alegando insanidade mental. A sua, é claro.

18.6.12

Dilema: Concorrer a dois milhões de reais ou ir ao funeral da irmã assassinada?

A princípio parece um dilema simples, já que todas as pessoas diriam que preferem ir se despedir de sua irmã. Não haveria dinheiro que comprasse o sentimento de ausência e de falta de solidariedade com o resto da família. Mas no mundo de hoje a questão parece ser mais complexa.
Ângela Bismarchi, uma modelo (ou sub-celebridade, como alguns dizem), teve sua irmã assassinada numa briga entre o atual e o ex. Uma triste história que ainda acontece pelo mundo. E isto aconteceu no momento em que a modelo está isolada num reality show. Se ela sair, perde a chance de concorrer ao prêmio. Se ficar, não pode ir ao enterro da irmã.


É um dilema recente, de nossa modernidade (ou do mundo contemporâneo, como quiserem). O primeiro indício deste tipo de situação que me lembro acontece no filme A Montanha dos Sete Abutres, onde Kirk Douglas é um repórter de um jornal sem projeção que é chamado para acompanhar a história de um homem que está preso numa mina e percebe que esta é a notícia que pode fazê-lo ficar famoso.


Por que é tão importante ficar famoso nos dias de hoje? Qual a razão que faz com que as pessoas invistam tanto em "popularidade"? Quando eu este fenômeno em filmes e seriados americanos antigos não parecia algo tão relevante na época, mas hoje isto reflete a sociedade ocidental como um todo. A frase do rapper 50 cent "Get Rich or Die Tryin" poderia ser alterada para "Get Famous or...", pois esta é a questão de hoje.


Por mim, a grande problemática social de nossa sociedade é o sentimento de anonimato. O esvaziamento da vida privada em detrimento de uma vida social intensa aguça a necessidade de sermos alguém para muitos, e não alguém para nós mesmos e nossos entes e parentes. Ser importante é o que importa.


Apesar de o dilema moral colocado no título deste post estar relacionado ao dinheiro, o que se torna evidente é que não tem nada a ver com ele. A tal modelo não é uma pessoa que precise de dinheiro, é casada com um bem sucedido cirurgião plástico (que a remodelou em mais de 40 cirurgias, quase como o criador e criatura do livro Frankenstein). Ela precisa ser popular, a todo custo.


A popularidade, neste sentido, é mais cruel do que o trabalho, já que grande parte das pessoas aceita o trabalho como um fardo e sonha com o dia em que poderá ficar sem fazer nada (outra ilusão). Já a popularidade é diferente, pois a grande maioria das pessoas não quer ser famosa num dia e depois cair no ostracismo. Ninguém quer ser esquecido, e isto move o mundo das sub-celebridades, que estão próximas da fama, e não querem voltar para o buraco de onde vieram.


Vale a pena acompanhar os desdobramentos desta história, ela é parte de algo íntimo de cada um: Como conciliar desejo e responsabilidade?

17.6.12

Quem te interessa no mundo digital?

Coisas da vida: Descobri quase por acaso que estava acompanhando histórias de pessoas que praticamente não conhecia no Facebook. E dá-lhe receber convites de jogos sociais, fotos de festas estranhas e mensagens pré-fabricadas por perfis genéricos.
Do ponto de vista de análise comportamental, tudo bem. Dá para compreender bastante as coisas observando os seres humanos em geral. Mas quanto tempo este tipo de atividade requer? É aí que me vi mergulhado num universo genérico.
Acompanhava questões que não eram relevantes e que me custavam um tempo precioso, necessário a outras coisas da minha agenda. Redes sociais são um assunto importante, mas Coluna Social de semi-desconhecidos é outra coisa. E como dá um certo trabalho configurar direito a conta do Facebook, lá vamos nós observar a enésima garrafa de cerveja com três desconhecidos atrás dela, num bar qualquer.
O que isto me acrescenta? Só a percepção de que estou gastando tempo com informação pouco relevante.


Antigamente dava para sentar numa praça e ver a vida passar, afinal de contas eram algumas dezenas de pessoas que passariam por ali. No Facebook são milhões de pessoas, em breve bilhões. Não dá para acompanhar todo mundo, nem faz sentido isto.


De vez em quando fica a sensação de que seguimos o fluxo e não determinamos aquilo que é relevante para nossa vida. Deixar rolar, fazer fluir, todos os sinônimos de que o barco está a deriva. Na nossa rede social é a mesma coisa. A vontade de participar de tudo que está minimamente próximo faz com que fiquemos distantes da nossa própria timeline, e não estou falando da timeline que o Facebook atribuiu ao nosso comportamento, mas sim aquela que define a nossa passagem pelo planeta e que pode nos permitir ser mais ou menos feliz neste rápido trajeto que chamamos de vida.


Nem todas as informações são essenciais, como também nem todas as pessoas são especiais na sua vida. Ao invés de dar atenção por segundos a inúmeros desconhecidos, que tal dar alguns minutos de atenção para pessoas que são importantes na sua vida?

11.6.12

A Vida em Ciclos

Vejo um monte de gente reclamar no Facebook das contagens da semana. "Pena que é segunda-feira", "Oba, é sexta". Quase infinita a quantidade de pessoas que marcam seus ciclos, e eles se tornam mais evidentes nas redes sociais, afinal de contas podemos ver como nossos ciclos são parecidos com os de outras pessoas.


Nos últimos dias foram os ciclos de Festas Juninas, um monte de fotos da festança pelo Brasil afora. Todo mundo vestido de caipira, perto de uma fogueira, ou algo do gênero. Em breve, o ciclo das férias, com fotos e demonstrações de felicidade.


A mídia também trabalha com estes ciclos, mas com conteúdos. Sempre aparece uma notícia, de tempos em tempos, sobre a existência (ou não) da alma, questões de gênero (homens e mulheres), relacionamentos e por aí vai. Há algumas revistas que são, em si, um ciclo, pela sua periodicidade. Afinal de contas, toda revista Cláudia têm uma matéria sobre beleza, sexo, regime e moda. Ela é, em si, um ciclo, que serve para relembrar questões relevantes para suas leitoras. Mais ou menos como a missa semanal, as corridas pela manhã ou o futebol de quarta-feira.


Curiosamente tem muita gente que não aceita a vida cíclica, parece negar que tudo tem um começo, um meio e um fim.  A começar pela vida. Vivemos numa sociedade que nega sistematicamente a morte, a doença, o fim da juventude, as desilusões. Nos apegamos a ciclos simples, mas nos recusamos a aceitar os complexos, os existenciais.


Talvez seja mais fácil se apegar aos ciclos menores, mais curtos ou menos complexos, que nos dão uma falsa sensação de que na semana, mês ou ano que vem continuaremos neles, mas esquecemos que no futuro, se ele existir, tudo será diferente, e a festa junina será outra festa, com outras pessoas. E mesmo nós não seremos a mesma pessoa.


PS - A foto do idoso e da criança foi devidamente "roubada" da timeline do meu amigo Fábio Betti.

31.5.12

O incrível caso da calcinha misteriosa

Depois de ler o bafafá que está acontecendo no Congresso Nacional, onde foi encontrada uma calcinha perdida, me lembrei imediatamente de um caso que aconteceu comigo há alguns anos atrás.
O escritório da UmaCentral era numa bela casinha amarela, que adaptamos e recebíamos amigos e clientes para almoços e happy hours num quintal com uma grande mesa rodeada por árvores e uma horta. A funcionária mais importante na época era a Maria, nossa cozinheira. Quem mandava lá era ela, por sinal, eu, como mero Sócio-Diretor, concordava, quem iria discordar da Maria?


Um dia, um querido amigo que não posso citar o nome, mas que o Sidnei Basile profetizou que ainda será Ministro da Economia, pediu para fazer um jantar lá. Ele estava morando em Boston e não tinha onde oferecer uma janta para seus pais, quando estivesse no Brasil. Obviamente concordei.
Ele chegou um pouco mais cedo para o jantar, veio direto do aeroporto, e me perguntou se tinha onde tomar um banho. Um dos banheiros tinha chuveiro, e lá foi ele.


O jantar foi uma delícia, comemos, bebemos e matamos a saudade da família do meu amigo. Ficou uma pequena bagunça mas nada que a Maria não desse conta.


No dia seguinte...eu estava trabalhando na minha sala quando a Maria para na porta, séria.


- Seu Alê, ontem teve uma festa aqui, né?
- Claro Maria, desculpe a bagunça.
- Seu Alê, alguém esqueceu alguma coisa, perdeu alguma coisa?
( e me olhava olho no olho)
- Não Maria, que eu saiba não.
- O Senhor tem certeza? Que alguém não esqueceu nada?
- Sei lá, Maria, você achou alguma coisa perdida?


E a Maria me mostra uma calcinha preta de renda, com aquela cara de "seu tarado, fez bunda lelê ontem, né?"


Eu fiquei fritando os neurônios, quem tinha participado do jantar eram os pais do meu amigo, alguns amigos homens. Será que a calcinha era da mãe do meu amigo? De onde veio aquela coisa? E pior, como perguntar para alguém "oi, naquela macarronada que fizemos ontem alguém perdeu uma calcinha, é sua?"


Foram alguns dias de mistério, até que eu resolvi ligar para meu amigo em Boston.


- Você sabe alguma coisa de uma calcinha? Está rolando um mistério aqui na UmaCentral, de onde veio a coisa...
E meu amigo ria.
- Ihhh, quando saí de Boston não queria acordar minha mulher, fui na gaveta de cuecas e peguei por engano uma calcinha dela. Para não ter de entrar no quarto de novo, meti a calcinha e fui para o aeroporto. Quando tomei banho troquei de roupa e esqueci a calcinha no teu banheiro...


Até hoje a Maria não acredita na minha história, continua com aquele olhar intrigado, achando que a macarronada foi muito, muito louca...

30.5.12

Todo Wagner Moura tem seu dia de Zé Bonitinho

Pelo que eu pude ler nas redes sociais não perdi nada ao não assistir a "homenagem" ao Legião Urbana. Alguém teve a ideia incrível de chamar o Wagner Moura para cantar no lugar do Renato Russo, e parece que não deu nada certo, pela simples razão dele ser um bom ator, e não bom cantor.


Por que estas coisas acontecem, quando aparentemente tem tudo para dar certo? Armadilhas mentais é a resposta. Pegamos duas unanimidades, cada uma na sua área (uma banda popular com cantor tragicamente morto no auge do sucesso e um ator/personalidade admirado por todos e todas), misturamos, e obviamente vai dar certo. Ficamos tão cegos com todas as qualidades de nosso pensamento que simplesmente esquecemos o óbvio: O ator precisa ser mais que um cantor de karaokê, ele precisa ser no mínimo mediano, cantar sem envergonhar. Pois é... não deu certo.


Mas o que impressiona é o Wagner Moura ter caído na armadilha, ele parece (ou parecia) mais sensato do ponto de vista profissional, a carreira está bem alinhada, sucesso atrás de sucesso, fiquei imaginando qual a razão de entrar numa roubada destas, e pelo que percebi ele sucumbiu a um problema que lidamos todos os dias, que é a auto-percepção, como nós enxergamos, mecanismo regulado parcialmente pela nossa auto-estima.


Nunca temos uma real percepção de nós mesmos, ou nos sentimos menores do que somos ou maiores. Esta oscilação acontece a todo momento, basta tentarmos abrir um pote de azeitona que passamos a nos achar mais fracos do que deveríamos ser, ou darmos uma moeda de cinquenta centavos para um mendigo e já achamos que somos ótimas pessoas.


Entre o momento Shrek e o momento Zé Bonitinho, parece que o Zé Bonitinho dominou a mente do Wagner Moura. E toca o cara a pagar mico gigante na frente de todo mundo.
Em  maior ou menor grau, já fizemos isto e vamos continuar a fazer. Oscilar é a única maneira de continuarmos andando, e precisamos aceitar isto. Vamos passar a borracha na história, lembrar do Renato Russo cantando, lembrar do Tropa de Elite e vida pra frente. E por favor, marqueteiros de plantão, não lancem um DVD desta experiência fracassada, já basta o YouTube para nos lembrar que um dia o Wagner Moura achou que era o Zé Bonitinho mas cantava como o Shrek...

28.5.12

O que seria do emergente sem o plástico preto?

Antigamente festa na comunidade era uma coisa meio coletiva. A "urbanização" era feita na base do empilhamento de pobres em locais distantes, na periferia. Cabia à própria comunidade construir e/ou gerenciar os espaços coletivos e sociais. Nada de biblioteca e galeria de arte, isto é coisa de elite e gente metida. O espaço coletivo era o da festa. De casamento, de aniversário, era juntar todo mundo num espaço, pegar a mesa emprestada do vizinho, o outro traz a churrasqueira, alguém traz as cervejas, e a festa acontecia.
Estas festas sempre foram divertidas, pois elas até tem um "dono" por assim dizer, mas acabam sendo meio de todo mundo, portão aberto, o pessoal vai chegando, trazendo alguma coisa e a festa continua.
A cerveja é ruim, o churrasco é de frango e linguiça, a caixa de som está chiando, mas a diversão rola solta. Em especial pelo fato das pessoas estarem querendo se divertir, há interesse genuíno de todos em dar vazão à brincadeira, em comer uma maionese num prato de plástico e aproveitar um pouco as coisas boas da vida.


Mas não é só de diversão que as pessoas vivem, as pessoas também querem ter status, para se diferenciar dos outros e serem mais especiais do que a média. Isto vale para todo mundo, com raras exceções. E é aí que surge o indefectível plástico preto...


O espaço da festa, antes semi-coletivo (portão aberto, chão de terra batido) dá lugar à garagem, onde um carro lustroso apresenta a família para os vizinhos. Hoje o carro é mais bem tratado que muito filho por aí.
E é no espaço da garagem que começam a acontecer as festas na periferia e na classe média emergente. 


Como gerar exclusividade? Jogando o plástico preto na grade da garagem para que a vizinhança não possa ver o que está acontecendo lá dentro.


Presidenta Dilma, ao invés de baixar o IPI para carros para estimular o consumo, se eu fosse você eu distribuiria quilômetros e quilômetros de plástico preto para a classe C, que hoje já tem carro, já tem garagem, o que ela quer mesmo é seguir o isolamento social que a antiga classe média buscou ao se esconder nos condomínios fechados espalhados pela cidade...
Não acho que seja o melhor caminho, mas aparentemente é o que todo mundo quer.

25.5.12

Pornografia de antigamente - O que eu vi

Antigamente pornografia era uma coisa muito diferente de hoje. Não sei por que enquanto estava preso no trânsito lembrei da primeira vez que vi um filme pornográfico. Faz uns quatrocentos anos, mais ou menos.


Estava na 7a série, começo dos anos 80, e nossa turma de amigos ia muito na casa do Antônio, que ocupava um quarteirão inteiro no Morumbi. O pai dele tinha ganhado muito dinheiro na construção da usina de Itaipu, a mãe era um doce de pessoa e ficávamos na piscina e jogando bola o dia inteiro.


O Antônio tinha todos os brinquedos bacanas, e era um cara muito tímido e humilde, nunca foi de contar vantagem. Não consigo me esquecer de um caminhão de controle remoto que ele tinha, que abria a porta de trás e saía uma Ferrari também de controle remoto. Coisa linda.


Um dia o Antônio comentou que tinha um projetor de filmes Super 8 (eu falei que faz 400 anos...), e que o pai trouxera uns filmes do Paraguai. Fomos até a sala de jogos e o pessoal começou a montar o projetor. Fiquei fascinado com aquele objeto, que só tinha visto grandão, 35mm, quando ajudava meu tio a rebobinar os filmes no cinema que ele tinha no interior. Achei o máximo da modernidade aquele aparelho "pequeno" que podia trazer o cinema para dentro de casa. E lá numa caixa tinha uma meia dúzia de rolos de filmes, incluindo um de três minutos do primeiro Star Wars. Olhei para o filme e tentei agitar o pessoal para assistir, mas todos eles estavam com um olhar "diferente", e o Antônio com um rolo sem identificação na mão.


Luzes apagadas, eu todo animado para ver cinema em casa, e começa a passar um filme sem áudio, com a maior quantidade de gente branca que eu já tinha visto. E quando falo branco estou dizendo branco geladeira, que reflete luz no escuro. Eu não entendi nada, a cena era meio boba, era um encanador que chegava com uma ferramentas e uniforme na casa de uma mulher, e, sem nenhuma explicação aparente, daqui a pouco os dois estavam pelados e dá-lhe rala-rala!


Não sei dizer muito bem o que senti, mas passava longe do tesão. Achei estranho, deve ter sido a primeira vez que vi gente pelada num filme, sei lá. Mas era muito estranho, pois era um filme sueco, dinamarquês, e todo mundo parecia muito sério para estar transando. Eu imaginava que sexo era uma coisa mais envolvente... aqueles caras poderiam facilmente ligar, pedir uma pizza, comer a pizza e reciclar a embalagem durante o ato sexual sem atrapalhar a performance. Ô gente fria, sô.


A pornografia mudou muito nos últimos tempos, o acesso é na base do clique, imediato. O Super 8 sumiu (o Antônio também), não sei se ainda fazer filmes de sexo nórdico, mas entendo de certa maneira por que lá existem as maiores taxas de suicídio do mundo... Se sexo animado for aquilo, recomendo evitar a região...

24.5.12

Hoje é o Dia do Nunca!

Durante uma conversa com uma de minhas filhas, ela me perguntou: "Por que você está agindo assim? Você nunca agiu assim antes comigo". E eu pensei bastante sobre este tal de Nunca. E descobri que todo o dia é dia do Nunca.
Nunca vivi o dia de hoje, nunca passei pelos problemas que hoje vou passar, nunca vi o trânsito deste jeito, nunca acordei de um sonho como o de hoje.


Cada dia apresenta sua singularidade, e a cada momento pensamos coisas novas, mudamos de conceitos, somos colocados em situações novas ou nos colocamos deliberadamente em situações para as quais nunca fomos preparados.


Se aceitarmos este Nunca diário, talvez não fiquemos chocados com a mesmice aparente do cotidiano, talvez descubramos novas maneiras de enfrentar problemas que nunca enfrentamos antes, e encontraremos soluções que nunca tínhamos pensado antes.


O Sempre é um perigo, principalmente por que a maioria das pessoas o procura insistentemente. Todos querem ser Sempre felizes, Sempre saudáveis, Sempre bem sucedidos, e sabemos que Nem Sempre ele acontece. Na verdade, ele Nunca acontece.


Aceite que hoje é o Dia do Nunca e abra sua cabeça e seu coração para o que o pode acontecer. É um dos encantos da vida.

23.5.12

A Sociedade distorce nossa noção de Beleza?

Do ponto de vista de comunicação, este pequeno cartaz é um primor. Bem posicionado (no espelho), gera reflexão e atinge questões de autoestima, autopercepção, muito bom.
Mas será que realmente o modelo de beleza é totalmente construído pela sociedade, e é "distorcido"?


Para podermos analisar esta questão precisamos separar as coisas. A primeira é a questão do modelo de beleza, o que é ele, para que serve, suas origens, etc. Por outro lado, ele é ou está distorcido? E há responsabilidade da "sociedade" por isto? Quem seria esta "sociedade", afinal de contas?


Pelo lado mais primitivo (ou mais básico, no sentido de base da construção do modelo de beleza), a beleza está associada a Simetria. Quanto mais simétricos somos, mais belos somos considerados. Isto vale para todas as culturas humanas, e pelo que parece está associada ao instinto de sobrevivência. Preferimos escolher a maçã simétrica pois ela provavelmente é mais saudável que a maçã assimétrica, que pode apresentar algum problema. Isto faria que associássemos a Simetria a algo bom, e esperado nas coisas. E nos seres humanos também. Combater esta base de associação que temos é complexo e exige muito esforço, pois nossos padrões de aceitar a diversidade, de "beleza interior" são relativamente recentes se comparados com este padrão da Simetria, que é muito antigo do ponto de vista evolutivo.


Mas a beleza, no caso desta imagem, está associada a autoestima e a autopercepção. E estas são coisas totalmente associadas à aceitação por parte do grupo, à comparação. Quer seja do ponto de vista filosófico ou evolutivo, queremos mais do que apenas sermos aceitos pelos grupos: Queremos estar bem posicionados hierarquicamente neles. Almejamos destaque, e este destaque se faz através de valores cultuados por este grupo.
Com a globalização e a aglomeração social em torno dos meios digitais, grupos e redes, alguns valores dos grupos menores se fortaleceram, e outros se dissolveram. Pequenos grupos manifestam seus valores, mas o poder massivo dos grandes grupos define padrões, que não necessariamente são aqueles que compartilhamos, mas que não podemos negar que existam.


Antigamente culpávamos a mídia, a televisão e às propagandas pelo fator "exclusão" dos diferentes, mas hoje a mídia percebeu o potencial mercado que estava ficando fora de seu universo de consumidores ao desenvolver este discurso e focou no diferente. Dois bons exemplos são a Nike e a Unilever. A Nike mudou seu slogan e sua comunicação há alguns anos deixando de lado o foco nos esportistas famosos e de alta performance para vender "Just Do It", cujo princípio é: Vá fazer esportes, todo mundo pode... Melhor vender tênis para milhões de assimétricos do que para alguns milhares de simétricos, não é? A mesma lógica foi usada pela "Campanha pela real beleza", do sabonete Dove, que associava a marca às mulheres belas, mas não necessariamente dentro dos padrões rígidos de beleza globais.


Hoje os padrões são ditados pelas pessoas, pelos milhões de pessoas que se inter relacionam através das redes sociais. E se formos julgar do ponto de vista do Efeito Manada, muito provavelmente teremos modelos e padrões de beleza ainda mais rígidos, a julgar pela tentativa insana das pessoas de serem absolutamente simétricas e dentro do modelo atual do que é belo. O que, pelo que percebo no caso das mulheres, (infelizmente) hoje o visual padrão é a Barbie. A modelo russa da foto ao lado está fazendo de tudo para ser uma Barbie da vida real... E milhões de pessoas estão compartilhando a foto dela neste momento. Inclusive eu...