Let´s Go!

Let´s Go!
Let´s Go!

29.11.12

A Morte de um ex Bóia Fria

Para quem não sabe, Bóia Fria é o nome dado ao trabalhador rural que sai de casa muito cedo, vai trabalhar na lavoura por um salário muito baixo e leva uma marmita que não tem onde esquentar.


Se você acha que estou falando que o Lula morreu, errou. É sobre o Joelmir Beting, um dos mais respeitados jornalistas das últimas décadas. E o Lula nunca foi Bóia Fria, imigrou do nordeste e foi vendedor de picolé na praia, para ser mais preciso.

Depois de muito batalhar na lavoura conseguiu estudar, entrou na USP (não me lembro se em Economia ou Sociais) e depois seguiu carreira em jornalismo, e assim foram 55 anos na área.

Sempre admirei o Joelmir Beting, jornalista extremamente elegante, polido, muito bem informado, com uma das ironias mais refinadas que já pude ver. Ele definitivamente sabia do que estava falando, e acho que é isto que mais me chamava a atenção nele.

Estamos num mundo onde a grande maioria das pessoas não sabe do que está falando, fala por replicar o que os outros falam, ou por convicções e opiniões, vivemos num mundo opinativo e superficial no geral. Quando encontramos alguém que sabe o que está falando, muitas vezes é um acadêmico, com todo o ranço empolado e vaidoso de seu conhecimento. E este definitivamente não era o caso do Joelmir Beting.

Meus avós eram fãs dele, assistiam aos jornais que ele apresentava e ele servia de parâmetro para saberem o quanto os outros jornais eram tendenciosos.

Sua figura pública foi construída pelo valor que deu ao que buscou, ao que correu atrás. Se me dissessem que ele era um príncipe europeu que tinha estudado em Harvard eu acreditaria. Sua origem (ou a narrativa ficcional existencial que criamos para justificar nosso comportamento) não faz diferença.


Gozado me lembrar daquela famosa frase da peça "O Violinista no Telhado", quando o pai está em cima da casa, conversando com Deus. Ele diz: " Deus, sei que ser pobre não é vergonha para ninguém, mas, cá entre nós, não é nenhum motivo de orgulho..."

Hoje, ser pobre (de espírito, de conhecimento, de valores, etc etc) virou motivo de orgulho. E por isto que um cara como o Joelmir Beting vai fazer falta.

26.11.12

É possível sumir?

De vez em quando dá uma vontade de sumir... Mas será que é possível simplesmente desaparecer?
Os números variam, mas muitas pessoas somem sem deixar rastros todos os dias. Numa matéria de jornal o número é de onze por dia só no Estado de São Paulo. Mas estes números incluem pessoas que foram sequestradas e mortas. O que estamos falando aqui é de pessoas que desistem da vida que levavam e tentam desaparecer, reinventar sua vida.

O caso mais recente é do cantor Belchior, que um dia largou o carro no aeroporto e não deu mais sinal de vida. Foi encontrado pela mídia no Uruguai, e agora dizem que está devendo dinheiro para hotéis daquele país.

Acho que sonhar com sumir não é anormal, mas realizar esta vontade deve ser para poucos. Do ponto de vista da dificuldade e do total desenraizamento daquilo que foi construído até aquele momento da vida.

As poucas entrevistas que li com pessoas que resolveram desaparecer não dão grandes explicações. Imaginamos estas pessoas com problemas sérios, ameaçadas, tensão. Mas o que elas relatam é algo mais subjetivo, sem grandes explicações. Há algo dentro delas que faz com que decidam ir embora, largar tudo.

Minha experiência pessoal com isto foi bastante dura. Um dia ouvi de meu pai que tinha sido tão difícil gerenciar a situação da separação com minha mãe que ele decidiu num determinado momento que não tinha mais filhos, e foi viver a sua vida. Naquele dia andei uns dez quilômetros para poder digerir a frase. Posso dizer que entendo o que as pessoas sentem quando um parente resolve desaparecer. Mas não culpo ninguém de desejar isto.

Curiosamente podemos reinventar nossas vidas a cada dia, não há nada que nos impeça de simplesmente mudar, rever aquilo que acreditamos e fazemos, reinventar nossos relacionamentos, tudo. Sabemos que podemos fazer isto, mas o mundo que está construído ao nosso redor parece muito mais poderoso do que nossa existência. E moldamos nossa vida ao mundo. Fica uma sensação de não-plenitude do viver.
Será que sumir resolveria? Não tenho muita certeza. Me lembro imediatamente de um ótimo trecho do livro A Arte de Viajar do Alain de Botton onde ele resolve sair de férias para esquecer de tudo ao seu redor e quando chega ao local paradisíaco que escolheu percebe quetodas as suas preocupações foram junto dele. Não dá para tirarmos férias de nós mesmos...