Já tinha visto muito Consultor Motivacional, mas Taxista foi a primeira vez.
Entrei no Táxi e comecei a bater papo, como faço sempre. Fui puxando assunto e o taxista começou a falar que a empresa dele tinha falido, que a mulher tinha ido embora, só história ruim. E ele comparava a mulher a um personagem de novela, a Carminha. "Sabe a Carminha? (eu não sabia, mas tudo bem) Minha ex-mulher é igual a Carminha. Minha vida está um inferno". E só reclamava.
Tentei amenizar a situação, fazer com que o figura não ficasse tão triste com suas histórias. Aí ele me contou que dava para cada passageiro um papel. Ele tinha três, um para cada tipo de passageiro.
Meu dia tinha sido bom, depois de uma série de problemas no começo do ano, eu estava um pouco mais "de bem" comigo mesmo. As coisas estavam começando a entrar no eixo, e estava bastante motivado. Tanto que tentava motivar o pobre Taxista, que só contabilizava negativamente os últimos acontecimentos de sua vida.
Aí ele me perguntou sobre a minha vida. Contei que tinha passado por umas situações difíceis nos últimos tempos, mas que estava numa fase ascendente. E ele olhou para mim e disse: "Nossa, você está numa situação complicada, hein?" E eu disse que não, que as nuvens já estavam saindo do céu, e o sol estava voltando a iluminar. E ele insistiu: "Sua vida é difícil".
Quando chegamos, fui descer do táxi mas ele não deixou. Me lembrou do papel que iria me dar. E disse que tinha três papéis diferentes. Um para as pessoas que conversavam com ele, batiam papo e eram receptivas. O segundo era para pessoas meio desanimadas, mas com um fundo de esperança no tom da voz. E o terceiro era para pessoas quietas, pouco receptivas, mal-humoradas e baixo astral.
"Qual papel você acha que vai receber?", ele disse.
Como me parece que estou bem, e estava particularmente bem-humorado, disse que achava que ia receber o primeiro.
"Errou! Você vai receber o terceiro. Está muito desanimado e precisa sair desta sua situação. Precisa ser mais bem-humorado e levar a vida de uma maneira mais leve".
Tirou um folheto do bolso e me entregou. Eu recebi a mensagem e saí do táxi.
E fiquei pensando: Como as pessoas projetam na gente seu estado de humor... Minha lição naquele dia foi que tem muita gente que parece querer nos ajudar, mas a maioria está tentando ajudar a si mesmo, mas não sabe disto.
Let´s Go!
Let´s Go!
4.3.13
28.2.13
Desencanto não é Autopiedade. Ou é?
Não há uma definição clara para o que chamamos de Depressão. O debate clínico sobre o assunto é extenso, e é comum usarmos o termo como sinônimo de "tristeza", o que não é adequado.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.
E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.
Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?
A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.
E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.
Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?
A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.
21.2.13
Ai Weiwei no Brasil
Até abril poderemos ver um pouco da obra do artista chinês Ai Weiwei no MIS, em SP.
Para quem nunca ouviu falar, Weiwei é um dos artistas críticos ao regime da China. Mas seu trabalho não se restringe ao (duríssimo) papel de criticar o governo chinês vivendo na China.
Se você não vai a um certo tempo ver exposições, é um bom momento para tirar a poeira da mente e aproveitar esta oportunidade rara de ver as fotos que retratam um pouco o cotidiano do artista que ainda está impedido de sair do país e que de vez em quando dá uma sumida ou dão uma sumida com ele...
Para quem nunca ouviu falar, Weiwei é um dos artistas críticos ao regime da China. Mas seu trabalho não se restringe ao (duríssimo) papel de criticar o governo chinês vivendo na China.
Se você não vai a um certo tempo ver exposições, é um bom momento para tirar a poeira da mente e aproveitar esta oportunidade rara de ver as fotos que retratam um pouco o cotidiano do artista que ainda está impedido de sair do país e que de vez em quando dá uma sumida ou dão uma sumida com ele...
20.2.13
O fantasma do aeroporto
Quando ele estendeu a mão minha reação foi automática: nos cumprimentamos e fiquei com aquele olhar de "de onde nos conhecemos mesmo"?
Era um senhor de meia idade, poderia entrar numa fila de terceira idade pelas rugas e olhar cansado. Não estava mal vestido, mas sua roupa tinha traços de também estar próxima da aposentadoria.
Eu estava jogando o tempo fora, coisa que não sei fazer direito, mas o aeroporto nos obriga a isto. De certa maneira estou precisando treinar ficar sem fazer nada. O excesso de preocupação faz com que a gente deixe de se colocar num estado de ócio, parece que poderíamos estar fazendo algo de produtivo ao invés de estarmos inertes, improdutivos. A conclusão é que quando não fazemos algo acabamos nos sentindo culpados. E ninguém relaxa com a culpa corroendo o coração.
Sou um bom decifrador de expressões, a vida me fez assim, ou assim fiz a vida. O olhar dele me passava uma impressão ambígua, de um lado um certo orgulho e certeza. Seus gestos eram claros e precisos, não havia suplica, parecia um discurso seguro, de homem experiente.
Mas por outro lado algo não ornava.
Ele me dizia que tinha de viajar para ver o filho, que era antigo funcionário do setor de aviação e que tinha sido demitido com a reestruturação do setor. Agora, precisava visitar o filho, mas precisava inteirar a viagem com uma ou duas centenas de reais, e por isto pedia minha ajuda.
Curiosamente, a última coisa que ele aparentava era estar pedindo alguma coisa. Nem parecia pedir atenção, estava num percurso, numa performance para si mesmo.
A história toda era furada, mas não seria isto que não me faria ajudar. O que gerava o estranhamento era uma sensação de que ele realmente não queria o dinheiro, ou melhor, ele não queria gerar empatia.
Talvez ele tivesse sido um gerente de baixo escalão, mais para "chefe" que para líder. Talvez fosse daqueles pais que chegam em casa em silêncio, depois do longo dia de trabalho e ficam numa poltrona ruminando ou lendo o jornal.
Quem sabe ele fosse uma daquelas pessoas que explodem, emocionalmente instáveis, que acham que os outros são obrigados a aguentar tudo, por ela ser importante demais ou por eles serem importantes de menos.
Olhei firmemente nos seus olhos e sem a mínima emoção disse que não poderia ajudar. Que desejava boa sorte, e esperava que ele tivesse sucesso no que procurava.
Ele continuou a olhar para mim, sem se mexer, olhos parados.
Típicamente judeu, ele disse. Agem como se fossem ajudar, mas no final não ajudam. Postura de judeus.
Se eu não saísse andando depois de um tempo ficaríamos ali por toda a eternidade.
Voltei para a livraria alguns minutos depois, e ele tinha ido embora. Voltei porque achei que realmente poderia ajudar. Pensei em conversar com ele sobre alguns furos na sua abordagem. Podia oferecer uma visão amoral de fora que o ajudaria a conseguir abordar pessoas e gerar mais empatia. Mas ele não estava lá.
Ao andar pelos corredores ouvi sua voz, e ele estava se aproximando de um grupo de pessoas ao lado do banheiro. Parei do lado de uma coluna para analisar sua estratégia. Foi quando percebi que não havia uma estratégia, muito menos um objetivo.
Ele não queria obter dinheiro contando uma triste história, ou se queria no meio do caminho desqueria. Em poucos segundos estava gritando com todos ao seu redor. O Brasil era assim, cheio de gente que não prestava, gritava.
Foi aí que percebi que estava diante de um fantasma, que perdera toda a complexidade humana, mas adquirira todas as matizes da amargura e do rancor, típicas da tristeza que sentimos nos tropeços da vida.
Como no conto de Natal americano, eu me senti diante do meu próprio futuro, talvez cheio de mágoa e rancor. Meu perigoso futuro estava querendo pegar o avião comigo. E ele estranhamente havia se encontrado com o meu presente desprovido de emoção, que acha que cada um carrega seus fardos, e que os fardos dos outros não tem nada a ver comigo.
Se meu fantasma do futuro tivesse se encontrado com o meu eu do presente, aquele que saiu correndo em direção dele querendo ajudar, o que teria acontecido? As duas energias, do presente e do futuro, se anulariam ou se alimentariam?
Devemos aceitar que todos os sentimentos viajem com a gente no mesmo avião ou simplesmente devemos deixar alguns deles para fora de nossa viagem?
Naquele dia resolvi não deixar que a mágoa e o ressentimento viajassem comigo. Espero tomar esta decisão sempre.
17.1.13
Misterioso Símbolo no Centro de SP
Não sou grande conhecedor de símbolos de seitas e coisas do gênero, mas sei reconhecer uma coisa estranha quando vejo.
Estava indo fazer ginástica quando reparei num tijolo totalmente diferente numa mureta da árvore, cimentado no chão, com uma imagem de um tipo de corvo. Quando vi melhor parecia feito de madeira, mas foi cimentado embaixo dos tijolos, não faz sentido nenhum estar lá.
Alguém sabe dizer o que significa esta imagem? Quem poderia ter colocado isto?
Abaixo um vídeo que fiz para mostrar onde está, em detalhes.
Estava indo fazer ginástica quando reparei num tijolo totalmente diferente numa mureta da árvore, cimentado no chão, com uma imagem de um tipo de corvo. Quando vi melhor parecia feito de madeira, mas foi cimentado embaixo dos tijolos, não faz sentido nenhum estar lá.
Alguém sabe dizer o que significa esta imagem? Quem poderia ter colocado isto?
Abaixo um vídeo que fiz para mostrar onde está, em detalhes.
15.1.13
Por que gente velha gosta de lembrar do passado?
Não há tempo que não seja dinâmico. Passado, Presente e Futuro não são estáticos, eles dependem de como percebemos estes momentos. Cada vez que revemos algum evento vivido fazemos leves alterações na percepção dele. O que parecia um fato triste é interpretado como algo bom hoje, e talvez no futuro seja considerado um evento ruim novamente, mas por outras razões.
A mesma coisa pode acontecer em tempo real: Uma situação que está sendo vivida pode ser percebida de várias maneiras, e esta percepção pode mudar em fração de segundos, dependendo de como você se sente em relação a ela. Mudou a emoção e/ou o contexto a percepção muda.
Nossos projetos e expectativas em relação ao futuro? A mesma coisa. Só que estamos mais acostumados a enxergar o futuro de uma maneira incerta e cheia de possibilidades.
Menos as pessoas velhas. Estas sabem que há poucas incertezas no futuro delas, ele passa a ser cada vez mais concreto com a proximidade da morte. Talvez por isto o mistério do "pós-morte" vendido pelas religiões seja tão sedutor quando envelhecemos. Parece nos dar uma sobrevida na dúvida perante o futuro. Certezas absolutas, em especial a da morte, não são muito bem-vindas para ninguém.
Podemos transformar nosso passado numa especie de playground existencial. Como tudo de certa maneira pode ser transformado, podemos definir que nossas experiências do Passado foram todas positivas de alguma maneira, para construir aquilo que somos hoje, e o poder de sedução desta miragem transforma nossa maneira de enxergar o Presente e mesmo o Futuro.
Se para os jovens a miragem do Futuro (infinito, poderoso e cheio de surpresas, mas só as boas) leva a uma percepção de que tudo será bom e que o fim está longe, não precisamos nos preocupar com isto, para os velhos a miragem está justamente no Passado, ou em alguma religião que permita que o Futuro seja infinito, como quando somos jovens.
A mesma coisa pode acontecer em tempo real: Uma situação que está sendo vivida pode ser percebida de várias maneiras, e esta percepção pode mudar em fração de segundos, dependendo de como você se sente em relação a ela. Mudou a emoção e/ou o contexto a percepção muda.
Nossos projetos e expectativas em relação ao futuro? A mesma coisa. Só que estamos mais acostumados a enxergar o futuro de uma maneira incerta e cheia de possibilidades.
Menos as pessoas velhas. Estas sabem que há poucas incertezas no futuro delas, ele passa a ser cada vez mais concreto com a proximidade da morte. Talvez por isto o mistério do "pós-morte" vendido pelas religiões seja tão sedutor quando envelhecemos. Parece nos dar uma sobrevida na dúvida perante o futuro. Certezas absolutas, em especial a da morte, não são muito bem-vindas para ninguém.
Podemos transformar nosso passado numa especie de playground existencial. Como tudo de certa maneira pode ser transformado, podemos definir que nossas experiências do Passado foram todas positivas de alguma maneira, para construir aquilo que somos hoje, e o poder de sedução desta miragem transforma nossa maneira de enxergar o Presente e mesmo o Futuro.
Se para os jovens a miragem do Futuro (infinito, poderoso e cheio de surpresas, mas só as boas) leva a uma percepção de que tudo será bom e que o fim está longe, não precisamos nos preocupar com isto, para os velhos a miragem está justamente no Passado, ou em alguma religião que permita que o Futuro seja infinito, como quando somos jovens.
8.1.13
Patrulha Ideológica até no caso Zeca Pagodinho
Cansei do mau humor generalizado, das patrulhas do Politicamente Correto em tudo. E em tudo mesmo, até no caso do Zeca Pagodinho.
Foi muito bonito de ver o pagodeiro ajudando as pessoas do seu bairro, bonito mesmo. Mostra um outro lado do cantor, conhecido pelas suas atitudes boêmias (ou brahmas, sei lá) e seu incrível senso de humor. Qualquer entrevista com ele faz o mais azedo dos mortais se matar de rir.
Ver ele no meio da enchente ajudando as pessoas engrandece a imagem do cantor.
Mas brasileiro adora humor e a imagem do Zeca "do boteco" salvando pessoas não combina. Se por um lado o torna uma figura mais interessante, por outro lado gera um baita estranhamento. É o arquétipo do Palhaço subitamente se transformando em Herói. E daí o surgimento dos vários memes divertidos sobre o assunto.
A parte ruim é que os mau humorados de plantão já ficaram ofendidos com o fato. Acham um desrespeito, que estão desqualificando o heroismo dele. Estão nada, as pessoas só estão se divertindo, humor não é necessariamente ofensivo e agressivo.
Mas o mau humor sempre é ofensivo e agressivo.
Por um mundo com mais humor e menos gente azeda! E viva o Zeca! Boêmio, Palhaço e Herói.
Foi muito bonito de ver o pagodeiro ajudando as pessoas do seu bairro, bonito mesmo. Mostra um outro lado do cantor, conhecido pelas suas atitudes boêmias (ou brahmas, sei lá) e seu incrível senso de humor. Qualquer entrevista com ele faz o mais azedo dos mortais se matar de rir.
Ver ele no meio da enchente ajudando as pessoas engrandece a imagem do cantor.
Mas brasileiro adora humor e a imagem do Zeca "do boteco" salvando pessoas não combina. Se por um lado o torna uma figura mais interessante, por outro lado gera um baita estranhamento. É o arquétipo do Palhaço subitamente se transformando em Herói. E daí o surgimento dos vários memes divertidos sobre o assunto.
A parte ruim é que os mau humorados de plantão já ficaram ofendidos com o fato. Acham um desrespeito, que estão desqualificando o heroismo dele. Estão nada, as pessoas só estão se divertindo, humor não é necessariamente ofensivo e agressivo.
Mas o mau humor sempre é ofensivo e agressivo.
Por um mundo com mais humor e menos gente azeda! E viva o Zeca! Boêmio, Palhaço e Herói.
21.12.12
Você sabe o que quer de quem você gosta?
Esta semana cheguei a uma conclusão simples, mas que acho importante para refletir sobre o que esperamos dos outros.
Existem inúmeras variáveis relacionadas ao nosso afeto, mas algumas fazem parte do Universo Adulto com mais frequência. Entenda Universo Adulto como aquele em que temos consciência de que não podemos ter tudo aquilo que desejamos, aquele onde temos de negociar com o outro, pois reconhecemos que o outro não é uma projeção de nossos desejos, mas sim outra entidade, que também busca suas coisas nesta vida. Se não há reconhecimento do outro enquanto outro, mas sim enquanto projeção de nossos desejos, não estamos nos relacionando com ele, mas sim com nossas expectativas em relação a ele, ou seja, não há o outro.
Numa relação podemos listar três variáveis fundamentais: O Sujeito (Quem), a Ação (O Que) e o Tempo (Quando). Para exemplificar: Desejo que Maria (O Sujeito) Faça Massagem em Mim (Ação) Todos os Dias (Tempo).
Qual dos três elementos é mais relevante para você? Maria, Massagem ou Todos os Dias? É importante definir para poder entender o que realmente deseja. A relevância vai determinar o que você procura.
Se para você a relevância é Maria, tem de entender que as outras duas variáveis podem ser negociadas. Pode ser que Maria não saiba fazer Massagem, ou que não queira fazer Todos os Dias. Talvez o resultado seja aproximado do que queria, mas nem sempre absolutamente igual ao esperado. Talvez Maria possa fazer Carinho Todos os Dias, ou Maria Faça Massagem De vez em Quando.
Se a relevância é Todos os Dias, talvez não seja necessária Maria, qualquer pessoa sirva, contanto que seja Todos os Dias. Se a relevância é Massagem, talvez nem seja Maria nem Todos os Dias.
Se você quer massagem, talvez seja necessário desvincular seu desejo de que Maria a faça. Esperar que Maria faça a Massagem pode gerar um transtorno na relação com Maria. Procure alguém que faça Massagem e aceite que Maria não pode te oferecer isto. Se sua relação com Maria depende disto, talvez seja melhor repensar sua relação. Mas se não depende disto e há outras coisas importantes associadas a Maria, não espere que ela satisfaça seu desejo. Vai surgir uma tensão entre vocês, pois você espera algo dela que na verdade não é dela, mas sim algo que está dentro de você.
Você realmente gosta de Massagem? Talvez Maria não. Então por que ficar frustrado com Maria? Por que culpa-la por isto? Por que entrar em conflito por isto?
Não dá para negar que existem questões morais que impedem algumas Ações (Quero que Maria Mate seu Pai Hoje), mas a equação funciona em muitas situações do cotidiano das relações interpessoais, e vale a pena pensar nela antes de jogar toda a responsabilidade na Maria pelo fato de ela não querer fazer massagem em você. Isto é um problema mais seu do que dela...
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14.12.12
Cultura, Futebol e O Público e O Privado
Durante a apresentação de Ballet Clássico de minha filha Isabel uma mulher começou a gritar:
"Vai Cíntia!!!"
A voz grossa e alta ecoou pelo teatro algumas vezes, e as quinhentas pessoas que assistiam foram brindadas com a efusiva mensagem.
Num primeiro momento achei (de verdade) que a infeliz tinha gritado "Vai Corinthians!!!", mas depois percebi que ela gritava o nome da amiga, com o mesmo tom que o grito da torcida corintiana. Mas dentro de um teatro, durante o Ballet Clássico...
Duas constatações:
Primeira
Da mesma maneira que a cultura elitizada (livros, dança clássica, teatro, museus, etc.) absorveu a cultura da periferia (grafiti, rap, street, etc.), seria interessante que o processo também acontecesse no sentido contrário. Nada contra expressar a emoção ao ver a amiga dançando, mas gritar no meio da apresentação é totalmente inconveniente e inadequado.
Este fenômeno também está associado à questão do espaço Público e do Privado. Como podemos ver também nos cinemas, as pessoas não diferenciam mais estas duas esferas. O ambiente público é tratado como a sala de casa, e as pessoas conversam nos cinemas como se estivessem assistindo DVD no sofá.
É bom lembrar que cada espaço têm seu jeito de ser, seus protocolos, e eles devem ser respeitados para uma melhor fruição daquilo que estamos assistindo.
Segunda
Fico extasiado com o amor que as pessoas têm pelos times de futebol, e como transformam um esporte em algo verdadeiramente significativo nas suas vidas.
No caso da amiga gritando no meio do espetáculo, a cultura popular entranhou até na maneira dela se manifestar, semelhante aos gritos de torcida de futebol.
Esta semana vimos três grandes manifestações disto. Os corintianos, que no Brasil soltaram rojões a noite inteira antes de um jogo no Japão (além do monte de gente que vendeu tudo para acompanhar o jogo do outro lado do mundo), os palmeirenses que louvaram num jogo simbólico o seu goleiro amado, e os são-paulinos indo ao delírio por ganhar um jogo onde o time adversário simplesmente abandonou o jogo antes de terminar.
E eu fico pensando: Que inveja desta gente! Eu olho para o futebol e não tenho nenhum apego, para mim não faz nenhum sentido. Como seria bom que minha alegria fosse ditada por um fenômeno esportivo, e que minha personalidade fosse moldada como nos horóscopos, e se eu fosse corintiano seria de um jeito, se fosse palmeirense seria de outro jeito...
Mas não consigo ser assim. Tem um lado Woody Allen dentro de mim que pensa na infinitude do universo e dos bilhões de galáxias explodindo em direção ao nada enquanto os torcedores debatem se foi escanteio ou não. Deve ser muito bom ter uma vida definida por padrões assim, e estou falando sério. É chato demais pensar nas agruras da vida, no que podemos mudar em nosso comportamento, na existência como um todo...
Acho que bateu em mim um momento Cypher, aquele personagem que quer voltar para a Matrix, esquecer o horror que é a realidade, e simplesmente comer um bife suculento sem precisar pensar em nada...
10.12.12
Considerações sobre um ensaio de Ballet
Assistindo o ensaio de Ballet Clássico de minha filha fiquei pensando: Como é intrigante esta coisa da dança, das pessoas tentarem o impossível.
Uma das regras básicas da vida é aceitar a força da gravidade. Quando jogamos coisas para o alto, elas caem. E quando pulamos, voltamos depois de um certo tempo para o chão.
Curiosamente o Ballet Clássico tenta contrariar esta regra básica. Os bailarinos ficam na ponta dos pés, tentam alçar vôo. Aí me perguntei: Será que eles não sabem que por mais que tentem a lei da gravidade ainda vai puxa-los para baixo? Por que esta insistência em tentar algo que não vai conseguir? Algo impossível?
E aí me dei conta que fazemos este tipo de coisa o tempo todo. Que não nos contentamos com o que temos, com a vida que vivemos, e por mais que saibamos que existem coisas impossíveis, vamos lá, tentamos o impossível. Só que no Ballet há uma luta contra algo visivelmente inatingível.
Não sei se algum filósofo já refletiu sobre o patético, mas acredito que é algo a ser investigado filosoficamente... Mas sei que a Arte trata do assunto, e para mim a primeira pessoa que vem na cabeça é o Kazuo Ohno, e seu Butoh. Há algo de patético e frágil na existência. É diferente da Tragédia Grega, que é bela quando trata da impossibilidade de fugir de seu próprio destino. Se na Tragédia a orientação da vida, para onde nos destinamos, é o grande tema, nossa trajetória, independentemente para onde vamos, têm algo de patético.
Platão conta em algum de seus livros a história de um belo e forte guerreiro de Atenas que vai para a guerra no anseio de morrer belo e jovem, em combate. E quando chega lá, é acometido de uma diarréia que impede que ele lute, e ele é obrigado a voltar, todo borrado, para casa. E esta seria uma grande humilhação, ele fora traído pela sua condição humana.
Este tipo de coisa acontece o tempo todo no nosso dia-a-dia. Somos confrontados com nossas limitações, com nossas fragilidades, enquanto tentamos parecer grandiosos, inatingíveis ou superiores.
Assumir a impossibilidade de nossos objetivos, ou assumir o quanto agimos de forma débil e errática nos faz lembrar que somos humanos, que não nos foi dada a possibilidade de sermos como os deuses.
É na tentativa de voarmos mesmo sabendo que não temos asas que nossa complexidade existencial se revela, de forma sublime e ridícula ao mesmo tempo.
Uma das regras básicas da vida é aceitar a força da gravidade. Quando jogamos coisas para o alto, elas caem. E quando pulamos, voltamos depois de um certo tempo para o chão.
Curiosamente o Ballet Clássico tenta contrariar esta regra básica. Os bailarinos ficam na ponta dos pés, tentam alçar vôo. Aí me perguntei: Será que eles não sabem que por mais que tentem a lei da gravidade ainda vai puxa-los para baixo? Por que esta insistência em tentar algo que não vai conseguir? Algo impossível?
E aí me dei conta que fazemos este tipo de coisa o tempo todo. Que não nos contentamos com o que temos, com a vida que vivemos, e por mais que saibamos que existem coisas impossíveis, vamos lá, tentamos o impossível. Só que no Ballet há uma luta contra algo visivelmente inatingível.
Não sei se algum filósofo já refletiu sobre o patético, mas acredito que é algo a ser investigado filosoficamente... Mas sei que a Arte trata do assunto, e para mim a primeira pessoa que vem na cabeça é o Kazuo Ohno, e seu Butoh. Há algo de patético e frágil na existência. É diferente da Tragédia Grega, que é bela quando trata da impossibilidade de fugir de seu próprio destino. Se na Tragédia a orientação da vida, para onde nos destinamos, é o grande tema, nossa trajetória, independentemente para onde vamos, têm algo de patético.
Platão conta em algum de seus livros a história de um belo e forte guerreiro de Atenas que vai para a guerra no anseio de morrer belo e jovem, em combate. E quando chega lá, é acometido de uma diarréia que impede que ele lute, e ele é obrigado a voltar, todo borrado, para casa. E esta seria uma grande humilhação, ele fora traído pela sua condição humana.
Este tipo de coisa acontece o tempo todo no nosso dia-a-dia. Somos confrontados com nossas limitações, com nossas fragilidades, enquanto tentamos parecer grandiosos, inatingíveis ou superiores.
Assumir a impossibilidade de nossos objetivos, ou assumir o quanto agimos de forma débil e errática nos faz lembrar que somos humanos, que não nos foi dada a possibilidade de sermos como os deuses.
É na tentativa de voarmos mesmo sabendo que não temos asas que nossa complexidade existencial se revela, de forma sublime e ridícula ao mesmo tempo.
29.11.12
A Morte de um ex Bóia Fria
Para quem não sabe, Bóia Fria é o nome dado ao trabalhador rural que sai de casa muito cedo, vai trabalhar na lavoura por um salário muito baixo e leva uma marmita que não tem onde esquentar.
Se você acha que estou falando que o Lula morreu, errou. É sobre o Joelmir Beting, um dos mais respeitados jornalistas das últimas décadas. E o Lula nunca foi Bóia Fria, imigrou do nordeste e foi vendedor de picolé na praia, para ser mais preciso.
Depois de muito batalhar na lavoura conseguiu estudar, entrou na USP (não me lembro se em Economia ou Sociais) e depois seguiu carreira em jornalismo, e assim foram 55 anos na área.
Sempre admirei o Joelmir Beting, jornalista extremamente elegante, polido, muito bem informado, com uma das ironias mais refinadas que já pude ver. Ele definitivamente sabia do que estava falando, e acho que é isto que mais me chamava a atenção nele.
Estamos num mundo onde a grande maioria das pessoas não sabe do que está falando, fala por replicar o que os outros falam, ou por convicções e opiniões, vivemos num mundo opinativo e superficial no geral. Quando encontramos alguém que sabe o que está falando, muitas vezes é um acadêmico, com todo o ranço empolado e vaidoso de seu conhecimento. E este definitivamente não era o caso do Joelmir Beting.
Meus avós eram fãs dele, assistiam aos jornais que ele apresentava e ele servia de parâmetro para saberem o quanto os outros jornais eram tendenciosos.
Sua figura pública foi construída pelo valor que deu ao que buscou, ao que correu atrás. Se me dissessem que ele era um príncipe europeu que tinha estudado em Harvard eu acreditaria. Sua origem (ou a narrativa ficcional existencial que criamos para justificar nosso comportamento) não faz diferença.
Gozado me lembrar daquela famosa frase da peça "O Violinista no Telhado", quando o pai está em cima da casa, conversando com Deus. Ele diz: " Deus, sei que ser pobre não é vergonha para ninguém, mas, cá entre nós, não é nenhum motivo de orgulho..."
Hoje, ser pobre (de espírito, de conhecimento, de valores, etc etc) virou motivo de orgulho. E por isto que um cara como o Joelmir Beting vai fazer falta.
Se você acha que estou falando que o Lula morreu, errou. É sobre o Joelmir Beting, um dos mais respeitados jornalistas das últimas décadas. E o Lula nunca foi Bóia Fria, imigrou do nordeste e foi vendedor de picolé na praia, para ser mais preciso.
Depois de muito batalhar na lavoura conseguiu estudar, entrou na USP (não me lembro se em Economia ou Sociais) e depois seguiu carreira em jornalismo, e assim foram 55 anos na área.
Sempre admirei o Joelmir Beting, jornalista extremamente elegante, polido, muito bem informado, com uma das ironias mais refinadas que já pude ver. Ele definitivamente sabia do que estava falando, e acho que é isto que mais me chamava a atenção nele.
Estamos num mundo onde a grande maioria das pessoas não sabe do que está falando, fala por replicar o que os outros falam, ou por convicções e opiniões, vivemos num mundo opinativo e superficial no geral. Quando encontramos alguém que sabe o que está falando, muitas vezes é um acadêmico, com todo o ranço empolado e vaidoso de seu conhecimento. E este definitivamente não era o caso do Joelmir Beting.
Meus avós eram fãs dele, assistiam aos jornais que ele apresentava e ele servia de parâmetro para saberem o quanto os outros jornais eram tendenciosos.
Sua figura pública foi construída pelo valor que deu ao que buscou, ao que correu atrás. Se me dissessem que ele era um príncipe europeu que tinha estudado em Harvard eu acreditaria. Sua origem (ou a narrativa ficcional existencial que criamos para justificar nosso comportamento) não faz diferença.
Gozado me lembrar daquela famosa frase da peça "O Violinista no Telhado", quando o pai está em cima da casa, conversando com Deus. Ele diz: " Deus, sei que ser pobre não é vergonha para ninguém, mas, cá entre nós, não é nenhum motivo de orgulho..."
Hoje, ser pobre (de espírito, de conhecimento, de valores, etc etc) virou motivo de orgulho. E por isto que um cara como o Joelmir Beting vai fazer falta.
26.11.12
É possível sumir?
Os números variam, mas muitas pessoas somem sem deixar rastros todos os dias. Numa matéria de jornal o número é de onze por dia só no Estado de São Paulo. Mas estes números incluem pessoas que foram sequestradas e mortas. O que estamos falando aqui é de pessoas que desistem da vida que levavam e tentam desaparecer, reinventar sua vida.
O caso mais recente é do cantor Belchior, que um dia largou o carro no aeroporto e não deu mais sinal de vida. Foi encontrado pela mídia no Uruguai, e agora dizem que está devendo dinheiro para hotéis daquele país.
Acho que sonhar com sumir não é anormal, mas realizar esta vontade deve ser para poucos. Do ponto de vista da dificuldade e do total desenraizamento daquilo que foi construído até aquele momento da vida.
As poucas entrevistas que li com pessoas que resolveram desaparecer não dão grandes explicações. Imaginamos estas pessoas com problemas sérios, ameaçadas, tensão. Mas o que elas relatam é algo mais subjetivo, sem grandes explicações. Há algo dentro delas que faz com que decidam ir embora, largar tudo.
Minha experiência pessoal com isto foi bastante dura. Um dia ouvi de meu pai que tinha sido tão difícil gerenciar a situação da separação com minha mãe que ele decidiu num determinado momento que não tinha mais filhos, e foi viver a sua vida. Naquele dia andei uns dez quilômetros para poder digerir a frase. Posso dizer que entendo o que as pessoas sentem quando um parente resolve desaparecer. Mas não culpo ninguém de desejar isto.
Curiosamente podemos reinventar nossas vidas a cada dia, não há nada que nos impeça de simplesmente mudar, rever aquilo que acreditamos e fazemos, reinventar nossos relacionamentos, tudo. Sabemos que podemos fazer isto, mas o mundo que está construído ao nosso redor parece muito mais poderoso do que nossa existência. E moldamos nossa vida ao mundo. Fica uma sensação de não-plenitude do viver.
Será que sumir resolveria? Não tenho muita certeza. Me lembro imediatamente de um ótimo trecho do livro A Arte de Viajar do Alain de Botton onde ele resolve sair de férias para esquecer de tudo ao seu redor e quando chega ao local paradisíaco que escolheu percebe quetodas as suas preocupações foram junto dele. Não dá para tirarmos férias de nós mesmos...
Será que sumir resolveria? Não tenho muita certeza. Me lembro imediatamente de um ótimo trecho do livro A Arte de Viajar do Alain de Botton onde ele resolve sair de férias para esquecer de tudo ao seu redor e quando chega ao local paradisíaco que escolheu percebe quetodas as suas preocupações foram junto dele. Não dá para tirarmos férias de nós mesmos...
23.11.12
Estamos realmente vivendo uma época mais violenta?
Uma notícia triste: Jovem religiosa e de um grupo contra a violência é morta em chacina.
Odeio ver este tipo de coisa na mídia, pois dá um certo desânimo, parece que a luta por uma cidade mais civilizada está fadada ao fracasso. Parece que a banda podre da polícia e a bandidagem estão ganhando esta guerra que para o cidadão comum não faz sentido, ele só quer viver sua vida em paz, enquanto outros grupos estariam tomando o controle da situação.
Mas há uma outra possibilidade de interpretação do que está acontecendo, e é sobre isto que gostaria de refletir.
Já faz algum tempo que alguns observadores estão alertando: A violência que estamos vendo na TV não é necessariamente associada às facções criminosas, ou o crime organizado. Estão colocando todos os fatos dentro de uma só gaveta, como se a violência em SP fosse toda associada a um só fator ou fato.
Esta maneira de pensar têm suas origens. Pensamos de maneira linear, necessitamos criar um sentido, criar histórias. Não aceitamos o acaso, o aleatório. Precisamos fazer com que todas as coisas se conectem, façam um sentido juntas. E nem sempre este raciocínio é correto, ele muitas vezes pode ser ilusório.
A reação natural ao lermos a infeliz notícia desta jovem é acharmos que ela foi assassinada por ser uma defensora da paz, mas existem tantos outros fatores que podem ter gerado esta tragédia. Ela poderia estar no lugar errado, na hora errada, acompanhada de gente que era visada, ou nenhuma destas possibilidades.
Outro fator é o interesse que a própria mídia têm de alimentar estas histórias, eles querem vender notícias. Se querem chamar a atenção e as pessoas estão atentas à determinados fatores, a notícia vai acabar sendo tendenciosa para ser mais bem recebida.
Estas complexidades acabam sendo deixadas de lado, e acabamos simplesmente tirando conclusões errôneas. E acreditamos nelas.
Odeio ver este tipo de coisa na mídia, pois dá um certo desânimo, parece que a luta por uma cidade mais civilizada está fadada ao fracasso. Parece que a banda podre da polícia e a bandidagem estão ganhando esta guerra que para o cidadão comum não faz sentido, ele só quer viver sua vida em paz, enquanto outros grupos estariam tomando o controle da situação.
Mas há uma outra possibilidade de interpretação do que está acontecendo, e é sobre isto que gostaria de refletir.
Já faz algum tempo que alguns observadores estão alertando: A violência que estamos vendo na TV não é necessariamente associada às facções criminosas, ou o crime organizado. Estão colocando todos os fatos dentro de uma só gaveta, como se a violência em SP fosse toda associada a um só fator ou fato.
Esta maneira de pensar têm suas origens. Pensamos de maneira linear, necessitamos criar um sentido, criar histórias. Não aceitamos o acaso, o aleatório. Precisamos fazer com que todas as coisas se conectem, façam um sentido juntas. E nem sempre este raciocínio é correto, ele muitas vezes pode ser ilusório.
A reação natural ao lermos a infeliz notícia desta jovem é acharmos que ela foi assassinada por ser uma defensora da paz, mas existem tantos outros fatores que podem ter gerado esta tragédia. Ela poderia estar no lugar errado, na hora errada, acompanhada de gente que era visada, ou nenhuma destas possibilidades.
Outro fator é o interesse que a própria mídia têm de alimentar estas histórias, eles querem vender notícias. Se querem chamar a atenção e as pessoas estão atentas à determinados fatores, a notícia vai acabar sendo tendenciosa para ser mais bem recebida.
Estas complexidades acabam sendo deixadas de lado, e acabamos simplesmente tirando conclusões errôneas. E acreditamos nelas.
21.11.12
A Curva da Felicidade dos Humanos e Primatas
Há um certo tempo os pesquisadores têm reparado que no decorrer da vida temos ciclos básicos de felicidade. O que se sabe é que somos mais felizes no começo e no fim da vida, mas existe um buraco de felicidade no meio da vida, que é chamado de "Crise da Meia Idade".
Ela acontece a partir dos 40 anos, e uma reflexão menos positiva da vida acaba atingindo um número respeitável de pessoas. Quem somos, para onde vamos, o que fizemos de nossas vidas, o que o futuro nos reserva, como trabalhar com a perda e a morte... O repertório de angústias não termina.
O que é novo é saber que isto acontece também com outros grandes primatas. Gorilas e chimpanzés também passam por isto. O que acaba colocando em xeque a ideia que seja algo cultural, provavelmente têm raízes evolutivas, apesar de ainda não sabermos quais nem as razões delas.
Leia a matéria completa neste link
Ela acontece a partir dos 40 anos, e uma reflexão menos positiva da vida acaba atingindo um número respeitável de pessoas. Quem somos, para onde vamos, o que fizemos de nossas vidas, o que o futuro nos reserva, como trabalhar com a perda e a morte... O repertório de angústias não termina.
O que é novo é saber que isto acontece também com outros grandes primatas. Gorilas e chimpanzés também passam por isto. O que acaba colocando em xeque a ideia que seja algo cultural, provavelmente têm raízes evolutivas, apesar de ainda não sabermos quais nem as razões delas.
Leia a matéria completa neste link
16.11.12
Como reconhecer expressões depois do Botox?
Para quem não sabe, o Botox nada mais é que o bom e velho Botulismo (toxina botulínica), versão light. Como o botulismo gera enrijecimento dos músculos, passou a ser utilizado para eliminar rugas de "expressão". Mas sem expressão, como saber o que as pessoas estão sentindo?
Algumas mulheres que abusaram do Botox tiveram problemas por causa disto, dizem que ao perderem os traços expressivos acabaram tendo dificuldades nos relacionamentos. Não conseguem mais que os outros entendam seus sentimentos...
Algumas mulheres que abusaram do Botox tiveram problemas por causa disto, dizem que ao perderem os traços expressivos acabaram tendo dificuldades nos relacionamentos. Não conseguem mais que os outros entendam seus sentimentos...
Pornografia e Religião - Não sabemos trabalhar com o Desejo
Acho que todo mundo já devia desconfiar, mas vale o resultado da pesquisa: Em alguns países islâmicos como Egito e Tunísia, há grande procura por sites pornográficos a ponto de estarem entre os 25 mais visitados destes países. Não é pouca coisa,e diz muito sobre o comportamento humano.
Já estamos acostumados a ver o impacto do comportamento sexual na vida de famosos nos Estados Unidos e Europa. De Tiger Woods a Strauss-Kahn, a sexualidade se estranha com a sociedade. Um escândalo sexual pode comprometer a imagem de uma pessoa da mesma maneira que pode promovê-la. Não há uma regra muito clara, espero poder compreender melhor e escrever em outro momento sobre o assunto.
Mas os países islâmicos, que interessante, né? Tanto julgamento moral da sociedade ocidental, tanta crítica ao modelo ocidental de vida, tanta pregação por um comportamento mais moralmente orientado, e mesmo assim a pornografia sendo acessada intensamente.
Não estou julgando este comportamento, muito pelo contrário, acho realmente instigante pensar sobre isto.
Estou num ponto - da vida ou do pensamento - em que evito julgar. Não cabe a mim isto, cabe a cada um e suas orientações sociais, religiosas, ideológicas... Admito cada vez mais o lema "Viva e Deixe Viver", e só. Apesar de perceber que a cada dia mais pessoas se sentem no direito de julgar o comportamento dos outros, o universo digital amplificou este comportamento dos pequenos vilarejos.
Talvez a sociedade ocidental seja realmente uma praga (acredito que esta deva ser a resposta padrão que os islâmicos darão depois de terem sidos pegos no escurinho olhando sacanagem pela Internet). "Não foi culpa minha, o mundo é que me corrompeu". Na verdade o "mundo dos outros", os malvados e pervertidos ocidentais.
Mas no escurinho eles continuarão a acessar pornografia enquanto puderem, e nesta mesma penumbra, eles precisarão admitir para si mesmos que não há culpa, há apenas o desejo. E que a sociedade, qualquer uma delas, não sabe trabalhar com o desejo. Ora estimula, ora pune.
PS - Aceito dicas de pensadores e filósofos que discutiram a questão do desejo, quero ampliar minha reflexão sobre o assunto. Por enquanto estou com o Baudrillard, mas quero conhecer outras vertentes.
13.11.12
Intolerância e Identidade
Não há uma só razão para a intolerância, elas são várias. Há razões ligadas às relações pessoais e às relações sociais, o que já gera um grande leque de variáveis. Mas podemos perceber que as intolerâncias sociais (de credo, etnia, gênero, status social, etc) incidem nas relações pessoais. Assim, o meu credo pode gerar intolerância não ao credo do meu vizinho, mas sim ao vizinho enquanto ser humano. Sempre a intolerância é em relação a pessoas, é deflagrada por ideias e conceitos, mas se manifesta nas relações.
Curiosamente, é um processo de coisificação, a pessoa que não é tolerada deixa de ser pessoa, passa a ser coisa, perde sua humanidade, suas múltiplas dimensões, para se restringir apenas ao objeto da intolerância. Um bom exemplo disto são as inúmeras mensagens de ódio às pessoas encarceradas nas prisões. A partir do momento que você infringiu algum código da sociedade que te levou para a prisão, você não é mais um ser humano, você é um bandido, e bandidos não merecem ter Direitos Humanos, eles não são mais humanos, são apenas bandidos.
É um processo de simplificação que permite que nossa intolerância se manifeste com toda sua crueza (da mesma maneira que acontece quando o "bandido" olha para você na rua e enxerga apenas sua bolsa com dinheiro, esquecendo ou ignorando sua humanidade, suas dificuldades, etc)
Em Manaus, um grupo de alunos evangélicos se recusou a fazer um trabalho escolar sobre a cultura afro-brasileira, pois seus princípios religiosos os impediam de estudar algo associado com o satanismo e ao homossexualismo. Livros como Macunaíma também foram repudiados por estes alunos.
O que pode parecer um caso de intolerância esbarra numa situação muito mais complexa, que é a questão da identidade. Se este grupo de alunos fosse formado por europeus (ou asiáticos, ou qualquer outra etnia) ou de descendentes de uma etnia isolados num contexto cultural e separado geograficamente do cotidiano da Amazônia, daria para entender algum estranhamento cultural que gerasse esta intolerância. Não justificaria, mas seria um pouco mais compreensível.
Mas eles são descendentes da miscigenação cultural brasileira, ou seja, fazem parte deste caldo cultural de nosso povo.
Negar a influência da cultura afro no Brasil, se recusar a sequer estudar esta cultura, é um problema de negação de identidade, e não de intolerância.
Que possamos e queiramos mudar nossa identidade, ampliar nossos horizontes identitários, não vejo problemas. Mas a negação absoluta de parte de suas raízes pode ser um problema. Podemos até almejar nos descolar de nossas raízes, mas o sofrimento será inevitável, em algum momento teremos de nos confrontar com esta realidade. Negação da realidade não faz bem para a saúde...
Curiosamente, é um processo de coisificação, a pessoa que não é tolerada deixa de ser pessoa, passa a ser coisa, perde sua humanidade, suas múltiplas dimensões, para se restringir apenas ao objeto da intolerância. Um bom exemplo disto são as inúmeras mensagens de ódio às pessoas encarceradas nas prisões. A partir do momento que você infringiu algum código da sociedade que te levou para a prisão, você não é mais um ser humano, você é um bandido, e bandidos não merecem ter Direitos Humanos, eles não são mais humanos, são apenas bandidos.
É um processo de simplificação que permite que nossa intolerância se manifeste com toda sua crueza (da mesma maneira que acontece quando o "bandido" olha para você na rua e enxerga apenas sua bolsa com dinheiro, esquecendo ou ignorando sua humanidade, suas dificuldades, etc)
Em Manaus, um grupo de alunos evangélicos se recusou a fazer um trabalho escolar sobre a cultura afro-brasileira, pois seus princípios religiosos os impediam de estudar algo associado com o satanismo e ao homossexualismo. Livros como Macunaíma também foram repudiados por estes alunos.
O que pode parecer um caso de intolerância esbarra numa situação muito mais complexa, que é a questão da identidade. Se este grupo de alunos fosse formado por europeus (ou asiáticos, ou qualquer outra etnia) ou de descendentes de uma etnia isolados num contexto cultural e separado geograficamente do cotidiano da Amazônia, daria para entender algum estranhamento cultural que gerasse esta intolerância. Não justificaria, mas seria um pouco mais compreensível.
Mas eles são descendentes da miscigenação cultural brasileira, ou seja, fazem parte deste caldo cultural de nosso povo.
Negar a influência da cultura afro no Brasil, se recusar a sequer estudar esta cultura, é um problema de negação de identidade, e não de intolerância.
Que possamos e queiramos mudar nossa identidade, ampliar nossos horizontes identitários, não vejo problemas. Mas a negação absoluta de parte de suas raízes pode ser um problema. Podemos até almejar nos descolar de nossas raízes, mas o sofrimento será inevitável, em algum momento teremos de nos confrontar com esta realidade. Negação da realidade não faz bem para a saúde...
9.11.12
Colapso de Imagem
Há definitivamente algo estranho no mundo corporativo quando um executivo bem-sucedido e conhecido pelo seu alto astral, liderança e bom humor comete suicídio. Principalmente quando isto acontece dentro do ambiente corporativo.
Não considero o suicidio inaceitável, apesar de saber da implicação social e da gravidade do ato. Odiaria que uma pessoa querida resolvesse tirar a própria vida. Mas acho que isto faz parte de meu sentimento de pensar que poderia ter alterado esta história. Um pouco de prepotência, talvez. Mas entendo o sentimento. De pôr fim à sua própria existência. Do ponto de vista simbólico, podemos fazer isto sem pormos fim às nossas vidas. Basta mudarmos, ou aceitarmos as mudanças.
O que é estranho neste caso são os dados aparentemente conflitantes da história. Ele é O Profissional Realizado, O Homem Admirado, O Gestor Competente. E sem razão "aparente" implode, ou explode.
A grande maioria das pessoas geralmente dá sinais. Fica murcho, desanimado, triste, aparece abatido, olheiras. Neste caso não.
Mais do que concluir que é um caso pessoal, onde há desestabilidade específica do indivíduo ou um problema de uma empresa específica, me pergunto se não é um reflexo de uma cada vez maior falta de sintonia da persona pública que temos de criar e manter versus as expectativas pessoais que temos em relação às nossas vidas.
O que isto significa? Que a cada dia temos mais dificuldade em gerenciar nossa imagem, aquilo que esperam de nós, ou aquilo que pretendemos vender para o mundo.
Qualquer coisa que fuja deste modelo pode colocar em risco tudo aquilo que foi construído, pois há uma necessidade incessante de coerência. E sabemos que somos dinâmicos, que nossa personalidade é fluida, que nascemos um, somos outro e morremos diferentes do que fomos.
Temos de tomar cuidado com a rigidez, com o excesso de cobrança pela coerência, que, aparentemente é um objetivo a se atingir, mas passa a se tornar uma armadilha. Em alguns casos, mortal.
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