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19.10.13

Quem você pode ser?

Uma das respostas que sempre dou para adolescentes quando se perguntam "O que vou ser quando crescer" é que eles já são alguma coisa. Na verdade já são boa parte daquilo que serão no futuro.
Dificilmente as pessoas mudam radicalmente, só grandes eventos pessoais permitem uma mudança absolutamente fora das expectativas óbvias.
Aparentemente quando somos mais jovens o cenário de possibilidades se apresenta com uma amplitude muito grande, apesar de não ser tão grande quanto parece. Este cenário precisa estar dentro do rol de possibilidades que a própria existência desta pessoa já têm para que se manifeste. Para exemplificar de uma maneira bem simples (e idiota, é verdade), o cara não pode querer ser um melão, por mais que queira. Esta possibilidade não está incluída nos cenários possíveis.

Mas muitas possibilidades aparentam ser possíveis dentro dos nossos cenários, principalmente pelo fato de vivermos em comunidades e compartilharmos informação e expectativas perante nossa própria vida. E hoje vivemos um momento histórico que é superdimensionado em relação às expectativas. Nós e o mundo fazemos o papel de anabolizantes de nossas expectativas, ao mesmo tempo. E o resultado pode ser bem perigoso, principalmente para a imagem que construímos de nós mesmos.

Nossa auto-imagem é fundamental para uma boa saúde mental. O ideal (nem sempre conseguido) é que não nos achemos nem melhores do que somos nem piores. Mas, se não pararmos para saber o que somos, como conseguiremos achar este equilíbrio? E será mesmo que é possível sabermos o que somos? Você sabe o que você é? Eu não tenho a mínima ideia do que sou.

É nesta hora que apelamos para o QUEM ao invés do O QUE somos. Definir e adjetivar QUEM somos é mais fácil. Sou aquilo que exerço, sou o jeito que me comporto, sou as tonalidades de afeto que me conectam com o mundo e com as coisas. Sou (e posso ser) Professor, Pai, Carinhoso, Atencioso, este tipo de coisa.

Mas estas coisas também podem ter adjetivos. E como vivemos a era da hipertrofia, ser Professor é pouco, precisamos ser O Melhor Professor, O Mais Amado Professor, O Professor Mais Exigente. Nesta condição, o Mais se torna imperativo. É melhor ser o Mais Qualquer Coisa do que Alguma Coisa. Na verdade ser Professor sem ser O Melhor Professor não têm significado nenhum, pois o que está em jogo é o Melhor contra o Algum, não mais ser Alguém contra ser Ninguém. Para ser alguém preciso ser o melhor, gerar destaque.

Só que crescemos, e o espectro de (aparentes) possibilidades diminui. Quanto mais vivemos, menores são as possibilidades visíveis. É como se nosso óculos começasse a restringir o campo de visão, e o horizonte parecesse mais curto a cada dia. Isto do ponto das expectativas que temos em relação a nós mesmos, é bom ressaltar.

E percebemos que é muito difícil ser o Mais em muitas coisas, inclusive pelo fato de "O Mais..." variar de época para época.

Quer um exemplo? Cinema. Vivi o boom dos anos 80 dos filmes iranianos. O cinema de lá é absolutamente parte de minha formação. Vi e debati todos os filmes que chamavam O Vaso, A Maçã... todos que passaram no Brasil eu assisti. Em mostras, nos cinemas, na casa de amigos. Poderia ser considerado "O Mais" no quesito filmes iranianos na época.

Hoje não faz sentido. Nenhum. Ser "O Mais" hoje é ir na pré-estreia de um filme de personagem de quadrinhos, como o Thor 2. É ter o martelinho de plástico que o Burger King oferece junto do lanche, é fazer memes com as piadas do filme, é ir a um encontro de Cosplay vestido com a melhor fantasia de Thor (ou a pior, também vale), comprar todos os Legos especiais do filme e postar fotos deles nas redes sociais*. Isto é o que o mundo apresenta hoje, e daqui a algum tempo também vai mudar. Portanto, para ser O Mais não basta turbinar sua experiência, você tem de ser rápido. O fator tempo é fundamental para conseguir ser alguém. Senão você corre o risco de tentar ser alguém, demorar e depois tudo aquilo que você construiu deixar de valer. A regra, agora, é outra.

Entendo as pessoas que procuram acelerar o surgimento do Mais usando anabolizantes reais ou simbólicos. Elas não estão só querendo pular a etapa de desenvolvimento. Elas têm pressa. Talvez todo aquele esforço se mostre inútil se elas demorarem demais...

* Uma questão a ser ressaltada: Há outro fator em jogo, que não toquei nesta reflexão, que é que o Mais está associado ao outro. A pergunta "Mais para quem?" é importante, pois dependendo do Para Quem está fazendo alguma coisa muda totalmente o sentido do Mais. Mas não era o foco deste post.

26.6.13

Quais são seus fantasmas?

Para começar, deixo claro: Tenho montes de fantasmas.
Fantasmas são espíritos com quem não decidimos conviver. Sem que tenhamos controle, eles surgem em nossas vidas, e depois não sabemos como nos livrar deles.

Eu particularmente tenho dificuldades com todo tipo de desapego, aprendo dia a dia a deixar as coisas irem embora. Mas com enorme dificuldade. Lidar com o desapego é aceitar a finitude das coisas, e, em essência, lidar com sua própria finitude. Caixão não tem gaveta, como dizem.

Mas é muito estranho conviver com fantasmas e não ter desapego em relação a eles. Afinal de contas, você não gosta deles, eles não te fazem bem. Por que então eles grudam, a não ser pela sua própria vontade? Questões abstratas e a princípio não vinculadas a você deveriam ser facilmente descartadas. Mas não são.

Por um lado isto mostra que você é mais complexo do que acha que é. Que aquilo que você delineia com a caneta existencial como "sendo você" vai além do que gostaria ou que consegue captar de si mesmo. Há uma circunscrição da topografia de sua alma que não abrange seu todo: ele se espalha e escorre pelo desenho que fez, borrando as bordas e obrigando a rever as fronteiras de si.

Por outro lado os fantasmas te obrigam a lembrar que além de suas fronteiras serem artificialmente criadas, a caneta que usou para definir a linha que separa o eu do desconhecido têm forte valor moral, de julgamento de si mesmo. Como se usássemos a caneta para distinguir e destacar o que achamos bom em nós mesmos, estabelecendo a linha numa tentativa de nos dissociarmos daquilo que somos e consideramos ruim, que queríamos que não fôssemos, mas somos.

Descobri o poder do desenho ao tentar deixar o traço livre nas bordas da minha existência, do meu existir, um pouco por acaso, um pouco por necessidade, um pouco por distração. Não acredito em borracha, acho que elas deveriam ser banidas do cotidiano, para que lembremos que as coisas não tem volta, devem ser assimiladas ao desenho.

Mas aí entra outro aspecto, o do fetiche, ou do foco, tanto faz. Ao tentar redesenhar as bordas da existência e das definições internas de quem somos, existem reentrâncias mais fascinantes que outras, o apego ao detalhe faz com que fiquemos rabiscando em determinadas regiões e esqueçamos outras. E nas áreas em que não prestamos tanta atenção no desenho (por desinteresse estético ou por medo) é de onde surgem os fantasmas. Damos pouca atenção aos fantasmas, como se pudéssemos deixar para depois aquela região, e eles se avultam, pois fazem parte de um todo mais complexo que envolve desde a forma, a cor, a linha e a espessura e consistência da tinta.

Precisamos prestar atenção aos fantasmas, aceitar que existem, mas não necessariamente entendê-los como borrões de nossa existência, sem deixar que a caneta de cunho moral, superlativa, julgue novamente a forma de como estamos desenhando nossas bordas. Mas não é fácil.

26.11.12

É possível sumir?

De vez em quando dá uma vontade de sumir... Mas será que é possível simplesmente desaparecer?
Os números variam, mas muitas pessoas somem sem deixar rastros todos os dias. Numa matéria de jornal o número é de onze por dia só no Estado de São Paulo. Mas estes números incluem pessoas que foram sequestradas e mortas. O que estamos falando aqui é de pessoas que desistem da vida que levavam e tentam desaparecer, reinventar sua vida.

O caso mais recente é do cantor Belchior, que um dia largou o carro no aeroporto e não deu mais sinal de vida. Foi encontrado pela mídia no Uruguai, e agora dizem que está devendo dinheiro para hotéis daquele país.

Acho que sonhar com sumir não é anormal, mas realizar esta vontade deve ser para poucos. Do ponto de vista da dificuldade e do total desenraizamento daquilo que foi construído até aquele momento da vida.

As poucas entrevistas que li com pessoas que resolveram desaparecer não dão grandes explicações. Imaginamos estas pessoas com problemas sérios, ameaçadas, tensão. Mas o que elas relatam é algo mais subjetivo, sem grandes explicações. Há algo dentro delas que faz com que decidam ir embora, largar tudo.

Minha experiência pessoal com isto foi bastante dura. Um dia ouvi de meu pai que tinha sido tão difícil gerenciar a situação da separação com minha mãe que ele decidiu num determinado momento que não tinha mais filhos, e foi viver a sua vida. Naquele dia andei uns dez quilômetros para poder digerir a frase. Posso dizer que entendo o que as pessoas sentem quando um parente resolve desaparecer. Mas não culpo ninguém de desejar isto.

Curiosamente podemos reinventar nossas vidas a cada dia, não há nada que nos impeça de simplesmente mudar, rever aquilo que acreditamos e fazemos, reinventar nossos relacionamentos, tudo. Sabemos que podemos fazer isto, mas o mundo que está construído ao nosso redor parece muito mais poderoso do que nossa existência. E moldamos nossa vida ao mundo. Fica uma sensação de não-plenitude do viver.
Será que sumir resolveria? Não tenho muita certeza. Me lembro imediatamente de um ótimo trecho do livro A Arte de Viajar do Alain de Botton onde ele resolve sair de férias para esquecer de tudo ao seu redor e quando chega ao local paradisíaco que escolheu percebe quetodas as suas preocupações foram junto dele. Não dá para tirarmos férias de nós mesmos...


25.10.12

Em busca da verdade - Heidegger

Fico encantado cada vez que vou ao meu curso sobre Heidegger. Essencialmente o curso se resume a ler " Ser e Tempo", parágrafo por parágrafo, e debater.
Conheci acidentalmente Heidegger, meu antigo terapeuta era adepto da Daseinanalyse (nome do tipo de análise que investiga questões existenciais presentes na Filosofia do sujeito), e acabei me inscrevendo num curso sobre o tema. E fiquei abobalhado com a questão existencial.

A grande questão de debate hoje foi relativa a narrativas pessoais. Sabe aquelas histórias que você constrói, que ditam algumas características da sua identidade? " Minha mãe não me dava atenção quando eu era criança, portanto, sou como sou". Kit básico do debate psicanalítico freudiano, e amplamente discutido em qualquer momento em que você tenha bebido demais com algum amigo. Em qualquer lugar ouvimos uma explicação da existência baseada em alguma narrativa pessoal. "Sou assim desde que...", coisas do gênero.

Durante o debate, o professor, Marcos Casanova, fez o seguinte comentário:
"Se eu te pedir para olhar para uma pintura que você gosta muito e escrever, todo dia, um comentário sobre este quadro, num determinado momento, o quadro vai desaparecer. E vai sobrar apenas a narrativa da narrativa".

Esta é a questão. Num determinado momento o fenômeno (o quadro) deixa de existir e passamos a operar a partir das narrativas que criamos. E nos apegamos a elas, de uma maneira que quanto mais falamos sobre elas mais nos distanciamos do fenômeno em si.

Imediatamente me lembrei de uma narrativa que me perseguia, da minha infância. Lembro de minha avó ter falado para mim de uma determinada tristeza que eu tinha quando pequeno, e como isto se tornou importante para mim.
Aí pensei: Quantas outras coisas a minha avó falou para mim? Será que toda vez que eu via a minha avó ela falava sobre isto? Claro que não. Conversamos sobre inúmeras outras coisas, mas eu, de alguma maneira me apeguei a esta história até que num determinado momento o fenômeno deixou de existir, existia apenas a narrativa. E quanto mais ela era lembrada, mais era reafirmada, e menos o "fato" existia.

Fazemos isto o tempo todo. Por que? Para de alguma maneira evitarmos um vazio que surge quando pensamos sobre nossa existência, que é fluida e dinâmica. Por isto nos apegamos a estas narrativas, para podermos evitar refletir sobre nossas vidas.

Como diria Criolo, "o bagulho é louco".... :o)

11.6.12

A Vida em Ciclos

Vejo um monte de gente reclamar no Facebook das contagens da semana. "Pena que é segunda-feira", "Oba, é sexta". Quase infinita a quantidade de pessoas que marcam seus ciclos, e eles se tornam mais evidentes nas redes sociais, afinal de contas podemos ver como nossos ciclos são parecidos com os de outras pessoas.


Nos últimos dias foram os ciclos de Festas Juninas, um monte de fotos da festança pelo Brasil afora. Todo mundo vestido de caipira, perto de uma fogueira, ou algo do gênero. Em breve, o ciclo das férias, com fotos e demonstrações de felicidade.


A mídia também trabalha com estes ciclos, mas com conteúdos. Sempre aparece uma notícia, de tempos em tempos, sobre a existência (ou não) da alma, questões de gênero (homens e mulheres), relacionamentos e por aí vai. Há algumas revistas que são, em si, um ciclo, pela sua periodicidade. Afinal de contas, toda revista Cláudia têm uma matéria sobre beleza, sexo, regime e moda. Ela é, em si, um ciclo, que serve para relembrar questões relevantes para suas leitoras. Mais ou menos como a missa semanal, as corridas pela manhã ou o futebol de quarta-feira.


Curiosamente tem muita gente que não aceita a vida cíclica, parece negar que tudo tem um começo, um meio e um fim.  A começar pela vida. Vivemos numa sociedade que nega sistematicamente a morte, a doença, o fim da juventude, as desilusões. Nos apegamos a ciclos simples, mas nos recusamos a aceitar os complexos, os existenciais.


Talvez seja mais fácil se apegar aos ciclos menores, mais curtos ou menos complexos, que nos dão uma falsa sensação de que na semana, mês ou ano que vem continuaremos neles, mas esquecemos que no futuro, se ele existir, tudo será diferente, e a festa junina será outra festa, com outras pessoas. E mesmo nós não seremos a mesma pessoa.


PS - A foto do idoso e da criança foi devidamente "roubada" da timeline do meu amigo Fábio Betti.