Três situações muito desconectadas me fizeram refletir um pouco sobre a empatia. Do ponto de vista neurológico um fenômeno aparentemente regido pelos neurônios-espelho, mas que precisam de muito estímulo para construírem as redes neurais e referências. Só assim a memória poderá utilizar este recurso, que é tentar se colocar no lugar do outro.
É da empatia que saem o altruísmo, o aprendizado, a generosidade, o riso, a felicidade. Não é pouca coisa, nem de pouca relevância. São coisas fundamentais e que almejamos, pelo menos boa parte da humanidade, em nosso cotidiano.
Lembro do Kevin Carter, fotógrafo premiado de guerra, que registrou misérias pelo mundo afora, mas ficou conhecido pelas fotografias na África.
Lembro da parte final (e ficcional) de A Lista de Schindler, quando Oskar Schindler têm um sentimento de profunda tristeza quando pensa que poderia ter salvado mais judeus, que poderia ter tentado conseguir mais dinheiro.
Observo o estranho comportamento dos babuínos num Zoológico da Holanda que, de tempos em tempos, ficam em um estado de apatia, paralisados, sem comer, sem fazer nada. E mesmo com todos os tratamentos possíveis não se sabe como resolver ( solta-los na África não é uma solução, querido ecochato. O pessoal vai comer os bichos, e a maioria vai morrer. Não há um ambiente adequado, intocado pelas mãos dos homens. O conceito de Santuário de Animais é uma derivação do Paraíso Cristão, e se bem lembram, Adão e Eva já comeram o fruto proibido, não dá para voltar atrás.)
E aí, quando vou na feira, comprar verdura, olho bem nos olhos das pessoas e vejo um mundo de pessoas cansadas, tristes, tensas, meio destruídas pela vida. Como os babuínos.
Kevin Carter se matou de depressão, ao ter registrado tantas mazelas e sofrimentos, não aguentou. Oskar Schindler (o ficcional) percebe que o mundo é grande demais para o cobertor que ele pode dar, e sofre por ajudar, ao invés de se sentir um herói.
Ao observar os babuínos percebemos que nossa capacidade de tentar manter a vida e o ecossistema é restrita, e que muito do que vemos hoje de fauna e flora não estará mais presente no planeta para a próxima geração.
Empatia aparentemente é algo que devemos valorizar, mas ela é um fardo terrível. Quem se preocupa com os rostos desolados ao andar pelo mundo sabe do que eu estou dizendo.
Let´s Go!
Let´s Go!
26.7.13
Um dia todos os Zoológicos serão assim?
Fiquei impressionado com uma série de fotografias de um Zoológico na Índia: Como a poluição naquela região é absurdamente alta, toda a vida selvagem desapareceu. Florestas com árvores centenárias foram consumidas nas usinas de carvão, e as condições são tão precárias que os animais não conseguem respirar.
O que a companhia de energia fez? Criou um Zoológico cheio de estátuas. Não há nenhum animal vivo lá dentro, apenas as imagens dos animais que existiam no local (e outros bizarros, como dinossauros).
"O zoológico é um lembrete sombrio do relacionamento que agora existe entre o homem e a natureza", diz Tanvi Mishra, o fotógrafo que retratou o local.
Acho que deve ter muito eco-chato que é contra os Zoológicos que vai dizer: Que bom, é isto mesmo, animais não devem ficar em Zoológicos. Vamos libertar os bichinhos e correr na relva em câmera lenta enquanto toca uma música da Enya ao fundo.
Mas a pergunta que fica ao lermos notícias como esta é: Libertar onde? Se o ambiente de determinados animais está tão degradado que não possibilita a reinserção, o que fazer? Matar todos os Pandas? Porque não tem espaço mais na natureza para libertar os Pandas, fazer o quê?
Vamos deixar que estes animais desapareçam?
O grande problema que os Zoológicos gerenciam é que eles têm de cuidar de um problema que apareceu antes deles, e eles não são culpados disto. Eles fazem parte do processo de preservação de espécies, mas a parte que em alguns momentos não gostamos de lembrar. Já destruímos boa parte do planeta, e agora temos de lidar com o fato de que a sobrevivência de algumas espécies depende de manejo intensivo e reprodução em cativeiro. Este Zoológico na Índia faz a gente pensar bastante...
Falo isto como patrocinador e diretor da agência que cuida da comunicação da SZB - Sociedade dos Zoológicos e Aquários do Brasil, e que têm um desafio enorme de estabelecer padrões importantes na manutenção dos animais num mundo cheio de problemas. Posso dizer que não é uma tarefa fácil a da SZB. Mas a briga que ela comprou é digna, e vamos continuar a sustentar este grande desafio.
21.7.13
Procrastinar - Talvez o comportamento mais perigoso que você pode ter
Procrastinar significa adiar, deixar para depois. Criar uma justificativa mental para não realizar o que precisa ou deseja hoje e deixar para amanhã.
O grande problema por trás deste comportamento não é só adiar algo que se deseja fazer (precisamos fazer), mas sim ficar com a falsa sensação de que um dia iremos realizar aquilo. Afinal de contas, se temos uma boa justificativa hoje para adiar, com certeza amanhã inventaremos outra!
Óbvio que todos fazemos isto, inventamos as desculpas mais incríveis para evitarmos ter de tomar uma atitude ou realizar algo.
Repare na lista de justificativas a seguir:
- Não tenho tempo
- Não é tão fácil como parece
- Nunca aprendi a fazer isto
- Meus pais não me estimularam
- Minha vida é difícil
- Tenho de trabalhar
- Tenho de ganhar dinheiro
Deve ter mais de cem outras frases que cabem aqui. Mas agora olhe com atenção para elas. Reparou?
Elas servem para qualquer um, todo mundo tem pouco tempo, têm dificuldades com coisas novas, não foi devidamente estimulado, e por aí vai...
Tenho sido pouco tolerante com pessoas que falam estas frases para mim. O que me faz ser mais paciente com quem fala isto é uma frase do Lincoln: "Aprendi a tolerar os medíocres; afinal Deus deve amá-los, porque fez vários deles".
Muita insensibilidade da minha parte? Acho que não, só me entristece ver gente que têm potenciais incríveis e fica enrolando, ao invés de expandir suas possibilidades, e viver achando que no dia seguinte alguma mágica irá mudar sua postura perante o mundo...
Se você realmente acha que é melhor deixar para depois e ficar enrolando, abaixo postei um vídeo que tem 24h de duração com um gatinho colorido voando (Nyan Cat, para os conhecedores).
Bom vídeo!
O grande problema por trás deste comportamento não é só adiar algo que se deseja fazer (precisamos fazer), mas sim ficar com a falsa sensação de que um dia iremos realizar aquilo. Afinal de contas, se temos uma boa justificativa hoje para adiar, com certeza amanhã inventaremos outra!
Óbvio que todos fazemos isto, inventamos as desculpas mais incríveis para evitarmos ter de tomar uma atitude ou realizar algo.
Repare na lista de justificativas a seguir:
- Não tenho tempo
- Não é tão fácil como parece
- Nunca aprendi a fazer isto
- Meus pais não me estimularam
- Minha vida é difícil
- Tenho de trabalhar
- Tenho de ganhar dinheiro
Deve ter mais de cem outras frases que cabem aqui. Mas agora olhe com atenção para elas. Reparou?
Elas servem para qualquer um, todo mundo tem pouco tempo, têm dificuldades com coisas novas, não foi devidamente estimulado, e por aí vai...
Tenho sido pouco tolerante com pessoas que falam estas frases para mim. O que me faz ser mais paciente com quem fala isto é uma frase do Lincoln: "Aprendi a tolerar os medíocres; afinal Deus deve amá-los, porque fez vários deles".
Muita insensibilidade da minha parte? Acho que não, só me entristece ver gente que têm potenciais incríveis e fica enrolando, ao invés de expandir suas possibilidades, e viver achando que no dia seguinte alguma mágica irá mudar sua postura perante o mundo...
Se você realmente acha que é melhor deixar para depois e ficar enrolando, abaixo postei um vídeo que tem 24h de duração com um gatinho colorido voando (Nyan Cat, para os conhecedores).
Bom vídeo!
13.7.13
Danos Colaterais - Quando os modelos teóricos enterram a realidade
Quinta-feira à tarde a Meire começou a passar mal. Seu marido não sabia o que fazer, nunca tinha visto a mulher ficar daquela maneira. Apesar das restrições da cadeira de rodas, Meire sempre foi forte, teve de aprender a ser assim num ambiente inóspito e difícil.
A cem metros de onde estavam Meire e seu marido tinha uma unidade da Guarda Metropolitana de São Paulo. O marido e amigos correram para pedir ajuda, mas a GCM disse que não era o papel dela socorrer pessoas, que eles deveriam procurar ajuda especializada. O marido de Meire foi de novo pedir socorro, ninguém da GCM se moveu, mesmo a cem metros de distância e com uma viatura que poderia transportar Meire para o hospital. Não era responsabilidade deles.
O estado de Meire era preocupante, ela só piorava. Seu marido ligou duas vezes para o Samu, mas ninguém apareceu. Só vieram na sexta-feira, quando constataram que Meire estava morta, ao lado do marido, desconsolado.
Meire era moradora de rua. Viveu os últimos dez anos na Praça da Sé, local de manifestações e cultos, o Marco Zero de São Paulo. Ninguém socorreu a Meire, nenhuma das milhares de pessoas que passam na praça. Ninguém. Apesar das ONGs protestarem na mídia, nem elas levaram a Meire para um hospital.
Ontem eu conheci o Renan. Um garoto bonito e simpático, de uns 14 anos, que me ajudou a embalar as compras de supermercado. Mora na frente do supermercado há dois anos, quer trabalhar mas não tem nenhum documento, certidão de nascimento, nada. O Renan não existe nem para o governo nem para a sociedade. O Renan é uma sombra.
Pedi ajuda para um amigo que conhece mais os trâmites de moradores de rua e pessoas em situação de risco, e ele me passou um endereço que o Renan deveria ir, talvez alguém pudesse ajudar. Perguntei se não seria bom que eu fosse junto do Renan, e ele me disse que valia a pena deixar o Renan ir sozinho, para ele treinar o seu protagonismo, ver se ele realmente tinha vontade de sair desta vida. De acordo com meu amigo, eu ir junto do Renan seria uma espécie de paternalismo de minha parte, o Renan precisava exercitar sua cidadania, ou algo do gênero.
Ano passado conheci o Maurício. O que mais me impressionou foi que ele pedia ajuda, e dizia: "Ajudem o Maurício, por favor alguém ajuda o Maurício". Quem estava precisando de ajuda não era "alguém", um morador de rua, ou um dependente químico. Era o Maurício.
Na volta fui falar com ele, me apresentei e comecei a conversar chamando-o pelo nome.
"Você lembrou do meu nome, lembrou do Maurício", foi a primeira coisa que ele me disse.
Qualquer modelo teórico enterra a realidade. Qualquer definição de papel social orientada por um uniforme ou um crachá enterra a humanidade das relações. Ao definirmos papéis sociais muito estratificados e segmentados perdemos boa parte da beleza complexa de nossa existência.
Eu, ingenuamente, quando ouvi o grito das manifestações falando "Vem Pra Rua" tinha imaginado que finalmente as ruas seriam, de alguma maneira, repovoadas por aquele grupo de pessoas que sumiu das ruas. Não imaginei que fossem só desfiles alegóricos e conflitos entre uniformes e crachás, temporariamente circulando pelas ruas. Achei que haveria algum tipo de diálogo, alguém estaria disposto a ouvir as ruas, e não apenas ocupar a rua para poder gritar.
Se depender da sociedade como um todo, qualquer grito que venha da rua não será ouvido. Já estamos acostumados a ouvir o grito da rua, alto, forte, lamurioso. Estamos tão acostumados que já não prestamos mais atenção, fica apenas o ruído ecoando enquanto estamos fazendo outra coisa.
PS - O título deste artigo faz referência ao livro que estou lendo do Zygmunt Bauman "Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global".
A cem metros de onde estavam Meire e seu marido tinha uma unidade da Guarda Metropolitana de São Paulo. O marido e amigos correram para pedir ajuda, mas a GCM disse que não era o papel dela socorrer pessoas, que eles deveriam procurar ajuda especializada. O marido de Meire foi de novo pedir socorro, ninguém da GCM se moveu, mesmo a cem metros de distância e com uma viatura que poderia transportar Meire para o hospital. Não era responsabilidade deles.
O estado de Meire era preocupante, ela só piorava. Seu marido ligou duas vezes para o Samu, mas ninguém apareceu. Só vieram na sexta-feira, quando constataram que Meire estava morta, ao lado do marido, desconsolado.
Meire era moradora de rua. Viveu os últimos dez anos na Praça da Sé, local de manifestações e cultos, o Marco Zero de São Paulo. Ninguém socorreu a Meire, nenhuma das milhares de pessoas que passam na praça. Ninguém. Apesar das ONGs protestarem na mídia, nem elas levaram a Meire para um hospital.
Ontem eu conheci o Renan. Um garoto bonito e simpático, de uns 14 anos, que me ajudou a embalar as compras de supermercado. Mora na frente do supermercado há dois anos, quer trabalhar mas não tem nenhum documento, certidão de nascimento, nada. O Renan não existe nem para o governo nem para a sociedade. O Renan é uma sombra.
Pedi ajuda para um amigo que conhece mais os trâmites de moradores de rua e pessoas em situação de risco, e ele me passou um endereço que o Renan deveria ir, talvez alguém pudesse ajudar. Perguntei se não seria bom que eu fosse junto do Renan, e ele me disse que valia a pena deixar o Renan ir sozinho, para ele treinar o seu protagonismo, ver se ele realmente tinha vontade de sair desta vida. De acordo com meu amigo, eu ir junto do Renan seria uma espécie de paternalismo de minha parte, o Renan precisava exercitar sua cidadania, ou algo do gênero.
Ano passado conheci o Maurício. O que mais me impressionou foi que ele pedia ajuda, e dizia: "Ajudem o Maurício, por favor alguém ajuda o Maurício". Quem estava precisando de ajuda não era "alguém", um morador de rua, ou um dependente químico. Era o Maurício.
Na volta fui falar com ele, me apresentei e comecei a conversar chamando-o pelo nome.
"Você lembrou do meu nome, lembrou do Maurício", foi a primeira coisa que ele me disse.
Qualquer modelo teórico enterra a realidade. Qualquer definição de papel social orientada por um uniforme ou um crachá enterra a humanidade das relações. Ao definirmos papéis sociais muito estratificados e segmentados perdemos boa parte da beleza complexa de nossa existência.
Eu, ingenuamente, quando ouvi o grito das manifestações falando "Vem Pra Rua" tinha imaginado que finalmente as ruas seriam, de alguma maneira, repovoadas por aquele grupo de pessoas que sumiu das ruas. Não imaginei que fossem só desfiles alegóricos e conflitos entre uniformes e crachás, temporariamente circulando pelas ruas. Achei que haveria algum tipo de diálogo, alguém estaria disposto a ouvir as ruas, e não apenas ocupar a rua para poder gritar.
Se depender da sociedade como um todo, qualquer grito que venha da rua não será ouvido. Já estamos acostumados a ouvir o grito da rua, alto, forte, lamurioso. Estamos tão acostumados que já não prestamos mais atenção, fica apenas o ruído ecoando enquanto estamos fazendo outra coisa.
PS - O título deste artigo faz referência ao livro que estou lendo do Zygmunt Bauman "Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global".
10.7.13
O Melhor Oftalmologista do Mundo
Existem inúmeros tipos de cegueira. Você pode não enxergar por problemas na "captação" da imagem, ou seja, problema nos olhos. Mas você pode não enxergar por causa do sistema que "lê" e organiza as imagens, que fica no Cortex Visual. Existem cegueiras por trauma, e são mais comuns do que imaginamos. Uma pessoa presencia algo tão inesperado e chocante que a mente bloqueia a visão, e ele pode deixar de enxergar durante muito tempo por causa disto.
Meu colega contou que a sua fama veio do fato de ser oftalmologista do exército, ele fazia perícias e laudos, para comprovar se alguém era ou não cego. É muito difícil descobrir se alguém é cego, afinal de contas, como podemos provar?
Uma das coisas que ele faz é checar a atividade cerebral do Cortex Visual. Existem máquinas para isto. Se você gera estímulos visuais e a pessoa está processando os dados recebidos, muito provavelmente ela está enxergando. A não ser que seja cegueira por trauma, que é possível de identificar por consulta com um psicólogo.
Como alguns acidentes acontecem no exército, e os soldados "alegam" cegueira depois de, por exemplo, terem os olhos inundados por óleo de motor, o soldado é mandado para uma consulta no oftalmologista. E geralmente o soldado vai, tristonho, acompanhado de familiares, ao consultório do meu colega.
Quando meu colega detectava que o soldado, na verdade, estava tentando uma aposentadoria precoce ou se livrar do alistamento militar, ele pedia para os familiares saírem e abria o jogo:
- Meu amigo, parece que você está enxergando, e diz para os outros que não enxerga. Eu vou escrever um laudo falando sobre isto, e provavelmente vai te trazer problemas... O que podemos fazer nesta situação?
O sujeito pensava, pensava, e a única solução era tomada...
O cara começava a gritar, eufórico. A família, assustada, entrava correndo no consultório. Dentro, o soldado, chorando, agradecia o meu colega.
- O senhor é milagroso! Voltei a enxergar! Estou enxergando tudo!!
A família abraçava, chorava, mandava bolo depois, aquela festa.
É uma maneira curiosa de fazer reputação, mas meu colega pelo menos se diverte com isto...
7.7.13
Resmungando no Face - O Universo das Indiretas nas Redes Sociais
Mas tudo de uma maneira semi-escondida, sem declarar explicitamente, sem resolver a questão falando, ligando, mandando mensagem inbox. Não. O que as pessoas querem é resmungar.
Do ponto de vista da efetividade, o resmungo não gera nada de positivo, no sentido de melhorar a situação daquele quem resmunga. O máximo que pode gerar é raiva ou constrangimento daquele a quem o resmungo se destina. Isto se ele descobrir.
O resmungo pode ser perigoso, pois algumas pessoas podem achar que você está falando delas. Se está reclamando do trabalho, você com certeza têm mais colegas do que só aquele para quem está jogando as indiretas. E eles podem achar que a indireta é para eles, o que realmente pode ser ruim. O mesmo vale para amigos.
Curiosamente alguns amigos mais próximos poderão se solidarizar, pois eles sabem de informações que os outros não sabem, aumentando o ruído e o perigo.
No fundo, o que o resmungo mostra é uma tentativa de vitimização, de mostrar para os outros como você é um pobre coitado e que merece lambidas de acolhimento por parte dos outros componentes do bando. Como todas as perdas são subjetivas (o que faz com que eu perder o emprego não signifique que meu sofrimento possa ser maior que o seu, que acabou de perder seu peixinho de estimação, já que cada um sente diferente as perdas), não podemos julgar improcedente um sentimento de alguém que esqueceu a bolsa em casa e está sinalizando sua tristeza no Facebook.
Mas como toda sinalização, se ela der certo, muitas pessoas se acostumam com ela. Um bebê de meses de idade sabe disto. Se eu gritar e me atenderem, vou continuar usando o recurso para obter atenção. E isto tem transformado as redes sociais num universo de resmungo infantil impressionantemente grande.
Aliando a isto o fato do prazer gerado no universo virtual ser menor que o real, o resmungo gera um acolhimento baixo, ou seja, não há abraço, conforto real por aquele que dá apoio aos reclamões, o que faz com que fique uma sensação de ausência de saciedade no processo. Sem saciar a vontade de obter atenção através do resmungo, o resmungão vai continuar a reclamar. Infelizmente parece ser um ciclo sem dia nem hora para terminar. Vamos ter de continuar a nos relacionar virtualmente, só que desviando dos resmungos virtuais, cada vez maiores, mais pseudo-trágicos, mais lamuriosos, e menos eficazes em nossas timelines.
27.6.13
O Glossário de Flusser
Estava jogado na cama tentando dormir ontem quando comecei a folhear o Filosofia da Caixa Preta, do Willen Flusser. Achei curioso que fosse o terceiro filósofo que estou lendo que buscava romper com os modelos tradicionais da Filosofia (Bachelard, Heidegger e agora o Flusser).
No caso do Filosofia da Caixa Preta a primeira coisa que Flusser faz é apresentar um glossário logo no começo de seu pensamento, e esclarecer que não vai inserir uma bibliografia, para "... criar atmosfera de campo virgem".
No delicioso Glossário (que transcrevo no final deste post) se destacam duas palavras: O Aparelho e o Funcionário.
A definição de Aparelho, "brinquedo que simula um tipo de pensamento", a princípio é orientada para a máquina fotográfica, mas evidentemente instiga uma amplitude de reflexões. Como diz Flusser, só o fato da máquina transformar quatro dimensões (altura, largura, profundidade e tempo) em duas (altura e largura) já apresenta alta complexidade.
Por outro lado o caráter restritivo da máquina (simular um tipo específico de pensamento), traz a reflexão sobre a relação entre o objeto e a forma que ele é manipulado. Podemos dizer que durante certo tempo o homem moldou o martelo ao seu gesto necessário ao ato pretendido com ele. Hoje, é o martelo que molda no nosso gesto, é ele que cristaliza as possibilidades de relação que temos com o mundo. Assim, há uma cristalização da forma como podemos pensar o mundo nas restrições que os aparelhos nos oferecem.
Mas o que realmente me cutucou foi a definição de "Funcionário", mais precisamente designar o manipulador da máquina em alguém que está mais para Operador do que para Manipulador ou Criador.
"Funcionário : pessoa que brinca com aparelho e age em função dele"
E como estas duas entidades - Aparelho e Funcionário - se relacionam? Através da brincadeira.
O negócio é intrigante. Não li o livro inteiro, estou lendo alternado com o Poética do Espaço do Bachelard, mas senti que tem coelho bom saindo deste mato.
Gozado que já assisti a algumas palestras do Flusser, ouvi meu amigo João Borba falando um monte dele, mas só agora, acidentalmente, comecei a ler. Coisas misteriosas da vida...
GLOSSÁRIO PARA UMA FUTURA FILOSOFIA DA FOTOGRAFIA
Aparelho : brinquedo que simula um tipo de pensamento.
Aparelho fotográfico : brinquedo que traduz pensamento conceitual em fotografias.
Autômato : aparelho que obedece a programa que se desenvolve ao acaso.
Brinquedo : objeto para jogar.
Código : sistema de signos ordenado por regras.
Conceito : elemento constitutivo de texto.
Conceituação : capacidade para compor e decifrar textos.
Consciência histórica : consciência da linearidade ( por exemplo, a causalidade).
Decifrar : revelar o significado convencionado de símbolos.
Entropia : tendência a situações cada vez mais prováveis.
Fotografia : imagem tipo-folheto produzida e distribuída por aparelho.
Fotógrafo : pessoa que procura inserir na imagem informações imprevistas pelo aparelho fotográfico.
Funcionário : pessoa que brinca com aparelho e age em função dele.
História : tradução linearmente progressiva de idéias em conceitos, ou de imagens emtextos.
Idéia : elemento constitutivo da imagem.
Idolatria : incapacidade de decifrar os significados da idéia, não obstante a capacidade delê-la, portanto, adoração da imagem.
Imagem : superfície significativa na qual as idéias se inter-relacionam magicamente.
Imagem técnica : imagem produzida por aparelho.
Imaginação : capacidade para compor e decifrar imagens.
Informação : situação pouco-provável.
Informar : produzir situações pouco-prováveis e imprimi-las em objetos.
Instrumento : simulação de um órgão do corpo humano que serve ao trabalho.
Jogo : atividade que tem fim em si mesma.
Magia : existência no espaço-tempo do eterno retorno.
Máquina : instrumento no qual a simulação passou pelo crivo da teoria.Memória: celeiro de informações.Objeto: algo contra o qual esbarramos.
Objeto cultural : objeto portador de informação impressa pelo homem.
Pós-história : processo circular que retraduz textos em imagens.
Pré-história : domínio de idéias, ausência de conceitos; ou domínio de imagens, ausênciade textos.
Produção : atividade que transporta objeto da natureza para a cultura.
Programa : jogo de combinação com elementos claros e distintos.
Realidade : tudo contra o que esbarramos no caminho à morte, portanto, aquilo que nosinteressa.
Redundância : informação repetida, portanto, situação provável.
Rito : comportamento próprio da forma existencial mágica.
Scanning : movimento de varredura que decifra uma situação.
Setores primário e secundário: campos de atividades onde objetos são produzidos einformados.
Setor terciário : campo de atividade onde informações são produzidas.
Significado : meta do signo.
Signo : fenômeno cuja meta é outro fenômeno.
Símbolo : signo convencionado consciente ou inconscientemente.
Sintoma : signo causado pelo seu significado.
Situação : cena onde são significativas as relações-entre-as-coisas e não as coisas-mesmas.
Sociedade industrial : sociedade onde a maioria trabalha com máquinas.
Sociedade pós-industrial: sociedade onde a maioria trabalha no setor terciário.
Texto : signos da escrita em linhas.
Textolatria: incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, não obstante acapacidade de lê-los, portanto, adoração ao texto.
Trabalho: atividade que produz e informa objetos.
Traduzir : mudar de um código para outro, portanto, saltar de um universo a outro.
Universo: conjunto das combinações de um código, ou dos significados de um código.
Valor : dever-se.
Válido : algo que é como deve ser
No caso do Filosofia da Caixa Preta a primeira coisa que Flusser faz é apresentar um glossário logo no começo de seu pensamento, e esclarecer que não vai inserir uma bibliografia, para "... criar atmosfera de campo virgem".
No delicioso Glossário (que transcrevo no final deste post) se destacam duas palavras: O Aparelho e o Funcionário.
A definição de Aparelho, "brinquedo que simula um tipo de pensamento", a princípio é orientada para a máquina fotográfica, mas evidentemente instiga uma amplitude de reflexões. Como diz Flusser, só o fato da máquina transformar quatro dimensões (altura, largura, profundidade e tempo) em duas (altura e largura) já apresenta alta complexidade.
Por outro lado o caráter restritivo da máquina (simular um tipo específico de pensamento), traz a reflexão sobre a relação entre o objeto e a forma que ele é manipulado. Podemos dizer que durante certo tempo o homem moldou o martelo ao seu gesto necessário ao ato pretendido com ele. Hoje, é o martelo que molda no nosso gesto, é ele que cristaliza as possibilidades de relação que temos com o mundo. Assim, há uma cristalização da forma como podemos pensar o mundo nas restrições que os aparelhos nos oferecem.
Mas o que realmente me cutucou foi a definição de "Funcionário", mais precisamente designar o manipulador da máquina em alguém que está mais para Operador do que para Manipulador ou Criador.
"Funcionário : pessoa que brinca com aparelho e age em função dele"
E como estas duas entidades - Aparelho e Funcionário - se relacionam? Através da brincadeira.
O negócio é intrigante. Não li o livro inteiro, estou lendo alternado com o Poética do Espaço do Bachelard, mas senti que tem coelho bom saindo deste mato.
Gozado que já assisti a algumas palestras do Flusser, ouvi meu amigo João Borba falando um monte dele, mas só agora, acidentalmente, comecei a ler. Coisas misteriosas da vida...
GLOSSÁRIO PARA UMA FUTURA FILOSOFIA DA FOTOGRAFIA
Aparelho : brinquedo que simula um tipo de pensamento.
Aparelho fotográfico : brinquedo que traduz pensamento conceitual em fotografias.
Autômato : aparelho que obedece a programa que se desenvolve ao acaso.
Brinquedo : objeto para jogar.
Código : sistema de signos ordenado por regras.
Conceito : elemento constitutivo de texto.
Conceituação : capacidade para compor e decifrar textos.
Consciência histórica : consciência da linearidade ( por exemplo, a causalidade).
Decifrar : revelar o significado convencionado de símbolos.
Entropia : tendência a situações cada vez mais prováveis.
Fotografia : imagem tipo-folheto produzida e distribuída por aparelho.
Fotógrafo : pessoa que procura inserir na imagem informações imprevistas pelo aparelho fotográfico.
Funcionário : pessoa que brinca com aparelho e age em função dele.
História : tradução linearmente progressiva de idéias em conceitos, ou de imagens emtextos.
Idéia : elemento constitutivo da imagem.
Idolatria : incapacidade de decifrar os significados da idéia, não obstante a capacidade delê-la, portanto, adoração da imagem.
Imagem : superfície significativa na qual as idéias se inter-relacionam magicamente.
Imagem técnica : imagem produzida por aparelho.
Imaginação : capacidade para compor e decifrar imagens.
Informação : situação pouco-provável.
Informar : produzir situações pouco-prováveis e imprimi-las em objetos.
Instrumento : simulação de um órgão do corpo humano que serve ao trabalho.
Jogo : atividade que tem fim em si mesma.
Magia : existência no espaço-tempo do eterno retorno.
Máquina : instrumento no qual a simulação passou pelo crivo da teoria.Memória: celeiro de informações.Objeto: algo contra o qual esbarramos.
Objeto cultural : objeto portador de informação impressa pelo homem.
Pós-história : processo circular que retraduz textos em imagens.
Pré-história : domínio de idéias, ausência de conceitos; ou domínio de imagens, ausênciade textos.
Produção : atividade que transporta objeto da natureza para a cultura.
Programa : jogo de combinação com elementos claros e distintos.
Realidade : tudo contra o que esbarramos no caminho à morte, portanto, aquilo que nosinteressa.
Redundância : informação repetida, portanto, situação provável.
Rito : comportamento próprio da forma existencial mágica.
Scanning : movimento de varredura que decifra uma situação.
Setores primário e secundário: campos de atividades onde objetos são produzidos einformados.
Setor terciário : campo de atividade onde informações são produzidas.
Significado : meta do signo.
Signo : fenômeno cuja meta é outro fenômeno.
Símbolo : signo convencionado consciente ou inconscientemente.
Sintoma : signo causado pelo seu significado.
Situação : cena onde são significativas as relações-entre-as-coisas e não as coisas-mesmas.
Sociedade industrial : sociedade onde a maioria trabalha com máquinas.
Sociedade pós-industrial: sociedade onde a maioria trabalha no setor terciário.
Texto : signos da escrita em linhas.
Textolatria: incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, não obstante acapacidade de lê-los, portanto, adoração ao texto.
Trabalho: atividade que produz e informa objetos.
Traduzir : mudar de um código para outro, portanto, saltar de um universo a outro.
Universo: conjunto das combinações de um código, ou dos significados de um código.
Valor : dever-se.
Válido : algo que é como deve ser
26.6.13
Quais são seus fantasmas?
Para começar, deixo claro: Tenho montes de fantasmas.
Fantasmas são espíritos com quem não decidimos conviver. Sem que tenhamos controle, eles surgem em nossas vidas, e depois não sabemos como nos livrar deles.
Eu particularmente tenho dificuldades com todo tipo de desapego, aprendo dia a dia a deixar as coisas irem embora. Mas com enorme dificuldade. Lidar com o desapego é aceitar a finitude das coisas, e, em essência, lidar com sua própria finitude. Caixão não tem gaveta, como dizem.
Mas é muito estranho conviver com fantasmas e não ter desapego em relação a eles. Afinal de contas, você não gosta deles, eles não te fazem bem. Por que então eles grudam, a não ser pela sua própria vontade? Questões abstratas e a princípio não vinculadas a você deveriam ser facilmente descartadas. Mas não são.
Por um lado isto mostra que você é mais complexo do que acha que é. Que aquilo que você delineia com a caneta existencial como "sendo você" vai além do que gostaria ou que consegue captar de si mesmo. Há uma circunscrição da topografia de sua alma que não abrange seu todo: ele se espalha e escorre pelo desenho que fez, borrando as bordas e obrigando a rever as fronteiras de si.
Por outro lado os fantasmas te obrigam a lembrar que além de suas fronteiras serem artificialmente criadas, a caneta que usou para definir a linha que separa o eu do desconhecido têm forte valor moral, de julgamento de si mesmo. Como se usássemos a caneta para distinguir e destacar o que achamos bom em nós mesmos, estabelecendo a linha numa tentativa de nos dissociarmos daquilo que somos e consideramos ruim, que queríamos que não fôssemos, mas somos.
Descobri o poder do desenho ao tentar deixar o traço livre nas bordas da minha existência, do meu existir, um pouco por acaso, um pouco por necessidade, um pouco por distração. Não acredito em borracha, acho que elas deveriam ser banidas do cotidiano, para que lembremos que as coisas não tem volta, devem ser assimiladas ao desenho.
Mas aí entra outro aspecto, o do fetiche, ou do foco, tanto faz. Ao tentar redesenhar as bordas da existência e das definições internas de quem somos, existem reentrâncias mais fascinantes que outras, o apego ao detalhe faz com que fiquemos rabiscando em determinadas regiões e esqueçamos outras. E nas áreas em que não prestamos tanta atenção no desenho (por desinteresse estético ou por medo) é de onde surgem os fantasmas. Damos pouca atenção aos fantasmas, como se pudéssemos deixar para depois aquela região, e eles se avultam, pois fazem parte de um todo mais complexo que envolve desde a forma, a cor, a linha e a espessura e consistência da tinta.
Precisamos prestar atenção aos fantasmas, aceitar que existem, mas não necessariamente entendê-los como borrões de nossa existência, sem deixar que a caneta de cunho moral, superlativa, julgue novamente a forma de como estamos desenhando nossas bordas. Mas não é fácil.
Fantasmas são espíritos com quem não decidimos conviver. Sem que tenhamos controle, eles surgem em nossas vidas, e depois não sabemos como nos livrar deles.
Eu particularmente tenho dificuldades com todo tipo de desapego, aprendo dia a dia a deixar as coisas irem embora. Mas com enorme dificuldade. Lidar com o desapego é aceitar a finitude das coisas, e, em essência, lidar com sua própria finitude. Caixão não tem gaveta, como dizem.
Mas é muito estranho conviver com fantasmas e não ter desapego em relação a eles. Afinal de contas, você não gosta deles, eles não te fazem bem. Por que então eles grudam, a não ser pela sua própria vontade? Questões abstratas e a princípio não vinculadas a você deveriam ser facilmente descartadas. Mas não são.
Por um lado isto mostra que você é mais complexo do que acha que é. Que aquilo que você delineia com a caneta existencial como "sendo você" vai além do que gostaria ou que consegue captar de si mesmo. Há uma circunscrição da topografia de sua alma que não abrange seu todo: ele se espalha e escorre pelo desenho que fez, borrando as bordas e obrigando a rever as fronteiras de si.
Por outro lado os fantasmas te obrigam a lembrar que além de suas fronteiras serem artificialmente criadas, a caneta que usou para definir a linha que separa o eu do desconhecido têm forte valor moral, de julgamento de si mesmo. Como se usássemos a caneta para distinguir e destacar o que achamos bom em nós mesmos, estabelecendo a linha numa tentativa de nos dissociarmos daquilo que somos e consideramos ruim, que queríamos que não fôssemos, mas somos.
Descobri o poder do desenho ao tentar deixar o traço livre nas bordas da minha existência, do meu existir, um pouco por acaso, um pouco por necessidade, um pouco por distração. Não acredito em borracha, acho que elas deveriam ser banidas do cotidiano, para que lembremos que as coisas não tem volta, devem ser assimiladas ao desenho.
Mas aí entra outro aspecto, o do fetiche, ou do foco, tanto faz. Ao tentar redesenhar as bordas da existência e das definições internas de quem somos, existem reentrâncias mais fascinantes que outras, o apego ao detalhe faz com que fiquemos rabiscando em determinadas regiões e esqueçamos outras. E nas áreas em que não prestamos tanta atenção no desenho (por desinteresse estético ou por medo) é de onde surgem os fantasmas. Damos pouca atenção aos fantasmas, como se pudéssemos deixar para depois aquela região, e eles se avultam, pois fazem parte de um todo mais complexo que envolve desde a forma, a cor, a linha e a espessura e consistência da tinta.
Precisamos prestar atenção aos fantasmas, aceitar que existem, mas não necessariamente entendê-los como borrões de nossa existência, sem deixar que a caneta de cunho moral, superlativa, julgue novamente a forma de como estamos desenhando nossas bordas. Mas não é fácil.
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23.6.13
Movidas pela Coragem ou pelo Medo?
Este texto foi escrito pela minha amiga querida Dani, colega da Fecap, que enfrentou uma dura batalha com o câncer de mama. Recomendo a leitura!
Eu já comecei um texto como este várias vezes, mas tinha minha autocrítica me impedindo de terminá-los (todos os antes começados). Como expor algo tão íntimo e ao mesmo tempo tão comum? Ter câncer não é raro, tão pouco incomum hoje, algo que acomete os imortais da tevê e do cinema, mas há nuanças que fazem de cada caso um caso. Parece clichê, mas o assunto veio à tona há semanas com o caso da atriz Angelina Jolie. Eu fiz também o exame genético de busca por mutações celulares, do BRCA1 e do BRCA2, porque descobriu-se em mim um tipo de câncer de mama mais incomum, o triplo negativo e tenho uma prima da minha mãe, que teve câncer de ovário e de mama depois. Passou por tratamento e hoje está viva e bem, sempre foi uma mulher muito bonita por sinal. Esse foi quase o final de minha saga, porque, enfim, sou relativamente jovem e espero que esta luta não termine tão cedo, gostaria de viver ainda muuuuuuuuuuuuuito mais!
Sou professora, desde os 14 anos; cursei o antigo magistério e trabalho, desde os estágios, há 19 anos com educação. Sou formada pela USP em Letras, tenho uma irmã mais nova, gosto de ler, adoro sorvete e sou casada há 6 anos, mas estamos juntos há 14. O mais importante dessa breve apresentação é que sou mãe da Marina, de 2 anos e 8 meses e tive câncer de mama aos 32. Estava amamentando a filhota, querida, planejada, amada, que estava com 6 meses, quando descobri um pequeno caroço de + ou – 1,8 cm no seio esquerdo. Aparentava uma “formação de gordura do leite, célula adiposa”, sei lá, perdoem-me meus médicos o vulgarismo, parecia algo comum.
Minha obstetra, Drª. Ana Angélica Fonseca, minha guia, foi a primeira a me examinar e já devia saber que havia algo estranho, porque saí da consulta com uma bateria de exames a serem feitos com certa urgência. Hoje sei que ela já sabia o que me acometeria! O mastologista indicado foi o Dr. Mario Mourão Netto, só para lembrar que sou professora, todo e qualquer procedimento foi feito pelo convênio.
Eu não podia imaginar que ele, o Dr. Mourão, era o papa da mastologia no Brasil, ex-diretor do Hospital A.C. Camargo, em SP, quem seria para mim como um pai nestes próximos anos. Senhor simpático, mas sério, viajado, inteligentíssimo, com quem chorei compulsivamente quando me deu o meu diagnóstico final, pré-operatório, de carcinoma maligno, com pressa para a cirurgia, porque o pequeno tumor crescia assustadoramente ao toque. Depois de batalhas “homéricas” com a Unimed Palistana Seguros Saúde, apesar de ter direito ao Hospital Osvaldo Cruz ou ao próprio A.C. Camargo, eu só consegui o Hospital Vitória, na Anália Franco, com a rapidez que o Dr. Mourão desejava e que foi ótimo. A “fila de espera” era de dois meses em outros hospitais.
Foram ressonâncias, ultrassons, mamografias, biópsias, pulsões com agulhas finas, grossas, exames de sangue mil, etc, etc, passaram-se quatro meses desde a consulta com a Dr.ª Ana Angélica; fui operada no dia 17 de novembro de 2011, devido à competência e agilidade do Dr. Mourão e de toda a sua esquipe, desde a sua secretária.
Abram aspas para aquele dia na sala do mastologista, quando o médico me disse que eu teria que passar por mastectomia total da mama esquerda e ainda esvaziamento axilar esquerdo, o qual já tinha mais de 20 linfonodos, o que até poderia comprometer parte do movimento do braço, eu saí de lá e só pensava numa coisa: “nunca mais vou amamentar!” Vejam como é engraçado pensar nisso hoje, eu tinha acabado de tirar a Marina da amamentação, eu não sabia se iria viver para vê-la crescer, nem se iria ser mãe de novo, nem se deveria contar aquilo tudo a alguém, porque naquele momento o lugar mais seguro do mundo parecia a sala do Dr. Mourão!
Eu fui para o banheiro da sala de espera, olhei para o espelho e disse para mim mesma: “não vou pedir para ninguém me buscar, porque fiz questão de ir lá sozinha e ...” depois de ter chorado lá por um tempão “...não vou mais chorar quando sair daqui, porque eu vou conseguir dirigir até em casa, tenho minha família, meu companheiro e a Marina esperando por mim!” Mentira, porque eu chorei muito depois, antes, durante, enfim, por todo o tratamento!
Bem, não vou contar toda a saga da cirurgia, do tratamento, da quimioterapia e radioterapia no IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), porque foram 18 sessões de quimio, 32 de radio, engorda, emagrece, quase morri de tanta dor, de tanto vomitar, coloquei cateter para as aplicações, mas o que vale ser mencionado é o carinho de todos, no Hospital Vitória; agradeço a Deus e a todos da equipe cirúrgica, (anestesista, cirurgião oncologista, cirurgião plástico, instrumentalista, enfermeiras, ao Dr. Rogério, em especial, que é um fofo). E beijos carinhosos à Drª. Maristela e à enfermeira Lilian, do IBCC, que foram demais!
Foram os dias mais difíceis e também os mais felizes da minha vida! Posso afirmar com certeza que poucos no mundo vivem o que eu vivi, tanta intensidade, medo, vitórias diárias em tão pouco tempo; mesmo careca (admito, foi muito difícil ver o cabelo cair, eu usei peruca. Não curti o lance do lenço) a melhor parte do dia era … acordar, ver a Marina e ir para o hospital, porque eu estava viva, mais um dia, “estou viva”!
Nós levamos a Marina para o conhecer o mar! Mesmo de peruca eu fui. Fomos eu, o Rô, ela, meus sogros, a Santos! Ela não estava muito bem, pegou uma virose, não dormimos direito, conhecemos muitos Pronto Socorros, mas para mim pareceram as praias gregas! Poder vê-la pisar na areia pela primeira vez foi muito emocionante!
Nesse depoimento há um lado parecido com o que viveu a atriz Angelina Jolie, porque eu nunca esperava ter passado por isso, não tinha nenhum caso diretamente antecedente na família, com 32 anos, nunca tinha feito uma mamografia, não poderia esperar um carcinoma maligno de 9,8 cm (não são milímetros não, são centímetros), que cresceu assustadoramente em três meses. E apesar de tudo o que ela preveniu, eu não teria feito o que ela fez, sei lá, acho que não; foi movida pela medo, ou pela coragem, de não querer passar pelo o que a mãe passou e perder alguém próximo e amado para o câncer também não é fácil; mas ela fez uma escolha, a qual eu não pude fazer. Apesar da medicina ser a favor do método preventivo, ainda assim existia a possibilidade da doença não se desenvolver. Como no meu caso, havia a possibilidade remota dela acontecer e aconteceu! Parece plágio do Gianecchini, mas ele tem razão e só quem passou por isso sabe: o câncer também fez de mim uma pessoa melhor!
Não melhor do que ninguém, antes tivesse a boca e a conta bancária da Jolie, (porque marido eu tenho um de primeira, a pessoa mais calma e mais companheira que alguém poderia ter ao seu lado, que foi pai e mãe da Marina e ficou do meu lado nos piores momentos! Deixa os amigos do Rô lerem isso!), contudo sou muito melhor do que eu era antes! E ainda falta parte de mim, porque não sei se ela fez o esvaziamento da mama, preservando pele e mamilos, o que não deixa de ser uma mastectomia preventiva, mas eu e muitas outras vítimas do câncer fomos mutiladas, (não foi possível ainda fazer a minha cirurgia reparadora, tamanha gravidade foi a cirurgia do dia da retirada do tumor), apesar de todo cuidado de profissionais como o Dr. Alexandre Katalinic Dutra, que é o melhor cirurgião plástico do mundo, porque ele cuida das pessoas que o procuram, não das “partes” do corpo que ele repara! Nunca conheci profissional tão atencioso e gentil, assim como sua secretária Luci, além da linda esposa, que se chama Marina, olhe como é este mundo cheio de não-coincidências!
A vida é um risco diário, esta aposta no que não se sabe que vai acontecer é que temos para hoje! Esta é a graça em estar vivo, saber que se pode morrer! Parece que a descoberta em ser imortal é algo que nos exige tanto! Obrigada inclusive à Drª. Eleonora Haddad Antunes, minha psiquiatra, e à minha terapeuta, Drª. Ana Cristina Marzolla, porque sem elas estar bem hoje não seria possível. Meu exame genético para investigar as possíveis mutações dos genes BRCA1 e BRCA2 deu a presença de 8 mutações no BRCA1 , mas todas inconclusivas, logo a minha possibilidade inconclusiva de ter câncer, de + ou - 25%, já se concluiu, eu espero que sem reincidências. A Drª. Maria Isabel W. Achatz até ligou em casa para me acalmar sobre o resultado desse exame. Exame que ainda não é feito pelo SUS, tampouco pelos convênios, nem em casos graves como o meu, mesmo com solicitações expressas de médicos tão importantes como a Drª. Maria Isabel, diretora do setor de oncogenética do Hospital A.C. Camargo, em SP. Eu só consegui o meu pedido, na Unimed Paulistana, depois de 40 dias, com jurisprudência, (o que significa que outras pessoas já haviam conseguido o exame antes), depois de tamanha batalha, como foi a minha e ainda prometi ao Dr. Mourão, um profissional incansável, que iria tentar divulgar a todos essa causa que não é inglória: não é luxo o Sintema Único de Saúde dispor esse exame às pessoas que não podem pagar um convênio ou lutar como eu lutei para consegui-lo!
Às vezes, diante das dificuldades, achava que estava sonhando (ou morrendo), tamanho cuidado os profissionais da oncologia tiveram comigo! Enfim, o objetivo da exame era pesquisar se uma ooforectomia profilática seria necessária (retirada do ovário), ou também uma mastectomia da mama direita, preventivamente, as quais provavelmente não seriam cobertas pelo convênio. Inclusive, como a fez a atriz Angelina Jolie, alvo do assunto discutido há semanas pela mídia, ao qual eu estava assistindo na tevê, enquanto lia o resultado de meu exame. Foi quando o meu amigo do trabalho, A. Bender, pediu-me para pensar num depoimento, aqui estou há dias, escrevendo o mesmo texto, e acho que agora foi!
Na verdade está sendo, talvez até tenha sido mais fácil para mim, podem dizer muitos, diziam e dizem que eu tive muita coragem; não sabem que só foi possível porque tenho a Marina, tenho muitos amigos, tive muita ajuda da minha querida mãe, da minha sogra, que é como mãe, da minha irmã, sogro, cunhados, família, dos amigos da escola onde trabalho, minha diretora, minha terapeuta, a fisioterapeuta e acupunturista Simone (quem se tornou a melhor amiga dos últimos tempos), além de todas as companheiras e companheiros de causa que fiz no IBCC, pessoas humildes, ou jornalistas, empregadas domésticas, ou donas de casa, professoras, ou atendentes de telemarketing, pessoas comuns como eu, todos aprendemos a viver apenas um problema de cada vez; já a certeza da cura, não sei, mas com a certeza da esperança na vida, claro, todos os dias!
Danielle Karen de Lima, 06 de junho de 2013.
Dicas de pesquisa:
http://www.ibcc.org.br/
http://www.accamargo.org.br/
http://www.euquerobiologia.com.br/2013/01/desvendando-o-cancer-de-mama-triplo.html
http://www.cancer.org.br/noticia/733/retirada-das-mamas-so-vale-para-casos-extremos
Eu já comecei um texto como este várias vezes, mas tinha minha autocrítica me impedindo de terminá-los (todos os antes começados). Como expor algo tão íntimo e ao mesmo tempo tão comum? Ter câncer não é raro, tão pouco incomum hoje, algo que acomete os imortais da tevê e do cinema, mas há nuanças que fazem de cada caso um caso. Parece clichê, mas o assunto veio à tona há semanas com o caso da atriz Angelina Jolie. Eu fiz também o exame genético de busca por mutações celulares, do BRCA1 e do BRCA2, porque descobriu-se em mim um tipo de câncer de mama mais incomum, o triplo negativo e tenho uma prima da minha mãe, que teve câncer de ovário e de mama depois. Passou por tratamento e hoje está viva e bem, sempre foi uma mulher muito bonita por sinal. Esse foi quase o final de minha saga, porque, enfim, sou relativamente jovem e espero que esta luta não termine tão cedo, gostaria de viver ainda muuuuuuuuuuuuuito mais!
Sou professora, desde os 14 anos; cursei o antigo magistério e trabalho, desde os estágios, há 19 anos com educação. Sou formada pela USP em Letras, tenho uma irmã mais nova, gosto de ler, adoro sorvete e sou casada há 6 anos, mas estamos juntos há 14. O mais importante dessa breve apresentação é que sou mãe da Marina, de 2 anos e 8 meses e tive câncer de mama aos 32. Estava amamentando a filhota, querida, planejada, amada, que estava com 6 meses, quando descobri um pequeno caroço de + ou – 1,8 cm no seio esquerdo. Aparentava uma “formação de gordura do leite, célula adiposa”, sei lá, perdoem-me meus médicos o vulgarismo, parecia algo comum.
Minha obstetra, Drª. Ana Angélica Fonseca, minha guia, foi a primeira a me examinar e já devia saber que havia algo estranho, porque saí da consulta com uma bateria de exames a serem feitos com certa urgência. Hoje sei que ela já sabia o que me acometeria! O mastologista indicado foi o Dr. Mario Mourão Netto, só para lembrar que sou professora, todo e qualquer procedimento foi feito pelo convênio.
Eu não podia imaginar que ele, o Dr. Mourão, era o papa da mastologia no Brasil, ex-diretor do Hospital A.C. Camargo, em SP, quem seria para mim como um pai nestes próximos anos. Senhor simpático, mas sério, viajado, inteligentíssimo, com quem chorei compulsivamente quando me deu o meu diagnóstico final, pré-operatório, de carcinoma maligno, com pressa para a cirurgia, porque o pequeno tumor crescia assustadoramente ao toque. Depois de batalhas “homéricas” com a Unimed Palistana Seguros Saúde, apesar de ter direito ao Hospital Osvaldo Cruz ou ao próprio A.C. Camargo, eu só consegui o Hospital Vitória, na Anália Franco, com a rapidez que o Dr. Mourão desejava e que foi ótimo. A “fila de espera” era de dois meses em outros hospitais.
Foram ressonâncias, ultrassons, mamografias, biópsias, pulsões com agulhas finas, grossas, exames de sangue mil, etc, etc, passaram-se quatro meses desde a consulta com a Dr.ª Ana Angélica; fui operada no dia 17 de novembro de 2011, devido à competência e agilidade do Dr. Mourão e de toda a sua esquipe, desde a sua secretária.
Abram aspas para aquele dia na sala do mastologista, quando o médico me disse que eu teria que passar por mastectomia total da mama esquerda e ainda esvaziamento axilar esquerdo, o qual já tinha mais de 20 linfonodos, o que até poderia comprometer parte do movimento do braço, eu saí de lá e só pensava numa coisa: “nunca mais vou amamentar!” Vejam como é engraçado pensar nisso hoje, eu tinha acabado de tirar a Marina da amamentação, eu não sabia se iria viver para vê-la crescer, nem se iria ser mãe de novo, nem se deveria contar aquilo tudo a alguém, porque naquele momento o lugar mais seguro do mundo parecia a sala do Dr. Mourão!
Eu fui para o banheiro da sala de espera, olhei para o espelho e disse para mim mesma: “não vou pedir para ninguém me buscar, porque fiz questão de ir lá sozinha e ...” depois de ter chorado lá por um tempão “...não vou mais chorar quando sair daqui, porque eu vou conseguir dirigir até em casa, tenho minha família, meu companheiro e a Marina esperando por mim!” Mentira, porque eu chorei muito depois, antes, durante, enfim, por todo o tratamento!
Bem, não vou contar toda a saga da cirurgia, do tratamento, da quimioterapia e radioterapia no IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), porque foram 18 sessões de quimio, 32 de radio, engorda, emagrece, quase morri de tanta dor, de tanto vomitar, coloquei cateter para as aplicações, mas o que vale ser mencionado é o carinho de todos, no Hospital Vitória; agradeço a Deus e a todos da equipe cirúrgica, (anestesista, cirurgião oncologista, cirurgião plástico, instrumentalista, enfermeiras, ao Dr. Rogério, em especial, que é um fofo). E beijos carinhosos à Drª. Maristela e à enfermeira Lilian, do IBCC, que foram demais!
Foram os dias mais difíceis e também os mais felizes da minha vida! Posso afirmar com certeza que poucos no mundo vivem o que eu vivi, tanta intensidade, medo, vitórias diárias em tão pouco tempo; mesmo careca (admito, foi muito difícil ver o cabelo cair, eu usei peruca. Não curti o lance do lenço) a melhor parte do dia era … acordar, ver a Marina e ir para o hospital, porque eu estava viva, mais um dia, “estou viva”!
Nós levamos a Marina para o conhecer o mar! Mesmo de peruca eu fui. Fomos eu, o Rô, ela, meus sogros, a Santos! Ela não estava muito bem, pegou uma virose, não dormimos direito, conhecemos muitos Pronto Socorros, mas para mim pareceram as praias gregas! Poder vê-la pisar na areia pela primeira vez foi muito emocionante!
Nesse depoimento há um lado parecido com o que viveu a atriz Angelina Jolie, porque eu nunca esperava ter passado por isso, não tinha nenhum caso diretamente antecedente na família, com 32 anos, nunca tinha feito uma mamografia, não poderia esperar um carcinoma maligno de 9,8 cm (não são milímetros não, são centímetros), que cresceu assustadoramente em três meses. E apesar de tudo o que ela preveniu, eu não teria feito o que ela fez, sei lá, acho que não; foi movida pela medo, ou pela coragem, de não querer passar pelo o que a mãe passou e perder alguém próximo e amado para o câncer também não é fácil; mas ela fez uma escolha, a qual eu não pude fazer. Apesar da medicina ser a favor do método preventivo, ainda assim existia a possibilidade da doença não se desenvolver. Como no meu caso, havia a possibilidade remota dela acontecer e aconteceu! Parece plágio do Gianecchini, mas ele tem razão e só quem passou por isso sabe: o câncer também fez de mim uma pessoa melhor!
Não melhor do que ninguém, antes tivesse a boca e a conta bancária da Jolie, (porque marido eu tenho um de primeira, a pessoa mais calma e mais companheira que alguém poderia ter ao seu lado, que foi pai e mãe da Marina e ficou do meu lado nos piores momentos! Deixa os amigos do Rô lerem isso!), contudo sou muito melhor do que eu era antes! E ainda falta parte de mim, porque não sei se ela fez o esvaziamento da mama, preservando pele e mamilos, o que não deixa de ser uma mastectomia preventiva, mas eu e muitas outras vítimas do câncer fomos mutiladas, (não foi possível ainda fazer a minha cirurgia reparadora, tamanha gravidade foi a cirurgia do dia da retirada do tumor), apesar de todo cuidado de profissionais como o Dr. Alexandre Katalinic Dutra, que é o melhor cirurgião plástico do mundo, porque ele cuida das pessoas que o procuram, não das “partes” do corpo que ele repara! Nunca conheci profissional tão atencioso e gentil, assim como sua secretária Luci, além da linda esposa, que se chama Marina, olhe como é este mundo cheio de não-coincidências!
A vida é um risco diário, esta aposta no que não se sabe que vai acontecer é que temos para hoje! Esta é a graça em estar vivo, saber que se pode morrer! Parece que a descoberta em ser imortal é algo que nos exige tanto! Obrigada inclusive à Drª. Eleonora Haddad Antunes, minha psiquiatra, e à minha terapeuta, Drª. Ana Cristina Marzolla, porque sem elas estar bem hoje não seria possível. Meu exame genético para investigar as possíveis mutações dos genes BRCA1 e BRCA2 deu a presença de 8 mutações no BRCA1 , mas todas inconclusivas, logo a minha possibilidade inconclusiva de ter câncer, de + ou - 25%, já se concluiu, eu espero que sem reincidências. A Drª. Maria Isabel W. Achatz até ligou em casa para me acalmar sobre o resultado desse exame. Exame que ainda não é feito pelo SUS, tampouco pelos convênios, nem em casos graves como o meu, mesmo com solicitações expressas de médicos tão importantes como a Drª. Maria Isabel, diretora do setor de oncogenética do Hospital A.C. Camargo, em SP. Eu só consegui o meu pedido, na Unimed Paulistana, depois de 40 dias, com jurisprudência, (o que significa que outras pessoas já haviam conseguido o exame antes), depois de tamanha batalha, como foi a minha e ainda prometi ao Dr. Mourão, um profissional incansável, que iria tentar divulgar a todos essa causa que não é inglória: não é luxo o Sintema Único de Saúde dispor esse exame às pessoas que não podem pagar um convênio ou lutar como eu lutei para consegui-lo!
Às vezes, diante das dificuldades, achava que estava sonhando (ou morrendo), tamanho cuidado os profissionais da oncologia tiveram comigo! Enfim, o objetivo da exame era pesquisar se uma ooforectomia profilática seria necessária (retirada do ovário), ou também uma mastectomia da mama direita, preventivamente, as quais provavelmente não seriam cobertas pelo convênio. Inclusive, como a fez a atriz Angelina Jolie, alvo do assunto discutido há semanas pela mídia, ao qual eu estava assistindo na tevê, enquanto lia o resultado de meu exame. Foi quando o meu amigo do trabalho, A. Bender, pediu-me para pensar num depoimento, aqui estou há dias, escrevendo o mesmo texto, e acho que agora foi!
Na verdade está sendo, talvez até tenha sido mais fácil para mim, podem dizer muitos, diziam e dizem que eu tive muita coragem; não sabem que só foi possível porque tenho a Marina, tenho muitos amigos, tive muita ajuda da minha querida mãe, da minha sogra, que é como mãe, da minha irmã, sogro, cunhados, família, dos amigos da escola onde trabalho, minha diretora, minha terapeuta, a fisioterapeuta e acupunturista Simone (quem se tornou a melhor amiga dos últimos tempos), além de todas as companheiras e companheiros de causa que fiz no IBCC, pessoas humildes, ou jornalistas, empregadas domésticas, ou donas de casa, professoras, ou atendentes de telemarketing, pessoas comuns como eu, todos aprendemos a viver apenas um problema de cada vez; já a certeza da cura, não sei, mas com a certeza da esperança na vida, claro, todos os dias!
Danielle Karen de Lima, 06 de junho de 2013.
Dicas de pesquisa:
http://www.ibcc.org.br/
http://www.accamargo.org.br/
http://www.euquerobiologia.com.br/2013/01/desvendando-o-cancer-de-mama-triplo.html
http://www.cancer.org.br/noticia/733/retirada-das-mamas-so-vale-para-casos-extremos
A Rede Social Offline - A Disseminação das Manifestações não é Fractal, mas sim de Aglutinação
Já falei em um vídeo (veja abaixo) sobre a relação estrutural entre as Manifestações e o Harlem Shake. Mas a questão dos conteúdos de expressão da Manifestação é outra. Estas pessoas se aglutinam em torno de quê, especificamente? Se antigamente o povo se juntava em torno de uma causa, hoje as pessoas levam suas causas para juntar à manifestação.
O que muda?
Enquanto em outros movimentos políticos existia uma causa clara - Liberdade de Imprensa, por exemplo - e as pessoas que se identificavam com esta causa iam às ruas para dar força ao movimento e torna-lo expressivo, hoje, o que vemos é as pessoas levarem suas causas de cada micro-grupo para darem força ao grupo. Por isto vemos tantas faixas e bandeiras, quase individuais, espalhadas pela multidão.Um dos grandes baratos de quem está na manifestação é ver o que cada faixa ou cartolina está dizendo, muito parecido com os memes e os posts que preenchem nossas timelines nas redes sociais.
Um deles, que dizia "Saímos do Facebook" significa um pouco isto. Obviamente isto não significa que a Ágora Virtual que é o Facebook se expandiu e foi para o offline, mas sim que já existiam reflexões pessoais e de pequenos grupos que se manifestavam no online e agora levam seus "posts" para a rua. E isto volta para as redes sociais online, já que as pessoas fotografam os cartazes e postam em suas timelines, gerando um ciclo de comunicação virtuoso, pelo menos até o presente momento.
Voltando a Santo André e as pequenas Manifestações
Um amigo meu publicou, orgulhoso, a manifestação em sua cidade, Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. Na foto era possível ver umas 300 pessoas com guarda-chuvas fazendo uma micro manifestação no centro da cidade.
Os alunos da 8a série da escola de minha filha criaram um evento pelo Facebook e juntaram 200 garotos para fazerem uma manifestação na frente da escola, parando a pequena travessa onde ela fica.
Agora vá até o álbum do Flickr onde estão as fotos do Américo Rodrigues e veja: Há um pouco de tudo naquele pequeno grupo. A intenção é se juntar e expressar questões num espaço coletivo, agregando a sua causa pessoal às causas de outras pessoas.
Quando pensamos nas grandes manifestações, como de São Paulo, Rio e Belo Horizonte, devemos ter em mente não apenas o número de pessoas que teoricamente aderiram a uma causa específica, mas sim a um maior número de pessoas por causa e um maior número de causas, o que gera uma complexidade de situação muito maior. Se existe na manifestação de Santo André um casal gay se manifestando em SP há uma passeata específica dos Gays para se expressarem, que se dirige para a Avenida Paulista, onde encontrará as outras manifestações vindas de todos os outros lados da cidade.
E existem grupos menores, como os Nacionalistas Radicais de Direita, que não são significativos em Santa Rosa ou Santo André mas que em SP existem, que também vão juntos avolumar a massa de gente, expressando seu ponto de vista. O mesmo vale para partidos políticos, agremiações, movimentos sociais, ONGs, e por aí vai.
Não é simples atuar perante inúmeros grupos reunidos, que inclusive discordam entre si. A diversidade de interesses e motivos varia de acordo com o local, mas está presente em todos.
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18.6.13
65 Mil Pessoas pararam São Paulo?
Se têm alguma coisa que aprendi nestes movimentos é que definitivamente não vou levar mais a sério os meios de comunicação tradicionais. Os canais de televisão aberta e os grandes portais não entenderam o movimento em São Paulo (ou não quiseram entender), e a cobertura é a mais vergonhosa que vi desde que nasci.
Para deixar claro: Não estou sendo influenciado pelo sentimento de nacionalismo e querendo achar que foi uma manifestação maior do que realmente foi pela sua importância simbólica. No universo do simbólico basta uma, e apenas uma pessoa num ato solitário para que alguma coisa faça sentido.
Primeiro: A mídia estava em busca de quê? O que é notícia? Pelo que entendi notícia é baderna, confusão e vandalismo. Nos locais onde isto aconteceu pelo Brasil sempre tinha gente da mídia registrando. Nos locais onde passei, onde as pessoas andavam tranquilamente numa massa gigantesca, a mídia tradicional não deu cobertura. Será que os canais abertos viraram de vez um grande programa do Datena, onde quanto pior for melhor? Por que aí dá audiência?
Segundo: Incrível como os poucos políticos profissionais falaram bobagem sobre o assunto. É evidente que devem ser raríssimos os políticos profissionais que representam alguém que estava nas manifestações. E estes movimentos tipo PSTU e Passe Livre até tentaram "dirigir" as manifestações, mas não conseguiram, o que acho ótimo. Um fato que reflete a miopia político-partidária é que os governos estão convocando as "lideranças" do movimento para negociar, como se isto existisse de verdade. Quer dizer que se o Alckmin, a Dilma e o líder do PSTU sentarem e negociarem o PSTU vai mandar uma mensagem e todo mundo vai ficar em casa? Será que eles acreditam nisto mesmo?
Terceiro: Os canais de comunicação e os governos precisam escolher, ou foram poucas pessoas para as ruas ou São Paulo parou. Dizem que a Parada Gay junta mais de um milhão de pessoas na rua quando ocupa a Avenida Paulista. Ontem tinha gente na Marginal do Pinheiros, no Largo da Batata, na Faria Lima, na Rebouças, na 23 de Maio, na JK, na Berrini, na Ponte Estaiada, na Santo Amaro, no Palácio do Governo. Para se ter uma ideia, quando estávamos chegando na JK tinha gente que ainda não tinha saído do Largo da Batata, e já tinha gente na Ponte Estaiada, um trajeto de 12 quilômetros.
É manipulação para todo o lado, né? Será que o pessoal não percebeu que a luta é justamente contra isto? Caros representantes do governo e políticos, canais de comunicação, revejam o que estão fazendo pois neste momento vocês não representam ninguém que estava nas ruas, apenas os seus próprios (e muitas vezes questionáveis) interesses.
9.6.13
Retrato do Humano Contemporâneo - O Labrador (ou o Golden, tanto faz)
Nossos cachorros dizem muito sobre nós mesmos.
Sou de outra época, a do Pastor Alemão e do Doberman. O Pastor Alemão é um dos cachorros mais incríveis que conheço.
Fiquei muito feliz de ver a raça reaparecer na mídia depois do filme "Eu Sou a Lenda", do Will Smith.
O Doberman, apesar de ser considerado um cão bravo, na verdade é dócil e obediente. Não me lembro de caso de Doberman atacando dono. Grande cão de guarda.
Não me esqueço do dia em que chegou uma viatura cheia de policiais, chamando o caseiro para testemunhar um crime que tinha acontecido na cidade. O maior macho do canil foi e sentou do lado do carro. Não latiu, nada, só sentou.
Eu estava dentro da casa, escrevendo. Ouvi um barulho de gente chamando lá fora, tipo "psiu?", "oi?", "boa tarde?", coisas do gênero. Quando saí todos os policiais armados estavam dentro da viatura, com só uma frestinha do vidro aberto, esperando alguém aparecer. Fila é bicho ardiloso.
Hoje os cachorros padrão são o Golden e o Labrador. "Marley e Eu" é a Lassie do século XXI.
Bicho mimado, faz bagunça pela casa, mas é amoroso. Nada mais adequado para os dias de hoje.
Vivemos a era do mimo. Confundimos afeto com mimo. Conheço um monte de gente adulta mimada. E carente. Estes cachorros são assim. Identificação total.
O resto é cachorro ornamental, tipo moda. Teve os mini galgo, bulldog, bulldog francês, a lista é enorme. Sabemos a safra de uma pessoa pelo cachorro que ela têm. Por isto adoro as velhinhas que andam pela praça aqui no centro com uns vira-latas centenários como elas, ambos tentando ficar de pé e dar um rolê. E os puxadores de carroça que têm seus vira-latas acompanhando na busca pelos recicláveis. Não há moda nestes casos, aquilo é definitivamente um cachorro ao lado de um humano.
Os Labradores e Goldens são cachorros de médio/grande porte. Pensando que um grande número de pessoas em São Paulo mora em apartamentos, são animais que ocupam espaço, fisicamente falando.
Mas estranhamente parecem ornar com SUVs e famílias passeando no domingo. Só não sei onde eles ficam durante a semana. Os Goldens têm ainda a dificuldade de escovar aquele cabelão, imagino a quantidade de pelos que aquilo solta num apartamento de 100m2...
Não há cachorros mais icônicos de nossa classe média que estes dois. E acredito que seja pela sua doçura e simpatia. Vivemos em tempos carrancudos, em cidades mal humoradas, trânsito infernal, pessoas que viram a cara quando damos bom dia. Nada pior do que se chegássemos em casa e estivesse mais uma coisa olhando feio para a gente.
A melhor frase que conheço sobre cães e humanos é do Seinfeild, que diz que se os ETs viessem agora e vissem os humanos andando atrás dos cães segurando um saquinho e recolhendo o cocô deles pela calçada não teriam dúvida em saber quem é a espécie dominante...
1.6.13
O objeto inalcançável - A Nave Enterprise
Tenho certeza de que os fãs de Star Trek se interessarão por este post, mas garanto que todos vão entender o que quero dizer.
Star Trek é um seriado cujo personagem principal é uma nave. Esta é a verdade, alguém já disse isto e eu não me lembro quem foi. O personagem essencial é a nave. E a grande diversão dos filmes é ver como os personagens interagem entre si diante das adversidades das histórias.
O último filme, Além da Escuridão, resgata vilões antigos (e importantes), têm uma história cheia de correrias para lá e para cá, inversões de situações de filmes anteriores, mas a nave continua sendo o personagem principal.
Por que?
A abertura do seriado e dos filmes sempre cita a missão da Enterprise:
“Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos em busca de estranhos novos mundos, novas vidas e novas civilizações. Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.”
Algumas pessoas dizem que há um fetiche pelo Objeto da nave, a coisa da idolatria. Eu já discordo, o fetiche é pelo Objetivo da nave. Ir em busca do desconhecido, novos mundos: A fronteira final.
A série se propõe a investigar aquilo que não sabemos o que é, as fronteiras do conhecimento, colocar em xeque modos de pensar e abrir a cabeça para o novo.
Neste sentido, Star Trek é imbatível.
Curiosamente ia escrever um texto diferente sobre o assunto. Queria falar sobre a vontade de entrar na nave, e a consciência que temos de que nunca poderemos entrar nesta nave, por mais que queiramos. Mas isto vale para muitos outros conceitos abstratos criados pela nossa sociedade e mantidos por nós, como os julgamentos morais, o amor, a vida comum, e tantas outras abstrações que nos rodeiam e acabamos convivendo com elas. E achamos que realmente entramos nesta nave simbólica, mas apenas simulamos que entramos, já que ela é uma ideia, inatingível, inacessível, como a Enterprise, aquela nave bela que flutua na tela do cinema.
Star Trek é um seriado cujo personagem principal é uma nave. Esta é a verdade, alguém já disse isto e eu não me lembro quem foi. O personagem essencial é a nave. E a grande diversão dos filmes é ver como os personagens interagem entre si diante das adversidades das histórias.
O último filme, Além da Escuridão, resgata vilões antigos (e importantes), têm uma história cheia de correrias para lá e para cá, inversões de situações de filmes anteriores, mas a nave continua sendo o personagem principal.
Por que?
A abertura do seriado e dos filmes sempre cita a missão da Enterprise:
“Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos em busca de estranhos novos mundos, novas vidas e novas civilizações. Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.”
Algumas pessoas dizem que há um fetiche pelo Objeto da nave, a coisa da idolatria. Eu já discordo, o fetiche é pelo Objetivo da nave. Ir em busca do desconhecido, novos mundos: A fronteira final.
A série se propõe a investigar aquilo que não sabemos o que é, as fronteiras do conhecimento, colocar em xeque modos de pensar e abrir a cabeça para o novo.
Neste sentido, Star Trek é imbatível.
Curiosamente ia escrever um texto diferente sobre o assunto. Queria falar sobre a vontade de entrar na nave, e a consciência que temos de que nunca poderemos entrar nesta nave, por mais que queiramos. Mas isto vale para muitos outros conceitos abstratos criados pela nossa sociedade e mantidos por nós, como os julgamentos morais, o amor, a vida comum, e tantas outras abstrações que nos rodeiam e acabamos convivendo com elas. E achamos que realmente entramos nesta nave simbólica, mas apenas simulamos que entramos, já que ela é uma ideia, inatingível, inacessível, como a Enterprise, aquela nave bela que flutua na tela do cinema.
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