Let´s Go!

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18.6.12

Dilema: Concorrer a dois milhões de reais ou ir ao funeral da irmã assassinada?

A princípio parece um dilema simples, já que todas as pessoas diriam que preferem ir se despedir de sua irmã. Não haveria dinheiro que comprasse o sentimento de ausência e de falta de solidariedade com o resto da família. Mas no mundo de hoje a questão parece ser mais complexa.
Ângela Bismarchi, uma modelo (ou sub-celebridade, como alguns dizem), teve sua irmã assassinada numa briga entre o atual e o ex. Uma triste história que ainda acontece pelo mundo. E isto aconteceu no momento em que a modelo está isolada num reality show. Se ela sair, perde a chance de concorrer ao prêmio. Se ficar, não pode ir ao enterro da irmã.


É um dilema recente, de nossa modernidade (ou do mundo contemporâneo, como quiserem). O primeiro indício deste tipo de situação que me lembro acontece no filme A Montanha dos Sete Abutres, onde Kirk Douglas é um repórter de um jornal sem projeção que é chamado para acompanhar a história de um homem que está preso numa mina e percebe que esta é a notícia que pode fazê-lo ficar famoso.


Por que é tão importante ficar famoso nos dias de hoje? Qual a razão que faz com que as pessoas invistam tanto em "popularidade"? Quando eu este fenômeno em filmes e seriados americanos antigos não parecia algo tão relevante na época, mas hoje isto reflete a sociedade ocidental como um todo. A frase do rapper 50 cent "Get Rich or Die Tryin" poderia ser alterada para "Get Famous or...", pois esta é a questão de hoje.


Por mim, a grande problemática social de nossa sociedade é o sentimento de anonimato. O esvaziamento da vida privada em detrimento de uma vida social intensa aguça a necessidade de sermos alguém para muitos, e não alguém para nós mesmos e nossos entes e parentes. Ser importante é o que importa.


Apesar de o dilema moral colocado no título deste post estar relacionado ao dinheiro, o que se torna evidente é que não tem nada a ver com ele. A tal modelo não é uma pessoa que precise de dinheiro, é casada com um bem sucedido cirurgião plástico (que a remodelou em mais de 40 cirurgias, quase como o criador e criatura do livro Frankenstein). Ela precisa ser popular, a todo custo.


A popularidade, neste sentido, é mais cruel do que o trabalho, já que grande parte das pessoas aceita o trabalho como um fardo e sonha com o dia em que poderá ficar sem fazer nada (outra ilusão). Já a popularidade é diferente, pois a grande maioria das pessoas não quer ser famosa num dia e depois cair no ostracismo. Ninguém quer ser esquecido, e isto move o mundo das sub-celebridades, que estão próximas da fama, e não querem voltar para o buraco de onde vieram.


Vale a pena acompanhar os desdobramentos desta história, ela é parte de algo íntimo de cada um: Como conciliar desejo e responsabilidade?

17.6.12

Quem te interessa no mundo digital?

Coisas da vida: Descobri quase por acaso que estava acompanhando histórias de pessoas que praticamente não conhecia no Facebook. E dá-lhe receber convites de jogos sociais, fotos de festas estranhas e mensagens pré-fabricadas por perfis genéricos.
Do ponto de vista de análise comportamental, tudo bem. Dá para compreender bastante as coisas observando os seres humanos em geral. Mas quanto tempo este tipo de atividade requer? É aí que me vi mergulhado num universo genérico.
Acompanhava questões que não eram relevantes e que me custavam um tempo precioso, necessário a outras coisas da minha agenda. Redes sociais são um assunto importante, mas Coluna Social de semi-desconhecidos é outra coisa. E como dá um certo trabalho configurar direito a conta do Facebook, lá vamos nós observar a enésima garrafa de cerveja com três desconhecidos atrás dela, num bar qualquer.
O que isto me acrescenta? Só a percepção de que estou gastando tempo com informação pouco relevante.


Antigamente dava para sentar numa praça e ver a vida passar, afinal de contas eram algumas dezenas de pessoas que passariam por ali. No Facebook são milhões de pessoas, em breve bilhões. Não dá para acompanhar todo mundo, nem faz sentido isto.


De vez em quando fica a sensação de que seguimos o fluxo e não determinamos aquilo que é relevante para nossa vida. Deixar rolar, fazer fluir, todos os sinônimos de que o barco está a deriva. Na nossa rede social é a mesma coisa. A vontade de participar de tudo que está minimamente próximo faz com que fiquemos distantes da nossa própria timeline, e não estou falando da timeline que o Facebook atribuiu ao nosso comportamento, mas sim aquela que define a nossa passagem pelo planeta e que pode nos permitir ser mais ou menos feliz neste rápido trajeto que chamamos de vida.


Nem todas as informações são essenciais, como também nem todas as pessoas são especiais na sua vida. Ao invés de dar atenção por segundos a inúmeros desconhecidos, que tal dar alguns minutos de atenção para pessoas que são importantes na sua vida?

11.6.12

A Vida em Ciclos

Vejo um monte de gente reclamar no Facebook das contagens da semana. "Pena que é segunda-feira", "Oba, é sexta". Quase infinita a quantidade de pessoas que marcam seus ciclos, e eles se tornam mais evidentes nas redes sociais, afinal de contas podemos ver como nossos ciclos são parecidos com os de outras pessoas.


Nos últimos dias foram os ciclos de Festas Juninas, um monte de fotos da festança pelo Brasil afora. Todo mundo vestido de caipira, perto de uma fogueira, ou algo do gênero. Em breve, o ciclo das férias, com fotos e demonstrações de felicidade.


A mídia também trabalha com estes ciclos, mas com conteúdos. Sempre aparece uma notícia, de tempos em tempos, sobre a existência (ou não) da alma, questões de gênero (homens e mulheres), relacionamentos e por aí vai. Há algumas revistas que são, em si, um ciclo, pela sua periodicidade. Afinal de contas, toda revista Cláudia têm uma matéria sobre beleza, sexo, regime e moda. Ela é, em si, um ciclo, que serve para relembrar questões relevantes para suas leitoras. Mais ou menos como a missa semanal, as corridas pela manhã ou o futebol de quarta-feira.


Curiosamente tem muita gente que não aceita a vida cíclica, parece negar que tudo tem um começo, um meio e um fim.  A começar pela vida. Vivemos numa sociedade que nega sistematicamente a morte, a doença, o fim da juventude, as desilusões. Nos apegamos a ciclos simples, mas nos recusamos a aceitar os complexos, os existenciais.


Talvez seja mais fácil se apegar aos ciclos menores, mais curtos ou menos complexos, que nos dão uma falsa sensação de que na semana, mês ou ano que vem continuaremos neles, mas esquecemos que no futuro, se ele existir, tudo será diferente, e a festa junina será outra festa, com outras pessoas. E mesmo nós não seremos a mesma pessoa.


PS - A foto do idoso e da criança foi devidamente "roubada" da timeline do meu amigo Fábio Betti.

31.5.12

O incrível caso da calcinha misteriosa

Depois de ler o bafafá que está acontecendo no Congresso Nacional, onde foi encontrada uma calcinha perdida, me lembrei imediatamente de um caso que aconteceu comigo há alguns anos atrás.
O escritório da UmaCentral era numa bela casinha amarela, que adaptamos e recebíamos amigos e clientes para almoços e happy hours num quintal com uma grande mesa rodeada por árvores e uma horta. A funcionária mais importante na época era a Maria, nossa cozinheira. Quem mandava lá era ela, por sinal, eu, como mero Sócio-Diretor, concordava, quem iria discordar da Maria?


Um dia, um querido amigo que não posso citar o nome, mas que o Sidnei Basile profetizou que ainda será Ministro da Economia, pediu para fazer um jantar lá. Ele estava morando em Boston e não tinha onde oferecer uma janta para seus pais, quando estivesse no Brasil. Obviamente concordei.
Ele chegou um pouco mais cedo para o jantar, veio direto do aeroporto, e me perguntou se tinha onde tomar um banho. Um dos banheiros tinha chuveiro, e lá foi ele.


O jantar foi uma delícia, comemos, bebemos e matamos a saudade da família do meu amigo. Ficou uma pequena bagunça mas nada que a Maria não desse conta.


No dia seguinte...eu estava trabalhando na minha sala quando a Maria para na porta, séria.


- Seu Alê, ontem teve uma festa aqui, né?
- Claro Maria, desculpe a bagunça.
- Seu Alê, alguém esqueceu alguma coisa, perdeu alguma coisa?
( e me olhava olho no olho)
- Não Maria, que eu saiba não.
- O Senhor tem certeza? Que alguém não esqueceu nada?
- Sei lá, Maria, você achou alguma coisa perdida?


E a Maria me mostra uma calcinha preta de renda, com aquela cara de "seu tarado, fez bunda lelê ontem, né?"


Eu fiquei fritando os neurônios, quem tinha participado do jantar eram os pais do meu amigo, alguns amigos homens. Será que a calcinha era da mãe do meu amigo? De onde veio aquela coisa? E pior, como perguntar para alguém "oi, naquela macarronada que fizemos ontem alguém perdeu uma calcinha, é sua?"


Foram alguns dias de mistério, até que eu resolvi ligar para meu amigo em Boston.


- Você sabe alguma coisa de uma calcinha? Está rolando um mistério aqui na UmaCentral, de onde veio a coisa...
E meu amigo ria.
- Ihhh, quando saí de Boston não queria acordar minha mulher, fui na gaveta de cuecas e peguei por engano uma calcinha dela. Para não ter de entrar no quarto de novo, meti a calcinha e fui para o aeroporto. Quando tomei banho troquei de roupa e esqueci a calcinha no teu banheiro...


Até hoje a Maria não acredita na minha história, continua com aquele olhar intrigado, achando que a macarronada foi muito, muito louca...

30.5.12

Todo Wagner Moura tem seu dia de Zé Bonitinho

Pelo que eu pude ler nas redes sociais não perdi nada ao não assistir a "homenagem" ao Legião Urbana. Alguém teve a ideia incrível de chamar o Wagner Moura para cantar no lugar do Renato Russo, e parece que não deu nada certo, pela simples razão dele ser um bom ator, e não bom cantor.


Por que estas coisas acontecem, quando aparentemente tem tudo para dar certo? Armadilhas mentais é a resposta. Pegamos duas unanimidades, cada uma na sua área (uma banda popular com cantor tragicamente morto no auge do sucesso e um ator/personalidade admirado por todos e todas), misturamos, e obviamente vai dar certo. Ficamos tão cegos com todas as qualidades de nosso pensamento que simplesmente esquecemos o óbvio: O ator precisa ser mais que um cantor de karaokê, ele precisa ser no mínimo mediano, cantar sem envergonhar. Pois é... não deu certo.


Mas o que impressiona é o Wagner Moura ter caído na armadilha, ele parece (ou parecia) mais sensato do ponto de vista profissional, a carreira está bem alinhada, sucesso atrás de sucesso, fiquei imaginando qual a razão de entrar numa roubada destas, e pelo que percebi ele sucumbiu a um problema que lidamos todos os dias, que é a auto-percepção, como nós enxergamos, mecanismo regulado parcialmente pela nossa auto-estima.


Nunca temos uma real percepção de nós mesmos, ou nos sentimos menores do que somos ou maiores. Esta oscilação acontece a todo momento, basta tentarmos abrir um pote de azeitona que passamos a nos achar mais fracos do que deveríamos ser, ou darmos uma moeda de cinquenta centavos para um mendigo e já achamos que somos ótimas pessoas.


Entre o momento Shrek e o momento Zé Bonitinho, parece que o Zé Bonitinho dominou a mente do Wagner Moura. E toca o cara a pagar mico gigante na frente de todo mundo.
Em  maior ou menor grau, já fizemos isto e vamos continuar a fazer. Oscilar é a única maneira de continuarmos andando, e precisamos aceitar isto. Vamos passar a borracha na história, lembrar do Renato Russo cantando, lembrar do Tropa de Elite e vida pra frente. E por favor, marqueteiros de plantão, não lancem um DVD desta experiência fracassada, já basta o YouTube para nos lembrar que um dia o Wagner Moura achou que era o Zé Bonitinho mas cantava como o Shrek...

28.5.12

O que seria do emergente sem o plástico preto?

Antigamente festa na comunidade era uma coisa meio coletiva. A "urbanização" era feita na base do empilhamento de pobres em locais distantes, na periferia. Cabia à própria comunidade construir e/ou gerenciar os espaços coletivos e sociais. Nada de biblioteca e galeria de arte, isto é coisa de elite e gente metida. O espaço coletivo era o da festa. De casamento, de aniversário, era juntar todo mundo num espaço, pegar a mesa emprestada do vizinho, o outro traz a churrasqueira, alguém traz as cervejas, e a festa acontecia.
Estas festas sempre foram divertidas, pois elas até tem um "dono" por assim dizer, mas acabam sendo meio de todo mundo, portão aberto, o pessoal vai chegando, trazendo alguma coisa e a festa continua.
A cerveja é ruim, o churrasco é de frango e linguiça, a caixa de som está chiando, mas a diversão rola solta. Em especial pelo fato das pessoas estarem querendo se divertir, há interesse genuíno de todos em dar vazão à brincadeira, em comer uma maionese num prato de plástico e aproveitar um pouco as coisas boas da vida.


Mas não é só de diversão que as pessoas vivem, as pessoas também querem ter status, para se diferenciar dos outros e serem mais especiais do que a média. Isto vale para todo mundo, com raras exceções. E é aí que surge o indefectível plástico preto...


O espaço da festa, antes semi-coletivo (portão aberto, chão de terra batido) dá lugar à garagem, onde um carro lustroso apresenta a família para os vizinhos. Hoje o carro é mais bem tratado que muito filho por aí.
E é no espaço da garagem que começam a acontecer as festas na periferia e na classe média emergente. 


Como gerar exclusividade? Jogando o plástico preto na grade da garagem para que a vizinhança não possa ver o que está acontecendo lá dentro.


Presidenta Dilma, ao invés de baixar o IPI para carros para estimular o consumo, se eu fosse você eu distribuiria quilômetros e quilômetros de plástico preto para a classe C, que hoje já tem carro, já tem garagem, o que ela quer mesmo é seguir o isolamento social que a antiga classe média buscou ao se esconder nos condomínios fechados espalhados pela cidade...
Não acho que seja o melhor caminho, mas aparentemente é o que todo mundo quer.

25.5.12

Pornografia de antigamente - O que eu vi

Antigamente pornografia era uma coisa muito diferente de hoje. Não sei por que enquanto estava preso no trânsito lembrei da primeira vez que vi um filme pornográfico. Faz uns quatrocentos anos, mais ou menos.


Estava na 7a série, começo dos anos 80, e nossa turma de amigos ia muito na casa do Antônio, que ocupava um quarteirão inteiro no Morumbi. O pai dele tinha ganhado muito dinheiro na construção da usina de Itaipu, a mãe era um doce de pessoa e ficávamos na piscina e jogando bola o dia inteiro.


O Antônio tinha todos os brinquedos bacanas, e era um cara muito tímido e humilde, nunca foi de contar vantagem. Não consigo me esquecer de um caminhão de controle remoto que ele tinha, que abria a porta de trás e saía uma Ferrari também de controle remoto. Coisa linda.


Um dia o Antônio comentou que tinha um projetor de filmes Super 8 (eu falei que faz 400 anos...), e que o pai trouxera uns filmes do Paraguai. Fomos até a sala de jogos e o pessoal começou a montar o projetor. Fiquei fascinado com aquele objeto, que só tinha visto grandão, 35mm, quando ajudava meu tio a rebobinar os filmes no cinema que ele tinha no interior. Achei o máximo da modernidade aquele aparelho "pequeno" que podia trazer o cinema para dentro de casa. E lá numa caixa tinha uma meia dúzia de rolos de filmes, incluindo um de três minutos do primeiro Star Wars. Olhei para o filme e tentei agitar o pessoal para assistir, mas todos eles estavam com um olhar "diferente", e o Antônio com um rolo sem identificação na mão.


Luzes apagadas, eu todo animado para ver cinema em casa, e começa a passar um filme sem áudio, com a maior quantidade de gente branca que eu já tinha visto. E quando falo branco estou dizendo branco geladeira, que reflete luz no escuro. Eu não entendi nada, a cena era meio boba, era um encanador que chegava com uma ferramentas e uniforme na casa de uma mulher, e, sem nenhuma explicação aparente, daqui a pouco os dois estavam pelados e dá-lhe rala-rala!


Não sei dizer muito bem o que senti, mas passava longe do tesão. Achei estranho, deve ter sido a primeira vez que vi gente pelada num filme, sei lá. Mas era muito estranho, pois era um filme sueco, dinamarquês, e todo mundo parecia muito sério para estar transando. Eu imaginava que sexo era uma coisa mais envolvente... aqueles caras poderiam facilmente ligar, pedir uma pizza, comer a pizza e reciclar a embalagem durante o ato sexual sem atrapalhar a performance. Ô gente fria, sô.


A pornografia mudou muito nos últimos tempos, o acesso é na base do clique, imediato. O Super 8 sumiu (o Antônio também), não sei se ainda fazer filmes de sexo nórdico, mas entendo de certa maneira por que lá existem as maiores taxas de suicídio do mundo... Se sexo animado for aquilo, recomendo evitar a região...

24.5.12

Hoje é o Dia do Nunca!

Durante uma conversa com uma de minhas filhas, ela me perguntou: "Por que você está agindo assim? Você nunca agiu assim antes comigo". E eu pensei bastante sobre este tal de Nunca. E descobri que todo o dia é dia do Nunca.
Nunca vivi o dia de hoje, nunca passei pelos problemas que hoje vou passar, nunca vi o trânsito deste jeito, nunca acordei de um sonho como o de hoje.


Cada dia apresenta sua singularidade, e a cada momento pensamos coisas novas, mudamos de conceitos, somos colocados em situações novas ou nos colocamos deliberadamente em situações para as quais nunca fomos preparados.


Se aceitarmos este Nunca diário, talvez não fiquemos chocados com a mesmice aparente do cotidiano, talvez descubramos novas maneiras de enfrentar problemas que nunca enfrentamos antes, e encontraremos soluções que nunca tínhamos pensado antes.


O Sempre é um perigo, principalmente por que a maioria das pessoas o procura insistentemente. Todos querem ser Sempre felizes, Sempre saudáveis, Sempre bem sucedidos, e sabemos que Nem Sempre ele acontece. Na verdade, ele Nunca acontece.


Aceite que hoje é o Dia do Nunca e abra sua cabeça e seu coração para o que o pode acontecer. É um dos encantos da vida.

23.5.12

A Sociedade distorce nossa noção de Beleza?

Do ponto de vista de comunicação, este pequeno cartaz é um primor. Bem posicionado (no espelho), gera reflexão e atinge questões de autoestima, autopercepção, muito bom.
Mas será que realmente o modelo de beleza é totalmente construído pela sociedade, e é "distorcido"?


Para podermos analisar esta questão precisamos separar as coisas. A primeira é a questão do modelo de beleza, o que é ele, para que serve, suas origens, etc. Por outro lado, ele é ou está distorcido? E há responsabilidade da "sociedade" por isto? Quem seria esta "sociedade", afinal de contas?


Pelo lado mais primitivo (ou mais básico, no sentido de base da construção do modelo de beleza), a beleza está associada a Simetria. Quanto mais simétricos somos, mais belos somos considerados. Isto vale para todas as culturas humanas, e pelo que parece está associada ao instinto de sobrevivência. Preferimos escolher a maçã simétrica pois ela provavelmente é mais saudável que a maçã assimétrica, que pode apresentar algum problema. Isto faria que associássemos a Simetria a algo bom, e esperado nas coisas. E nos seres humanos também. Combater esta base de associação que temos é complexo e exige muito esforço, pois nossos padrões de aceitar a diversidade, de "beleza interior" são relativamente recentes se comparados com este padrão da Simetria, que é muito antigo do ponto de vista evolutivo.


Mas a beleza, no caso desta imagem, está associada a autoestima e a autopercepção. E estas são coisas totalmente associadas à aceitação por parte do grupo, à comparação. Quer seja do ponto de vista filosófico ou evolutivo, queremos mais do que apenas sermos aceitos pelos grupos: Queremos estar bem posicionados hierarquicamente neles. Almejamos destaque, e este destaque se faz através de valores cultuados por este grupo.
Com a globalização e a aglomeração social em torno dos meios digitais, grupos e redes, alguns valores dos grupos menores se fortaleceram, e outros se dissolveram. Pequenos grupos manifestam seus valores, mas o poder massivo dos grandes grupos define padrões, que não necessariamente são aqueles que compartilhamos, mas que não podemos negar que existam.


Antigamente culpávamos a mídia, a televisão e às propagandas pelo fator "exclusão" dos diferentes, mas hoje a mídia percebeu o potencial mercado que estava ficando fora de seu universo de consumidores ao desenvolver este discurso e focou no diferente. Dois bons exemplos são a Nike e a Unilever. A Nike mudou seu slogan e sua comunicação há alguns anos deixando de lado o foco nos esportistas famosos e de alta performance para vender "Just Do It", cujo princípio é: Vá fazer esportes, todo mundo pode... Melhor vender tênis para milhões de assimétricos do que para alguns milhares de simétricos, não é? A mesma lógica foi usada pela "Campanha pela real beleza", do sabonete Dove, que associava a marca às mulheres belas, mas não necessariamente dentro dos padrões rígidos de beleza globais.


Hoje os padrões são ditados pelas pessoas, pelos milhões de pessoas que se inter relacionam através das redes sociais. E se formos julgar do ponto de vista do Efeito Manada, muito provavelmente teremos modelos e padrões de beleza ainda mais rígidos, a julgar pela tentativa insana das pessoas de serem absolutamente simétricas e dentro do modelo atual do que é belo. O que, pelo que percebo no caso das mulheres, (infelizmente) hoje o visual padrão é a Barbie. A modelo russa da foto ao lado está fazendo de tudo para ser uma Barbie da vida real... E milhões de pessoas estão compartilhando a foto dela neste momento. Inclusive eu...



18.5.12

Você é contra as Touradas?

Uma das coisas que mais mobiliza pessoas na Internet é o cuidado com os animais. Denúncias de gente malvada que faz atrocidades com bichos são constantes nas redes sociais e nos blogs.
Uma das brigas políticas que aconteceram com sucesso dos defensores dos animais foi contra as Touradas, um tipo de espetáculo onde o toureiro evita os ataques do animal e vai dominando a situação até o momento em que mata de vez o touro.
Do ponto de vista da tradição a Tourada é um ritual mais que milenar. Variações dela existem em inúmeras épocas e povos espalhados pelo mundo. Não há nada de novo na Tourada, mas sim na maneira de se ver a Tourada.
Do ponto de vista simbólico a Tourada é riquíssima e poderosa: É um ritual místico do embate do homem contra as forças da natureza, realizado coletivamente onde um dos homens vai de encontro ao animal e demonstra todo o seu poder ao derrotar um animal muito maior e mais forte do que ele. Este homem realiza este ato de bravura e todos ao redor estão representados nele.


Por outro lado, a indústria da carne cresceu de uma maneira descontrolada. Só no Brasil um dos maiores frigoríficos do mundo abate em torno de cinquenta mil cabeças de gado por dia, o que dá uma média de um milhão de animais transformados em bife por mês.


Há raríssimas imagens destes processos: os frigoríficos não são bobos e sabem que se forem divulgadas imagens destes animais desesperados em fila sendo mortos têm gente que não vai se animar a pedir hambúrguer na lanchonete.
Em compensação há inúmeras imagens de touradas, já que elas povoam o universo simbólico da humanidade.


E aí, a loucura coletiva: Grupos de defesa dos animais lutam para extinguir as Touradas, comunidades se mobilizam contra este tipo de mau-trato, mas deixam que a indústria da carne transforme vida em bife sem problemas. Em escala de centenas de milhares de animais mortos por dia.


Ah, alguns dirão, mas estes animais são fundamentais para nossa alimentação, precisamos comer! Mas eu pergunto: E o alimento simbólico da Tourada? A força do homem, o símbolo da fertilidade, o embate entre forças desiguais, o culto à destreza e agilidade que ela representa? Não é alimento também?


Não seria mais interessante vivermos num mundo onde preparamos grandes touros para lutarem conosco ao invés de vivermos num mundo onde preparamos bois gordos para serem comidos? 

17.5.12

Como não fazer uma propaganda "viral"

Hora de aprender, pessoal! Está cheio de publicitário moderninho achando que sabe fazer campanha e o resultado não é bom.


O exemplo de hoje é um liquidificador da Electrolux, ótima marca, mas infelizmente a campanha desandou...
Qual é o raciocínio da campanha? Posicionar o produto dentro de um contexto que seja moderno, gere interesse nas pessoas e tenha aderência com as características do produto. Deste ponto de vista, a estrutura está perfeita!
Em cena, um comediante de stand up tenta fazer piadas enquanto o barman faz um suco num liquidificador barulhento. Quando o comediante percebe que o show vai acabar por causa do barulho, ele dá de presente para o barman um liquidificador silencioso, e o show continua com o comediante feliz e todos rindo.


Mas então qual é o problema? A mensagem foi passada, a estratégia está boa... Mas o roteiro, a produção e a direção acabam atrapalhando um potencial viral (disseminação pelos próprios internautas), e a campanha fica com cara de falsa, de simulação. Por que?
Por uma questão de linguagem.



O vídeo ficou com cara de propaganda de televisão, não com cara de YouTube. Seria necessária uma linguagem que induzisse o público a uma percepção de improviso, mais ágil nos cortes, mais "câmera na mão". O comediante conta as piadas sem passar nenhuma sensação de improviso, parece tudo muito ensaiado. E o acabamento da imagem denota uma forte pós-produção. Sabe as novelas da Globo depois daquele Photoshop em tempo real, que deixa a pele de todo mundo lisinha? O Tutancâmon pareceria uma criança numa novela da Globo.
Pois é, a sensação é esta. E aí fica parecendo que foi um comercial inserido no YouTube, algo que não é nativo da Internet, falta a linguagem da Web para a campanha. 



Isto sem contar os comentários falsos que são postados provavelmente por gente paga para escrever. Se vocês lerem verão como a campanha se torna mais falsa e mais estranha ainda. É uma simulação, e fica visível esta simulação. Conclusão? Uma boa ideia se vira contra a marca, que parece tentar iludir seus potenciais clientes.


Já viu velho que quer parecer jovem? Que usa gíria errada, umas roupas descoladas, cabelinho da moda, mas que não engana ninguém?


Electrolux, cuidado com a campanha, ela atrapalha mais do que ajuda....


Veja por si mesmo.






16.5.12

Nossos sentidos nos enganam...

Ontem à noite tive uma experiência muito estranha: Acordei na madrugada e ouvi alguém mexendo no meu banheiro, como se colocasse um copo de água na pia. Meio sonado, percebi que o barulho ia para a sala, e aí comecei a ficar esperto. Tinha a certeza que alguém estava andando dentro da minha casa às duas da manhã.


Acendi as luzes e comecei a andar em busca do misterioso invasor noturno.
Não preciso dizer que não tinha ninguém em casa. Se fosse encanado com aparições sobrenaturais, estaria tremendo até agora.


Como nossos sentidos nos enganam! É uma coisa tão comum, que muitas vezes esquecemos que nosso olfato nos engana, ouvimos sons, deduzimos coisas erradas, vemos coisas que parecem, mas não são... E dentro desta confusão enorme de percepção ainda sim tentamos definir um princípio de realidade.


Quando fui para a academia, outra curiosidade: Olhei no espelho e a cor do meu tênis estava bem diferente da cor original. Como o espelho tem uma coloração diferente, geralmente eles rebaixam a cor, pois são acinzentados. Da mesma maneira o monitor em que você vai enxergar a imagem que coloquei neste post nunca vai apresentar a mesma cor que eu vejo no meu monitor.


Acabamos estabelecendo alguns parâmetros para definir o que é realidade, e nos apoiamos neste parâmetros, sem eles necessariamente serem reais. Eles são interpretações do real, ou similares ao real. Definimos como real, apesar de não o serem. 
O problema é quando achamos que o que vemos é real, pois o risco é de pirarmos (no meu caso dos sons noturnos, que vinham da vizinha de baixo), ou de ficarmos debatendo com os outros, que enxergam as coisas de um jeito diferente. Ficaremos tentando convencê-las que o que estamos enxergando (ou ouvindo) é real, e o que eles acham que é real, não é...

10.5.12

Picasso, Moletom e Jim Carrey

O processo de perda de sensibilidade é normal em cidades grandes. Há tanta informação ao nosso redor que é impossível enxergar tudo, ou dar relevância a tudo. O mesmo vale para os meios digitais, e as pessoas olham para suas timelines no Facebook oferecendo segundos (ou menos) de atenção para as pessoas. Por isto que coisas que fogem do óbvio chamam a nossa atenção, e está cheio de criativo de agência tentando desesperadamente inventar algo que faça com que as pessoas prestem atenção na publicidade.


Tive uma conversa interessante com uma amiga sobre a dificuldade dela de fotografar coisas diferentes no cotidiano. Ela me dizia que consegue estruturar tecnicamente uma foto muito bem, mas não consegue ser "criativa". E a criatividade está associada à observação aliada à imaginação, já que a imaginação só funciona a partir de referências. Ninguém consegue imaginar algo totalmente diferente. Juntamos ideias e assim inventamos outras coisas.


A falta de observação e de imaginação afeta também o nosso universo mágico: Deixamos de ver poesia e mistério no que nos cerca (e dentro de nós consequentemente). Assim, não é de estranhar que estejamos cada vez mais criando relacionamentos a partir de trocas palpáveis, quer seja com outras pessoas, quer seja com deuses, religiões e também com os nossos desejos. A troca pragmática é palpável, está associada ao universo simbólico, mas é tangível. Dá para ver e tocar aquilo que foi trocado, quer seja beijo ou carro. Todos estamos submetidos às trocas palpáveis no cotidiano, mas elas não são as únicas que existem. As trocas simbólicas, impalpáveis, subjetivas, são fundamentais para a ordem mental e para a saúde do indivíduo como um todo. São aquelas que acabam compondo nosso arcabouço imagético, que permitem definir e redefinir o nosso "enxergar" no mundo, e que estimulam nossa criatividade.


Nesta mesma conversa estávamos falando do Jim Carrey, ator que gera amores e ódios, e me lembrei da imagem que ele postou no Facebook há pouco tempo atrás. A imagem, de uma calça de moletom numa loja qualquer, tinha o seguinte título: " Será que o Picasso passou por aqui?". Ela demonstra um "enxergar" na realidade diferenciado, embasado na experiência subjetiva simbólica e com base em referências visuais anteriores. Se ele não tivesse observado com atenção (Picasso e o Moletom), aquela associação nunca aconteceria. E a vivência mágica do mundo não ocorreria.


Saia para dar uma volta de vez em quando, vá olhar o mundo. Ele não é apenas uma paisagem disposta no seu trajeto, ele é parte de você.

9.5.12

Só se aprende fazendo (no caso, jogando)

Tá cheio de gente falando de Storytelling em comunicação e publicidade, e a maioria fala merda. Desconhecem os princípios arquetípicos, as estruturas narrativas, as bases neurais de construção de empatia, a semântica e a retórica. Acabam apelando inconscientemente para a contação de histórias da infância, e infantilizam a experiência que o Storytelling poderia gerar...
Existe um ditado em Holywood que diz que um bom roteiro pode gerar um filme ruim, mas nunca um roteiro ruim vai gerar um bom filme.


O que é curioso é que existem inúmeras boas histórias sendo contadas atualmente, mas parece que os desenvolvedores não conseguem sair do papel de "audiência" e analisar como desenvolvedores. Deve ser por isto que tem tanto publicitário que fica comprando revista para publicitário com campanhas já prontas para copiar. É só trocar o produto, "tropicalizar" a linguagem e mandar bala. Os caras querem tudo pronto, ô gente preguiçosa. Mas é preguiça mental, de pensar, de analisar o que os rodeia, ficcional ou real.


 A verdade é que esta crise é geral. Jornalistas estão falando a mesma coisa, comunicadores reclamam. Todo mundo quer o nenê, mas ninguém quer ficar grávido.


Um dos melhores exemplos que tenho visto é o do Call of Duty, hoje estou jogando o Black Ops. 
Ah, é um joguinho de guerra, a ideia é dar tiro, matar todo mundo, sangue para todo o lado.


Mas há jeitos e jeitos que criar uma história, né? A do Black Ops é genial: O personagem principal acorda amarrado num local cheio de televisores, e num vidro ao fundo estão as silhuetas dos inquisidores. Enquanto o personagem é torturado ele começa a se lembrar das situações que os torturadores querem informações. E cada lembrança é uma fase do jogo. 


Paralelamente a isto as informações vão sendo obtidas nas fases, e você começa a entender o que os torturadores querem saber de você, que não se lembrava de nada no começo.


O Estado da Arte para mim aconteceu numa fase em que um dos personagens da história (seu amigo e que te salva de várias roubadas) senta na sua frente, olho no olho, e começa a contar a vida do pai dele. O jogo pára por vários minutos, close no rosto do personagem, e ele fala sobre a história do pai e da relação deles. E aí o personagem ganha uma nova dimensão, se torna mais complexo, e sua afinidade por ele evolui para algo completamente novo. Espetacular.


Mas acho que os comunicadores e publicitários provavelmente pulam estas fases, né? Uma pena para eles...

8.5.12

A emoção no meio do caminho

As emoções estarem no meio do caminho de nossas decisões têm seu lado bom e seu lado ruim. António Damasio já analisou em "O Erro de Descartes" o papel delas e é bem claro que se elas não estivessem atuantes nas decisões ficaríamos avaliando prós e contras infinitamente até na hora de comprar pasta de dente.
Mas percebo que existem algumas questões curiosas sobre o tema. Quando digo "percebo" é que vejo algumas dilatações e desvios que a emoção gera nas pessoas em praticamente todas as pessoas.


Um exemplo?
Uma pessoa que tem de tomar uma decisão e mudar comportamentos e hábitos para atingir algum objetivo. Pode ser desde um adolescente que precisa estudar para a prova até um sedentário que precisa fazer ginástica.
Há evidentemente uma complexa mudança de ritmo e orientação para novos hábitos, não se pode esperar que você troque de mão a escova de dente e saia escovando como se fosse a coisa mais simples do mundo, que não é.


Mas há outra questão, que é o que me interessa nesta reflexão: É muito comum que mudanças comportamentais não sejam tomadas pelo simples fato de estarmos ocupados pensando nelas, como se pensar (pensar neste contexto significa sentir de maneira introspectiva, vivenciando emoções de maneira intensa)  gerasse os resultados e mudasse algo. Paramos no meio do caminho (no caso, nas emoções que a mudança poderia gerar ou na gestação da mudança) e não mudamos. E nesse intervalo que surge a culpa cristã, a autopiedade, a excessiva autocrítica. É no não mudar, na imobilização emocional gerada pelo excesso de sentimentos.


Assim, o adolescente se perde nos devaneios emocionais de ter de mudar e acaba dedicando mais tempo a isto do que resolver sacar o livro da mochila e estudar. O sedentário acorda com sentimento de culpa de não fazer exercício e se dedica mais a se sentir culpado do que amarrar um tênis e sair caminhando pelo bairro.
Este lapso, este intervalo emocional superdimensionado acaba imobilizando a situação de tomada de decisão. O que aumenta a vivência do sentimento gerando angústia e sem gerar a mudança necessária.
Se o excesso de razão gera a imobilidade, o excesso de emoção também.

4.5.12

Minhas dicas para a Virada Cultural

Melhores horários - De dia a Virada é ótima. À noite, recomendo eventos até meia noite, no máximo uma da manhã. Depois o pessoal fica bêbado e vi alguns casos de furto de celular nas aglomerações. Raras situações de violência, pode vir com a criançada neste horário sem erro.


Onde comer - Difícil de responder, pois os lugares ficam lotados, do boteco ao restaurante fino. Melhor se garantir e trazer lanche e água. Vai ter barracas no Minhocão com comidas de cozinheiros famosos, mas imagino que vai ficar coalhado de gente, não vai sobrar pedra sobre pedra.


Atrações -Um monte, veja todas no site oficial. Abaixo alguns dos shows que me chamaram a atenção:


Hermeto Pachoal no Centro Cultural Caixa, na Sé - Sábado 18h
Guizado - Coreto da Praça da República, Sábado 18h
Ray Lema e Orquestra Jazz Sinfônica - Praça Júlio Prestes Sábado 18h
Man or Astro-Man? - Barão de Limeira - Sábado 22h30
Suicidal Tendencies - São João, Domingo 9h30
Gilberto Gil - Praça Júlio Prestes Domingo 18h
SKW Trio (Skowa) - Coreto República Domingo 14h
Dexter - República Domingo 10h
Mutation (Psy Israel) Princesa Isabel, Sábado 21h
Mute (Psy Israel) Princesa Isabel Sábado 22h
Orquestras - Todas no Anhangabaú, Domingo durante o dia


São centenas de shows, exposições, performances, filmes, tem toda a galera Nerd fazendo batalha viking e cosplay, vai ser bem legal.
Um pedido! Sejam bem vindos ao centro, ele é de todos nós, mas evitem jogar coisas na rua e os excessos de bebida. A ocupação cultural é uma das melhores  coisas que nós temos, mas a sujeira e os excessos não.

3.5.12

Você é "verdadeiro"?

Quando vi publicada a imagem ao lado no Facebook não pude me conter. Afinal de contas, o que é ser "verdadeiro" ?


Alguém é "verdadeiro" aí? Ninguém mente, não se faz passar por alguém que não é, nem omite características pessoais visando um objetivo?


De acordo com alguns especialistas em comportamento, mentimos inúmeras vezes ao dia. O número de mentiras varia de acordo com o gênero e a situação (homens mentem menos que mulheres, se não me engano). Ou não é mentira quando uma mulher diz para a outra que ela está linda, mesmo que a outra esteja horrorosa? Ou quando um homem conta um causo sobre uma pescaria e o peixe a cada vez que conta aumenta de tamanho e de peso?
A mentira é considerada uma "cola" social, sem ela nossos relacionamentos se tornariam impossíveis. Um jornalista alemão lançou um livro sobre a experiência social que ele se impôs de não mentir em situação nenhuma. Me parece que a namorada foi embora, ele está com um dente a menos, estas coisas. Mentir faz parte da condição social humana.


É muito conveniente falarmos que nós somos "verdadeiros" enquanto os outros não são. Da mesma maneira que quando dizemos que falta aos outros Bom Senso (termo que me dá arrepio), estamos querendo dizer que falta ao outro o Nosso Senso. Nega-se o outro, assumindo que o Único Senso na verdade é o Nosso. 


Todos somos "verdadeiros", dentro de nossas complexidades e multiplicidades, mesmo quando mentimos. 


E se "verdadeiro" significa falar as "verdades" para os outros, cuidado! Isto tem outro nome. Chama-se Grosseria.

2.5.12

Tem gente ainda usando a pulseirinha mágica! Uia!

Sei que pode parecer polêmico, mas quando vi a foto do Marcelo Serpa dando palestra na Wave (encontro publicitário e tentativa de Cannes latina) reparei imediatamente na pulseirinha do equilíbrio no braço dele.
Lembra da pulseirinha? Prometia dar equilíbrio ao corpo, energizar sei lá o quê, vendia até na padaria e por um preço bem salgado.
Existem algumas possibilidades para ele usar esta coisa:


1 - Ele está desinformado e não viu todas as matérias que saíram nas mídias e que foram retransmitidas nas redes sociais dizendo que o troço simplesmente não funciona. Mais do que isto, que eu me lembre o dono da empresa está sendo processado por vender algo que não funciona (tecnicamente - propaganda enganosa)


2 - É um amuleto, e ele tem fé no objeto. Carrega por acreditar, não por ter funcionalidade prática nem base científica.


3 - Ele usa por moda, já que milhões de pessoas usaram por estilo, por quererem associar sua vida às vidas de esportistas do mundo inteiro que entraram na onda da pulseira. Mas... saiu da moda há alguns anos, e que eu saiba poucas pessoas usam esta coisa. Qualquer um que leia Caras (não precisa ser a The Economist) sabe que a galera moderna deixou de usar esta coisa. Não vende mais nem no camelô da 25 de Março.


4 - Ele é responsável pela conta da empresa que importa a pulseirinha, e usa no pulso para divulgar o produto e estimular a credibilidade no treco, mesmo tendo informações de que é propaganda enganosa.


De todas as opções, a única razoável e não-questionável é a 2, ele ter fé no negócio. O resto mostra desinformação, cafonice ou má-fé.


Cá entre nós, se você tem fé no seu ursinho de pelúcia, ou em algum objeto mágico, não precisa mostrar para todo mundo. Principalmente se está cheio de matérias e cientistas falando contra isto. Não agrega nada você ir dar uma palestra com seu ursinho de pelúcia místico debaixo do braço... Que tal botar a pulseirinha mágica no bolso, só para não pagar mico?

27.4.12

Símbolos de Status e Acasalamento Humano

Já escrevi há algum tempo atrás sobre a importância de demonstrações masculinas de poder e status social. Da mesma maneira que a mulher precisa ser atraente fisicamente, o homem necessita ser atraente no quesito status. Raras são as mulheres que querem deliberadamente se envolver com homens situados numa baixa escala de influência social (pensando na estratificação dos mamíferos sociais, onde existem os machos e fêmeas alfa, beta, e assim por diante). Quanto maior o status do macho mais chaces da fêmea se sentir protegida. Raciocínio neo-darwinista básico.


Dentre os símbolos de status mundiais, vemos o dinheiro, o sucesso/fama e poder político como padrões recorrentes. Pessoas ricas, famosas e politicamente influentes são "bons partidos", da mesma maneira que pobretões desconhecidos e isolados tendem a ser escolhas não interessantes na hora de acasalar e procriar.


Mas há um elemento curioso que tem forte apelo na hora do acasalamento: O carro.


Claro, o carro é uma das manifestações de sucesso, e de dinheiro. Uma pessoa que anda com um carro caro e vistoso está simultaneamente mostrando sua plumagem artificial e provando que é capaz financeiramente de ter um objeto de alto custo. Há também a teoria da compensação, carrões enormes para egos diminutos, baixinhos em jipes grandes, como se fosse uma perna de pau social.


Mas há a questão da mobilidade. E a mobilidade traz outros elementos para nossa reflexão. O primeiro é que hoje o carro é fundamental para geração de resultados num encontro, quer seja na cidade ou no campo. Se sair com uma pessoa que não tem carro, como a noite poderá se desenvolver? De ônibus? O cavalheirismo se esvairá (e as chances de acasalamento também) na hora em que for se despedir da moça e leva-la até o ponto de ônibus, ao até o carro de outra pessoa.


O carro também se manifesta como um potencial local de intimidade. Repare que as pessoas se comportam dentro dos carros como se estivessem longe de todos. No trânsito todo mundo tira meleca do nariz, corta os pelos do ouvido, come, como se ninguém estivesse ao seu redor.
Da mesma maneira, levar a fêmea para um ambiente teoricamente íntimo já é um passo na aproximação do proto-casal.


Há um outro elemento que ajuda bastante na melhoria da raça, pois há estudos que comprovam que cada vez temos maior variedade genética nos humanos decorrente da capacidade de mobilidade gerado pela capacidade de se mover usando cavalos, bicicletas, trens, aviões e, obviamente, carros!

24.4.12

Os adolescentes são egoístas?

Muita gente que convive com adolescentes acha que esta fase da vida é extremamente egoica, voltada para si mesmo, os adolescentes não estariam nem aí para o resto do mundo. Em especial em relação aos pais.
Aparentemente o comportamento é mesmo autocentrado. O que fica para os pais e adultos ao redor é a sensação de que eles só têm tempo para os amigos, que não querem fazer nada além de conversar com a turma, sair, estas coisas. Estudar, muito raramente. Atividades em casa, participação na rotina, nem pensar.


Já ouvi gente falando que isto está associado ao desenvolvimento neuronal e mental, que é uma fase em que a responsabilidade ainda está amadurecendo, por assim dizer. Mas tenho minhas dúvidas que seja só imaturidade. Inclusive pelo fato da adolescência ser um fenômeno social recente. Existem várias sociedades em que ela não existe nem existiu, o cara passa por um ritual de passagem e ploft! É adulto e não se fala mais nisto.
Vamos pensar na seguinte hipótese: O ser humano é um bicho social, vive no coletivo e depende dele para viver, quase como uma colônia. Tem gente que não gosta de pensar assim e quer valorizar apenas o indivíduo, mas somos muito dependentes uns dos outros.


A sociedade atual ampliou a interdependência através dos meios virtuais. Não só precisamos nos relacionar com as pessoas ao nosso redor como também nas redes sociais e nos meios de comunicação. Nunca fomos tão interdependentes. Tem de fazer bonito com os amigos, com a turma do Facebook, com o pessoal do Twitter e mais um monte de outras conexões variadas. 


O aprendizado do convívio social passa pela construção de nossa própria rede de relacionamentos, uma das coisas que os pais e adultos sempre esquecem. Os jovens vivem boa parte de sua infância na rede de relacionamentos de suas famílias, e tem um momento em que começam a construir suas próprias redes. Este momento geralmente acontece na adolescência, e gerenciar amizades, colegas, desafetos, amores, paixões e interesses é algo que demanda investimento. E é o que eles fazem: Estão construindo sua network, ao mesmo tempo que aprendem a construir networks. A habilidade de construir e gerenciar networks vai ser crucial na sobrevivência deste jovem no futuro. 


Existem pais que chegam em casa chateados por causa de problemas com o chefe no escritório e ficam irritados pois os filhos estão totalmente dedicados a gerenciar a crise no grupo de amigos que foi gerada por uma briga entre eles. Os pais acham que é exagerado o grau de importância que é dada ao assunto, que o filho não deveria estar tão preocupado com assuntos bobos, mas acha extremamente sério o fato do chefe dele ter dado uma bronca nele sem razão.
Cá entre nós, não é a mesma coisa? O grau de importância quando se está fora do contexto sempre parece menor, afinal de contas aquilo não implica em problema nenhum para a gente. Mas para quem está dentro do contexto, as coisas parecem muito maiores, até além do que deveriam ser.


É hora de valorizar a importância da construção de redes de relacionamentos na adolescência. As escolas (por exemplo) ensinam até astrofísica, mas tratam de maneira secundária a capacidade de interação e construção de grupos de afinidades. Sem desqualificar a astrofísica, acho que alguém pode sobreviver muito bem sem conhecer os anéis de Saturno, mas se não souber conviver e gerenciar diferentes relacionamentos, esta pessoa vai ter muitas dificuldades pela frente...

23.4.12

Cem paulistas valem um amapaense, sabia?

Desde que sou pequeno ouço falar no Voto Distrital, uma maneira diferente de contabilizar votos e representantes políticos. A quantidade de representantes estaria associada com a densidade demográfica, ou seja, pela quantidade de habitantes e não por divisões de estados.
Hoje cheguei a conclusão que vou morrer e não ver isto ser implantado no Brasil. Aí resolvi fazer uns cálculos.
O Amapá tem uma população de 450.000 pessoas, menor que São José do Rio Preto. O Sarney foi eleito Senador por Amapá com 140 mil votos. Nem vou entrar em detalhes sobre o que ele foi fazer no Amapá, é assunto para outro post. 
São Paulo tem uma população de 41.250.000 pessoas. Aloysio Nunes foi eleito com 11.200.000 votos.
Na hora de votar no Senado, o voto do Aloysio Nunes representa 41 milhões de pessoas, e o do Sarney representa 450 mil pessoas, mas os votos deles têm o mesmo peso na hora da votação. A constatação óbvia: Meu voto vale 1/100 de um voto de um amapaense.
Quer fazer seus direitos serem defendidos no Senado? Mude-se para o Amapá, você vai imediatamente valer por cem vezes mais! 
Estas excrescências políticas estruturais ajudam ainda mais a piorar a qualidade do jogo político no Brasil.
Sabe quando isto vai mudar? Nunca! Você acha que os senadores dos estados menos populosos votariam a favor de uma emenda assim? 
Outra questão é: Para que ter duas câmaras? O sistema bicameral serve para quê? Até hoje não sei para que ter Deputados e Senadores. Uma câmara só não basta?
Acho que vou me mudar para o Amapá e tentar carreira política. Com uns quinhentos votos já consigo ser deputado estadual. Se eu falar bonito, fizer uma campanha básica e prometer algumas bobagens eu tô eleito. E sou mais bonito que o Sarney! Se bem que o meu bigode é mais ralo, talvez seja melhor deixar para lá...