Antigamente festa na comunidade era uma coisa meio coletiva. A "urbanização" era feita na base do empilhamento de pobres em locais distantes, na periferia. Cabia à própria comunidade construir e/ou gerenciar os espaços coletivos e sociais. Nada de biblioteca e galeria de arte, isto é coisa de elite e gente metida. O espaço coletivo era o da festa. De casamento, de aniversário, era juntar todo mundo num espaço, pegar a mesa emprestada do vizinho, o outro traz a churrasqueira, alguém traz as cervejas, e a festa acontecia.
Estas festas sempre foram divertidas, pois elas até tem um "dono" por assim dizer, mas acabam sendo meio de todo mundo, portão aberto, o pessoal vai chegando, trazendo alguma coisa e a festa continua.
A cerveja é ruim, o churrasco é de frango e linguiça, a caixa de som está chiando, mas a diversão rola solta. Em especial pelo fato das pessoas estarem querendo se divertir, há interesse genuíno de todos em dar vazão à brincadeira, em comer uma maionese num prato de plástico e aproveitar um pouco as coisas boas da vida.
Mas não é só de diversão que as pessoas vivem, as pessoas também querem ter status, para se diferenciar dos outros e serem mais especiais do que a média. Isto vale para todo mundo, com raras exceções. E é aí que surge o indefectível plástico preto...
O espaço da festa, antes semi-coletivo (portão aberto, chão de terra batido) dá lugar à garagem, onde um carro lustroso apresenta a família para os vizinhos. Hoje o carro é mais bem tratado que muito filho por aí.
E é no espaço da garagem que começam a acontecer as festas na periferia e na classe média emergente.
Como gerar exclusividade? Jogando o plástico preto na grade da garagem para que a vizinhança não possa ver o que está acontecendo lá dentro.
Presidenta Dilma, ao invés de baixar o IPI para carros para estimular o consumo, se eu fosse você eu distribuiria quilômetros e quilômetros de plástico preto para a classe C, que hoje já tem carro, já tem garagem, o que ela quer mesmo é seguir o isolamento social que a antiga classe média buscou ao se esconder nos condomínios fechados espalhados pela cidade...
Não acho que seja o melhor caminho, mas aparentemente é o que todo mundo quer.
Let´s Go!
Let´s Go!
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28.5.12
25.2.12
Carta aberta ao síndico do meu prédio - Sobre a festa
Caro Sr. Síndico,
Gostaria de esclarecer algumas questões sobre a pequena festa que aconteceu ontem em meu apartamento.
1 - O Seu Farias, o porteiro, só se vestiu de James Brown porque eu pedi. Ele não chegou a beber muito Fogo Paulista, como foi dito por fofoqueiros. E nem seria problema pelo fato dele estar no horário de folga.
O fato dele cantar I Feel Good girando o gato do Fábio do 6o andar aparentemente foi fato consentido. O gato gosta de diversão, apesar do Fábio negar.
Honestamente, se pudesse não teria deixado o Seu Farias fazer este papel, pois muita gente foi embora da festa depois disto. Alguns convidados disseram que ele parecia o Sidney Magal dublando o Fágner.
2 - Os dois rapazes travestidos eram pessoas sérias, e a brincadeira na janela não foi ofensiva. Os passantes aqui no Arouche adoraram a dupla vestida de Lady Gaga imitando a Vanusa cantando o Hino Nacional. Aplaudiram até.
Se o senhor tem alguma questão em relação ao fato de estarem travestidos, me parece uma certa homofobia, não? Vamos abrir a cabeça, senhor síndico?
3 - Os senhores que foram fotografados comigo são na verdade Menelau e Buchecha. O senhor deve lembrar da famosa dupla Claudinho e Buchecha. O Menelau se juntou ao Buchecha depois de se encontrarem numa mesa branca e o médium ter garantido que metade da alma do Claudinho tinha entrado no corpo do Menelau. A outra metade do Menelau estaria habitada pelo Bezerra da Silva. Sei que parece estranho, mas eles são respeitados na comunidade espiritualizada, e a versão que cantaram de "Vou apertar mas não vou acender agora" foi praticamente um Gospel...
4 - Sim, este senhor que foi encontrado no corredor abraçado a um peixe é meu pai, que voltava de uma viagem de barco e quis me fazer uma surpresa. Ele sempre gostou de uma cachaça moderada. O peixe é uma Sororoca excelente, que acabou estragando, em parte por ter ficado fora do gelo, mas também por ter sido esfregada em várias pessoas durante a apresentação do Seu Farias.
Meu pai já voltou para casa, ativamos o SAMU discretamente e as seis ampolas de glicose na veia fizeram relativo resultado no estado dele, nem foi necessária internação. Não vejo problema nenhum, não é verdade?
5 - Verdade, eu estava vestido de Barney, ganhei a fantasia e nunca tive a oportunidade de usá-la. Gostei tanto que estou com ela até hoje. Que eu saiba não há nenhuma restrição a vestimentas nas regras do prédio.
De qualquer jeito, peço desculpas de algo tenha saído fora do planejado e tenha incomodado algum vizinho. O gato do Fábio está escondido dentro de minha lava-louças e prometo devolvê-lo assim que ele parar de tremer e me olhar de um jeito estranho.
Obrigado pela compreensão.
Gostaria de esclarecer algumas questões sobre a pequena festa que aconteceu ontem em meu apartamento.
1 - O Seu Farias, o porteiro, só se vestiu de James Brown porque eu pedi. Ele não chegou a beber muito Fogo Paulista, como foi dito por fofoqueiros. E nem seria problema pelo fato dele estar no horário de folga.
O fato dele cantar I Feel Good girando o gato do Fábio do 6o andar aparentemente foi fato consentido. O gato gosta de diversão, apesar do Fábio negar.
Honestamente, se pudesse não teria deixado o Seu Farias fazer este papel, pois muita gente foi embora da festa depois disto. Alguns convidados disseram que ele parecia o Sidney Magal dublando o Fágner.
2 - Os dois rapazes travestidos eram pessoas sérias, e a brincadeira na janela não foi ofensiva. Os passantes aqui no Arouche adoraram a dupla vestida de Lady Gaga imitando a Vanusa cantando o Hino Nacional. Aplaudiram até.
Se o senhor tem alguma questão em relação ao fato de estarem travestidos, me parece uma certa homofobia, não? Vamos abrir a cabeça, senhor síndico?
3 - Os senhores que foram fotografados comigo são na verdade Menelau e Buchecha. O senhor deve lembrar da famosa dupla Claudinho e Buchecha. O Menelau se juntou ao Buchecha depois de se encontrarem numa mesa branca e o médium ter garantido que metade da alma do Claudinho tinha entrado no corpo do Menelau. A outra metade do Menelau estaria habitada pelo Bezerra da Silva. Sei que parece estranho, mas eles são respeitados na comunidade espiritualizada, e a versão que cantaram de "Vou apertar mas não vou acender agora" foi praticamente um Gospel...
4 - Sim, este senhor que foi encontrado no corredor abraçado a um peixe é meu pai, que voltava de uma viagem de barco e quis me fazer uma surpresa. Ele sempre gostou de uma cachaça moderada. O peixe é uma Sororoca excelente, que acabou estragando, em parte por ter ficado fora do gelo, mas também por ter sido esfregada em várias pessoas durante a apresentação do Seu Farias.
Meu pai já voltou para casa, ativamos o SAMU discretamente e as seis ampolas de glicose na veia fizeram relativo resultado no estado dele, nem foi necessária internação. Não vejo problema nenhum, não é verdade?
De qualquer jeito, peço desculpas de algo tenha saído fora do planejado e tenha incomodado algum vizinho. O gato do Fábio está escondido dentro de minha lava-louças e prometo devolvê-lo assim que ele parar de tremer e me olhar de um jeito estranho.
Obrigado pela compreensão.
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