Let´s Go!

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20.1.14

Para que serve a Arte, afinal de contas?

Depois de estudar bastante, acompanhar várias linguagens -  música, dança, plásticas, teatro, literatura e por aí vai - descobri que poderia falar por horas sobre algumas dezenas de respostas possíveis sobre Arte. Mas hoje vou me ater a uma resposta pessoal, nada teórica, deste atual momento de vida, como gerador de expressões culturais, como músicas, fotografias, textos, desenhos e coisas do gênero. (Se quiser saber do que estou falando, basta acessar meu site.)

A pergunta certa do título deveria ser "Por que eu faço desenhos, pinturas, textos, músicas e fotos?".

Acho que todo mundo faz isto quando pequeno, brincando no universo imaginativo, construindo linguagens, narrativas e histórias. Mas algumas pessoas continuam a fazer durante a vida adulta.

Curiosamente nunca fui muito fã de meus desenhos nem de minhas músicas, salvo uma ou outra coisa que faço, e que não necessariamente os outros acham legal ou interessante. São raras as coisas que produzo que me satisfazem. Talvez aí esteja um indício inicial do que me faz produzir coisas.

Um aspecto importante de minha personalidade é ser um coletor e pesquisador. Adoro detalhes, pequenas coisas do cotidiano, cenas na rua. Tenho um carinho especial pelo exótico, pelo esdrúxulo e pelo divertido.

Um terapeuta me disse que eu deveria investir em finalizar alguns processos de criação, como por exemplo juntar tudo que desenho e montar uma exposição, mostrar para os outros. Na época até me animei, mas no momento não tenho grandes vontades de expor. Mas sei que em algum momento isto vai acontecer.

Tenho plena consciência de que meu impulso de criar é para deixar sair coisas com que não consigo trabalhar em minha mente, perturbações ou sentimentos que não se encaixam ou são complexos demais para mim. E sei também que em cada momento uma linguagem me parece ser mais convidativa do que a outra. Nos últimos tempos fiz bastante música, honestamente não sei por que, mas sei que a música me pareceu mais adequada. Me jogo no teclado e passo algumas horas compondo.

Em outros momentos é a fotografia, algo da rua que me chama a atenção, que me encanta. 

Os desenhos e os textos estão parados, por razões diferentes. Meus desenhos entraram num formato e numa temática muito específicos: Asteróides circundados por uma figura que chamo de Super Herói, e muita hachura (risquinho) em volta. E tentáculos, que considero um desmembramento da forma dos asteróides.
Quanto mais desenho este Super Herói mais percebo que ele é minha sombra, algo que me faz mal. Que preciso aplacar a vontade de abraçar o mundo, a vontade de acolher todos. A qualquer custo. Este Super Herói é tão importante para mim (não necessariamente me faz bem) que decidi fazer uma tatuagem dele (ou com ele, sei lá).  Talvez seja uma forma de agradecer algo que cultivei por muito tempo mas que hoje não faz mais parte de mim. Mas que é indissociável de minha personalidade, de minha história.

Escrever é outra coisa que tenho feito pouco. Comecei em 2013 a escrever o que seria um primeiro romance de ficção, mas como não me organizei na escrita o fluxo ficou muito confuso, parecem trechos sem conexão, foi ficando esquisito e sem forma, daí parei. Talvez precise fazer um exercício de organização e de construção antes de escrevê-lo, mas por enquanto está dormindo em alguma gaveta do mundo virtual. E vai ficar por aí.

Uma vez ouvi o Bernard Summers (vocalista do New Order) dizer que depois que começou a tomar remédios antidepressivos a vontade de compor e tocar música sumiu. Nada contra os remédios, mas entendo exatamente o que ele quis dizer. Há uma correlação entre nosso estado mental e as coisas que produzimos.

Se é Arte aquilo que faço? Não cabe a mim dizer, nem avaliar. Se faz sentido para os outros, e traz algo relevante ou não para alguém? Também não é algo com que me preocupe. Faço estas coisas porque preciso fazer. Esta pulsão é inconstante, variada e não necessariamente lapidável pelo conhecimento de alguma linguagem ou algum contexto estético.

Um grande amigo meu, o melhor pintor que conheço, Alexandre Alves, uma vez olhou meus quadros e disse, meio sem saber o que falar: "Isto não é pintura, você usa caneta em cima da tinta". "Isto não é desenho, pois você usa tinta como base".  Mais do que uma constatação óbvia, ele estava me dizendo da questão da técnica e do contexto em que a técnica se coloca numa linha do tempo da História da Pintura, da História do Desenho. O que eram aquelas coisas que eu estava fazendo se elas não se encaixavam num debate específico?

Adoraria que ele tivesse achado o máximo o que faço, e que dissesse que sou incrível, fodão, etc. Mas não tenho preocupação com este contexto hoje. Se existe, está misturado na maneira confusa com que expresso as coisas que faço.


16.1.14

Exercício Cívico ou Denuncismo?

Me peguei neste dilema hoje. Ao chegar no escritório da Joombo, minha agência de publicidade, vi um carro manobrando para estacionar na vaga exclusiva para motos. Quem não conhece o centro de SP não sabe que é bem difícil estacionar moto por aqui, muitas das áreas com Zona Azul não permitem o estacionamento de motos.

Olhei para o carro estacionando, carro grande, importado, descem duas senhoras bem vestidas e entram no prédio em frente. Fico olhando para ver se o motorista ia sair depois das duas desembarcarem, mas nada. O cara continua lá, desliga o carro e fica esperando.

Daí surgiu meu dilema. Queria dar um toque para o motorista, chegar e pedir educadamente que ele retirasse o carro de lá, estas coisas, mas todas as vezes - sem exceção -  que fiz isto as pessoas se tornam muito agressivas. Não basta o cara estar fazendo a coisa errada, ele tem de te olhar feio e falar um monte, como se quem estivesse errado fosse você, e não ele. É um comportamento que não entendo, mas recorrente em SP.

Aí resolvi ir até a base da polícia e pedir orientação. Conversei com o soldado que me disse que eu nem precisava abordar o motorista, não precisava falar nada, bastava anotar a placa e trazer para ele, que ele mandava a multa no cara. Fui lá, fotografei a placa e passei os dados para o policial.

Depois que fiz isto o policial me disse: "Estes caras ficam fazendo estas coisas, espera daqui trinta dias ele receber a multa aí vai ver o que é bom para tosse".

Toda esta história me gerou um sentimento estranho, pois se por um lado "fiz a coisa certa", por outro lado não acho que este seja o caminho mais adequado, acho que deveria ter podido falar tranquilamente com o motorista e pedido para ele sair de lá, sem stress para nenhuma das partes. Afinal de contas, estava cheio de vagas por perto, mas as mulheres teriam de andar uns vinte ou trinta metros, nada que mate ninguém. Ir até o posto da PM, fotografar a placa do carro, levar para o policial e mandar multa para o infrator não me deu a sensação que vai melhorar a situação, só que o cara vai ter de pagar multa, e pronto. Não acho que isto ajude a melhorar a atitude do cara, penso que ele só vai ficar puto com a multa mas não vai deixar de parar o carro em local proibido.

Nos Estados Unidos o enfoque é duplo: Além do cara ser multado, ele ainda tem de ouvir uma bronca do policial explicando o que ele fez e por que não deveria estar fazendo aquilo. O constrangimento da bronca me parece mais coercitivo do que o valor financeiro. Mas parece que por aqui o que funciona é mandar multa no cidadão. E "funciona"é só um eufemismo, pois tenho certeza que não funciona.
Por sinal, tivemos recorde de multas em SP no ano passado. Foram 10,1 milhões de multas de trânsito. E não acho que isto melhorou em nada a qualidade do trânsito nem a conduta dos motoristas...

PS - A foto publicada é meramente ilustrativa.

14.1.14

Por que George Harrison é o meu escolhido

Uma das razões pela qual os Beatles são o sucesso que são é o fato de terem uma formação diversa. Não é possível comparar John com Paul e muito menos com George (O Ringo é um acidente de percurso, acho que a raça humana em geral deve concordar com isto).

Como todas as boy bands (sim, Beatles é a primeira), sempre nos identificamos mais com um do que com outro.
Nunca tive empatia pelo Paul, acho um bicho meio insosso. E acho que o John foi uma das personalidades mais espetaculares que passaram por este planeta, trouxe uma reflexão profunda (e propagandista) de uma maneira de levar a vida incrível.

Mas amo mesmo o George Harrison.

Suas composições são particulares, e sua atitude perante o mundo me tocam. Low profile, de poucas palavras, não entrou na contenda Paul X John (quem é mais genial? quem tem maior capacidade intelectual, musical?), George conviveu com a fama, com a guerra de egos, e ainda assim colocou seu risco na parede de granito que é a vida.

George trouxe riffs importantes para a guitarra da música pop, se iluminou nas viagens indianas dos Beatles, aceitou o fato de sua esposa se apaixonar pelo seu melhor amigo (continuou amigo de Eric Clapton depois disto),  hipotecou sua mansão para lançar o Monty Python, aceitou com serenidade o câncer que o matou.


Se tem alguém que praticou o desapego, de verdade, foi George Harrison. Um dia eu chego lá...



Trate bem a sua vaquinha

Um dos sábios conselhos que já recebi foi em relação a vaquinha.
Mas o que é uma vaquinha? No caso não é um animal nem juntar dinheiro para uma doação: É aquilo que te sustenta.
Em alguns casos, aquilo que te sustenta é a fé, ou a arte, e em muitas vezes a vaquinha é algo ou alguém que te provê coisas muito importantes na sua vida.

Aprendi isto com um amigo, que estava chateado com a namorada. Ele fazia de tudo por ela, levava, trazia, era carinhoso, estava disponível, sempre com um sorriso, e até dava dinheiro para ela comprar cigarro quando estava dura. Um dia, no meio das reclamações, ele me disse: "O que ela precisava entender é que devia tratar melhor a sua vaquinha".

Não acho que as relações entre as pessoas devam ser exclusivamente de dependência, como se alguém provesse tudo para o outro e tudo bem. Mas sei que nas relações em geral em muitos momentos você poderá ser a vaquinha de alguém, e em outros alguém será a sua vaquinha. A grande questão é: Se você tem uma vaquinha, trate bem dela. Alimente aquilo que te alimenta. Dê atenção e valor para ela (não significa puxar o saco de seu chefe, não é sobre isto que estamos falando). Simplesmente dê valor para aquilo e para aqueles que te dão valor.

Todo mundo têm uma vaquinha. Mas nem todos dão valor para ela.

Uma esquina que me faz sorrir todos os dias

Na Avenida São João existe um centro de apoio à terceira idade. Passo todos os dias na frente para ir ao escritório da Joombo.
Na pracinha em frente ao local ficam vários senhores e senhoras aposentados tomando sol e batendo papo.
Um dia estava passando de moto e o sinal fechou. Fiquei parado por um tempo, enquanto alguns senhores atravessavam na faixa de pedestres. Um deles, num determinado momento, começou a olhar na minha direção e a falar. Eu estava ouvindo música e não entendia o que ele dizia.  Desliguei o som e consegui ouvir o que ele falava:
"Você está muito carrancudo! Que cara feia! Está na hora de sorrir mais!" E abriu um sorriso como se fosse uma careta, um misto de avacalhação e simpatia, parecia brincadeira de criança.

Está na hora de sorrir mais....

Como sorrir mais, quando estamos preocupados com as coisas do mundo adulto, resolver uma série de pepinos, trabalhos, planejamentos, etc etc?

O que aprendi (de novo) naquele dia é que temos de buscar um sorriso dentro da gente a cada dia. Sorrir faz bem, muito bem, e mesmo que aparentemente não tenhamos razão para sorrir, ao iniciarmos o processo é possível que mudemos a nossa percepção das coisas.

Sabe aquele papo de Mens Sana In Corpore Sano? A regra é a mesma se for usada ao contrário: Corpore Sano In Mens Sana. Se você forçar o seu corpo a agir buscando a felicidade ele pode ajudar sua mente a encontrá-la. Parece bobeira né? Mas bobeira maior seria esperar do mundo que enviasse razões para você sorrrir. Não é o mundo o responsável pela sua felicidade, mas o contrário.

Vamos sorrir um pouco hoje?

(Todo dia que eu passo naquela esquina eu agradeço aquele senhor que me fez uma careta para mudar meu dia. E sorrio)


12.1.14

Pequena tragédia do cotidiano adolescente

Como já aconteceu faz um bom tempo acho que podemos contar uma triste história que aconteceu com um de meus alunos.
O garoto estava um pouco defasado em sua escola anterior, pois tinha Síndrome de Tourette e tentava agora na nova escola se adaptar melhor ao ritmo do ensino médio.
Como aquela escola era um espaço com grande diversidade de alunos, apesar dos tiques e comportamentos diferenciados, o aluno conseguiu um espaço, alguns amigos, e dava andamento ao curso, apesar das dificuldades.

Algumas pessoas não estão acostumadas a esta síndrome: O comportamento é bem diferenciado, e muitas vezes quem a têm sofre espasmos, faz gestos involuntários, se move de uma maneira diferente, e em algumas situações fala palavrão. Fala muito palavrão. Recentemente um goleiro com Tourette foi expulso do jogo pois o árbitro ficou incomodado com o palavreado do jogador.

Os colegas gostavam dele, que era um garoto muito divertido, sabia das suas características e muitas vezes brincava com elas. Tanto que era presença constante nas festas dos colegas.

Uma destas festas foi no condomínio fechado onde morava uma aluna, e como os pais estavam viajando, a molecada aproveitou para levar todo o tipo de bebida possível para fazer um churrasco.
Na festa estava o pessoal da escola e o pessoal do condomínio. Lá pelas tantas, todo mundo bêbado, acontece uma intriga entre o pessoal da escola e os moradores. Obviamente era por causa de mulher, alguém mexeu com alguém, e o namorado de alguém foi tirar satisfação e o amigo de alguém ficou macho, em suma, aquela história clássica.

No meio daquela bagunça de empurra-empurra, o rapaz com Tourette ficou tenso, e começou com os tiques e a soltar palavrões para todos os lados, o que deixou o pessoal do condomínio enfurecido, e o grupo cercou o rapaz. Os colegas, quando viram a situação, ficaram desesperados, e começaram a gritar: "Cara, deixa ele, ele têm problema, não faz de propósito", e alguns tentaram defender o rapaz, mas era tarde. Começou um espancamento sem dó do rapaz, que não tinha a mínima condição de se defender. A violência só parou quando o rapaz estava insconsciente, de tantos socos e chutes.

A agressão foi tamanha que o rapaz teve afundamento craniano e passou duas semanas em coma, entre a vida e a morte. Um de seus amigos me trouxe uma foto dele no hospital, e se tivessem me dito que ele tinha sido atropelado por um ônibus eu acreditaria. Destruído.

Não tive mais notícias dele depois disto, mas sei que se recuperou dos ferimentos do corpo, mas tenho certeza de que a vida dele seria melhor se isto não tivesse acontecido com ele...

10.1.14

Como respeitar um morador de rua?

Uma das grandes histórias que ouvi. Um grupo de alunos da FAU-USP foi fazer um ensaio fotográfico na Praça da Sé. O grupo observa a Matriz, os monumentos, as esculturas. De repente encaram a "realidade":
Um monte de moradores de rua. Uma das meninas tira uma foto. No que ela tira a foto, o morador de rua se aproxima dela com cara desconfiada.
Por que tirou uma foto minha? Pergunta o morador de rua.
A estudante da FAU fica meio sem saber o que falar.

Por que tirou uma foto minha? O fato de eu estar aqui nesta situação não significa que eu não seja alguém. Estou na rua, mas sou uma pessoa, com sentimentos, vontades, desejos, continuava o morador de rua, para espanto da estudante.

Sem saber o que fazer, a pobre garota saca uma nota de cinco reais e estende para o morador de rua.

Você quer comprar minha dignidade com isto? Quem te deu o direito de achar que pode comprar minha dignidade com cinco reais? Tira uma foto minha, nesta situação, e vai fazer o que com a foto? E quer me pagar com dinheiro? Você acha que dinheiro compra minha dignidade?

A moça, totalmente sem saber o que fazer, pergunta: O que eu posso fazer para me redimir? Não era minha intenção, desculpe, não queria ofender.

O morador de rua responde: Pode ficar com a foto, mas me trate como ser humano.

Como posso te tratar como ser humano? pergunta a garota.

Me dê um abraço, e está tudo bem. E o morador de rua abre os braços.

A jovem de classe média alternativa, culta (acostumada com o sucrilhos no prato, como diria o Criolo) olha para a situação: O cara não tomava banho fazia uma década, todo sujo, e inevitavelmente fedido. Fica na dúvida: Vai ou não vai?
Pensa na formação humanista, na igualdade que aprendeu nas escolas moderninhas, e abre os braços na direção do morador de rua.

O morador de rua abraça a jovem intensamente. No meio daquela situação o sujeito aperta mais o abraço, chega mais perto dela e diz, sussurrando em seu ouvido:

Gostosa.....

(O Alvaro Giansanti que me contou esta pérola. Por sinal usei uma foto de carnaval para ilustrar o post por razões óbvias)

16.11.13

Por trás de todo revolucionário existe a alma de um ditador

Tenho 46 anos, e pude acompanhar muitos movimentos sociais desde os anos 1970. Participei de marchas e protestos ainda pequeno, levado pela minha mãe, professora politicamente engajada e contra a ditadura. Corri de cavalo, de bomba, invadi o Palácio dos Bandeirantes... desde sempre. Mas nunca me orientei politicamente como Socialista, Comunista ou as variadas opções ao capitalismo da época. Sou um democrata. Lembro de uma frase que dizia que "a democracia é o menos pior dos sistemas políticos". Concordo com isto.
Estava em São Bernardo do Campo no estádio de futebol quando o PT foi lançado, o Lula em cima do palanque. Estava no Anhangabaú no Diretas Já. Participei de movimentos políticos estudantis na FFLCH. Fui com alunos para as ruas no Fora Collor. Participei de praticamente todas as manifestações de julho e agosto deste ano, e observo com atenção as novas configurações de manifestações, balck blocs e etc.

Não odeio o PT, não odeio petistas, não admiro o PSDB e acho uma grande falácia enxergarmos estes dois partidos como politicamente em conflito. A Social Democracia é muito semelhante nos dois casos. Uma vez ouvi alguém dizer que nossa época vai ser marcada pelo governo FHC/Lula, há muita semelhança e complementaridade no que fizeram. Um não faria sentido sem o outro.

O mensalão, ou qualquer outro tipo de manipulação do processo democrático (desde o antigo voto de cabresto, coronelismo, dar um chinelo pro cabra e se o candidato ganhar dar o outro par, etc) é errado. Não há como negar. Comprar votos com dinheiro ou com qualquer outro tipo de recurso visando alterar uma votação é errado. Ponto.

Justificar um erro apontando os erros dos outros é infantil, quem tem filhos sabe disto, crianças fazem isto o tempo todo, apontarem para o outro para minimizar sua culpa.

Acho que no fundo o problema é a existência de um "Projeto". Parte das pessoas que foram presas hoje pelo mensalão tinham um "Projeto".  Algo fixo, quase um mantra, onde se apoiam para definir o que é bom para si mesmas, para os outros, para um país ou para o mundo. Tenho certeza que o Genoíno tem um "Projeto", e acredita nele. Acredita tanto na importância de seu "Projeto" que não vê problema em quebrar algumas regras, contanto que se chegue mais perto do "Projeto".

Todo revolucionário tem um projeto. E acha que as pessoas que não comungam de suas ideias ou são pouco esclarecidas e precisam ser lideradas ou são opositoras de seu "Projeto".

Quando eu estava no Centro Acadêmico da FFLCH conheci um cara, de uma vertente dos movimentos da época chamada Libelu (Liberdade e Luta), acho que trotskistas.
Rolou uma greve e manifestações na USP e num determinado momento um grupo decidiu bloquear a entrada da USP com uma barreira de pneus. Para dar um toque mais dramático, tiveram a ideia de jogar gasolina e atear fogo nos pneus. O tal cara que eu conheci era o responsável por jogar a gasolina e acender o fogo.

Tudo pronto para o evento, o cara foi até lá e jogou a gasolina. O chão ficou todo encharcado, como os pneus.  Uma moto estava passando no local e o motoqueiro perdeu o controle por causa do chão cheio de gasolina e se esborrachou no meio da pilha de pneus.

O cara que eu conheci estava com a tocha na mão, pronto para tocar fogo, quando viu o motoqueiro no meio da pilha de pneus. Foi aí que pensou "A vida de uma pessoa vale perder o momento histórico desta manifestação? Será que uma vida vale mais que o movimento?"

E o cara desistiu de jogar a tocha. E entrou em crise com o movimento.

As pessoas que estão sendo presas hoje não desistiram de jogar a tocha, acreditam no "Projeto" mais que tudo. Mesmo que alguém arda no fogo ateado por eles. O "Projeto" é mais importante.

Eu estou com o grupo que entra em crise e que não joga a tocha. Nenhuma tocha vale a vida de uma pessoa. Se é que vocês me entendem.


13.11.13

O Discreto charme da Velha burguesia

Nunca assisti "O Discreto Charme da Burguesia", do Buñuel, mas sempre achei o título do filme fascinante. (Não vou me dar ao luxo de falar sobre um filme que nunca vi, mas vou me apropriar do título que me encanta e faz pensar).

Concordo com a interessante maneira de abordar da Marilena Chauí feita durante um encontro na FFLCH (o vídeo está abaixo), mas no dia de hoje estou matutando sobre outra coisa: Sobre o tédio que aparentemente exala da Velha Burguesia nas relações interpessoais.


Muitas pessoas me consideram um cara arrogante pela minha maneira de falar ou de me posicionar numa conversa ou debate. O que descobri desta minha postura é que ela reflete uma convocação do interlocutor para uma arena comum: A da relação. Debate é conflito, e conflito é relação.

Mas o que fazer perante o tédio do outro? Como debater ou interagir quando a pessoa com quem conversa está plenamente sentada dentro do seu mundo, de suas convicções, valores, etc?

Descobri que tenho muita dificuldade em situações como esta. Mais do que ficar sem saber o que fazer, fico me perguntando "O que estou fazendo aqui?"...

A Velha Burguesia, que a Chauí chama de Classe Média, se apropriou do tédio que via exalar dos nobres dos filmes em preto e branco. Dum cansaço que parece dizer "Não adianta tentar, não pretendo sair daqui do meu trono para nada, nem que o apocalipse zumbi aconteça na minha porta". Fica aquela sensação de que a Velha Burguesia precisa, desesperadamente, deixar claro que há uma distância entre classes sociais, ou pelo menos entre você e ela.

A Velha Burguesia é, antes de tudo Velha. Se blindou para aquilo que está ao seu lado. Talvez por isto goste tanto de "pobre", ou de cultura "roots", pois está tão distante de sua realidade (ela acha) que não oferece perigo ao status que ela conseguiu e que usa para se distanciar dos demais.

Da mesma maneira que os nobres dos filmes velhos, entediados e solitários em salões cercados pelo vazio, a Velha Burguesia tende 'a extinção. Mas de uma maneira bem lenta e tediosa...

5.11.13

4 Razões para não odiar O Rei do Camarote

Depois de todo o rebuliço causado pela reportagem de capa da Veja SP desta Semana, o empresario Alexander Almeida está chateado. De acordo com conhecidos e amigos, o Rei do Camarote se arrependeu de ter dado a entrevista, e olha com tristeza para os inúmeros memes, vídeos e sátiras que apareceram sobre ele.

Reconheço que ele foi no mínimo displicente ao aceitar fazer este papel na mídia (a maioria diria que ele foi arrogante elevado a enésima potência). Ao se deixar filmar para uma ação de marketing que não se sabe qual seria, acabou virando motivo de piada.

Mas por que não devemos odiar o Famigerado Rei do Camarote?

1 - Ele é o modelo de sucesso da grande maioria das pessoas jovens
Apesar de ter quase quarenta anos, Alexander está onde a maioria dos jovens (e muitos adultos) gostaria de estar. Ao sair na rua de Ferrari, ele está acima dos outros (carro melhor). Ao circular com seguranças está menos vulnerável que a maioria (protegido). Vai nas melhores baladas e está no melhor camarote, em local de total destaque. E consome os produtos mais caros. Seja honesto! Você nunca quis estar na posição dele? Eu queria! Deixe de ser hipócrita. O que pode gerar diferença é que o que eu considero "Destaque" é outra coisa. Se ele acha que isto é bom para ele, não atrapalhando os outros, tudo bem.

2 - Você quer fazer parte de um grupo de linchamento?
O cara foi linchado nas redes sociais, ridicularizado, criticado,  as pessoas julgaram o cara sem conhecer, sem saber quem é, apenas pelo seu estilo de vida. "Ah, mas ele é fútil e babaca". Pois é, você está julgando alguém que não conhece, e que não fez nenhum mal para você. depois não venha bancar o santo postando fotos de gente pobre, memes para ajudar criança desaparecida. Se você soltou o verbo em cima do Alexander você participou de um linchamento virtual. Se fosse em uma escola, isto seria considerado bullying e dava processo bravo.

3 - Você odeia quem é diferente de você?
O que foi visto, mais do que ironia, foi ódio, aquele ódio de gente recalcada, que odeia quem faz sucesso, que define que os valores de pessoas diferentes de si são fúteis e sem sentido. Você quer que os direitos das minorias seja preservado? Mas a custa de quê? Da destruição dos direitos dos outros?

4 - Ou retire o que disse ou assuma que é invejoso
Sabe pedir desculpas? Têm exercido esta prática nos últimos dias? Então está na hora de se retratar. Até semana passada a Veja era considerada pela intelligentsia um veículo pouco confiável e manipulador. Agora virou uma mídia confiável? Só porque permitiu que você destilasse sua maldade por outra pessoa que têm padrões diferentes do seu, ou que conseguiu aquilo que você tanto queria e você não? Retrate-se. Ainda não vi isto acontecer nas redes sociais. A maioria das pessoas ignora as maldades virtuais que faz.

Uma vez estava no estacionamento de uma faculdade em que dava aula, estacionando minha Vespa 1986, e chegou um professor numa moto BKing 1300 zero km. Ele parou a moto dele ao lado da minha, olhou para a minha pipoqueira, deu um sorriso e disse "Agora estou no topo da cadeia evolutiva", orgulhoso de sua moto nova e de seu status. Na hora senti o impacto da provocação, mas deixa o cara ser feliz do jeito que ele acha que a felicidade é. Deixa o Alexander tomar champanhe e vai atrás da "sua champanhe", seja qual for ela. E para de linchar os outros na Internet que é feio, muito feio.

19.10.13

Quem você pode ser?

Uma das respostas que sempre dou para adolescentes quando se perguntam "O que vou ser quando crescer" é que eles já são alguma coisa. Na verdade já são boa parte daquilo que serão no futuro.
Dificilmente as pessoas mudam radicalmente, só grandes eventos pessoais permitem uma mudança absolutamente fora das expectativas óbvias.
Aparentemente quando somos mais jovens o cenário de possibilidades se apresenta com uma amplitude muito grande, apesar de não ser tão grande quanto parece. Este cenário precisa estar dentro do rol de possibilidades que a própria existência desta pessoa já têm para que se manifeste. Para exemplificar de uma maneira bem simples (e idiota, é verdade), o cara não pode querer ser um melão, por mais que queira. Esta possibilidade não está incluída nos cenários possíveis.

Mas muitas possibilidades aparentam ser possíveis dentro dos nossos cenários, principalmente pelo fato de vivermos em comunidades e compartilharmos informação e expectativas perante nossa própria vida. E hoje vivemos um momento histórico que é superdimensionado em relação às expectativas. Nós e o mundo fazemos o papel de anabolizantes de nossas expectativas, ao mesmo tempo. E o resultado pode ser bem perigoso, principalmente para a imagem que construímos de nós mesmos.

Nossa auto-imagem é fundamental para uma boa saúde mental. O ideal (nem sempre conseguido) é que não nos achemos nem melhores do que somos nem piores. Mas, se não pararmos para saber o que somos, como conseguiremos achar este equilíbrio? E será mesmo que é possível sabermos o que somos? Você sabe o que você é? Eu não tenho a mínima ideia do que sou.

É nesta hora que apelamos para o QUEM ao invés do O QUE somos. Definir e adjetivar QUEM somos é mais fácil. Sou aquilo que exerço, sou o jeito que me comporto, sou as tonalidades de afeto que me conectam com o mundo e com as coisas. Sou (e posso ser) Professor, Pai, Carinhoso, Atencioso, este tipo de coisa.

Mas estas coisas também podem ter adjetivos. E como vivemos a era da hipertrofia, ser Professor é pouco, precisamos ser O Melhor Professor, O Mais Amado Professor, O Professor Mais Exigente. Nesta condição, o Mais se torna imperativo. É melhor ser o Mais Qualquer Coisa do que Alguma Coisa. Na verdade ser Professor sem ser O Melhor Professor não têm significado nenhum, pois o que está em jogo é o Melhor contra o Algum, não mais ser Alguém contra ser Ninguém. Para ser alguém preciso ser o melhor, gerar destaque.

Só que crescemos, e o espectro de (aparentes) possibilidades diminui. Quanto mais vivemos, menores são as possibilidades visíveis. É como se nosso óculos começasse a restringir o campo de visão, e o horizonte parecesse mais curto a cada dia. Isto do ponto das expectativas que temos em relação a nós mesmos, é bom ressaltar.

E percebemos que é muito difícil ser o Mais em muitas coisas, inclusive pelo fato de "O Mais..." variar de época para época.

Quer um exemplo? Cinema. Vivi o boom dos anos 80 dos filmes iranianos. O cinema de lá é absolutamente parte de minha formação. Vi e debati todos os filmes que chamavam O Vaso, A Maçã... todos que passaram no Brasil eu assisti. Em mostras, nos cinemas, na casa de amigos. Poderia ser considerado "O Mais" no quesito filmes iranianos na época.

Hoje não faz sentido. Nenhum. Ser "O Mais" hoje é ir na pré-estreia de um filme de personagem de quadrinhos, como o Thor 2. É ter o martelinho de plástico que o Burger King oferece junto do lanche, é fazer memes com as piadas do filme, é ir a um encontro de Cosplay vestido com a melhor fantasia de Thor (ou a pior, também vale), comprar todos os Legos especiais do filme e postar fotos deles nas redes sociais*. Isto é o que o mundo apresenta hoje, e daqui a algum tempo também vai mudar. Portanto, para ser O Mais não basta turbinar sua experiência, você tem de ser rápido. O fator tempo é fundamental para conseguir ser alguém. Senão você corre o risco de tentar ser alguém, demorar e depois tudo aquilo que você construiu deixar de valer. A regra, agora, é outra.

Entendo as pessoas que procuram acelerar o surgimento do Mais usando anabolizantes reais ou simbólicos. Elas não estão só querendo pular a etapa de desenvolvimento. Elas têm pressa. Talvez todo aquele esforço se mostre inútil se elas demorarem demais...

* Uma questão a ser ressaltada: Há outro fator em jogo, que não toquei nesta reflexão, que é que o Mais está associado ao outro. A pergunta "Mais para quem?" é importante, pois dependendo do Para Quem está fazendo alguma coisa muda totalmente o sentido do Mais. Mas não era o foco deste post.

12.10.13

Seu Vizinho é o Mundo

Para quem mora em apartamento, nossa vizinhança é o Mundo.
Não quero dizer que nosso Mundo se restrinja aos vizinhos, mas o estranhamento ou a proximidade que podemos ter com os outros se reflete na relação que temos com as pessoas que moram próximas da gente.
Primeiro que vizinho a gente não escolhe, é um fato. Qualquer pessoa que tenha condições de alugar ou comprar um imóvel próximo do seu é seu vizinho. Podemos, ao decidir onde vamos morar, ter uma referência do estilo das pessoas que irão morar ao nosso lado. Mas não podemos decidir qual será a índole desta pessoa. Morar num prédio cheio de pessoas modernas e descoladas não significa ter boa companhia ao nosso redor. Existe gente moderna mau caráter, chata ou neurótica. Morar num bairro chique não significa que teremos vizinhos simpáticos. Simplesmente teremos gente ao nosso redor.
Dá para entender o pensamento do dono do Facebook quando compra as casas vizinhas à sua simplesmente para ter mais privacidade, quer sossego, não quer ninguém por perto. Não que eu concorde, já que a privacidade sempre encosta na solidão. Mas dá para entender. A maioria das pessoas de classe média que conheço almeja morar em condomínios fechados, onde o conforto é levar para dentro de casa um micro-cosmo da sociedade. Home Theatre para assistir sozinho seus filmes, piscina para escolher quem vai nadar com ele, tenta-se criar um mundo onde se tenha controle de quem estará ao seu lado. Mas sabemos que isto é impossível. Sempre vai ser necessário conversar com o entregador, dar bom-dia para o velho chato, cruzar no elevador com a mulher excessivamente perfumada...

Há que dialogar com o Mundo, somos animais sociais e vivemos em sociedade. Não descendemos dos rinocerontes, que vivem solitários. Somos um bando. E cada vez maior.

Viver em cidades grandes acaba trazendo esta reflexão à tona. A maioria das reclamações no grande Muro das Lamentações que é o Facebook derivam disto. É o trânsito, o trabalho, as filas. Os grandes vilões da existência são vilões sociais: Os momentos em que precisamos dar oi para os outros.

Curiosamente a maneira mais transformadora de mudar este cenário é aceitar o diálogo. Dar bom dia ajuda intensamente, pois você vai perceber que (nem todas) as pessoas também darão bom dia para você. Algumas surpresas, outras sorridentes, outras formais. Mas romper com o ciclo de alienação da existência permitirá uma experiência nova para quem ainda não pratica isto.

Você vai dar bom dia para alguém hoje? Que tal tentar?

9.10.13

O Brasil é um dos Manicômios da Europa?

Lendo "A História da Loucura na Idade Clássica", do Foucault, me veio este pensamento. De acordo com o autor, existe uma estrutura de segregação que foi sendo herdada no decorrer da história.
Com a preocupação com a Lepra no século XVI, são construídos os leprosários, para que fossem confinados os doentes, e evitar o contágio.
Com o declínio da doença na Europa, os Leprosários não tinham mais função, então começaram a internar os sifilíticos, para evitar que a doença se espalhasse. Mas num determinado momento a quantidade de sifilíticos também diminuiu, e não havia mais sentido em usar toda aquela estrutura para poucos doentes. Foi aí que surgiu a ideia de colocar dentro das estruturas os loucos.

O que é louco? Não pretendo esmiuçar o conceito fino do Foucault, mas louco é aquele que não se enquadra na normalidade. Assim, todas as pessoas que não eram consideradas "normais" pelos outros ou pelas autoridades passam a ser confinadas nos antigos Leprosários. E assim surge o Manicômio.

O autor cita muitos países que passam a confinar seus "loucos" na Europa, mas não cita Portugal. Curiosamente, na mesma época Portugal começa a enviar os "degredados" para sua colônia, o Brasil recém-descoberto. E o que são os "degredados"? As pessoas que não eram consideradas "normais" em Portugal.

Pensar que o Brasil começa sua história como um grande Manicômio faz a gente pensar, né?

8.10.13

Dia da Criança - Por um dia de luta pelas crianças

Acho graciosa a ideia viralizada das pessoas mudarem suas fotos de perfil no Facebook durante a semana da criança. Podemos ver crianças de várias épocas e estilos, e entender um pouco mais a alma e a formação de nossos amigos. Há uma delicadeza na atitude, e tudo que é delicado é bom.
Mas ver aqueles rostos de crianças no Face obviamente me fez pensar um pouco... E imediatamente me lembrei da quantidade de crianças em situações inadequadas para elas, vítimas de guerras, de drogas, da pobreza, da violência e do descaso das autoridades.

Pode parecer meio piegas ou muito óbvio, mas este tipo de situação nunca está tão longe da gente. Durante uma ação que desenvolvemos para um cliente na nossa agência fomos distribuir cobertores no dia mais frio do ano aqui em SP. Num determinado momento entramos dentro de uma ponte (como elas são ocas, o pessoal usa para construir verdadeiros condomínios lá dentro, neste moravam umas 30 pessoas pelo menos). Batendo papo com os moradores, começaram a aparecer as crianças, curiosas com as pessoas estranhas que estavam dentro da casa delas. Eram uma meia dúzia, de idades entre três e oito anos.



 
 

Uma das garotas que estava distribuindo cobertores com a gente reparou que o menorzinho estava sem sapato. Na verdade ele estava descalço, na noite mais fria do ano, andando num chão molhado que exalava um cheiro de urina e fezes. Aí ela disse para ele: "Vai colocar seu chinelo! Está muito frio". E ele disse: "Tia, eu não tenho chinelo".

Esta criança de três anos de idade que não tem chinelo mora a seis quadras da minha casa.
As crianças que são dependentes químicas de crack e cola moram a poucas quadras de minha casa, na Cracolândia.
As crianças que trabalham em olarias ou em carvoarias moram em outros estados, do lado do estado em que moro.
As crianças que trabalham colhendo e cortando  mandioca moram em estados colados aos estados do lado daquele onde moro.
As crianças-soldados carregando seus rifles e matando outras crianças moram no continente ao lado do continente em que moro.
As crianças que são vendidas por centavos moram num continente do lado do continente onde moro.

Depende de como enxergamos o mundo as coisas podem parecer mais próximas ou mais distantes. Eu, a cada dia mais, acho que os abusos contra crianças estão cada vez mais perto de nós, e que ao ignorarmos o fato, estamos sendo coniventes com a situação.

Nesse sentido, a brincadeira de trocar de fotos para "comemorar" a infância no FB me parece pouco relevante, esvaziada de sentido. Como adulto que sou, cabe a mim de alguma maneira intervir. E, se for para colocar uma foto em meu perfil, vai ser de uma destas crianças que estão próximas de mim.

6.10.13

Por que Amarildo foi torturado e morto?

Se nos Estados Unidos a "guerra ao terror" justifica abusos contra os direitos humanos básicos, no Brasil, a "guerra ao tráfico"  é a desculpa da vez.
Pelo que se sabe de Amarildo, não parece que ele fosse um santo (Só para lembrar, nem você nem eu somos santos). E que ele tinha algum vínculo com o tráfico na comunidade onde morava, ou fazia parte dele. Ainda não está claro o envolvimento.
Como o país estava mobilizado pelas manifestações, o grau de tolerância de vários segmentos da sociedade estava muito baixo em relação a abusos, e o desaparecimento de Amarildo caiu na boca do povo, o fato acabou se tornando um ícone da conduta violenta da polícia.
A frase "Onde está Amarildo", vista em centenas de situações, poderia muito bem ter acontecido na época da ditadura, quando pessoas desapareciam sem deixar rastros. Até hoje, depois de quarenta anos, algumas não foram encontradas.

Mas a grande questão é sobre a tortura e morte realizada por órgãos oficiais. Esta é a questão. É o Estado sendo conivente com agentes da sociedade, que são pagos para agirem em benefício de todos, realizando torturas e mortes em paralelo com outras leis, que ao que parecem, são de menor relevância social, como ter direito a se defender e ser julgado por um tribunal. A própria pena de morte não existe no papel no Brasil, mas existe na prática.

Para que tenhamos um paralelo entre a conduta do Estado e da Sociedade, imagine uma situação onde você têm uma empresa, e um dos gerentes descobre que um grupo de funcionários estava desviando dinheiro. O gerente chama outros gerentes e eles combinam uma reunião com os funcionários no final do dia, isolam o grupo do contato com outras pessoas e passam a noite torturando o grupo até descobrirem o que estava acontecendo.
No meio da tortura, um dos funcionários não aguenta os maus tratos e morre. O grupo de gerentes passa então a criar uma série de evidências para tentar provar que ele não morreu sendo torturado por eles, mas sim que os outros funcionários o mataram, para que ele não denunciasse o esquema.

Dentro do contexto corporativo a história se torna dura, pesada, parece um filme de suspense, cheio de chantagens e terror psicológico. Mas dentro do contexto social do Brasil se torna mais um caso de "abuso de autoridades", mais uma estatística, parece não ter importância. Afinal de contas, "se Amarildo se meteu com traficantes sabia o que podia acontecer com ele".

Mas como não se meter com traficantes se eles são (ou eram) os líderes da comunidade onde você vive, a mesma comunidade que foi isolada e abandonada durante décadas pelo governo? Que botava todos os excluídos no mesmo pacote, e ignorava o que acontecia por lá, ou era cúmplice de algumas situações? Quem não está envolvido, direta ou indiretamente, com o poder estabelecido?

Há inúmeras evidências de que a violência é um processo contagioso: quanto mais violentos somos, mais violentos nos tornamos. "Transmitimos" violência, fazendo com que os outros se tornem violentos também. A tortura é uma forma de violência inaceitável, mas achamos razoável em estados de exceção, como nos morros ou na guerra ao terror.

Evidentemente Amarildo está morto, e o Estado não vai deixar de torturar pessoas. Vai procurar dois ou três bodes expiatórios e entregar para satisfazer a vontade de justiça. Mas a tortura não vai acabar. Infelizmente, pois hoje no governo temos um monte de pessoas que sofreram com a violência no passado, mas não se solidarizam com aqueles que são torturados hoje...