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13.11.13

O Discreto charme da Velha burguesia

Nunca assisti "O Discreto Charme da Burguesia", do Buñuel, mas sempre achei o título do filme fascinante. (Não vou me dar ao luxo de falar sobre um filme que nunca vi, mas vou me apropriar do título que me encanta e faz pensar).

Concordo com a interessante maneira de abordar da Marilena Chauí feita durante um encontro na FFLCH (o vídeo está abaixo), mas no dia de hoje estou matutando sobre outra coisa: Sobre o tédio que aparentemente exala da Velha Burguesia nas relações interpessoais.


Muitas pessoas me consideram um cara arrogante pela minha maneira de falar ou de me posicionar numa conversa ou debate. O que descobri desta minha postura é que ela reflete uma convocação do interlocutor para uma arena comum: A da relação. Debate é conflito, e conflito é relação.

Mas o que fazer perante o tédio do outro? Como debater ou interagir quando a pessoa com quem conversa está plenamente sentada dentro do seu mundo, de suas convicções, valores, etc?

Descobri que tenho muita dificuldade em situações como esta. Mais do que ficar sem saber o que fazer, fico me perguntando "O que estou fazendo aqui?"...

A Velha Burguesia, que a Chauí chama de Classe Média, se apropriou do tédio que via exalar dos nobres dos filmes em preto e branco. Dum cansaço que parece dizer "Não adianta tentar, não pretendo sair daqui do meu trono para nada, nem que o apocalipse zumbi aconteça na minha porta". Fica aquela sensação de que a Velha Burguesia precisa, desesperadamente, deixar claro que há uma distância entre classes sociais, ou pelo menos entre você e ela.

A Velha Burguesia é, antes de tudo Velha. Se blindou para aquilo que está ao seu lado. Talvez por isto goste tanto de "pobre", ou de cultura "roots", pois está tão distante de sua realidade (ela acha) que não oferece perigo ao status que ela conseguiu e que usa para se distanciar dos demais.

Da mesma maneira que os nobres dos filmes velhos, entediados e solitários em salões cercados pelo vazio, a Velha Burguesia tende 'a extinção. Mas de uma maneira bem lenta e tediosa...

27.2.12

Você está gritando por gritar ou quer que alguém te ouça?

Num almoço na Vila Madalena quase não consegui comer com tanta gritaria. Ao meu lado uma adolescente de uns 20 anos (adolescência hoje vai até uns 30), kit moderninha (bem cuidada, cabelinho da moda, vestidinho florido) gritava e chorava convulsivamente com pai, que ouvia calado. Na verdade calado é pouco, o cara era uma estátua. A infeliz estava furiosa com outra pessoa e expressava seus sentimentos em alto e bom tom, pouco se lixando se estava incomodando todas as mesas ao redor.
Aí eu pensei: Se eu acendesse um cigarro aqui, o mundo iria parar. Iriam chamar o Kassab e sua equipe de vigilância de bons modos sociais, me jogariam pela janela, o escambau. Mas é só com o cigarro, e com talvez outras coisas, como ser pobre ou sujo que as pessoas se incomodam. A total invasão de espaço sonoro (não sou obrigado a ouvir o que a Tia Nena acha da moça, nem quero saber quem é a Tia Nena) é justificável, pois ela está expressando a sua opinião, e que o mundo tolere seus resmungos e infantilidades. É assim que a coisa vai.
O inacreditável, e óbvio, era o total alheamento do pai. Não só deixou a filha gritar, como não a consolou, não fez nada para que aquela ceninha acabasse. Nem colo nem preocupação com os que estavam ao redor.


Mas não, não é porque o pai é assim que ela estava agindo desta maneira. Nem é porque a escola não a educou direito sobre boas maneiras. E nem porque estava barulhento o restaurante. A questão é que todo mundo quer expressar os seus sentimentos, mas ninguém quer dialogar. A infeliz só queria gritar, não queria que ninguém a escutasse. Veja a quantidade de gritos espalhados pelas Redes Sociais que perceberá que não há intuito de comunicar, de dialogar, apenas de gritar. E posso garantir que um mundo cheio de gente gritando por gritar não é um mundo melhor.