Let´s Go!

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9.6.13

Retrato do Humano Contemporâneo - O Labrador (ou o Golden, tanto faz)


Nossos cachorros dizem muito sobre nós mesmos.

Sou de outra época, a do Pastor Alemão e do Doberman. O Pastor Alemão é um dos cachorros mais incríveis que conheço.
Fiquei muito feliz de ver a raça reaparecer na mídia depois do filme "Eu Sou a Lenda", do Will Smith.
O Doberman, apesar de ser considerado um cão bravo, na verdade é dócil e obediente. Não me lembro de caso de Doberman atacando dono. Grande cão de guarda.
Por outro lado...tive a oportunidade de conviver com muitos Fila Brasileiros. Muitos. Um amigo tinha uma criação. É tipo uma vaca, só que é cachorro. E é bravo.
Não me esqueço do dia em que chegou uma viatura cheia de policiais, chamando o caseiro para testemunhar um crime que tinha acontecido na cidade. O maior macho do canil foi e sentou do lado do carro. Não latiu, nada, só sentou.
Eu estava dentro da casa, escrevendo. Ouvi um barulho de gente chamando lá fora, tipo "psiu?", "oi?", "boa tarde?", coisas do gênero. Quando saí todos os policiais armados estavam dentro da viatura, com só uma frestinha do vidro aberto, esperando alguém aparecer. Fila é bicho ardiloso.

Hoje os cachorros padrão são o Golden e o Labrador. "Marley e Eu" é a Lassie do século XXI.
Bicho mimado, faz bagunça pela casa, mas é amoroso. Nada mais adequado para os dias de hoje.

Vivemos a era do mimo. Confundimos afeto com mimo. Conheço um monte de gente adulta mimada. E carente. Estes cachorros são assim. Identificação total.


O resto é cachorro ornamental, tipo moda. Teve os mini galgo, bulldog, bulldog francês, a lista é enorme. Sabemos a safra de uma pessoa pelo cachorro que ela têm. Por isto adoro as velhinhas que andam pela praça aqui no centro com uns vira-latas centenários como elas, ambos tentando ficar de pé e dar um rolê. E os puxadores de carroça que têm seus vira-latas acompanhando na busca pelos recicláveis. Não há moda nestes casos, aquilo é definitivamente um cachorro ao lado de um humano.

Os Labradores e Goldens são cachorros de médio/grande porte. Pensando que um grande número de pessoas em São Paulo mora em apartamentos, são animais que ocupam espaço, fisicamente falando.
Mas estranhamente parecem ornar com SUVs e famílias passeando no domingo. Só não sei onde eles ficam durante a semana. Os Goldens têm ainda a dificuldade de escovar aquele cabelão, imagino a quantidade de pelos que aquilo solta num apartamento de 100m2...

Não há cachorros mais icônicos de nossa classe média que estes dois. E acredito que seja pela sua doçura e simpatia. Vivemos em tempos carrancudos, em cidades mal humoradas, trânsito infernal, pessoas que viram a cara quando damos bom dia. Nada pior do que se chegássemos em casa e estivesse mais uma coisa olhando feio para a gente.


A melhor frase que conheço sobre cães e humanos é do Seinfeild, que diz que se os ETs viessem agora e vissem os humanos andando atrás dos cães segurando um saquinho e recolhendo o cocô deles pela calçada não teriam dúvida em saber quem é a espécie dominante...

1.6.13

O objeto inalcançável - A Nave Enterprise

Tenho certeza de que os fãs de Star Trek se interessarão por este post, mas garanto que todos vão entender o que quero dizer.

Star Trek é um seriado cujo personagem principal é uma nave. Esta é a verdade, alguém já disse isto e eu não me lembro quem foi. O personagem essencial é a nave. E a grande diversão dos filmes é ver como os personagens interagem entre si diante das adversidades das histórias.

O último filme, Além da Escuridão, resgata vilões antigos (e importantes), têm uma história cheia de correrias para lá e para cá, inversões de situações de filmes anteriores, mas a nave continua sendo o personagem principal.

Por que?
A abertura do seriado e dos filmes sempre cita a missão da Enterprise:

“Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos em busca de estranhos novos mundos, novas vidas e novas civilizações. Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.”

Algumas pessoas dizem que há um fetiche pelo Objeto da nave, a coisa da idolatria. Eu já discordo, o fetiche é pelo Objetivo da nave. Ir em busca do desconhecido, novos mundos: A fronteira final.

A série se propõe a investigar aquilo que não sabemos o que é, as fronteiras do conhecimento, colocar em xeque modos de pensar e abrir a cabeça para o novo.

Neste sentido, Star Trek é imbatível.

Curiosamente ia escrever um texto diferente sobre o assunto. Queria falar sobre a vontade de entrar na nave, e a consciência que temos de que nunca poderemos entrar nesta nave, por mais que queiramos. Mas isto vale para muitos outros conceitos abstratos criados pela nossa sociedade e mantidos por nós, como os julgamentos morais, o amor, a vida comum, e tantas outras abstrações que nos rodeiam e acabamos convivendo com elas. E achamos que realmente entramos nesta nave simbólica, mas apenas simulamos que entramos, já que ela é uma ideia, inatingível, inacessível, como a Enterprise, aquela nave bela que flutua na tela do cinema.


26.5.13

Grafiti? Para mim são entalhes na madeira do mundo

Fiz um grafiti na casa do meu querido amigo Luis Fernando Almeida neste final de semana. Na verdade fiz meio grafiti, pois tem uma parte que preciso terminar, faltou material.
Não tenho grande experiência com grafiti, mas tenho com o riscar. O risco faz parte de meu cotidiano, sem duplos sentidos psicológicos.

Queria falar algumas coisas sobre meu trabalho no universo visual. A primeira é que todo desenho é consequência do anterior, ou seja, ele faz parte de uma grande história, que começa nos meus cadernos no dia em que meu avô morre e se espalham por diversos suportes, em objetos, paredes, telas e mais o que aparecer pela frente. Existe uma mutação da forma, que conduz o tema, e vice-e-versa. Mas há uma proximidade visível entre o anterior e o próximo.

O que é realmente relevante neste tipo de trabalho não é a criação de uma imagem mental e a aplicação desta imagem sobre uma superfície. O que mais me interessa é o diálogo entre a superfície, o traço e a forma. Por isto a importância de alguns tipos de canetas (a fluidez da tinta, a ponta, a quantidade de tinta que escorre, o tempo de secagem) de desenho que uso. E por isto minha pequena produção de desenhos atualmente, já que as canetas que uso estão em falta no mercado. Preciso repensar o que vou fazer com isto.

A hachura (risquinhos), universo de textura/traço que habito, é absolutamente derivada da experiência com o entalhe das matrizes de xilogravura. O diálogo entre tentar cortar e o veio da madeira deixou uma marca importante na minha maneira de enxergar o produzir artístico. Algo como se fosse impossível aplicar uma ideia "pura" no mundo, na hora que traduzimos o pensar ele precisa passar pela característica do traço e depois dialogar com as características do suporte, que já existe, tem sua forma, densidade, etc.

Quando dou aula de Arte para adolescentes costumo dizer que "na vida não há borracha", e acho que todos devíamos pensar desta maneira. O traço que sai da caneta (ou da goiva, do cinzel, do pincel) é o que saiu, portanto, faz parte do gesto. O próximo gesto deverá dialogar com ele, e não corrigi-lo.

Sobre meus temas de desenho? Alguns são meus fantasmas, como o Super Herói que povoa minha alma e tento matar, descobrir qual é a Kriptonita que preciso usar. Enquanto não consigo matar o bicho, sublimo sua fantasmagoria em meus desenhos, deixo o monstro ir para fora de mim. Mas ele é assunto para outro post.

Meus asteróides são os ambientes inóspitos por onde este Super Herói viaja, mas meus asteróides às vezes se transformam em tentáculos (são formas muito semelhantes, um tentáculo enrolado parece muito com um asteróide). Neste exato momento, o asteróide está em mutação, e os tentáculos estão surgindo.

Crédito das duas primeiras fotos para Luis Fernando Almeida.

19.5.13

Mulher: Você extrairia seus dois seios para faturar uma grana?

Tem uns dias que me divirto com as teorias da conspiração que aparecem nas redes sociais, mas desta vez acho que a imbecilidade humana chegou a um ponto lamentável e surreal.

Algumas pessoas têm escrito em blogs e posts que a Angelina Jolie fez uma mastectomia radical para favorecer a indústria da medicina, ou para forçar a justiça a conceder patentes milionárias para as gigantes farmacêuticas. Quem fala isto desumanizou totalmente a figura da Angelina Jolie, e realmente desconhece o ser humano.

Que os ídolos vivem num tipo de Olimpo todos sabemos, numa região meio mítica, criada e mantida pelo seus seguidores e pela indústria do entretenimento. Mas isto não os faz menos humanos que qualquer um.
Existem exageros no estilo de vida dos famosos, mas pensar que a Angelina Jolie sentaria numa reunião com representantes da indústria farmacêutica e alguém começaria um diálogo assim:
"Sabe, tivemos uma ideia! E se você retirasse os dois seios, afinal de contas existe uma chance de ter câncer... Temos um cheque aqui para você fazer isto... É uma soma e tanto!"

Alguém realmente imagina a atriz pensando:

"O dinheiro é bom, é só eu fazer uma mastectomia radical e embolsar mais uma grana, o Brad estava mesmo querendo comprar um Bugatti Veyron..."

A mutilação é uma questão muito complexa para o ser humano, e no caso da mulher, os seios são muito mais do que duas bolas balançantes penduradas no tórax. São associados com feminilidade, maternidade, sensualidade, atração, vaidade e mais um monte de outras questões.

Que mulher faria isto por dinheiro? E justo uma mulher que sempre se mostrou independente, ousada, um símbolo? Não conheço mulher que não admire a Angelina Jolie.

Caros Conspiradores: Parem de falar besteira. E procurem outra pessoa para desqualificar.
Se tem alguma dúvida sobre o que estou dizendo, pergunte por quanto dinheiro sua mãe faria uma coisa destas...

7.5.13

Luisa e os Rinocerontes Negros

Quando minha filha Luisa nasceu, fiquei sensível ao tema "Mundo". Já tinha um filho, o Marco, mas não tive o prazer de vê-lo nascer, ganhei o Marco com 9 anos, não o vi filhotinho.
Meu primeiro filhotinho foi a Luisa. Aquela coisa desengonçada que gera sentimentos profundos sobre a existência, e principalmente daquele mundo que vai existir quando morrermos.

Quando não vemos filhotinhos, não pensamos muito no mundo que continuará. Quando os vemos, acabamos preocupados com o que vai acontecer depois que formos embora. Pelo menos eu passei a me preocupar muito.

Não me esqueço de um documentário sobre os Rinocerontes Negros, e sobre o perigo de extinção desta espécie. Me lembro de chorar sozinho ao ver os Rinocerontes na TV, pensando em que mundo tinha colocado a Luisa. Um mundo em que ela talvez não visse Rinocerontes Negros pastando pela África.

Durante um bom tempo foi motivo de conversa e curiosidade a história dos Rinocerontes. Meus amigos achavam curioso, "por que esta preocupação com os Rinocerontes?", eles diziam.

Minha verdadeira preocupação é com a nossa capacidade de exterminar outra espécie por motivo fútil, ou por ignorância. O modo destrutivo que é acionado pelo ser humano em muitas situações.

Não posso dizer que não tenha um certo encanto pelos Rinocerontes, em especial depois de ler "O Rinoceronte" do Ionesco. Eles povoam meu imaginário, e quem me conhece sabe que a foto do Dali em frente de um Rinoceronte me toca profundamente. Se quiser ver o diálogo entre o Rinoceronte Negro e o Branco comigo, vale a pena ver meu álbum de desenhos.

Hoje tenho um filho de dois anos, o Daniel, e se eu sobreviver, vou ter de explicar para ele por que os Rinocerontes Negros foram extintos.

Honestamente preferia, como pai, não ter de explicar isto para um filho.

6.5.13

O Mala das Redes Sociais - Conhece? Espero que não...

Foi dia destes que reparei: Tem gente que para afirmar sua personalidade precisa discordar de você.
Quanto mais ela fizer oposição, mais significará que ela existe. Em alguns casos mais radicais, ela precisa te destruir para poder existir.

No mundo real passei por isto faz um tempo. Primeiro a pessoa se aproxima, se torna íntima, e depois arranja uma maneira de te destruir. A sua existência é um atentado a existência dela. É tão insuportável ela se olhar no espelho que precisa de alguma outra pessoa que a personifique para depois eliminá-la.

Eu sei, eu sei. Qualquer pessoa com o mínimo de autoconhecimento sabe que no fundo a única pessoa que precisamos superar somos nós mesmos. Nem precisa de grande conhecimento, basta ter assistido Star Wars para entender o kit básico. Mas "entender" não tem nada a ver com sentir e expressar. São coisas diferentes. E é neste conflito que surgem pessoas destrutivas.

Como nas Redes Sociais não dá para ser absolutamente destrutivo (o pessoal está vendo, pega mal, tudo documentado pode dar processo, cana, etc), o ser destrutivo e inseguro se transforma no Mala das Redes Sociais.

Para exemplificar sem apontar para os outros, vou contar uma história que aconteceu comigo. Eu estava com dois amigos recém-ingressos na Faculdade de Filosofia tomando cerveja num boteco.
Os dois estavam animadíssimos. Parecia que ter entrado na Filosofia fosse como se alguém tivesse dado autorização formal para elaborar raciocínios abstratos e divagações intermináveis em nome do conhecimento. E os dois falando um monte de abobrinha, e eu entediado que só.
Num determinado momento percebi que poderia me divertir um pouco com a situação. Quando os dois, depois de um longo e tortuoso raciocínio quase estavam chegando a um consenso pretensamente filosófico eu cortava e dizia: "Não necessariamente". Aí os dois se olhavam e tinham de concordar comigo. E começavam a divagar novamente em busca de alguma linha de pensamento consistente.
Resumindo, fui ficando meio bêbado e soltando uns "Não necessariamente" a cada dez ou quinze minutos, o que obrigava os dois a reverem seus argumentos. Eles só perceberam que eu estava trollando o debate quando já estava praticamente debaixo da mesa de tanto rir.

Pois é.

Nas Redes Sociais sempre tem o Mala do "Não Necessariamente..." Você gosta de panquecas? Postou uma foto de uma bela panqueca? Ele vai comentar: "Não gosto de panqueca".
Você gosta de Rock Clássico? Ele vai dizer " Tenho dúvidas se Rock é realmente música".

Não dá para dizer que tecnicamente isto seja um diálogo. É só ele se contrapondo a você. Mais importante que debater, o que ele quer é discordar. Discordar para Existir.
Deve ser terrível olhar no espelho, entendo sua tristeza Mr Mala, mas vai encher o saco de outra pessoa...

5.5.13

Burocracia desenvolvida para te enlouquecer

Tive de ir resolver um problema na prefeitura, e depois desta minha experiência cheguei a conclusão que existem sádicos de verdade projetando a burocracia de uma cidade.
Como o posto de atendimento é único (um posto para todos os cidadãos paulistanos, que beira os vinte milhões de pessoas), fica tecnicamente impossível de atender todo mundo.

Ao invés de criarem mais postos de atendimento ou distribuírem postos por serviços (lixo é em tal lugar, IPTU em outro, etc), os caras criaram a máquina dos infernos para gerenciar o mundo de gente que vai lá.

A coisa funciona da seguinte maneira: Na triagem a atendente te dá uma senha, composta de letras e números. Esta senha não tem ordem cronológica, ou seja, o K490 não vem depois do K399. Dependendo da situação o K400 é chamado antes do K399. Mas você não sabe qual é a situação.

Somado a isto, existem várias outras letras iniciais, e um grande luminoso fica apresentando uma sequencia como A032, J890, B004, X123, e por aí vai.

Como nossa mente tenta criar sentido nas coisas, você fica observando aquele luminoso tentando entender em que posição você provavelmente estará, mas é impossível. E se deixar de prestar atenção pode correr o risco de perder a sua vez e ser jogado para o fim da fila (eu acho, ou deduzo, pois não há uma lógica no processo).

Conclusão? Fiquei duas horas olhando fixamente para aquele letreiro, como um sapo hipnotizado por uma cobra, sem poder sair, ir ao banheiro, decidir se vou embora ou não...

É um negócio maligno, quem arquitetou aquilo é um gênio do mal. Espero que não seja o mesmo que vai coordenar a campanha de algum candidato fascista, pois se for o cara ganha e a gente vira tudo zumbi...

2.5.13

Por que as mulheres rebolam?

Há uma explicação para as mulheres rebolarem.
A questão óbvia é obter a atenção do macho. Mas por quê o rebolado faz com que os homens parem tudo e fiquem observando?

Homens prestam atenção em alguns sinais. Aprenderam durante os últimos milhares e milhares de anos. Depois de observarem o rosto da mulher (identificando empatia a partir dos neurônios-espelho e do micro-gestos faciais), sua atenção irá direto para o quadril.

Existe uma proporção áurea no corpo da mulher que o homem calcula sem perceber, que está na relação do tamanho do quadril e a cintura. O cálculo deve chegar em 0,70 aproximadamente na relação entre o tamanho dos dois. Se a relação estiver mais ou menos neste número, os homens tendem a se sentir atraídos pela mulher.

Isto tem muita relação com a capacidade de procriar da fêmea, e os homens não calculam isto conscientemente, é uma coisa que acontece, herdada de gerações e gerações que evoluíram neste sentido. Os homens apenas sabem disto, e ponto.

E as mulheres também.

E por que rebolam então?

O rebolado aumenta o tamanho do quadril, e o movimento chama a atenção do macho. Acelera o processo de atenção, atraindo o olhar do potencial parceiro.
A mulher emite sinais, e o homem percebe.

1.5.13

É Possível Surgirem Flores no Pântano?


Não sou behaviorista, não acredito na proposta do Skinner que dizia que toda nossa personalidade depende de nosso ambiente. Se formos criados num lugar bom seremos bons, se formos criados de uma maneira ruim, seremos ruins.

Minha maneira de pensar é que nossa personalidade é construída num mix entre genética e ambiente. Não penso que seja 50/50, acho que varia de acordo com a pessoa, a época, o momento, etc,etc. Mas é inegável que o ambiente contamina nosso comportamento, mesmo que não percebamos.
Um exemplo (bobo) disto foi um dia que decidi parar de pintar em Preto e Branco e resolvi comprar tintas coloridas. Estava na loja e me encantei com um verde escuro, foi o primeiro pote que peguei. Quando cheguei em casa descobri que era exatamente a cor de uma de minhas paredes da sala.
Aquela cor estava impregnada no meu pensamento.

Descobri, através de um amigo, o trabalho de uma fotógrafa muito interessante, a Fabi Futata. Em um dos seus belos e instigantes álbuns, vi esta foto acima, que me chamou a atenção: um garoto com o dinheiro do Banco Imobiliário espalhado pelo corpo, óculos escuros na cabeça e um gesto muito interessante nas mãos. O que este gesto simboliza?

Simboliza Armas.

Já vi fotos de assaltantes exatamente deste jeito. Símbolo de status e poder, dinheiro e armas. E de bandidagem. Orgulho.

Quantos anos têm este garoto? Esta postura simbólica não é algo que vemos nos filmes, é algo que de vez em quando vemos nas redes sociais, ou nos noticiários policiais.
E aí vem o pessoal falar de "maioridade penal", como se isto resolvesse alguma coisa. O garoto mora numa ocupação, prédio abandonado, sem nenhuma condição. Se apega as referências que têm, ou que pode ter.

Ele é inocente? Pode ter sido, mas dificilmente continuará a ser sem que surja algum contraponto a esta visão de mundo que está impregnada na sua existência.

Isto vale para outros redutos existentes que a classe média "formadora de opinião" evita enxergar.
Internação compulsória de dependentes químicos? Para quê? Para tirar da rua este povo "feio e doente"?
Caminho todos os dias pelo centro de São Paulo e vejo inúmeros prédios abandonados e ocupados pelos Sem Moradia. Vejo ambulantes sendo retirados das ruas pela Polícia Metropolitana,  moradores de rua com problemas mentais vagando por uma sociedade que se diz plural, mas na verdade é cada vez mais monolítica, engessada e sem a mínima capacidade de absorver aquilo que foge de seus padrões estreitos.

Infelizmente acredito cada vez menos na possibilidade de surgirem belas flores no pântano. Acho que o lixo social vai gerar cada vez mais lixo social. E vejo poucas pessoas preocupadas de verdade com isto.

Agradeço a Fabi Futata por permitir que eu tenha usado sua bela, porém complexa fotografia em meu post.

29.4.13

Preste atenção nos sinais! Como nos enganamos e fazemos julgamentos equivocados...

Dia destes estava estacionando meu carro quando vi uma briga na rua, bem em frente ao estacionamento. Centro de SP tem de tudo, mas acho que foi a primeira vez que peguei dois caras se batendo.
Um rapaz jovem, negro, batia com gosto num senhor de cabelos brancos, que gritava "socorro, estou sendo assaltado".

O manobrista veio na direção do rapaz e começou a gritar, tentando afastar o agressor da vítima.

Eu olhava a cena de dentro de meu carro, a poucos metros, decidindo se saía ou não do carro. Foi quando eu reparei no olhar do rapaz que batia no idoso: O garoto parecia enfurecido, estava puto.

Foi quando pensei: Nunca vi um ladrão puto da vida. E este cara estava revoltado.

Alguma coisa estava acontecendo e não era um assalto...

Desci do carro e fui até o manobrista. Ele tentava enxotar o rapaz, e eu disse para ele que tinha alguma coisa errada. O "errado" era o outro, o rapaz tinha alguma coisa para contar.

Fui conversar com o garoto. Ele me disse que era Michê e fazia programa na região. E que o outro tinha combinado um programa, fizeram e depois o cara tentou fugir sem pagar falando que ia num caixa eletrônico pegar o dinheiro. Quando o rapaz percebeu o truque do idoso correu atrás dele e tentou reaver o dinheiro. Na briga o "cliente" começou a gritar "pega ladrão" e a confusão desandou de vez.

O "pobre velhinho" gritava: Vou chamar a polícia, seu ladrão!

Neste momento resolvi ir conversar com o velho. Perguntei para ele se precisava de ajuda, e ele disse que queria chamar a polícia. Na mesma hora respondi: Tem um trailer da PM cinquenta metros daqui. Acompanho o senhor.

Aí o assaltado desconversou... "Acho melhor esperar chegar uma viatura".

Eu pisei firme. "Faço questão de acompanhar o senhor! Até testemunho!"

E o velho enrolando... "Vou esperar a viatura passar..."

Nisto o bolo de gente se espalhou, o manobrista entrou com meu carro no estacionamento, e sobramos só eu, o Michê e o Espertalhão.

Chamei o velho num canto e disse: "Meu amigo, melhor pagar o que deve para o rapaz. Sabe por que? O manobrista já foi embora, a multidão dispersou, e eu estou indo para casa. Se o senhor não pagar o rapaz vai continuar apanhando muito... E com razão."

O manobrista no dia seguinte veio conversar comigo. Queria saber como descobri que o rapaz era inocente (entre várias aspas o inocente aqui)...

Esta é a maior dificuldade: Evitar, em algumas situações, o raciocínio intuitivo, muitas vezes baseado em padrões que não temos controle. Olhar a situação e tentar entender, sem julgar.
Na maioria das vezes é impossível. Mas desta vez deu certo....

A Nova Guerra Simbólica

Tudo é linguagem e simbólico. Não pensamos de maneira "objetiva", o subjetivismo prevalece, e é preciso aceitar isto.

As pessoas que estavam no World Trade Center em 11/09/2001 não tinham nenhum tipo de relacionamento direto com o Osama Bin Laden. Ele não as odiava, e por isto resolveu explodir o prédio.
Nem o prédio era o ponto mais interessante para atacar o modelo econômico americano, e as perdas, apesar de milionárias, não pararam com o capitalismo americano. As Torres Gêmeas eram um símbolo do capitalismo, como a Estátua da Liberdade também é um símbolo americano, de outra época e que simboliza outra coisa.

Mas o que simboliza a Maratona de Boston? Para mim esta é a pergunta mais complexa a ser respondida na explosão que aconteceu. Qual o sentido político, social, religioso, econômico que está embutido num evento geralmente associado a competição, esporte e saúde?

Por que este evento foi escolhido, dentre tantos outros, para ser objeto de um atentado?

Independentemente das explicações sobre quem fez o atentado (por sinal a história está muito mal explicada), a motivação me parece a grande incógnita.

Foram motivados apenas pelo fato de ser um agrupamento aleatório de pessoas? Pela vigilância reduzida? Pela cobertura jornalística mundial?
Honestamente acho simplório pensar nisto. Há mil outros eventos assim.
Guerras Simbólicas são guerras contra alvos que fazem algum sentido, que são antagônicos a princípios que regem um grupo, que têm crenças opostas e coisas do gênero.

Daí penso: E se realmente o simbolismo estiver no evento? No encontro de pessoas vibrando por entretenimento e saúde? Se a Guerra Simbólica tiver migrado de Objetos Físicos (templos, estátuas, prédios) e tiver passado para atacar Comportamentos? Atacar a Maratona enquanto Modelo de Vida, algo como se não fosse tão interessante explodir o prédio da Nike, e fosse mais importante explodir as pessoas que compraram a ideia que a Nike vende...

Sem querer ser profético, acho que o próximo atentado, se a lógica for esta, poderia ser numa Applestore ou na Disney. Tanto faz quem for faze-lo (o que sempre me parece estranho, como quando ativistas ocidentais pelos direitos dos animais atacavam os Mc Donalds ou em países não-democráticos baniam o consumo de Coca Cola).
De qualquer jeito o simbolismo continua, só que agora contra um jeito de levar a vida, focando nos seguidores, e não nos mentores deste sistema.

28.4.13

Sobre o Vídeo da Mulher sendo Decapitada no Facebook e os julgamentos

Uma das notícias mais comentadas nos grande portais nesta semana foi a divulgação no Facebook da decapitação de uma mulher no México. Parece que o vídeo continuou por um certo tempo no ar mesmo depois de muitos usuários terem denunciado como impróprio.

Para mim este vídeo suscita duas grande questões:

O Fascínio que temos pelo escabroso

Que a violência nos excita, em especial aos homens, todo mundo sabe. Mas há um apelo que o Nojo, o Desagradável, o Mórbido e o Repugnante nos traz. Existe inclusive um culto a isto, com nos filmes e games Gore americanos e japoneses. Quanto mais tripas, sangue e cabeças voando melhor. Tem a ver com o que chamamos de "curiosidade mórbida". O que gera repulsa curiosamente atrai. Se você digitar a palavra Gore no Google vai entender o que estou falando (e acho que existe uma grande chance de você querer fazer isto, é este o instinto a que me refiro).
Podemos criar uma série de justificativas para assistir ao filme, mas todas elas escondem uma curiosidade mórbida que movimenta os programas de noticiário e faz com que tentemos dar uma espiada no acidente que aconteceu no trânsito, gerando congestionamentos e ibope.

Só para lembrar, esta cultura vêm de longe, muito longe. No México podemos ver sobrepostas duas culturas que elevaram ao status de Culto a adoração mórbida: Os Maias e o Catolicismo. Sacrifícios Humanos são comuns por lá faz tempo, e quando os europeus trouxeram sua cultura apresentaram mais uma situação do gênero a ser cultuada.






A Violência no México gerou um Estado Paralelo Marcial

Para quem não sabe, a violência no México tem nome e sobrenome: Drogas para os Americanos. Milícias controlam com rigor e violência a região da fronteira e o domínio do tráfico. Há mais de uma década decatitações e outras formas violentas (e espetaculares, visando alertar e intimidar grupos rivais) acontecem, e nenhum governo consegue controlar.
Conversei com algumas pessoas que assistiram o vídeo no Facebook. Para quem assistiu o vídeo, chama a atenção o fato da mulher que está sendo morta não esboçar reação enquanto é brutalmente assassinada. Parece que ela aceita o fato. E este aceitar mostra claramente que a regra, por lá, é clara. Ela sabe o que fez e sabe por que está sendo submetida a isto. E isto, para mim, choca mais do que a parte sanguinolenta da história. Lembra um pouco outros casos no Oriente Médio, quando pessoas são apedrejadas em silêncio. Não apenas por constrangimento ou culpa, mas sim por saberem exatamente a regra, e quais as consequências de seu ato, por mais abominável que isto pareça para nós.
Questionarmos o Oriente Médio pelas suas atrocidades sem questionarmos as violências que acontecem na América decorrentes de uma demanda de droga para os americanos (e toda a complexidade do debate da discriminalização das drogas, etc) é no mínimo hipócrita de nossa parte.


25.4.13

Sempre existe um Ricardo III perto de nós. E é bom ficarmos atentos

Ricardo III é um personagem real da história inglesa, mas o personagem que Shakespeare criou a partir dele é um resumo de um tipo de gente que anda por este mundo afora.
(Se quiser saber mais da história, clique aqui)

Conhece alguém movido pelo rancor, pela inveja? Alguém que sabe que é menor, que é feio, que sua alma é feia, mas ao mesmo tempo é um profundo conhecedor do ser humano?

Este é o Ricardo III. Ele age nas sombras, não se mostra, sua ações aparentam bom senso e boa vontade, mas seus objetivos estão longe de querer bem o outro. Ele odeia o mundo que o desprezou, e odeia saber que é desprezível.

Este tipo de pessoa está em débito consigo mesma ( Já escrevi um post sobre Dívida Interna Pessoal). Ela transfere para o mundo sua mágoa, ela quer ver o circo pegar fogo, um pouco como Nero tocando lira e Roma em chamas.

Esta pessoa decide, num determinado momento, que não espera mais ser aceita por ninguém, que não fazem questão de serem amadas. Ela quer se vingar do mundo por não gostar de si mesma.

Uma vez Orlando Villas Boas me disse que na aldeia indígena existem dois personagens mágicos: O Feiticeiro e o Pagé (que é o filho do cacique e curandeiro da tribo).
O Feiticeiro é geralmente o homem mais feio da tribo. Na tradição, só as pessoas bonitas vão para o céu. A alma dos feios é comida pelos urubus quando tentam chegar no céu.

O Feiticeiro decide fazer seus feitiços e maldades pois sabe que não irá para o céu. É uma estratégia para que as pessoas o odeiem e queiram matá-lo, e assim ele se pinta todo para ficar belo e tentar ir para céu. Ele quer morrer, ele busca a morte.

Então, conhece algum Ricardo III? Eu infelizmente conheço vários, inteligentes, elegantes, ardilosos. Vez por outra deixamos uma pessoa assim entrar no nosso rol de amizades. E quando isto acontece, se prepare: O estrago vai ser grande.

14.4.13

Por que as mulheres fazem biquinho para tirar foto?

Já parou para pensar nisto? Raros são os homens que fazem biquinho para tirar foto, mas tem um monte de mulher que faz isto.
Pensemos no batom e no botox: Por que as mulheres não fazem preenchimento de... Orelha, por exemplo? Ou pintam suas Orelhas de uma maneira colorida e interessante? Qual a história com a boca?
Se você tem feito biquinho para tirar foto, minha cara fêmea, vale a pena lembrar que você está fazendo uma sinalização sexual, da mesma maneira que a fêmea primata entumesce sua vagina e fica mostrando para o macho. Sei que não é muito elegante ficar falando destas coisas para pessoas finas e requintadas, mas esta sinalização de entumescimento está totalmente associada a demonstrações sexuais das fêmeas.
Adoraria poder mapear o ciclo hormonal das fêmeas nas redes sociais e ver se há relação entre o período fértil e fotos com malabarismos bucais, mas como sou pesquisador cognitivo pobre, e programadores são bichos caros, acho que no momento vai ficar na suposição...
(Por sinal se você publicou fotos suas fazendo biquinho, mande comentários para validar ou não minha hipótese do período fértil, vou agradecer, mesmo se estiver errado.)
De qualquer jeito, é divertido pensar que toda mulher contemporânea ao fazer biquinho está fazendo a mesma coisa que uma chimpanzé peluda mostrando a bunda. Permite a gente pensar o ser humano de uma maneira diferente, menos distante das coisas básicas e primitivas.
PS - E só para lembrar, falando em nome dos primatas machos: Continuamos olhando atentamente biquinhos!

8.4.13

"A Gente é Gente Assim"

Quando ia para a academia vi o carrinho do milho ser colocado na caçamba da Guarda Civil Metropolitana. Sem licença, o dono nem reclamou.
Ao lado do carro da polícia uma fila enorme de pessoas uniformizadas, todas com malas grandes. Esperando um ônibus de turismo fretado. O motorista do ônibus estava pedindo informações para um dos guardas por sinal.
Fui conversar com os guardas: Por que o carrinho do milho foi apreendido?
Não tinha licença, disseram eles.

E o ônibus? Que está usando o espaço público de maneira irregular, como se fosse ponto? Os ônibus, gigantes, atrapalham muito mais a vida dos moradores aqui do centro do que o cara do milho.

Não é nossa responsabilidade, disse o guarda. É com a CET.

E vocês não podem fazer nada?

Não, mas se procurar a Polícia Militar ela pode acionar o CET e fazer sua queixa.

Fui até o trailer da PM, no meio da praça, 100 metros do local.

Perguntei para os policiais com quem devia falar. Eles disseram que o problema é com a Guarda Municipal que devia agir nestas situações.

Nas duas situações a sensação que passa é que você é um chato de galocha que está atrapalhando a vida deles. Um olhar de "lá vem mais um chato". Dureza.

No final do dia fui buscar minha filha no Ballet. Quando estava perto de deixa-la em casa um carro na minha frente atropela um ciclista. O ciclista levanta e reclama. Ao tirar a bicicleta da frente do carro o motorista acelera e vai embora. Vou atrás do cara e junto de outro carro fechamos o infrator e fazemos o cara voltar para socorrer o ciclista. Quando abre a janela era um senhor de mais de 75 anos de idade, com cara de "lá vem mais um chato". As netas, dentro do carro, entediadas com a situação. Conseguimos fazer o cara voltar e socorrer o ciclista.

Entro no carro. Minha filha me olha, fixamente.

"A gente é assim, filha. A gente é gente assim".

5.4.13

Bill Murray e a arte de não saber o que está acontecendo

Antes que alguém pergunte "O Bill Murray morreu?", é bom avisar que tenho minha própria linha do tempo, independente do Timeline do Facebook, quase todo orientado para o passado e uma digestão recente de acontecimentos. Não, o Bill Murray não morreu, pelo menos até o momento em que escrevo estas linhas.

Existem inúmeros estilos de cômicos, e Bill Murray faz parte de um estilo que têm poucos representantes, é uma coisa meio rara de aparecer. Ele faz de um estado de semi-dormência uma arte.

O que é este estado de semi-dormência?

Você já viu algum dos filmes "Se Beber não Case"? Os personagens tentam resolver situações que aconteceram no dia anterior depois de terem tomado um porre tão grande que não se lembram de nada. E daí vão procurar pistas do que pode ter acontecido na noite em que estavam totalmente bêbados.

Você já acordou numa situação estranha e ficou olhando e pensando "Onde eu estou? O que está acontecendo? Como vim parar aqui?"

Quando não distinguimos claramente o que está acontecendo é o que chamei de semi-dormência. E a consequência disto é um estranhamento da realidade que nos cerca.

Numa boa parte dos filmes que o Bill Murray atuou ele está nesta situação. O mundo está desabando e ele lá no meio.

Mas a genialidade e a graça estão justamente na maneira como ele se comporta nestas situações.
Se na série "Se Beber não Case" os personagens aparentam evidente constrangimento com o comportamento do dia anterior e estão preocupados em como reorganizar as suas vidas, seja encontrando algo ou alguém que desapareceu ou mesmo eliminando vestígios do que fizeram, os personagens (ou "o" personagem) de Bill Murray simplesmente continua a sua vida no meio do caos que está no seu entorno.
E você pensa: "Será que em algum momento ele vai acordar para a situação e perceber o que está acontecendo?" E ele curiosamente continua em seu sonambulismo existencial, seguindo um script mas não entendendo nada do que acontece.

É uma questão muito especifica, uma falta de noção do entorno que nos faz rir, e que Bill Murray transformou numa espécie de arte. Há algo de Buster Keaton nisto, e são poucos que sabem mostrar isto na tela. Talvez quem tenha melhor percebido issto foi Sophia Coppola (minha prima distante, acredite se quiser) com o filme Encontros e Desencontros (Lost in Translation).
Você imagina outro ator fazendo este filme?