Let´s Go!

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12.10.13

Seu Vizinho é o Mundo

Para quem mora em apartamento, nossa vizinhança é o Mundo.
Não quero dizer que nosso Mundo se restrinja aos vizinhos, mas o estranhamento ou a proximidade que podemos ter com os outros se reflete na relação que temos com as pessoas que moram próximas da gente.
Primeiro que vizinho a gente não escolhe, é um fato. Qualquer pessoa que tenha condições de alugar ou comprar um imóvel próximo do seu é seu vizinho. Podemos, ao decidir onde vamos morar, ter uma referência do estilo das pessoas que irão morar ao nosso lado. Mas não podemos decidir qual será a índole desta pessoa. Morar num prédio cheio de pessoas modernas e descoladas não significa ter boa companhia ao nosso redor. Existe gente moderna mau caráter, chata ou neurótica. Morar num bairro chique não significa que teremos vizinhos simpáticos. Simplesmente teremos gente ao nosso redor.
Dá para entender o pensamento do dono do Facebook quando compra as casas vizinhas à sua simplesmente para ter mais privacidade, quer sossego, não quer ninguém por perto. Não que eu concorde, já que a privacidade sempre encosta na solidão. Mas dá para entender. A maioria das pessoas de classe média que conheço almeja morar em condomínios fechados, onde o conforto é levar para dentro de casa um micro-cosmo da sociedade. Home Theatre para assistir sozinho seus filmes, piscina para escolher quem vai nadar com ele, tenta-se criar um mundo onde se tenha controle de quem estará ao seu lado. Mas sabemos que isto é impossível. Sempre vai ser necessário conversar com o entregador, dar bom-dia para o velho chato, cruzar no elevador com a mulher excessivamente perfumada...

Há que dialogar com o Mundo, somos animais sociais e vivemos em sociedade. Não descendemos dos rinocerontes, que vivem solitários. Somos um bando. E cada vez maior.

Viver em cidades grandes acaba trazendo esta reflexão à tona. A maioria das reclamações no grande Muro das Lamentações que é o Facebook derivam disto. É o trânsito, o trabalho, as filas. Os grandes vilões da existência são vilões sociais: Os momentos em que precisamos dar oi para os outros.

Curiosamente a maneira mais transformadora de mudar este cenário é aceitar o diálogo. Dar bom dia ajuda intensamente, pois você vai perceber que (nem todas) as pessoas também darão bom dia para você. Algumas surpresas, outras sorridentes, outras formais. Mas romper com o ciclo de alienação da existência permitirá uma experiência nova para quem ainda não pratica isto.

Você vai dar bom dia para alguém hoje? Que tal tentar?

9.10.13

O Brasil é um dos Manicômios da Europa?

Lendo "A História da Loucura na Idade Clássica", do Foucault, me veio este pensamento. De acordo com o autor, existe uma estrutura de segregação que foi sendo herdada no decorrer da história.
Com a preocupação com a Lepra no século XVI, são construídos os leprosários, para que fossem confinados os doentes, e evitar o contágio.
Com o declínio da doença na Europa, os Leprosários não tinham mais função, então começaram a internar os sifilíticos, para evitar que a doença se espalhasse. Mas num determinado momento a quantidade de sifilíticos também diminuiu, e não havia mais sentido em usar toda aquela estrutura para poucos doentes. Foi aí que surgiu a ideia de colocar dentro das estruturas os loucos.

O que é louco? Não pretendo esmiuçar o conceito fino do Foucault, mas louco é aquele que não se enquadra na normalidade. Assim, todas as pessoas que não eram consideradas "normais" pelos outros ou pelas autoridades passam a ser confinadas nos antigos Leprosários. E assim surge o Manicômio.

O autor cita muitos países que passam a confinar seus "loucos" na Europa, mas não cita Portugal. Curiosamente, na mesma época Portugal começa a enviar os "degredados" para sua colônia, o Brasil recém-descoberto. E o que são os "degredados"? As pessoas que não eram consideradas "normais" em Portugal.

Pensar que o Brasil começa sua história como um grande Manicômio faz a gente pensar, né?

8.10.13

Dia da Criança - Por um dia de luta pelas crianças

Acho graciosa a ideia viralizada das pessoas mudarem suas fotos de perfil no Facebook durante a semana da criança. Podemos ver crianças de várias épocas e estilos, e entender um pouco mais a alma e a formação de nossos amigos. Há uma delicadeza na atitude, e tudo que é delicado é bom.
Mas ver aqueles rostos de crianças no Face obviamente me fez pensar um pouco... E imediatamente me lembrei da quantidade de crianças em situações inadequadas para elas, vítimas de guerras, de drogas, da pobreza, da violência e do descaso das autoridades.

Pode parecer meio piegas ou muito óbvio, mas este tipo de situação nunca está tão longe da gente. Durante uma ação que desenvolvemos para um cliente na nossa agência fomos distribuir cobertores no dia mais frio do ano aqui em SP. Num determinado momento entramos dentro de uma ponte (como elas são ocas, o pessoal usa para construir verdadeiros condomínios lá dentro, neste moravam umas 30 pessoas pelo menos). Batendo papo com os moradores, começaram a aparecer as crianças, curiosas com as pessoas estranhas que estavam dentro da casa delas. Eram uma meia dúzia, de idades entre três e oito anos.



 
 

Uma das garotas que estava distribuindo cobertores com a gente reparou que o menorzinho estava sem sapato. Na verdade ele estava descalço, na noite mais fria do ano, andando num chão molhado que exalava um cheiro de urina e fezes. Aí ela disse para ele: "Vai colocar seu chinelo! Está muito frio". E ele disse: "Tia, eu não tenho chinelo".

Esta criança de três anos de idade que não tem chinelo mora a seis quadras da minha casa.
As crianças que são dependentes químicas de crack e cola moram a poucas quadras de minha casa, na Cracolândia.
As crianças que trabalham em olarias ou em carvoarias moram em outros estados, do lado do estado em que moro.
As crianças que trabalham colhendo e cortando  mandioca moram em estados colados aos estados do lado daquele onde moro.
As crianças-soldados carregando seus rifles e matando outras crianças moram no continente ao lado do continente em que moro.
As crianças que são vendidas por centavos moram num continente do lado do continente onde moro.

Depende de como enxergamos o mundo as coisas podem parecer mais próximas ou mais distantes. Eu, a cada dia mais, acho que os abusos contra crianças estão cada vez mais perto de nós, e que ao ignorarmos o fato, estamos sendo coniventes com a situação.

Nesse sentido, a brincadeira de trocar de fotos para "comemorar" a infância no FB me parece pouco relevante, esvaziada de sentido. Como adulto que sou, cabe a mim de alguma maneira intervir. E, se for para colocar uma foto em meu perfil, vai ser de uma destas crianças que estão próximas de mim.

6.10.13

Por que Amarildo foi torturado e morto?

Se nos Estados Unidos a "guerra ao terror" justifica abusos contra os direitos humanos básicos, no Brasil, a "guerra ao tráfico"  é a desculpa da vez.
Pelo que se sabe de Amarildo, não parece que ele fosse um santo (Só para lembrar, nem você nem eu somos santos). E que ele tinha algum vínculo com o tráfico na comunidade onde morava, ou fazia parte dele. Ainda não está claro o envolvimento.
Como o país estava mobilizado pelas manifestações, o grau de tolerância de vários segmentos da sociedade estava muito baixo em relação a abusos, e o desaparecimento de Amarildo caiu na boca do povo, o fato acabou se tornando um ícone da conduta violenta da polícia.
A frase "Onde está Amarildo", vista em centenas de situações, poderia muito bem ter acontecido na época da ditadura, quando pessoas desapareciam sem deixar rastros. Até hoje, depois de quarenta anos, algumas não foram encontradas.

Mas a grande questão é sobre a tortura e morte realizada por órgãos oficiais. Esta é a questão. É o Estado sendo conivente com agentes da sociedade, que são pagos para agirem em benefício de todos, realizando torturas e mortes em paralelo com outras leis, que ao que parecem, são de menor relevância social, como ter direito a se defender e ser julgado por um tribunal. A própria pena de morte não existe no papel no Brasil, mas existe na prática.

Para que tenhamos um paralelo entre a conduta do Estado e da Sociedade, imagine uma situação onde você têm uma empresa, e um dos gerentes descobre que um grupo de funcionários estava desviando dinheiro. O gerente chama outros gerentes e eles combinam uma reunião com os funcionários no final do dia, isolam o grupo do contato com outras pessoas e passam a noite torturando o grupo até descobrirem o que estava acontecendo.
No meio da tortura, um dos funcionários não aguenta os maus tratos e morre. O grupo de gerentes passa então a criar uma série de evidências para tentar provar que ele não morreu sendo torturado por eles, mas sim que os outros funcionários o mataram, para que ele não denunciasse o esquema.

Dentro do contexto corporativo a história se torna dura, pesada, parece um filme de suspense, cheio de chantagens e terror psicológico. Mas dentro do contexto social do Brasil se torna mais um caso de "abuso de autoridades", mais uma estatística, parece não ter importância. Afinal de contas, "se Amarildo se meteu com traficantes sabia o que podia acontecer com ele".

Mas como não se meter com traficantes se eles são (ou eram) os líderes da comunidade onde você vive, a mesma comunidade que foi isolada e abandonada durante décadas pelo governo? Que botava todos os excluídos no mesmo pacote, e ignorava o que acontecia por lá, ou era cúmplice de algumas situações? Quem não está envolvido, direta ou indiretamente, com o poder estabelecido?

Há inúmeras evidências de que a violência é um processo contagioso: quanto mais violentos somos, mais violentos nos tornamos. "Transmitimos" violência, fazendo com que os outros se tornem violentos também. A tortura é uma forma de violência inaceitável, mas achamos razoável em estados de exceção, como nos morros ou na guerra ao terror.

Evidentemente Amarildo está morto, e o Estado não vai deixar de torturar pessoas. Vai procurar dois ou três bodes expiatórios e entregar para satisfazer a vontade de justiça. Mas a tortura não vai acabar. Infelizmente, pois hoje no governo temos um monte de pessoas que sofreram com a violência no passado, mas não se solidarizam com aqueles que são torturados hoje...

2.10.13

Que tal passar um dia sem reclamar?

Será que você consegue? Passar um dia sem reclamar? Só um dia?

Reclamar é um hábito, assim como fumar, roer as unhas e escovar os dentes.
A primeira vez que percebi o poder da reclamação foi quando ainda morava na casa de minha mãe, estava na faculdade e em um novo emprego. E, óbvio, ainda tinha tempo de sair com a namorada, ler, ir ao cinema, fazer teatro, exposições e um monte de coisas. Sempre fui de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
Chegava em casa cansado da faculdade, do trabalho, tomava um banho e ia me divertir. E minha mãe ficava olhando meio torto para mim.

"Como foi o seu dia", ela perguntava.
"Ótimo, mãe!" E saía para curtir a vida.
E minha mãe me olhando esquisito.

Um dia tive uma ideia. Quando cheguei em casa, minha mãe novamente me perguntou como tinha sido o meu dia. E eu respondi:

" Uma droga, mãe. Estou acabado. Além de trabalhar por mim e por outros colegas incompetentes, meu chefe agora está pegando no meu pé. Resolveu encanar e tudo ele acha ruim. E na faculdade o pessoal não leva nada a sério, nem o professor quer dar aula, fica batendo papo com aluno e eu fico sem saber o que fazer. Um dia bem difícil..."

Na mesma hora minha mãe foi até a cozinha e começou a fazer um lanche para mim. Me deu atenção, queria saber mais, ficou preocupada... Em suma, descobri que reclamar era mais negócio que não reclamar!

Na verdade não descobri isto naquela hora, a gente descobre quando nasce,  quando entende que é reclamando que a gente ganha as coisas: Leite, Atenção, Carinho e Afeto.

Mas o processo de amadurecimento envolve aprender a conviver com as frustrações. Não é fácil, ninguém está preparado para se frustrar, mas é uma das certezas da vida: Sempre nos frustraremos, nunca a vida vai ser como imaginamos ou queremos. Nunca. E se não aceitarmos a frustração ficaremos a vida toda incomodados pelo fato do mundo não ser como a gente acha que deveria ser.

Como eu disse, reclamar é um hábito. Serve, de alguma maneira, para compensarmos nossas frustrações. Não consegui o que queria? Se eu reclamar talvez alguém me dê um prêmio de consolação, ou seja, atenção e conforto.
O risco é de contágio: Cada vez que eu reclamo abro a possibilidade do outro reclamar também, afinal, ele também quer seu prêmio de consolação, quer atenção. E a reclamação se torna uma competição: Quem reclamar mais ganha mais.
Abra sua rede social hoje, veja sua linha do tempo e repare como, sem perceber, as pessoas reclamam o tempo inteiro. Todas querendo atenção e conforto por não saberem lidar com suas próprias frustrações.

Faça um bem para a sociedade: Passe um dia sem reclamar. Tente, pelo menos. Não é fácil, estamos viciados nisto. Mas se reclamarmos o tempo todo, vamos acabar acreditando no que falamos, e um hora realmente vamos achar que tudo é uma droga, que nada funciona, que as pessoas são um saco, que o dia está horrível. De tanto reclamar, bobeou sua vida vai se transformar nos seus próprios resmungos. E isto não vai ser nada bom.

31.8.13

Mortos na prisão os assassinos cruéis do garoto boliviano de 5 anos

Uma mistura letal de cocaína, viagra, água sanitária e outras coisas matou dois dos assassinos do garoto boliviano. Esta é a técbica de execução usada por facções criminosas nas cadeias. Como o laudo é Overdose, ele acaba não recaindo sobre nenhuma pessoa. Um recurso inteligente dos grupos presos para se livrar de outros criminosos sem ter de responder criminalmente por mais um assassinato.

Os dois, com idades entre 18 e 20 anos, foram forçados a beber a mistura mortal durante o banho de sol. Foram encontrados já mortos.

As facções criminosas dominam as instituições carcerárias há muito tempo, e têm seu código de ética próprio. Matar crianças e mulheres não pode. Trair a facção também não.

De acordo com as notícias da época, o garoto Brayan implorou para não morrer, pediu que não o matassem. Entregou todas as suas moedas para os bandidos, que, sem piedade e de maneira brutal, atiraram na criança.

Os pais, pobres imigrantes ilegais, tinham vindo faz seis meses para o Brasil trabalhar nas confecções do Bom Retiro para juntar dinheiro. Desistiram. Voltaram para seu país para enterrar o filho.

Estes assassinos cruéis foram assassinados de maneira também cruel. A maioria das pessoas que conheço se deixa reagir pela lei de Talião: Olho por Olho, Dente por Dente. Fizeram o Mal? Mal para eles. Mereceram cada momento dentro de uma prisão suja e superlotada. Foram cruéis com uma criança indefesa? Morram da mesma maneira.

E você? O que pensa disto?

23.8.13

Sobre a Exclusão

Há um fundo essencial na Exclusão. Queremos ou não que alguém participe do nosso mundo, da nossa companhia, do nosso espaço?
Por um lado isto poderia ser definido como livre-arbítrio. Afinal de contas, eu não preciso conviver com alguém que não tenha nada a ver comigo ou que me desagrade. Quero apenas viver a minha vida e quero conviver com os meus, com aqueles que gosto e que tenho afinidade.
Claro que é uma postura individualista, a grande maioria das pessoas hoje vive assim.
Mas a exclusão têm várias nuances. Pode ir desde uma postura de apatia perante o outro, aquele que me é estranho, até um genocídio de um determinado grupo. Afinal de contas, a exclusão absoluta é privar de viver aquele que não quero por perto.

O bullying, que tanto vemos nas escolas, nada mais é que a reprodução do sistema de exclusão de dos valores impressos nos adultos com quem as crianças e os jovens convivem. A classe média se auto-excluiu do convívio social, vivendo em pequenas redomas, sem ter de andar pelas ruas e ver os excluídos dos valores que ela prega e exercita.
Para quem quer entender o ponto de vista da classe média semi-abastada, há um belo texto do Contardo Calligaris circulando nas redes sociais, basta clicar aqui para entender como a Inveja é uma mola propulsora da exclusão.

Pensei bastante sobre o assunto  ao ler o livro Holocausto Brasileiro, da Daniela Arbex, sobre o manicômio de Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. dentro de seus muros milhares de pessoas passaram por privações e torturas semelhantes aos dos campos de concentração nazistas. Com a justificativa de que seriam "loucas" (portanto não humanas), todo tipo de gente foi mandado para lá, mas todas tinham um ponto em comum: Sua família, seus pares, seu contexto social as consideravam inadequadas para a convivência dentro daquele grupo ou "estranhas". Jogavam estas pessoas dentro dos muros do Colônia e esqueciam. Apesar do tom meio piegas do livro, a reportagem é poderosa e comovente do quanto conseguimos desumanizar as relações quando excluímos alguém.

Esta semana o governo da Síria lançou armas químicas contra a população, e centenas ou milhares de pessoas morreram. As fotos de fileiras de crianças mortas pelo governo está aí para quem quer ver. Tive a oportunidade de ver um vídeo (infelizmente) da AFP com crianças agonizando enquanto médicos tentam salva-las mas não tenho coragem de postar o link, é muito triste e perturbador.

O que é necessário entender é que a Exclusão, radical ou não, gera consequências graves naqueles que são excluídos. E que precisamos estar muito atentos ao nosso comportamento, já que muitas vezes excluímos sem nos darmos conta que estamos fazendo isto.

Não deveria ser possível negar o outro. Mas é possível destrui-lo. E é o que fazemos todos os dias com aqueles que são estranhos a nós.

11.8.13

Não julgue um livro pela capa

O título deste post pode ser um bom ditado (que são, por sinal, frases genéricas que podem ser aplicadas em qualquer contexto, justamente por isto as usamos), mas alguns livros realmente devem ser julgados pela capa. Vamos ver esta seleção que preparei para hoje:


Para mim uma novidade, não sabia desta teoria que os Ovos de Páscoa na verdade são os Ovos de Satã. Um alerta de bom gosto e levemente radical sobre as origens pagãs da Páscoa. Deve ser uma chatice sem fim este livro, a capa até que é legal.

Pornografia e Origami! Yeah! Deve ser dedicado a jovens otakus. Há algo de genial no livro, pois a partir do momento em que se aplica o conceito Pornografia, qualquer coisa fica surpreendentemente erótica, até um chinelo pode ser estimulante com este rótulo.

Um dos meus prediletos! Um livro de colorir com temas do violento e sexista Gangsta Rap. Imagens de armas, tatuagens violentas, mulher pelada, tudo para seu filho de 4 anos colorir enquanto o papai assalta um banco. Será que o MEC vai escolher para distribuir nas escolas públicas? Afinal, faz parte da cultura da periferia, blablablabla...

O melhor da seleção. The Rifleman. Mostra claramente o orgulho do pequeno garoto ao segurar a tora, cuidadosamente colocada em frente ao caubói. O olhar de cumplicidade entre os dois merecia um Pulitzer.

4.8.13

Empatia é um sentimento importante, mas é muito duro de sentir

Três situações muito desconectadas me fizeram refletir um pouco sobre a empatia. Do ponto de vista neurológico um fenômeno aparentemente regido pelos neurônios-espelho, mas que precisam de muito estímulo para construírem as redes neurais e referências. Só assim a memória poderá utilizar este recurso, que é tentar se colocar no lugar do outro.
É da empatia que saem o altruísmo, o aprendizado, a generosidade, o riso, a felicidade. Não é pouca coisa, nem de pouca relevância. São coisas fundamentais e que almejamos, pelo menos boa parte da humanidade, em nosso cotidiano.
Lembro do Kevin Carter, fotógrafo premiado de guerra, que registrou misérias pelo mundo afora, mas ficou conhecido pelas fotografias na África.
Lembro da parte final (e ficcional) de A Lista de Schindler, quando Oskar Schindler têm um sentimento de profunda tristeza quando pensa que poderia ter salvado mais judeus, que poderia ter tentado conseguir mais dinheiro.
Observo o estranho comportamento dos babuínos num Zoológico da Holanda que, de tempos em tempos, ficam em um estado de apatia,  paralisados, sem comer, sem fazer nada. E mesmo com todos os tratamentos possíveis não se sabe como resolver ( solta-los na África não é uma solução, querido ecochato. O pessoal vai comer os bichos, e a maioria vai morrer. Não há um ambiente adequado, intocado pelas mãos dos homens. O conceito de Santuário de Animais é uma derivação do Paraíso Cristão, e se bem lembram, Adão e Eva já comeram o fruto proibido, não dá para voltar atrás.)

E aí, quando vou na feira, comprar verdura, olho bem nos olhos das pessoas e vejo um mundo de pessoas cansadas, tristes, tensas, meio destruídas pela vida. Como os babuínos.

Kevin Carter se matou de depressão, ao ter registrado tantas mazelas e sofrimentos, não aguentou. Oskar Schindler (o ficcional) percebe que o mundo é grande demais para o cobertor que ele pode dar, e sofre por ajudar, ao invés de se sentir um herói.
Ao observar os babuínos percebemos que nossa capacidade de tentar manter a vida e o ecossistema é restrita, e que muito do que vemos hoje de fauna e flora não estará mais presente no planeta para a próxima geração.

Empatia aparentemente é algo que devemos valorizar, mas ela é um fardo terrível. Quem se preocupa com os rostos desolados ao andar pelo mundo sabe do que eu estou dizendo.

26.7.13

Um dia todos os Zoológicos serão assim?














Fiquei impressionado com uma série de fotografias de um Zoológico na Índia: Como a poluição naquela região é absurdamente alta, toda a vida selvagem desapareceu. Florestas com árvores centenárias foram consumidas nas usinas de carvão, e as condições são tão precárias que os animais não conseguem respirar.
O que a companhia de energia fez? Criou um Zoológico cheio de estátuas. Não há nenhum animal vivo lá dentro, apenas as imagens dos animais que existiam no local (e outros bizarros, como dinossauros).

"O zoológico é um lembrete sombrio do relacionamento que agora existe entre o homem e a natureza", diz Tanvi Mishra, o fotógrafo que retratou o local.

Acho que deve ter muito eco-chato que é contra os Zoológicos que vai dizer: Que bom, é isto mesmo, animais não devem ficar em Zoológicos. Vamos libertar os bichinhos e correr na relva em câmera lenta enquanto toca uma música da Enya ao fundo.

Mas a pergunta que fica ao lermos notícias como esta é: Libertar onde? Se o ambiente de determinados animais está tão degradado que não possibilita a reinserção, o que fazer? Matar todos os Pandas? Porque não tem espaço mais na natureza para libertar os Pandas, fazer o quê?

Vamos deixar que estes animais desapareçam?

O grande problema que os Zoológicos gerenciam é que eles têm de cuidar de um problema que apareceu antes deles, e eles não são culpados disto. Eles fazem parte do processo de preservação de espécies, mas a parte que em alguns momentos não gostamos de lembrar. Já destruímos boa parte do planeta, e agora temos de lidar com o fato de que a sobrevivência de algumas espécies depende de manejo intensivo e reprodução em cativeiro. Este Zoológico na Índia faz a gente pensar bastante...

Falo isto como patrocinador e diretor da agência que cuida da comunicação da SZB - Sociedade dos Zoológicos e Aquários do Brasil, e que têm um desafio enorme de estabelecer padrões importantes na manutenção dos animais num mundo cheio de problemas. Posso dizer que não é uma tarefa fácil a da SZB. Mas a briga que ela comprou é digna, e vamos continuar a sustentar este grande desafio.


21.7.13

Procrastinar - Talvez o comportamento mais perigoso que você pode ter

Procrastinar significa adiar, deixar para depois. Criar uma justificativa mental para não realizar o que precisa ou deseja hoje e deixar para amanhã.

O grande problema por trás deste comportamento não é só adiar algo que se deseja fazer (precisamos fazer), mas sim ficar com a falsa sensação de que um dia iremos realizar aquilo. Afinal de contas, se temos uma boa justificativa hoje para adiar, com certeza amanhã inventaremos outra!

Óbvio que todos fazemos isto, inventamos as desculpas mais incríveis para evitarmos ter de tomar uma atitude ou realizar algo.

Repare na lista de justificativas a seguir:

- Não tenho tempo
- Não é tão fácil como parece
- Nunca aprendi a fazer isto
- Meus pais não me estimularam
- Minha vida é difícil
- Tenho de trabalhar
- Tenho de ganhar dinheiro

Deve ter mais de cem outras frases que cabem aqui. Mas agora olhe com atenção para elas. Reparou?

Elas servem para qualquer um, todo mundo tem pouco tempo, têm dificuldades com coisas novas, não foi devidamente estimulado, e por aí vai...

Tenho sido pouco tolerante com pessoas que falam estas frases para mim. O que me faz ser mais paciente com quem fala isto é uma frase do Lincoln: "Aprendi a tolerar os medíocres; afinal Deus deve amá-los, porque fez vários deles".

Muita insensibilidade da minha parte? Acho que não, só me entristece ver gente que têm potenciais incríveis e fica enrolando, ao invés de expandir suas possibilidades, e viver achando que no dia seguinte alguma mágica irá mudar sua postura perante o mundo...


Se você realmente acha que é melhor deixar para depois e ficar enrolando, abaixo postei um vídeo que tem 24h de duração com um gatinho colorido voando (Nyan Cat, para os conhecedores).
Bom vídeo!

13.7.13

Danos Colaterais - Quando os modelos teóricos enterram a realidade

Quinta-feira à tarde a Meire começou a passar mal. Seu marido não sabia o que fazer, nunca tinha visto a mulher ficar daquela maneira. Apesar das restrições da cadeira de rodas, Meire sempre foi forte, teve de aprender a ser assim num ambiente inóspito e difícil.
A cem metros de onde estavam Meire e seu marido tinha uma unidade da Guarda Metropolitana de São Paulo. O marido e amigos correram para pedir ajuda, mas a GCM disse que não era o papel dela socorrer pessoas, que eles deveriam procurar ajuda especializada. O marido de Meire foi de novo pedir socorro, ninguém da GCM se moveu, mesmo a cem metros de distância e com uma viatura que poderia transportar Meire para o hospital. Não era responsabilidade deles.
O estado de Meire era preocupante, ela só piorava. Seu marido ligou duas vezes para o Samu, mas ninguém apareceu. Só vieram na sexta-feira, quando constataram que Meire estava morta, ao lado do marido, desconsolado.

Meire era moradora de rua. Viveu os últimos dez anos na Praça da Sé, local de manifestações e cultos, o Marco Zero de São Paulo. Ninguém socorreu a Meire, nenhuma das milhares de pessoas que passam na praça. Ninguém. Apesar das ONGs protestarem na mídia, nem elas levaram a Meire para um hospital.

Ontem eu conheci o Renan. Um garoto bonito e simpático, de uns 14 anos, que me ajudou a embalar as compras de supermercado. Mora na frente do supermercado há dois anos, quer trabalhar mas não tem nenhum documento, certidão de nascimento, nada. O Renan não existe nem para o governo nem para a sociedade. O Renan é uma sombra.
Pedi ajuda para um amigo que conhece mais os trâmites de moradores de rua e pessoas em situação de risco, e ele me passou um endereço que o Renan deveria ir, talvez alguém pudesse ajudar. Perguntei se não seria bom que eu fosse junto do Renan, e ele me disse que valia a pena deixar o Renan ir sozinho, para ele treinar o seu protagonismo, ver se ele realmente tinha vontade de sair desta vida. De acordo com meu amigo, eu ir junto do Renan seria uma espécie de paternalismo de minha parte, o Renan precisava exercitar sua cidadania, ou algo do gênero.

Ano passado conheci o Maurício. O que mais me impressionou foi que ele pedia ajuda, e dizia: "Ajudem o Maurício, por favor alguém ajuda o Maurício". Quem estava precisando de ajuda não era "alguém", um morador de rua, ou um dependente químico. Era o Maurício.

Na volta fui falar com ele, me apresentei e comecei a conversar chamando-o pelo nome.
"Você lembrou do meu nome, lembrou do Maurício", foi a primeira coisa que ele me disse.

Qualquer modelo teórico enterra a realidade. Qualquer definição de papel social orientada por um uniforme ou um crachá enterra a humanidade das relações. Ao definirmos papéis sociais muito estratificados e segmentados perdemos boa parte da beleza complexa de nossa existência.

Eu, ingenuamente, quando ouvi o grito das manifestações falando "Vem Pra Rua" tinha imaginado que finalmente as ruas seriam, de alguma maneira, repovoadas por aquele grupo de pessoas que sumiu das ruas. Não imaginei que fossem só desfiles alegóricos e conflitos entre uniformes e crachás, temporariamente circulando pelas ruas. Achei que haveria algum tipo de diálogo, alguém estaria disposto a ouvir as ruas, e não apenas ocupar a rua para poder gritar.

Se depender da sociedade como um todo, qualquer grito que venha da rua não será ouvido. Já estamos acostumados a ouvir o grito da rua, alto, forte, lamurioso. Estamos tão acostumados que já não prestamos mais atenção, fica apenas o ruído ecoando enquanto estamos fazendo outra coisa.

PS - O título deste artigo faz referência ao livro que estou lendo do Zygmunt Bauman "Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global".

10.7.13

O Melhor Oftalmologista do Mundo

Um dos meus colegas de mestrado é um famoso oftalmologista em sua cidade. Todos querem se consultar com ele. Ele é um especialista no Cortex Visual, que processa as informações que os olhos captam.
Existem inúmeros tipos de cegueira. Você pode não enxergar por problemas na "captação" da imagem, ou seja, problema nos olhos. Mas você pode não enxergar por causa do sistema que "lê"  e organiza as imagens, que fica no Cortex Visual. Existem cegueiras por trauma, e são mais comuns do que imaginamos. Uma pessoa presencia algo tão inesperado e chocante que a mente bloqueia a visão, e ele pode deixar de enxergar durante muito tempo por causa disto.

Meu colega contou que a sua fama veio do fato de ser oftalmologista do exército, ele fazia perícias e laudos, para comprovar se alguém era ou não cego. É muito difícil descobrir se alguém é cego, afinal de contas, como podemos provar?

Uma das coisas que ele faz é checar a atividade cerebral do Cortex Visual. Existem máquinas para isto. Se você gera estímulos visuais e a pessoa está processando os dados recebidos, muito provavelmente ela está enxergando. A não ser que seja cegueira por trauma, que é possível de identificar por consulta com um psicólogo.

Como alguns acidentes acontecem no exército, e os soldados "alegam" cegueira depois de, por exemplo, terem os olhos inundados por óleo de motor, o soldado é mandado para uma consulta no oftalmologista. E geralmente o soldado vai, tristonho, acompanhado de familiares, ao consultório do meu colega.

Quando meu colega detectava que o soldado, na verdade, estava tentando uma aposentadoria precoce ou se livrar do alistamento militar, ele pedia para os familiares saírem e abria o jogo:

- Meu amigo, parece que você está enxergando, e diz para os outros que não enxerga. Eu vou escrever um laudo falando sobre isto, e provavelmente vai te trazer problemas... O que podemos fazer nesta situação?

O sujeito pensava, pensava, e a única solução era tomada...

O cara começava a gritar, eufórico. A família, assustada, entrava correndo no consultório. Dentro, o soldado, chorando, agradecia o meu colega.

- O senhor é milagroso! Voltei a enxergar! Estou enxergando tudo!!

A família abraçava, chorava, mandava bolo depois, aquela festa.

É uma maneira curiosa de fazer reputação, mas meu colega pelo menos se diverte com isto...