Let´s Go!

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28.4.13

Sobre o Vídeo da Mulher sendo Decapitada no Facebook e os julgamentos

Uma das notícias mais comentadas nos grande portais nesta semana foi a divulgação no Facebook da decapitação de uma mulher no México. Parece que o vídeo continuou por um certo tempo no ar mesmo depois de muitos usuários terem denunciado como impróprio.

Para mim este vídeo suscita duas grande questões:

O Fascínio que temos pelo escabroso

Que a violência nos excita, em especial aos homens, todo mundo sabe. Mas há um apelo que o Nojo, o Desagradável, o Mórbido e o Repugnante nos traz. Existe inclusive um culto a isto, com nos filmes e games Gore americanos e japoneses. Quanto mais tripas, sangue e cabeças voando melhor. Tem a ver com o que chamamos de "curiosidade mórbida". O que gera repulsa curiosamente atrai. Se você digitar a palavra Gore no Google vai entender o que estou falando (e acho que existe uma grande chance de você querer fazer isto, é este o instinto a que me refiro).
Podemos criar uma série de justificativas para assistir ao filme, mas todas elas escondem uma curiosidade mórbida que movimenta os programas de noticiário e faz com que tentemos dar uma espiada no acidente que aconteceu no trânsito, gerando congestionamentos e ibope.

Só para lembrar, esta cultura vêm de longe, muito longe. No México podemos ver sobrepostas duas culturas que elevaram ao status de Culto a adoração mórbida: Os Maias e o Catolicismo. Sacrifícios Humanos são comuns por lá faz tempo, e quando os europeus trouxeram sua cultura apresentaram mais uma situação do gênero a ser cultuada.






A Violência no México gerou um Estado Paralelo Marcial

Para quem não sabe, a violência no México tem nome e sobrenome: Drogas para os Americanos. Milícias controlam com rigor e violência a região da fronteira e o domínio do tráfico. Há mais de uma década decatitações e outras formas violentas (e espetaculares, visando alertar e intimidar grupos rivais) acontecem, e nenhum governo consegue controlar.
Conversei com algumas pessoas que assistiram o vídeo no Facebook. Para quem assistiu o vídeo, chama a atenção o fato da mulher que está sendo morta não esboçar reação enquanto é brutalmente assassinada. Parece que ela aceita o fato. E este aceitar mostra claramente que a regra, por lá, é clara. Ela sabe o que fez e sabe por que está sendo submetida a isto. E isto, para mim, choca mais do que a parte sanguinolenta da história. Lembra um pouco outros casos no Oriente Médio, quando pessoas são apedrejadas em silêncio. Não apenas por constrangimento ou culpa, mas sim por saberem exatamente a regra, e quais as consequências de seu ato, por mais abominável que isto pareça para nós.
Questionarmos o Oriente Médio pelas suas atrocidades sem questionarmos as violências que acontecem na América decorrentes de uma demanda de droga para os americanos (e toda a complexidade do debate da discriminalização das drogas, etc) é no mínimo hipócrita de nossa parte.


25.4.13

Sempre existe um Ricardo III perto de nós. E é bom ficarmos atentos

Ricardo III é um personagem real da história inglesa, mas o personagem que Shakespeare criou a partir dele é um resumo de um tipo de gente que anda por este mundo afora.
(Se quiser saber mais da história, clique aqui)

Conhece alguém movido pelo rancor, pela inveja? Alguém que sabe que é menor, que é feio, que sua alma é feia, mas ao mesmo tempo é um profundo conhecedor do ser humano?

Este é o Ricardo III. Ele age nas sombras, não se mostra, sua ações aparentam bom senso e boa vontade, mas seus objetivos estão longe de querer bem o outro. Ele odeia o mundo que o desprezou, e odeia saber que é desprezível.

Este tipo de pessoa está em débito consigo mesma ( Já escrevi um post sobre Dívida Interna Pessoal). Ela transfere para o mundo sua mágoa, ela quer ver o circo pegar fogo, um pouco como Nero tocando lira e Roma em chamas.

Esta pessoa decide, num determinado momento, que não espera mais ser aceita por ninguém, que não fazem questão de serem amadas. Ela quer se vingar do mundo por não gostar de si mesma.

Uma vez Orlando Villas Boas me disse que na aldeia indígena existem dois personagens mágicos: O Feiticeiro e o Pagé (que é o filho do cacique e curandeiro da tribo).
O Feiticeiro é geralmente o homem mais feio da tribo. Na tradição, só as pessoas bonitas vão para o céu. A alma dos feios é comida pelos urubus quando tentam chegar no céu.

O Feiticeiro decide fazer seus feitiços e maldades pois sabe que não irá para o céu. É uma estratégia para que as pessoas o odeiem e queiram matá-lo, e assim ele se pinta todo para ficar belo e tentar ir para céu. Ele quer morrer, ele busca a morte.

Então, conhece algum Ricardo III? Eu infelizmente conheço vários, inteligentes, elegantes, ardilosos. Vez por outra deixamos uma pessoa assim entrar no nosso rol de amizades. E quando isto acontece, se prepare: O estrago vai ser grande.

14.4.13

Por que as mulheres fazem biquinho para tirar foto?

Já parou para pensar nisto? Raros são os homens que fazem biquinho para tirar foto, mas tem um monte de mulher que faz isto.
Pensemos no batom e no botox: Por que as mulheres não fazem preenchimento de... Orelha, por exemplo? Ou pintam suas Orelhas de uma maneira colorida e interessante? Qual a história com a boca?
Se você tem feito biquinho para tirar foto, minha cara fêmea, vale a pena lembrar que você está fazendo uma sinalização sexual, da mesma maneira que a fêmea primata entumesce sua vagina e fica mostrando para o macho. Sei que não é muito elegante ficar falando destas coisas para pessoas finas e requintadas, mas esta sinalização de entumescimento está totalmente associada a demonstrações sexuais das fêmeas.
Adoraria poder mapear o ciclo hormonal das fêmeas nas redes sociais e ver se há relação entre o período fértil e fotos com malabarismos bucais, mas como sou pesquisador cognitivo pobre, e programadores são bichos caros, acho que no momento vai ficar na suposição...
(Por sinal se você publicou fotos suas fazendo biquinho, mande comentários para validar ou não minha hipótese do período fértil, vou agradecer, mesmo se estiver errado.)
De qualquer jeito, é divertido pensar que toda mulher contemporânea ao fazer biquinho está fazendo a mesma coisa que uma chimpanzé peluda mostrando a bunda. Permite a gente pensar o ser humano de uma maneira diferente, menos distante das coisas básicas e primitivas.
PS - E só para lembrar, falando em nome dos primatas machos: Continuamos olhando atentamente biquinhos!

8.4.13

"A Gente é Gente Assim"

Quando ia para a academia vi o carrinho do milho ser colocado na caçamba da Guarda Civil Metropolitana. Sem licença, o dono nem reclamou.
Ao lado do carro da polícia uma fila enorme de pessoas uniformizadas, todas com malas grandes. Esperando um ônibus de turismo fretado. O motorista do ônibus estava pedindo informações para um dos guardas por sinal.
Fui conversar com os guardas: Por que o carrinho do milho foi apreendido?
Não tinha licença, disseram eles.

E o ônibus? Que está usando o espaço público de maneira irregular, como se fosse ponto? Os ônibus, gigantes, atrapalham muito mais a vida dos moradores aqui do centro do que o cara do milho.

Não é nossa responsabilidade, disse o guarda. É com a CET.

E vocês não podem fazer nada?

Não, mas se procurar a Polícia Militar ela pode acionar o CET e fazer sua queixa.

Fui até o trailer da PM, no meio da praça, 100 metros do local.

Perguntei para os policiais com quem devia falar. Eles disseram que o problema é com a Guarda Municipal que devia agir nestas situações.

Nas duas situações a sensação que passa é que você é um chato de galocha que está atrapalhando a vida deles. Um olhar de "lá vem mais um chato". Dureza.

No final do dia fui buscar minha filha no Ballet. Quando estava perto de deixa-la em casa um carro na minha frente atropela um ciclista. O ciclista levanta e reclama. Ao tirar a bicicleta da frente do carro o motorista acelera e vai embora. Vou atrás do cara e junto de outro carro fechamos o infrator e fazemos o cara voltar para socorrer o ciclista. Quando abre a janela era um senhor de mais de 75 anos de idade, com cara de "lá vem mais um chato". As netas, dentro do carro, entediadas com a situação. Conseguimos fazer o cara voltar e socorrer o ciclista.

Entro no carro. Minha filha me olha, fixamente.

"A gente é assim, filha. A gente é gente assim".

5.4.13

Bill Murray e a arte de não saber o que está acontecendo

Antes que alguém pergunte "O Bill Murray morreu?", é bom avisar que tenho minha própria linha do tempo, independente do Timeline do Facebook, quase todo orientado para o passado e uma digestão recente de acontecimentos. Não, o Bill Murray não morreu, pelo menos até o momento em que escrevo estas linhas.

Existem inúmeros estilos de cômicos, e Bill Murray faz parte de um estilo que têm poucos representantes, é uma coisa meio rara de aparecer. Ele faz de um estado de semi-dormência uma arte.

O que é este estado de semi-dormência?

Você já viu algum dos filmes "Se Beber não Case"? Os personagens tentam resolver situações que aconteceram no dia anterior depois de terem tomado um porre tão grande que não se lembram de nada. E daí vão procurar pistas do que pode ter acontecido na noite em que estavam totalmente bêbados.

Você já acordou numa situação estranha e ficou olhando e pensando "Onde eu estou? O que está acontecendo? Como vim parar aqui?"

Quando não distinguimos claramente o que está acontecendo é o que chamei de semi-dormência. E a consequência disto é um estranhamento da realidade que nos cerca.

Numa boa parte dos filmes que o Bill Murray atuou ele está nesta situação. O mundo está desabando e ele lá no meio.

Mas a genialidade e a graça estão justamente na maneira como ele se comporta nestas situações.
Se na série "Se Beber não Case" os personagens aparentam evidente constrangimento com o comportamento do dia anterior e estão preocupados em como reorganizar as suas vidas, seja encontrando algo ou alguém que desapareceu ou mesmo eliminando vestígios do que fizeram, os personagens (ou "o" personagem) de Bill Murray simplesmente continua a sua vida no meio do caos que está no seu entorno.
E você pensa: "Será que em algum momento ele vai acordar para a situação e perceber o que está acontecendo?" E ele curiosamente continua em seu sonambulismo existencial, seguindo um script mas não entendendo nada do que acontece.

É uma questão muito especifica, uma falta de noção do entorno que nos faz rir, e que Bill Murray transformou numa espécie de arte. Há algo de Buster Keaton nisto, e são poucos que sabem mostrar isto na tela. Talvez quem tenha melhor percebido issto foi Sophia Coppola (minha prima distante, acredite se quiser) com o filme Encontros e Desencontros (Lost in Translation).
Você imagina outro ator fazendo este filme?


3.4.13

Dívida Interna Pessoal - Sabe o que é?

 Quando convivemos com os outros, ou seja, o tempo todo (a não ser que você seja um eremita numa caverna isolada com conexão 3G ) convivemos com a Dívida Interna Pessoal delas e a nossa.

Ninguém é maduro o suficiente para resolver todos os problemas do passado. Muitas vezes temos de conviver com eles, e em muitas situações eles nos assombram.

Do ponto de vista que enxergo as coisas hoje chamo isto de Narrativas Ficcionais, um pouco influenciado por alguns Heideggerianos e o papo da Dasein Análise. O que são as Narrativas Ficcionais? Histórias que criamos gradativamente e se consolidam na nossa imaginação ou memória.

Somos felizes ou tristes, amargurados ou bem-resolvidos pela maneira com que observamos nossas Narrativas Ficcionais. Nos apegamos a determinados elementos do passado e construímos histórias, valores e referências para o mundo que vivemos hoje. Até aí normal, mas como o próprio nome diz, elas são ficções, não foram reais no momento em que vivemos e não são reais agora, mas são nossos parâmetros.

Tenho uma amiga muito querida que me disse uma vez sobre perdão: "Não procurei o perdão dos outros, procurei me perdoar". De certa maneira "se perdoar" é fazer as pazes com histórias que muitas vezes não digerimos no passado e que estão assombrando o nosso momento presente.

Quando não digerimos ou "reconstruímos" nossas histórias, elas se tornam nossa Dívida Pessoal Interna. Ficamos em débito conosco, devemos algo por termos evitado olhar para questões pessoais que deveriam em algum momento serem encaradas.

Infelizmente obrigamos as pessoas ao nosso redor a conviverem com estas questões, faz parte. Mas como elas são nossas histórias, e não necessariamente os outros vão entender. E daí podem surgir conflitos e mal entendidos.

Vale a pena reinventar nossas histórias do passado, sempre. Ela não são fixas, ela são dinâmicas, e nossas narrativas também podem ser. Se não fizermos isto, nossa dívida só aumenta.

2.4.13

Qual versão você prefere? Dave Brubeck, Trio Los Panchos ou Ray Conniff? Besame Mucho...

Uma das belezas da música é esta: Sempre dá para fazer uma nova versão, e outra, e outra.

Besame Mucho tem milhares de versões. Selecionei três para ouvir, gosto de todas. Ou, pensando melhor, três caras diferentes dentro de mim gostam de cada uma delas. Ouça! Música pode ser um sentido para a vida, na ausência das verdades.




Por que você deveria ler Religião para Ateus, do Alain de Botton

Caso você seja ateu, agnóstico, tenha fé mas não religião ou seja de uma corrente religiosa moderada ou que aceita a diversidade de credo, seria muito bom que você lesse o livro Religião para Ateus, do Alain de Botton.
Diferentemente do Richard Dawkins, que está numa cruzada contra a religião, Botton se propõe a analisar o que a Religião tem de bom. Não do ponto de vista de seus dogmas e crenças, mas sim nos milhares de anos de desenvolvimento de técnicas de propagação de ideias, organização e tudo o mais. Nisto os religiosos são imbatíveis.
Botton acredita que existem valores sociais que ateus e não-religiosos poderiam disseminar usando as mesmas técnicas que as religiões usam, e que não necessariamente entram em conflito com os princípios religiosos, mas organizam a maneira de disseminarmos questões que são relevantes para um grupo de pessoas sem a organização dos religiosos.
Um belo exemplo que ele deu na palestra na Sala São Paulo é um Templo do Amor. Por que não criar um templo dedicado ao amor, onde as pessoas pudessem frequentar e fosse um espaço para a reflexão e a vivência deste sentimento tão caro a todos?
Há outros inúmeros valores que os grupos nas Redes Sociais clamam, mas de maneira desorganizada. E as Redes Sociais não são Redes Sociais, a experiência de "rede" do Facebook é solitária, as estruturas coletivas ainda são embrionárias e orientadas para negócios.
A leitura de um livro como este ajudaria na reflexão sobre como pessoas não-religiosas podem se organizar em torno de questões que vivenciam e acreditam. Fica a dica.

27.3.13

Caro Coelho da Páscoa: Diga para seu chefe que não vou dar dinheiro para ele este ano

Querido Coelho da Páscoa da Indústria Brasileira que gosta de ganhar muito, muito dinheiro nas datas comemorativas,

Não vou comprar ovos este ano, e ponto. A partir de agora as pessoas ao meu redor vão ter de se acostumar que o mercado não define o que eu vou comprar, mas sim eu defino. Não quero mais entrar neste tipo de arapuca em nome de uma data religiosa.

Na época de Cristo coelho botava ovo? Cristo falou "Abençoado seja o ovo marrom que sai de dentro do coelho"?

O sentido simbólico da Páscoa é a Renovação, muito mais antigo que o cristianismo ou o judaísmo, herança pagã que celebra o final do Inverno e a entrada da Primavera. É o Florescer que se celebra, as plantas desabrocharem, a beleza cíclica da vida.

Apesar de ser a entrada do Outono no Brasil (diferente do hemisfério norte), a celebração da Renovação é um rito lindo, e vou comemorar com os queridos. Mas não vou pagar centenas de reais para isto. Mesmo sendo chocólatra. Cansei do abuso deste modelo do mercado brasileiro que mais parece um cartel do que livre concorrência. Os preços só sobem, e sabe por que? Porque todo mundo compra.

Pois eu não vou comprar. Simples assim. Vou é celebrar a renovação da vida, vou agradecer as coisas misteriosas que não compreendemos e a dádiva de estar vivo e compartilhar as coisas boas da vida. E isto dá para fazer sem entrar no jogo do mercado.

26.3.13

O Pastor Marcos Feliciano representa (sim) muita gente!

Esqueçamos a troca de cargos e a permissividade dos partidos. Esqueçamos também as questões de corrupção e abusos.
Todas as questões acima podem ser usadas para criticar qualquer político e partido do Brasil, portanto são genéricas e endêmicas.
Não é isto que está em questão.
O Pastor Marcos Feliciano está sendo julgado por assumir um cargo tradicionalmente oferecido para minorias e perseguidos políticos. Foi a fatia que o PSC obteve nas trocas de cargos dos jogos de poder.
(Também vejo como muitos uma contradição existencial do Pastor, ao depilar as sobrancelhas e alisar o cabelo pixaim, numa vaidade complexa e negação de sua identidade, seja lá qual for. Mas acho que esta contradição não se restringe a ele, mas sim a todas as mulheres que fazem chapinha, todos os caras que tomam anabolizantes, clareamento de dentes, Camaro amarelo, e por aí vai)

O que questiono é que a perseguição do Pastor tenha embutida uma postura preconceituosa em relação àquilo que ele representa: Sua classe e seu papel social.

Ele é definitivamente uma liderança emergente, no papel de Pastor, é uma celebridade em seu meio. Faz o que outras lideranças como Edir Macedo e muitos já fizeram. O púlpito é um canal de comunicação para disseminar sua mensagem, obter seguidores e consolidar seu grupo. Mas este grupo, quem é?

Óbvio que este grupo é uma elite que gerencia um grupo maior e obtém privilégios de seus seguidores. José Dirceu incitou a juventude socialista a sair nas ruas em defesa de sua honradez e inocência alegadas. A Marcha da Família por Deus foi uma resposta à Parada Gay, ambas gigantes e poderosas.

Aparentemente O Pastor Marcos Feliciano é um tradicionalista, quando defende valores como Tradição, Família e Propriedade, como Plínio Correia de Oliveira da TFP.

Se ele foi escolhido para o cargo pelo seu partido (Social e Cristão), imagino que o partido pretenda uma projeção potencial desta liderança para que consiga mais espaço no governo ou se candidatando a novos cargos públicos.

O atual Presidente da Comissão de Direitos Humanos representa sim muita gente: A grande massa de evangélicos saídos da periferia, de baixa escolaridade, que busca na comunidade religiosa um espaço social que perdeu ou que nunca teve. E que tem sim valores tradicionais e ambíguos, como a própria imagem do pastor.

O que as pessoas querem? Que eles voltem para o seu devido lugar? Qual é o lugar "destas pessoas"?
Não está na hora de aceitar que grupos democraticamente representados tenham espaço, algum espaço na gestão? Ou eles só podem participar em alguns lugares, e em outros não? Tem certeza que você pensa assim? A imagem da faxineira proibida de subir pelo elevador social vêm imediatamente na minha cabeça...

"Mas ele é retrógrado, preconceituoso, racista", alguns dizem. Eu não tenho nenhuma simpatia por ele, não conheço seu trabalho e não sou religioso, mas fica a pergunta:

Você ainda não tinha percebido que nosso mundo está deste jeito faz tempo? Foi só agora? Jura?

25.3.13

Você tem medo de andar a pé? Bem-vindo à Classe Média!

Tenho reparado como a Classe Média se desacostumou a andar por São Paulo. Acho que ela anda de carro faz tanto tempo que já não sabe o que é encontrar outras pessoas sem buzinar ou querer passar por cima.
Se dentro do carro a Classe Média parece poderosa, nas calçadas fica visível a sua fragilidade. Não olha poderosa, arrogante, mas com medo. Na verdade aparenta verdadeiro pânico de ter de encontrar com estranhos...

Curiosamente a Classe Média não aparenta este medo quando passeia no Shopping, parece estar bem à vontade, mesmo com a presença da nova classe, a emergente que é chamada de Nova Classe Média, mas que em nada se parece com a Velha Classe Média, apenas no desejo de consumo.
Ha um certo incômodo da Classe Média com o "Pessoal da Comunidade" frequentando aeroportos, Shoppings e destinos turísticos, mas como ela ainda se considera superior, enxerga esta presença mais como parasitária do que como ameaçadora. Nenhum pobre com dinheiro é ameaça, ele pode ser rotulado como "emergente"  e tornado digno de ironia, é um "povinho desqualificável" sob os olhos da Classe Média. A Marilena Chauí definiu bem o cenário neste vídeo, um pouco longo (23 minutos), mas que vale a pena.


Mas na rua a coisa muda. Como a Classe Média perdeu o convívio democrático com pessoas "diferentes", tudo se torna ameaça.

Quer fazer um teste? Vá na direção de um casal que anda pela rua que verá o pânico brilhar nos olhinhos deles. Basta isto.
Para mim é o reflexo da auto-exclusão consolidado em muitos anos de condomínios privados, escolas segmentadas por renda, clubes e tudo o mais que tem a palavra Exclusivo. Num primeiro momento o Exclusivo pareceu ser atraente e VIP. O resultado? a Classe Média tentou tanto ser Exclusiva que acabou se excluíndo do mundo ao seu redor.
Alienação é pouco.

18.3.13

Quer uma cidade melhor? Seja Corrupto!

Vi uma discussão muito interessante sobre os novos pontos de ônibus de SP num artigo de um urbanista. O uso de vidros seria inadequado, não precisaria ter trocado os antigos, mas sim melhorado, etc, etc. Aí tive uma ideia: Será que não seria melhor termos mais opções para resolver os problemas da cidade?
Não entro no mérito dos pontos de ônibus, pois não tenho conhecimento suficiente da situação, mas tá cheio de coisa sendo mal feita por aqui, faz tempo... Será que não é falta de opção de contratação?
Explico:
Hoje a cidade (e o país) chegou num grau de corrupção impressionante. Virou um problema endêmico. Pode entrar a pessoa mais honesta do planeta na prefeitura que a engrenagem vai rodar sozinha. Não vejo perspectiva de mudança para as próximas décadas a não ser na base da AK 47 (alô afegãos? alguém disponível?).
Empresários que prestam serviços para a cidade inevitavelmente vão trombar com uma situação de negociar uma caixinha, que de "caixinha" não tem nada, está mais para maleta. É coisa que vemos todo o dia, bem ao estilo do Mensalão Federal, tirando dinheiro público com objetivos privados.

Mas... se existissem mais empresas corruptas, mais profissionais qualificados que aceitem oferecer suborno para ganhar concorrências, que não se sentissem ofendidos com a corrupção, a quantidade de bons profissionais disponíveis neste grupo aumentaria, e teríamos mais chance de obtermos melhores serviços para a cidade. Fazendo com que os corruptos continuem ganhando a sua parte, por que eles não contratariam um profissional melhor? Ia pegar bem para eles, e na hora do leilão da caixinha os corruptos precisariam levar em conta também alguns aspectos, analisando projetos semelhantes que oferecessem o mesmo valor dentro da mala...

Se você é um bom profissional e quer ver sua cidade se tornar melhor, será que não está na hora de aceitar a corrupção e deixar de pudores éticos? Enquanto você continuar a não dar dinheiro para a máquina os serviços vão ser feitos pelos mesmos caras de sempre. O que a engrenagem pede não é novas ideias, ela só precisa da graxa para rodar, ou melhor, da grana. No fundo, são seus pudores que fazem com que SP não continue a crescer. Pense nisto!


11.3.13

Sobre os Monstros e o Julgamento de Cima do Banquinho

Domingo foi um dia em que a Monstruosidade reapareceu. Nem sempre ela aparece, não são todos os dias que convivemos com ela, mas de vez em quando ela ressurge.
Desta vez foi na forma de um atropelamento na Avenida Paulista. São Paulo vive um pseudo-encanto com o ciclismo, todos querem andar de bibicleta, as longas ciclovias levam alegremente a classe média até a cracolândia, onde famílias felizes se "apropriam" do centro velho passeando de bike rodeadas de nóias e moradores de rua.

No domingo de madrugada um jovem de classe média (provavelmente voltando da balada e alcoolizado) atropelou um jovem de classe baixa que ia pela ciclovia trabalhar. Não vou entrar em detalhes, mas se quiser saber tudo clique aqui.

Esta colisão de mundos gerou uma situação chocante: Um jovem de classe média se torna um monstro, capaz de fazer coisas inimagináveis, deixa de ser humano, (alguém que era como "nós") e numa sequência de ações surpreendentes passa a ser uma aberração.

Para mim é um caso de descontrole, total falta de condição de saber o que seria o certo e o errado. Foi isto que levou o motorista a fazer o que fez. Ninguém está preparado para uma situação destas, e ele entrou numa espiral que o levou a agir assim.

Mas isto não é o que a maioria das pessoas pensa. Quando elas vão julgar os atos dos outros sobem num pequeno banquinho, e de lá fazem seus discursos do que é certo e errado, sempre do ponto de vista "ideal". E hoje as redes sociais são recheadas de pequenas pessoas em cima de pequenos banquinhos, olhando de um ponto de vista perfeito e julgando os outros. O universo opinativo parece adquirir força com o distanciamento que o virtual têm na sua essência.

Vá falar nas redes sociais alguma coisa em defesa deste motorista e perceberá a fúria das pessoas em seus banquinhos. Apesar de nenhuma delas ter conhecido ninguém que passou por algo semelhante, e nem elas terem passado por algo parecido, todas têm certeza que agiriam perfeitamente naquela situação: Parariam para socorrer uma pessoa destroçada (por elas), pegaria os pedaços desta pessoa no meio de uma poça de sangue escuro e espesso, colocariam dentro do carro, esperariam a polícia chegar no hospital, estenderiam as mãos e diriam: "Seu guarda, eu pequei! Fiz o mal para este desconhecido, estava alcoolizado. Me leve para uma cela junto do pessoal do PCC, junto de matadores e estupradores por alguns anos pois mereço a punição. Estou em pleno juízo, apesar de bêbado e de ter destruído a vida de uma pessoa meia hora atrás..."

Parece que quando a gente sobe no banquinho, ao invés de ficarmos maiores, ficamos menores, perdemos nossa humanidade e esquecemos que Monstruosidades podem acontecer também com a gente, e não acontecem só com os outros...


6.3.13

Em busca de uma compreensão do pensamento feminino

Uma pequena história de como pode ser complexo para um homem entender o pensamento de uma mulher. Uma vez fui levar minha filha ao cabeleireiro, e um dos caras que cortava o cabelo tinha os braços bem musculosos. Minha filha olhou e me perguntou: "Pai, se você faz tanta ginástica por que seu braço não tem as veias saltadas que nem a deste cara?"
Olhei para o meu braço e me senti meio murcho, nada Rambo... Tudo bem, faz parte da vida.
Aí resolvi pegar mais pesado nos treinos, aumentei os pesos, fiz mais academia, e um dia as veias do meu braço começaram a saltar.
Quando encontrei com minha filha a primeira coisa que fiz foi comentar: "Olha, as veias do meu braço estão saltando".
Na mesma hora minha filha disse: "Ai pai, acho horrível braço com veia saltada..."

Vai entender, né?

4.3.13

O Taxista Motivacional

Já tinha visto muito Consultor Motivacional, mas Taxista foi a primeira vez.
Entrei no Táxi e comecei a bater papo, como faço sempre. Fui puxando assunto e o taxista começou a falar que a empresa dele tinha falido, que a mulher tinha ido embora, só história ruim. E ele comparava a mulher a um personagem de novela, a Carminha. "Sabe a Carminha? (eu não sabia, mas tudo bem) Minha ex-mulher é igual a Carminha. Minha vida está um inferno". E só reclamava.
Tentei amenizar a situação, fazer com que o figura não ficasse tão triste com suas histórias. Aí ele me contou que dava para cada passageiro um papel. Ele tinha três, um para cada tipo de passageiro.

Meu dia tinha sido bom, depois de uma série de problemas no começo do ano, eu estava um pouco mais "de bem" comigo mesmo. As coisas estavam começando a entrar no eixo, e estava bastante motivado. Tanto que tentava motivar o pobre Taxista, que só contabilizava negativamente os últimos acontecimentos de sua vida.

Aí ele me perguntou sobre a minha vida. Contei que tinha passado por umas situações difíceis nos últimos tempos, mas que estava numa fase ascendente. E ele olhou para mim e disse: "Nossa, você está numa situação complicada, hein?" E eu disse que não, que as nuvens já estavam saindo do céu, e o sol estava voltando a iluminar. E ele insistiu: "Sua vida é difícil".

Quando chegamos, fui descer do táxi mas ele não deixou. Me lembrou do papel que iria me dar. E disse que tinha três papéis diferentes. Um para as pessoas que conversavam com ele, batiam papo e eram receptivas. O segundo era para pessoas meio desanimadas, mas com um fundo de esperança no tom da voz. E o terceiro era para pessoas quietas, pouco receptivas, mal-humoradas e baixo astral.
"Qual papel você acha que vai receber?", ele disse.

Como me parece que estou bem, e estava particularmente bem-humorado, disse que achava que ia receber o primeiro.

"Errou! Você vai receber o terceiro. Está muito desanimado e precisa sair desta sua situação. Precisa ser mais bem-humorado e levar a vida de uma maneira mais leve".

Tirou um folheto do bolso e me entregou. Eu recebi a mensagem e saí do táxi.

E fiquei pensando: Como as pessoas projetam na gente seu estado de humor... Minha lição naquele dia foi que tem muita gente que parece querer nos ajudar, mas a maioria está tentando ajudar a si mesmo, mas não sabe disto.


28.2.13

Desencanto não é Autopiedade. Ou é?

Não há uma definição clara para o que chamamos de Depressão. O debate clínico sobre o assunto é extenso, e é comum usarmos o termo como sinônimo de "tristeza", o que não é adequado.
Prefiro chamar a Depressão de Desencanto. É um sentimento mais global, menos pontual que a tristeza.
Acho que o Desencanto está um pouco relacionado com um pensamento de Baudrillard, que dizia que nossa sociedade adquiriu velocidade e perdeu o sentido, de tal maneira que temos muita pressa, mas não sabemos para onde ir. É um mal do mundo que nos cerca, e somos contaminados por isto. E também contaminamos o mundo, num processo cíclico.

E a Autopiedade? O que é? Na minha modesta opinião a Autopiedade é um problema de ego, que se manifesta das mais variadas formas, mas a que mais me chama a atenção é a do Apego. A Autopiedade é um afeto que temos por nossas fragilidades, é a vontade de chamar a atenção através de nossos sentimentos infantis. Um dos sentimentos mais simples e freudianos que existe. É, simultaneamente o Mimimi nas Redes Sociais e o choro que a criança aprende a fazer para chamar a atenção dos pais.

Existem muitos desencantos que acontecem e acontecerão em nossas vidas. Num momento algo parece fazer sentido, em outro já não faz mais. O que gera um estranhamento físico, pois algo foi hipertrofiado dentro de sua mente e agora você não consegue entender a razão dele ter diminuído, e muitas vezes nem consegue entender a razão dele ter inchado tanto. Nem consegue trabalhar com o vazio: Devo substituir, diminuir ou aceitar que o vazio está lá?

A Autopiedade é uma armadilha do ego. O Desencanto é da natureza humana.



21.2.13

Ai Weiwei no Brasil

Até abril poderemos ver um pouco da obra do artista chinês Ai Weiwei no MIS, em SP.
Para quem nunca ouviu falar, Weiwei é um dos artistas críticos ao regime da China. Mas seu trabalho não se restringe ao (duríssimo) papel de criticar o governo chinês vivendo na China. 
Se você não vai a um certo tempo ver exposições, é um bom momento para tirar a poeira da mente e aproveitar esta oportunidade rara de ver as fotos que retratam um pouco o cotidiano do artista que ainda está impedido de sair do país e que de vez em quando dá uma sumida ou dão uma sumida com ele...



20.2.13

O fantasma do aeroporto

Quando ele estendeu a mão minha reação foi automática: nos cumprimentamos e fiquei com aquele olhar de "de onde nos conhecemos mesmo"?
Era um senhor de meia idade, poderia entrar numa fila de terceira idade pelas rugas e olhar cansado. Não estava mal vestido, mas sua roupa tinha traços de também estar próxima da aposentadoria.
Eu estava jogando o tempo fora, coisa que não sei fazer direito, mas o aeroporto nos obriga a isto. De certa maneira estou precisando treinar ficar sem fazer nada. O excesso de preocupação faz com que a gente deixe de se colocar num estado de ócio, parece que poderíamos estar fazendo algo de produtivo ao invés de estarmos inertes, improdutivos. A conclusão é que quando não fazemos algo acabamos nos sentindo culpados. E ninguém relaxa com a culpa corroendo o coração.

Sou um bom decifrador de expressões, a vida me fez assim, ou assim fiz a vida. O olhar dele me passava uma impressão ambígua, de um lado um certo orgulho e certeza. Seus gestos eram claros e precisos, não havia suplica, parecia um discurso seguro, de homem experiente.
Mas por outro lado algo não ornava.
Ele me dizia que tinha de viajar para ver o filho, que era antigo funcionário do setor de aviação e que tinha sido demitido com a reestruturação do setor. Agora, precisava visitar o filho, mas precisava inteirar a viagem com uma ou duas centenas de reais, e por isto pedia minha ajuda.
Curiosamente, a última coisa que ele aparentava era estar pedindo alguma coisa. Nem parecia pedir atenção, estava num percurso, numa performance para si mesmo.
A história toda era furada, mas não seria isto que não me faria ajudar. O que gerava o estranhamento era uma sensação de que ele realmente não queria o dinheiro, ou melhor, ele não queria gerar empatia.

Talvez ele tivesse sido um gerente de baixo escalão, mais para "chefe" que para líder. Talvez fosse daqueles pais que chegam em casa em silêncio, depois do longo dia de trabalho e ficam numa poltrona ruminando ou lendo o jornal.
Quem sabe ele fosse uma daquelas pessoas que explodem, emocionalmente instáveis, que acham que os outros são obrigados a aguentar tudo, por ela ser importante demais ou por eles serem importantes de menos.

Olhei firmemente nos seus olhos e sem a mínima emoção disse que não poderia ajudar. Que desejava boa sorte, e esperava que ele tivesse sucesso no que procurava.

Ele continuou a olhar para mim, sem se mexer, olhos parados.

 Típicamente judeu, ele disse. Agem como se fossem ajudar, mas no final não ajudam. Postura de judeus.

Se eu não saísse andando depois de um tempo ficaríamos ali por toda a eternidade.

Voltei para a livraria alguns minutos depois, e ele tinha ido embora. Voltei porque achei que realmente poderia ajudar. Pensei em conversar com ele sobre alguns furos na sua abordagem. Podia oferecer uma visão amoral de fora que o ajudaria a conseguir abordar pessoas e gerar mais empatia. Mas ele não estava lá.
Ao andar pelos corredores ouvi sua voz, e ele estava se aproximando de um grupo de pessoas ao lado do banheiro. Parei do lado de uma coluna para analisar sua estratégia. Foi quando percebi que não havia uma estratégia, muito menos um objetivo.
Ele não queria obter dinheiro contando uma triste história, ou se queria no meio do caminho desqueria. Em poucos segundos estava gritando com todos ao seu redor. O Brasil era assim, cheio de gente que não prestava, gritava.
Foi aí que percebi que estava diante de um fantasma, que perdera toda a complexidade humana, mas adquirira todas as matizes da amargura e do rancor, típicas da tristeza que sentimos nos tropeços da vida.

Como no conto de Natal americano, eu me senti diante do meu próprio futuro, talvez cheio de mágoa e rancor. Meu perigoso futuro estava querendo pegar o avião comigo. E ele estranhamente havia se encontrado com o meu presente desprovido de emoção, que acha que cada um carrega seus fardos, e que os fardos dos outros não tem nada a ver comigo.
Se meu fantasma do futuro tivesse se encontrado com o meu eu do presente, aquele que saiu correndo em direção dele querendo ajudar, o que teria acontecido? As duas energias, do presente e do futuro, se anulariam ou se alimentariam?
Devemos aceitar que todos os sentimentos viajem com a gente no mesmo avião ou simplesmente devemos deixar alguns deles para fora de nossa viagem?

Naquele dia resolvi não deixar que a mágoa e o ressentimento viajassem comigo. Espero tomar esta decisão sempre.

17.1.13

Misterioso Símbolo no Centro de SP

Não sou grande conhecedor de símbolos de seitas e coisas do gênero, mas sei reconhecer uma coisa estranha quando vejo.

Estava indo fazer ginástica quando reparei num tijolo totalmente diferente numa mureta da árvore, cimentado no chão, com uma imagem de um tipo de corvo. Quando vi melhor parecia feito de madeira, mas foi cimentado embaixo dos tijolos, não faz sentido nenhum estar lá.

Alguém sabe dizer o que significa esta imagem? Quem poderia ter colocado isto?
Abaixo um vídeo que fiz para mostrar onde está, em detalhes.


15.1.13

Por que gente velha gosta de lembrar do passado?

Não há tempo que não seja dinâmico. Passado, Presente e Futuro não são estáticos, eles dependem de como percebemos estes momentos. Cada vez que revemos algum evento vivido fazemos leves alterações na percepção dele. O que parecia um fato triste é interpretado como algo bom hoje, e talvez no futuro seja considerado um evento ruim novamente, mas por outras razões.
A mesma coisa pode acontecer em tempo real: Uma situação que está sendo vivida pode ser percebida de várias maneiras, e esta percepção pode mudar em fração de segundos, dependendo de como você se sente em relação a ela. Mudou a emoção e/ou o contexto a percepção muda.
Nossos projetos e expectativas em relação ao futuro? A mesma coisa. Só que estamos mais acostumados a enxergar o futuro de uma maneira incerta e cheia de possibilidades.

Menos as pessoas velhas. Estas sabem que há poucas incertezas no futuro delas, ele passa a ser cada vez mais concreto com a proximidade da morte. Talvez por isto o mistério do "pós-morte" vendido pelas religiões seja tão sedutor quando envelhecemos. Parece nos dar uma sobrevida na dúvida perante o futuro. Certezas absolutas, em especial a da morte, não são muito bem-vindas para ninguém.

Podemos transformar nosso passado numa especie de playground existencial. Como tudo de certa maneira pode ser transformado, podemos definir  que nossas experiências do Passado foram todas positivas de alguma maneira, para construir aquilo que somos hoje, e o poder de sedução desta miragem transforma nossa maneira de enxergar o Presente e mesmo o Futuro.

Se para os jovens a miragem do Futuro (infinito, poderoso e cheio de surpresas, mas só as boas) leva a uma percepção de que tudo será bom e que o fim está longe, não precisamos nos preocupar com isto, para os velhos a miragem está justamente no Passado, ou em alguma religião que permita que o Futuro seja infinito, como quando somos jovens.